|
por
Gentil Marques (2ª versão)
A
LENDA DO PASTOR DA SERRA DA ESTRELA
A (minha) verdadeira
Lenda do Pastor da Serra da Estrela,
contada no ano de 2000
metros de Altitude...
(Texto denso e longo - vai
aparecer noutra PÁGINA desta minha TEIA na REDE, quando a foto a
seguir estiver ligada.)

5 LENDAS - UMA
LENDA
por
Gentil Marques (2ª versão)
A
LENDA DO PASTOR DA SERRA DA ESTRELA
In:
LENDAS DE PORTUGAL - IV Volume - LENDAS RELIGIOSAS, de Gentil
Marques, Editorial Universus, Porto, 1965.
SIM, o que vamos contar é precisamente a história
dum homem que ouviu, um dia, a sua estrela! (1) Era um pobre pastor.
(2) Vivia numa aldeia triste e tinha como único amigo o seu
cão. (3) Mas o homem era novo e tinha esperanças.
Às vezes, fitava os horizontes e perguntava a si próprio:
- Porque razão não poderei atravessar aquelas serras?...
Ir ver o mundo que fica do outro lado? .Ah! Hei-de ir um dia...
hei-de ir! Isto aqui é pequeno para mim e aquelas serras
são tão grandes... tão altas!... Que haverá
para além das montanhas?...
Ora
aconteceu, segundo conta a lenda, que certa noite o pastor, enamorado
do luar (4) e da aragem fresca que corria de mansinho, nem sequer
pensou em deitar-se. Ficou-se para ali, sentado, sonhando de olhos
abertos... E, a determinada altura - fosse realidade ou sonho -
teve a nítida impressão de que uma pequenina estrela
descia até ele. Nessa estrela havia um rosto de criança.
E a estrela falou-lhe, numa voz meiga e infantil:
-
Pastor! É verdade que desejas ir conhecer o mundo? Não
tens medo do desconhecido?
Surpreendido. o homem estremeceu.
- Meu Deus! Pois será possível que as .estrelas tenham
voz?
A vozinha meiga e 'infantil fez-se ouvir de novo:
- Sim, sou eu que te falo.... Mas foi Deus que me enviou para te
guiar! Quando quiseres, poderemos partir!
Uma alegria imensa tomou de assalto o jovem pastor.
- Partir?! Disseste que podemos partir?... Ah! Quem me dera, realmente,
deixar tudo isto e correr aventuras, descobrir novas terras!...
Quem me dera!...O pastor ficou-se extático, ouvindo o seu
próprio desejo, mas a vozinha da estrela brilhante que descera
do Alto interrompeu-lhe o êxtase. Lembrando-lhe com vivacidade:
- Meu bom amigo! Já te disse que tudo depende apenas da tua
vontade. Quando estiveres disposto a partir, basta que chames por
mim. Eu ficarei à tua espera, lá em cima... junto
das minhas irmãs. Adeus, pastor!
E correndo, ligeira, a estrelinha foi juntar se às outras
estrelas.
O pastor seguia a com o olhar. Mal podia acreditar no que vira e
ouvira. A verdade, porém, é que a estrelinha brilhante
não mais o abandonou. O pastor todas as noites a via, mais
luminosa do que as outras, parecendo até sorrir-lhe. E ele
acabou por se resolver à grande aventura.
Uma
noite em que o luar não tinha ainda chegado, o pastor olhou
o céu e falou assim:
- Oh, minha pequenina estrela! Fosse loucura ou verdade, eu ouvi
a tua voz. Pois estou decidido! Que se faça a vontade do
Senhor!... Irei à aventura até alcançar aquela
grande serra que vejo além, (5) a maior de todas! Oh, minha
boa estrela! Desce do céu e vem para me guiares!...
Então o pastor ouviu uma espécie de estranha melodia
descendo sobre ele. E de novo o pastor escutou aquela vozita cheia
de ternura que já ouvira uma vez:
- Aqui estou! Sabes que cheguei a pensar que não acreditavas
em mim? Mas ainda bem que te resolveste!
- Então a caminho! Seguir-te-ei para onde tu quiseres!
E, assim dizendo, o pastor dispunha-se já a dar início
à sua jornada, quando um obstáculo surgiu. O cão,
fiel companheiro do pastor, sentiu decerto uma presença estranha
junto dele. Era a estrela! E o cão ladrou na noite escura,
pondo em sobressalto toda a aldeia!
Aflito com tamanha irreverência, o pastor apressou se a impor-lhe
silêncio:
- Quieto! Quieto... aqui! Para que ladras tu? A estrela é
nossa amiga... Vai levar-nos àquela serra. Vês? Vamos,
acalma-te! Ninguém te faz mal!...
