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por
Fernanda Frazão
LENDA
DA SERRA DA ESTRELA
A
RAIVA DO ALVA
A (minha) verdadeira
Lenda do PASTOR DA SERRA DA ESTRELA,
contada do alto do ano 2000...
(Texto denso e longo - vai
aparecer noutra PÁGINA desta minha TEIA na REDE, quando a foto a
seguir estiver ligada.)

5 LENDAS - UMA
LENDA
por
Fernanda Frazão
A
LENDA DO PASTOR DA SERRA DA ESTRELA
In
LENDAS PORTUGUESAS, 6 Volumes, Fernanda Frazão, Ed. Amigos
do Livro, 1998?, 3º vol. P. 7 a 10
LENDA DA SERRA DA ESTRELA
Era
uma vez um jovem pastor que vivia numa longínqua aldeia.
Por único amigo tinha um cachorrinho, que nas longas noites
de solidão se deitava a seus pés sem esperar nenhum
gesto, nenhuma palavra. Sofria este pastor de uma estranha inquietação:
cismava alcançar uma serra enorme que via muito ao longe,
ver as terras que existiriam para lá da muralha rochosa que
constituía o seu horizonte desde que nascera. E muitas noites
passava em claro, meditando nesse seu deseja infindável.
Certa noite em que se julgava a acordado, sonhou que uma estrela
descia até si e lhe segredava que o guiaria até ao
abjecto dos seus desejos. Acordou o pastor mais inquieto e angustiado
que nunca, e procurou no céu a verdade do que sonhara. Lá
estavam todas as estrelas iguais a si mesmas, imutáveis e
eternas aparentemente. Mas estava também uma que lhe pareceu
diferente é mais sua.
Passavam-se os dias e o desejo do pastor aumentava, fazia doer-lhe
o corpo, ardia-lhe febril na cabeça. De noite, todas, todas
as noites, procurava no céu a sua estrela diferente. E em
sonhos ela aparecia-lhe muitas vezes desafiando-o, desafiando-lhe
sempre a vontade. Mas a vontade por vezes é tão difícil!!
Uma noite, num ímpeto, decidiu-se. Arrumou tudo o que tinha
e era nada, chamou o cão e partiu. Ao passar pela aldeia
o cão ladrou e os velhos souberam que ele ia partir. Abanaram
a cabeça ante a loucura do que assim partia à procura
da fome, do frio, da morte. Mas o pastor levava consigo toda a riqueza
que tinha: a fé, a vida e uma estrela.
E o pastor caminhou tantos anos que o cão envelheceu e não
aguentou a caminhada. Morreu uma noite, nos caminhos, e foi enterrado
à beira da estrada que fora de ambos. Só com a sua
estrela, agora, o pastor continuou a caminhar, sempre com a serra
adiante. E à medida que caminhava a serra ia estando sempre
ali, no mesmo sítio e à mesma distância.
Passou todas as fomes e frios que os velhos lhe tinham vaticinado.
Atravessou rios, galgou campos verdes e campos ressequidos, caminhou
sobre rochedos escarpados, passou dentro de cidades cheias de muros
e gente, mas a montanha dos seus desejos nunca a baniu do coração.
Por fim, já velho, alcançou a muralha escarpada que
desde a infância o chamava. Subiu, subiu até ao mais
alto da serra e ali pôde então alargar o desejo do
seu coração, agora em paz e sem desejo.
O horizonte era tão vasto e maravilhoso, a impressão
de liberdade tão avassaladora que o pastor, sem falar, gritava
dentro de si um hino de louvor que mais parecia o vento uivando
por entre os penhascos rochosos de silêncio.
Instalou-se
o velho pastor e a sua estrela ficou com ele, no céu.
O rei do mundo, porém, ouviu falar naquele velho pastor e
na sua estrela fantástica. Mandou emissários á
serra: todas as riquezas do mundo daria ao pastor em troca da sua
pequena estrela.
O pastor ouviu com atenção o que lhe mandava dizer
o rei. Depois, olhou em volta. Tudo eram pedras e rochedos. Uma
pequena cabana de rocha coberta de colmo era a sua morada. Uma côdea
de pão negro e uma gamela de leite as suas refeições.
A sua distracção a paisagem infindamente igual e diferente
do mundo de lá em cima. A sua única amiga, a estrela.
