Serra da Estrela - Manteigas

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CONTOS e LENDAS da minha STerra - Manteigas e da SERRA da ESTRELA

A LENDA do PASTOR da SERRA DA ESTRELA

por GENTIL MARQUES 1

A LENDA DO PASTOR DA SERRA DA ESTRELA

A LENDA DA SERRA DA ESTRELA

A (minha) verdadeira Lenda do PASTOR DA SERRA DA ESTRELA,
contada no ano de 2000 metros de Altitude...
(Texto denso e longo - vai aparecer noutra PÁGINA desta minha TEIA na REDE, quando a foto a seguir estiver ligada.)

5 LENDAS - UMA LENDA

por GENTIL MARQUES 1

A LENDA DO PASTOR DA SERRA DA ESTRELA

A LENDA DA SERRA DA ESTRELA

In: LENDAS DA NOSSA TERRA, de Gentil Marques, Editorial Lavores, Avenida da Igreja, 15A e 15B, Lisboa, Maio de 1955

ESTA É uma história simples e ingénua como a própria alma do povo. Uma história em que os verdadeiros protagonistas são apenas, um pastor e uma estrela. Perde-se a sua tradição na poeira do tempo, contada e recontada de geração em geração. Talvez par isso, fica bem aqui - a propósito do simbolismo humano e poético que se contem na essência lendária - lembrar o belo soneto de Eugénio de Castro que apropriadamente intitulou: "O Conselho da Estrela":

Antes de me deitar, fecho a janela
Habituado a dormir sempre às escuras.
Mas ao fechá-la, diz-me das alturas
Uma doirada e pequenina estrela:

? Vais dormir com uma noite assim tão bela?
Pois não vês como nós brilhamos puras?
Terás na morte a treva que procuras
E tanta... que hás-de aborrecer-te dela!

Se é de lágrimas só o teu fadário
Dorme para esquecer... mas de contrário
Vela e mira-nos bem com os olhos ternos.

Dormir o que é, senão morrer um pouco?
Vive! Aproveita a vida, pobre louco!
Olha que em breve deixarás de ver-nos!

O que vamos contar, é precisamente a história de um homem, que ouviu, um dia, a sua estrela! Era um pobre pastor! Vivia numa aldeia triste e tinha como seu único amigo o seu cão fiel. Mas o homem era novo e tinha esperanças. Às vezes, fitava os horizontes e perguntava-se a si próprio:
? Porque razão não poderei atravessar aquelas serras? Ir ver o mundo que fica do outro lado? Ah! Hei-de ir um dia! Hei-de ir! Isto aqui é pequeno para mim... E aquelas serras são tão grandes e tão altas!...Oh! Que haverá para além das montanhas?
Ora aconteceu, segundo conta a lenda, que, certa noite, o pastor enamorado do luar e da aragem fresca que corria de mansinho, nem sequer pensou em deitar-se. Ficou-se ali, sentado, sonhando de olhos abertos... E, a determinada altura - fosse realidade ou sonho - ... teve a nítida impressão de que uma pequenina estrela descia até ele. Nessa estrela havia um rosto de criança. E a estrela falou-lhe, numa voz meiga e infantil:
? Pastor! É verdade que desejas ir conhecer o Mudo? Não tens medo do desconhecido?

O homem estremeceu surpreendido:
- Meu Deus! Pois será possível que as estrelas tenham voz?
A vozinha meiga e infantil fez-se ouvir de novo:
- Sim... sou eu que te falo... mas foi Deus que me enviou para te guiar! Quando quiseres... poderemos partir!
Uma alegria imensa tomou de assalto o jovem pastor:
- Partir?! Disseste que poderíamos partir? Oh... quem me dera, realmente, deixar tudo e correr aventuras, descobrindo novas terras!... Quem me dera!...
O pastor ficou-se estático, ouvindo o seu próprio desejo, mas a vozinha da estrela brilhante que descera do Alto, interrompeu-lhe o êxtase, lembrando-lhe com vivacidade:
- Meu bom amigo! Já te disse que tudo depende apenas da tua vontade! Quando estiveres disposto a partir basta que chames por mim.! Eu ficarei à tua espera, lá em cima... junto das minhas irmãs. Adeus, pastor!
E, correndo, ligeira, foi juntar-se às outras estrelas!
O pastor Seguiu-a com o olhar. Mal podia acreditar no que via e ouvia. Porém, a verdade, é que a estrelinha brilhante não mais abandonou aquele local.
Surpreendido , mal podendo acreditar, o pastor todas as noites a via, mais luminosa do que as outras, parecendo até sorrir-lhe. E ele acabou por se resolver à grande aventura.
Certa noite, em que o luar não tinha ainda chegado, o pastor olhou o céu e falou assim:
- Oh, minha pequena estrela! Tenha sido loucura ou verdade, eu ouvi a tua voz! Pois estou decidido! Que se faça a vontade do Senhor!... Irei à aventura até alcançar aquela grande Serra que vejo além... a maior de todas! Oh, minha boa estrela! Desce do céu e vem para me guiares!
Então o pastor ouviu uma espécie de estranha melodia descendo sobre ele e quando tal melodia chegou à terra, de novo o pastor escutou aquela vozita cheia de ternura que já tanto o encantava:
- Aqui estou! Sabes que cheguei a pensar que não acreditavas em mim? Mas ainda bem que te resolveste!
- Então... a caminho... seguir-te-ei para onde tu quiseres!
E, assim dizendo, o pastor dispunha-se já a dar início à jornada, quando um obstáculo surgiu. O cão, fiel companheiro do pastor, sentiu, decerto, uma presença estranha junto dele. Era a estrela! E o cão ladrou na noite escura, pondo em sobressalto toda a aldeia!
Aflito pela irreverência, o pastor apressou-se a impor-lhe silêncio:
- Quieto! Quieto... aqui! Para que ladras tu? A estrela é nossa amiga... Vai levar-nos àquela serra. Vês? Vamos, acalma-te! Ninguém te faz mal!...
Aos poucos, o cão acalmou e seguiu, então, mansamente o seu dono pelos caminhos do desconhecido.