Aos poucos, o cão acalmou, e seguiu mansamente o seu dono
pelos caminhos do desconhecido.
Na aldeia, os velhos ficaram abanando as sábias cabeças.
Era um louco que partia! Fora dali, só poderia encontrar
a fome, a miséria e a morte!
De facto, eles quase tinham razão. Durante tempos e tempos
o pastor andou como que ao acaso, sem alcançar o seu destino.
(6) Foi uma caminhada longa e dura. O alto da serra ficava sempre
mais além, e o caminho, que julgara curto, parecia não
ter fim. Eram voltas e voltas sem conto. Eram dias e meses passando
como fantasmas, sem que o pastor alcançasse o almejado cimo
da serra.
O cão, seu fiel companheiro, não conseguiu aguentar
a jornada. Ficou no caminho, marcado por tosco sinal de pedra. O
pastor, antes de o abandonar, olhou a terra fria, enquanto algumas
quentes lágrimas tentavam aquecê-la, e disse:
- Deixo-te aqui... Tu foste o meu fiel e único amigo! Onde
me levarão os meus passos? Não sei! Conseguirei eu
alcançar aquela serra? Só Deus o sabe! Adeus, meu
amigo! O teu destino parou. O meu tem de continuar!...
E silenciosamente seguiu rumo ao alto da serra, o pastor que um
dia sonhara abraçar de lá todo o horizonte.
Muitos
anos passaram. O pastor envelheceu - e a própria estrela
também, segundo nos conta a lenda...
Porém, um dia - esse dia havia de chegar! - o pastor pôs
o pé no alto da serra! A alegria que sentiu foi quase de
loucura. Olhava em redor o vasto e belo horizonte, e a cabeça
parecia estalar-lhe. Chorava e ria ao mesmo tempo. Gritava por entre
o vento o seu hino de louvor:
- Bendito seja Deus! (7) Bendita sejas tu, minha boa estrela!...
Chegámos!...
E o vento, rodeando as palavras do velho, resolveu subir com elas,
cheio de cuidado, não fosse perder-se alguma, até
lá onde os pés do homem não podem chegar...
Ouvindo-o, a estrela sorriu-lhe e disse:
- Meu bom pastor! Passaste, na verdade, muitos tormentos... Envelhecemos
ambos... Mas Deus fez-te a vontade!
Então, dominando o espaço, a voz do pastor soou potente
e convicta:
- Aqui ficarei para sempre na tua companhia! Para sempre! E o pastor
instalou-se ali, mergulhando, deliciado, o seu olhar na amplitude
vasta do horizonte.
Então
aconteceu que o rei daquelas redondezas ouviu falar num pastor que
habitava no alto da serra e que possuía uma estrela única
no mundo com quem falava todas as noites. Sem hesitar, mandou emissários
para que o trouxessem à sua presença. Quando o velho
pastor, um tanto surpreendido, chegou ao palácio do rei,
este elucidou-o sobre o seu intento:
- Ouve, pobre velho! Dar-te-ei todas as riquezas que quiseres...
farei de ti um homem poderoso para o resto da vida! Em troca, quero
apenas que me dês a tua estrela!
O velho pastor olhou o rei com desespero.
- Pedis o impossível, Senhor! A estrela não é
minha, é do Céu!
Furioso. o rei gritou lhe:
- Que importa? Eu sei que ela faz o que tu ordenas... Se tu quiseres,
ela será minha!
Com uma dignidade que assombrou o monarca, o velho pastor replicou:
- Senhor, prefiro continuar pobre, desprezado, mas sempre com a
minha estrela!
E no mesmo assomo de energia, o velho pastor voltou as costas ao
rei poderoso, e abalou de novo a caminho da serra. Quando lá
chegou, a noite ia já alta. Ele atirou-se para cima da enxerga
e mordiscou uma côdea de pão negro. (8) Então,
a tal estranha melodia já muito sua conhecida desceu do alto
e veio sussurrar-lhe aos ouvidos:
- Ainda bem que as riquezas não te tentaram! Ficaria tão
triste! Deixei-te passar misérias para te expor ainda mais
à tentação, mas confesso que receei muito!
O rei ofereceu-te verdadeiros tesouros...
Erguendo-se da enxerga para onde o cansaço do corpo o tinha
atirado, o velho respondeu com lágrimas na voz:
- Ouve, minha boa estrela! Já perdi a conta dos anos. Nem
sei desde quando nos conhecemos... Mas quero que fiques sabendo
que não poderei viver sem ti, sem a tua luz, sem o teu brilho,
sem a tua presença!...