Suavemente, como quem sabe o segredo das palavras e o valor de todos
os bens possíveis, virou-se para os emissários do
rei do mundo e rejeitou todos os tesouros da terra, escolhendo a
pequenez da sua estrela.
Passaram os anos e o velho morreu. Enterraram-no debaixo de uma
fraga e nessa noite, estranhamente, a estrela brilhou com uma luz
mais intensa. Os pastores da serra notaram essa diferença
porque a reconheciam também entre as outras, pelo que o velho
lhes contava em certas noites.
E em memória desta lenda, a serra passou a chamar-se, para
sempre, serra da Estrela.
A RAIVA DO ALVA
Corre
em Pombeiro da Beira uma velha história sobre uma disputa
entre três rios portugueses nascidos na serra da Estrela:
o Mondego, o Alva e o Zêzere.
Nascidos da mesma mãe, viviam os três irmãos,
serpenteando pelas vertentes, tranquilos e alegres, amigos e companheiros.
Passavam os seus dias mirando-se cada um na limpidez das águas
dos outros e jogando ás escondidas nas gargantas, furnas
e sorvedouros da gigantesca mãe.
Certa tarde, porém, pela noitinha, envolveram-se em azeda
discussão, ao que parece motivada por arrogância de
valentias. Trovejaram rivalidades e prometeram-se romper as prisões
de infância, acabando por desafiar-se para uma corrida cuja
meta seria o corpo enormíssimo do mar. o primeiro que lá
esbarrasse seria o melhor de todos os três!
Qual deles descobriria melhor o caminho ? Qual conseguiria desenvolver
maior barulho e força? Qual dos três seria o primeiro
a oferecer as suas doces águas ás salgadas águas
do mar? Era o que iria ver-se!
O Mondego, astuto, forte e madrugador, levantou-se cedo e começou
a correr brandamente para não fazer barulho. E sem levantar
suspeita foi escorrendo desde as vizinhanças da Guarda, pelos
territórios de Celorico, Gouveia, Manteigas, Canas de Senhorim.
Na Raiva, onde os primos vieram cumprimentá-lo, robusteceu-se
com eles e dali partiu na direcção de Coimbra, depois
de ter atravessado ofegante as duas Beiras.
O Zézere, porém, estava alerta, e, ao mesmo tempo
que o Mondego o fez, começou a mover-se oculto no seu leito
de penhascos, enquanto pôde. Foi direito a Manteigas, onde
perdeu de vista o irmão. Passou também perto da Guarda,
desceu correndo até ao Fundão e, de repente, desnorteou,
obliquando para Pedrógão Grande. Quando deu por si,
no meio daquela louca correria, tinha atravessado três regiões
e estava ainda em Constância. Aí, cansado e desesperado,
vendo-se perdido e sem hipótese de alcançar o mar,
abraçou o Tejo e ofereceu-lhe as suas águas.
O Alva, poeta sonhador, entreteve a sua noite contemplando as estrelas.
Adormeceu por fim, placidamente, confiado no seu génio, e
quando acordou, estremunhado, era manhã alta. Olhou em volta
e viu os irmãos correndo por lonjuras a perder de vista.
Que fazer agora? Que imprevidente fora! Mas... remediar-se-ia o
desastre!! E o Alva atirou consigo de roldão pelos campos
fora, rasgou furiosamente montanhas e rochedos, galgou despenhadeiros,
bradou vinganças temerosas. E quando julgou estar a dois
passos do triunfo... foi esbarrar com o Mondego, que há horas
já lá ia, campos de Coimbra fora, em cata da Figueira,
onde se lançaria no seio maternal do oceano, ganhando assim
a tão discutida corrida.
O Alva esbravejou e com a sua furiosa zanga atirou-se ao irmão
a ver se o lançava fora do leito. Quando se sentiu impotente
ante a serenidade majestosa do outro, espumou de raiva. E o Mondego,
rindo, engoliu-o de um trago.
Ao memorável local de encontro, a foz do Alva, passaram as
gentes a chamar-lhe Raiva em memória deste caso "tremebundo".
pode
ver a seguir a 5ª versão da mesma LENDA

ou seguir para a mais longa
A Lenda do PASTOR
da Serra da Estrela (completa)
(em eBOOK,
em breve nesta PÁGINA da minha TEIA na REDE)
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