Na aldeia, os velhos ficaram abanando as sábias cabeças! Era um louco o que partia! Fora dali, só poderia encontrar a fome, a miséria e a morte!
De facto, eles quase tinham razão. Durante tempos e tempos, o pastor andou como que ao acaso sem alcançar o seu destino. Foi uma caminhada longa e dura. O alto da serra ficava sempre mais além e o caminho que parecia curto, tornava-se inacessível. Eram voltas e voltas sem conto. Eram dias e meses passando como fantasmas, sem que o pastor alcançasse o almejado cimo da serra.
O cão, seu fiel companheiro, não conseguiu aguentar a jornada. Ficou no caminho, marcado por tosco sinal de pedra. O pastor, antes de o abandonar, olhou a terra fria enquanto algumas quentes lágrimas tentavam aquecê-la:
- Deixo-te aqui... tu que foste o meu fiel e único amigo! Onde me levarão os meus passos? Não sei! Conseguirei eu alcançar aquela serra? Só Deus sabe! Adeus, meu amigo! O Teu destino parou. O meu tem de continuar!...
- E silenciosamente, seguiu rumo ao alto da serra, o pastor que um dia sonhara abraçar de lá todo o horizonte!...

Muitos anos passaram. O pastor envelheceu e a própria estrela, também, segundo nos conta a lenda!
Porém, um dia - esse dia havia de chegar! - o pastor pôs o pé no alto da serra! A alegria que sentiu foi quase de loucura. Olhava em redor o vasto e belo horizonte e a cabeça parecia estalar-lhe. Chorava e ria ao mesmo tempo. Gritava por entre o vento o seu hino de louvor
- Bendito seja Deus! Bendita sejas tu, minha boa estrela!... Chegámos!...

E o vento, rodeando as palavras do velho tão cheias de sinceridade, resolveu subir com elas, cheio de cuidado não fosse perder-se alguma, até lá onde os pés do homem não podem chegar!
Ouvindo-o, a estrela sorriu-lhe:
- Meu bom pastor! Passaste, na verdade, muitos tormentos... envelhecemos ambos... mas Deus fez-te a vontade!
Então. dominando o espaço, a voz do pastor soou potente e convicta:
- Aqui ficarei para sempre na tua companhia. Para sempre!
E o pastor instalou-se ali, mergulhando, deliciado, o seu olhar na amplitude vasta do horizonte.

Ora aconteceu que o rei daquelas redondezas ouviu falar num célebre pastor, que habitava no alto da serra e que possuía uma estrela única no mundo, com quem falava todas as noites. Sem hesitar mandou emissários para que o trouxessem à sua presença.
Quando o velho pastor, um tanto surpreendido chegou ao palácio do rei, este elucidou-o sobre o seu intento:
- Ouve, pobre velho! Dar-te-ei todas as riquezas que quiseres... farei de ti um homem poderoso para o resto da vida! Em troca, quero apenas que me dês a tua estrela!
O velho pastor olhou o rei com desespero:
- Pedis o impossível, senhor! A estrela não é minha, é do céu!
Furioso, o rei gritou-lhe:
- Que importa? Eu sei que ela faz o que tu ordenas... se tu quiseres ela será minha!
Com uma dignidade que assombrou o monarca. o velho pastor replicou:
- Senhor! Prefiro continuar pobre, desprezado, mas sempre com a minha estrela!
E no mesmo assomo de energia, o velho pastor voltou as costas ao rei poderoso e abalou., de novo, a caminho da serra!
Quando lá chegou, a noite já ia alta. Ele atirou-se para cima da enxerga e mordiscou uma côdea de pão negro. Então, a tal estranha melodia já muito sua conhecida desceu do alto e veio sussurrar-lhe aos ouvidos:
- Ainda bem que as riquezas não te tentaram... Ficaria mais triste! Deixei-te passar miséria para te expor ainda mais à tentação mas confesso que receei muito! O rei ofereceu-te verdadeiros tesouros...
Erguendo-se da enxerga para onde o cansaço do corpo o tinha atirado, o velho respondeu com lágrimas na voz:
- Ouve, minha boa estrela! Já perdi a conta dos anos. Nem sei desde quando nos conhecemos! Mas quero que fiques sabendo que não poderei viver sem ti, sem a tua luz, sem o teu brilho, sem a tua presença!...
A estrela explicou-lhe num sussurro, fazendo amainar o vento que corria célere...
- Pois quando morreres, meu bom pastor... podes morrer descansado! Eu aqui te prometo que jamais te abandonarei!
Num êxtase, o pastor encarou a sua estrela. O seu brilho intenso salpicava-lhe os cabelos encanecidos e o velho numa voz de profeta proclamou do alto das montanhas:
- Eu te agradeço o que fizeste por mim! De hoje em diante esta serra há-de chamar-se para sempre - a Serro da Estrela!
E diz finalmente a lenda que no alto da serra existe sempre; todas as noites, entre as suas irmãs, uma estrela que brilha ainda hoje duma maneira estranha e diferente. Ela possui um brilho que derrama reflexos de saudade e amor sobre a campa desconhecida daquele que foi e continuará a ser o seu Pastor!

Poe seguir para a 3ª Versão da LENDA

ou, se preferir, ir já para a mais extensa...

A Lenda do PASTOR da Serra da Estrela (completa)

 

(em eBOOK, em breve nesta PÁGINA da minha TEIA na REDE)

 

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