A estrela explicou lhe. num sussurro, fazendo amainar o vento que
corria célere:
- Pois quando morreres, meu bom pastor, podes morrer descansado!
Eu aqui te prometo que jamais te abandonarei!
Num êxtase, o pastor encarou a sua estrela. O seu brilho intenso
salpicava-lhe de luz os cabelos encanecidos. E o velho, numa voz
de profeta, proclamou do alto das montanhas:
- Eu te agradeço o que fizeste por mim! De hoje em diante
esta serra há-de chamar-se, e para sempre - a serra da Estrela!
(9)
E
diz a Lenda que no alto da serra desse nome pode ver se todas as
noites, entre as suas irmãs, uma estrela que brilha ainda
hoje duma maneira estranha e diferente. (10) O seu brilho derrama
reflexos de saudade e de amor sobre a campa desconhecida daquele
que foi e continuará a ser - o seu pastor!
NOTAS
E COMENTARIOS:
(l)-
OUVIR E FALAR COM AS ESTRELAS - A imagem não existe somente
na imaginação popular, mas também na inspiração
dos poetas. É caso até para inquirir: qual das fontes
teria influenciado a outra? Teria sido o povo a levantar sugestões
na alma dos poetas, ou teriam sido os poetas a tocar o coração
do povo?
De qualquer modo lembro que para lá desta lenda de autêntica
concepção popular (nunca a li em parte alguma e creio,
portanto, ser esta a primeira versão escrita que dela se
faz) dois grandes poetas, um deles nascido em Portugal e outro no
Brasil (ambos, pois, de alma portuguesa e em língua portuguesa)
glosaram esse tema singular de ouvir e falar com as estrelas.
Confessa nos Eugénio de Castro num dos seus admiráveis
sonetos:
Antes
de me deitar, fecho a janela
Habituado a dormir sempre às escuras.
Mas ao fechá-la, diz-me das alturas
Uma doirada e pequenina estrela:
?
Vais dormir com uma noite assim tão bela?
Pois não vês como nós brilhamos puras?
Terás na morte a treva que procuras
E tanta... que hás-de aborrecer-te dela!
Se
é de lágrimas só o teu fadário
Dorme para esquecer... mas de contrário
Vela e mira-nos bem com os olhos ternos.
Dormir
o que é, senão morrer um pouco?
Vive! Aproveita a vida, pobre louco!
Olha que em breve deixarás de ver-nos!
Por
seu turno, o brasileiro Olavo Bilac (a quem chamaram precisamente
"o Poeta das Estrelas") inicia deste modo aliciante um
poema que ficou imortal na história do lirismo lusíada:
Ora
(direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso! E eu vos' direi no entanto
Que, paro ouvi-las, muita vez desperto,
E abro a janela, pálido de espanto.
E
remata o mesmo soneto, maravilhosamente:
E
eu vos direi: - Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e entender estrelas!
(2)
- PASTOR. - No livro "Os Avós dos Nossos Avós",
Aquilino Ribeiro definiu assim o pastor de antanho. - A significação
do termo pastor associado à ideia de potentado ou herói
das sociedades primitivas, é esta: "... dono de gado...
e porque. segundo os costumes, o senhorio se acompanhava do mester:
homem de cajado e de lança."
Mais especificamente ainda, a propósito dos próprios
pastores da serra da Estrela, escreveu 0liveira Martins no I tomo
da sua "História de Portugal": "O pastor quase-bárbaro
dessas cumeadas da Serra a tapetar com as nuvens ( 1800 a 2000 metros
de altitude), abordoado ao seu cajado, vestido de peles, seguindo
o rebanho de ovelhas, é talvez o descendente dos companheiros
de Viriato."
(3)
- O CAO DO PASTOR - Já entre os antigos Gregos e Romanos,
os pastores se faziam acompanhar por cães, para melhor guardar
os seus rebanhos, molossos e mastins, que foram os primeiros cães-de-pastor.
Destes, uma das raças mais afamadas é justamente a
dos cães da serra da Estrela.
(4)
- O LUAR - O sortilégio do luar encontra grande ressonância
na alma romântica do povo português, pelo que muitas
das nossas lendas, como se tem visto o evocam com especial predilecção.
(5)-A
GRANDE SERRA - É curioso verificar o contraste flagrante
que existe entre a linguagem popular e a linguagem erudita. O povo,
de facto, às grandes elevações de terreno dá
sempre o nome de serras. E às maiores chama lhes grandes
serras. Os eruditos, porém, dão á palavra serra,
como acidente geográfico, definições assaz
diversas. Assim, enquanto para H. Pacheco "serra é uma
cordilheira de montes ou penhascos cortados", para o professor
Gonçalves Guimarães "uma serra abrange ordinariamente
algumas rugas de terreno, paralelas e ligadas umas ás outras";
para C. Monteiro "serra é uma cordilheira de pouca extensão";
e para R Botelho "serra é uma cadeia cheia de cumes
agudos". A analogia entre o perfil da serra orográfica
e o do instrumento que serve para serrar é típico
da língua portuguesa.
(6) DESTtNO - Ver as notas referentes ao destino insertas nos volumes
anteriores desta obra.
(7) BENDITO SEJA DEUS! - Nalgumas versões que ouvi desta
lenda, percebi que os narradores ingenuamente confundiam a ideia
do louvor a Deus com a ideia da benção de Deus. Elas
são contudo bem diferentes, pois se manifestam em sentidos
inversos: o louvor, do homem para Deus; a benção,
de Deus para o homem.
(8)
- PAO NEGRO - Além de se referir naturalmente a pão
de farinha escura e mal fabricado, neste caso a imagem exprime ainda
a dureza do pão, a tragédia do pão duro e negro,
símbolo de trabalho penoso e mal recompensado. Tal como já
tive ocasião de divulgar no meu livro "O Pão,
as Padeiras e os Padeiros", o povo usa múltiplas imagens,
muito pitorescas, que ligam o pão às mais variadas
passagens e aos mais diversos conceitos da vida. Pão negro
é uma delas.
(9)
- A SERRA DA ESTRELA - No romance "A Lã e a Neve",
Ferreira de Castro dá-nos esta magnifica visão da
serra da Estrela: "Belo monstro de xisto e de granito, com
a terra encher-lhe os ocos do esqueleto, ondula sempre: contorce-se
aqui, alteia-se acolá, abaixa-se mais adiante, para se altear
de novo, num bote de serpente que quisesse morder o Sol. Ao distender-se,
forma altivos promontórios, dos quais se pode interrogar
o infinito, e logo se ramifica que nem centopeia de pesadelo, criando,
entre as suas pernas, trágicos despenhadeiros ou tortuosas
ravinas, onde nascem rios e as águas rumorejam eternamente."
Já o muito remoto Estrabão, no livro III da sua "Geografia",
apontava o facto de ser bastante valiosa a região da serra
da Estrela, dizendo: Esta região é naturalmente rica
de frutos e de gados, assim como de ouro, prata e muitos outros
metais".
E Gil Vicente, na famosa "Tragicomédia Pastoril da Serra
da Estrela", ao descrever os presentes para a rainha Dona Catarina
que acaba de ser mãe (leite, queijos, ovelhas, castanhas
e panos finos), acrescenta ainda enfaticamente:
Eu
heilhe de presentar
Minas d'ouro que eu sei,
ContanO que ela ou EI Rei
O mandem cá apanhar
Abasta que lho criei.
E
evoco de novo a "História de Portugal" de Oliveira
Martins: "A serra da Estrela é a mais elevada das cordilheiras
portuguesas; é o prolongamento da espinha dorsal da Península;
é a divisória das duas metades de Portugal, tão
diversas de fisionomia e de temperamento; e finalmente como que
o coração do País - e acaso nas suas quebradas
e declives, pelos seus vales e encostas, demora ainda o genuíno
representante do Lusitano antigo. Se há um tipo propriamente
português; se através dos acasos da História
permaneceu puro algum exemplar de uma raça ante-histórica
onde possamos filiar-nos, é aí que o havemos de procurar...
(10)
- A ESTRELA DO PASTOR - Dá se esse nome (e suponho que haverá
uma certa analogia com a nossa história, nos caminhos da
tradição popular) ao planeta Vénus, também
chamado Estrela da Alva e Estrela da Tarde. Diz-se que se denomina
Estrela do Pastor porque nasce à tarde muito cedo e desaparece
de manhã muito tarde, servindo assim de orientação
aos hábitos especiais dos pastores serranos.
(11)
- LENDAS DA SERRA DA ESTRELA - Nos volumes anteriores inclui várias
lendas localizadas na Serra da Estrela: Lenda da Lagoa Escura, Lenda
da Campainha de Bronze, Lenda da Moura Alfátema. Quanto à
origem do seu nome, existem outras lendas além da que acabei
de contar. Há uma povoação chamada Estrela
no concelho de Moura, distrito de Beja, que tem por orago Nossa
Senhora da Estrela.
Daqui
pode seguir já para a 4ª versão da mesma LENDA

ou para
A Lenda do PASTOR
da Serra da Estrela (completa)
(em eBOOK,
em breve nesta PÁGINA da minha TEIA na REDE)
Sempre que visite esta página e tenha elementos
ou críticas ou sugestões, CONTACTE:
|