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José
da Serra do Vale do Zêzere
Viagens do Cigano Castanho e da Cigana Mariana através do
Maravilhoso...
CONTOS e CANTOS e LENDAS de enC(o)ANT(r)AR...
IIª
Jornada
A
VERDADEIRA HISTÓRIA do PASTOR da SERRA DA ESTRELA
contada do alto dos 2.000 anos...
Penedo
Gordo, Beja - Amora, Seixal - Corroios
1981 -1991 - 1999 - 2000
A (minha) verdadeira
Lenda do PASTOR DA SERRA DA ESTRELA,
contada do alto do ano
2000 quando estávamos em 1981!!!... e sabe-se lá!...
(Texto denso e longo - vai
aparecer noutra PÁGINA desta minha TEIA na REDE, quando a foto a
seguir estiver ligada.)

5 LENDAS - UMA
LENDA
A
LENDA DO PASTOR DA SERRA DA ESTRELA
José
da Serra do Vale do Zêzere
Viagens do Cigano Castanho e da Cigana Mariana através do
Maravilhoso...
CONTOS e CANTOS e LENDAS de enC(o)ANT(r)AR...
IIª
Jornada
A
VERDADEIRA HISTÓRIA do PASTOR da SERRA DA ESTRELA
contada do alto dos 2.000 anos...
Penedo
Gordo, Beja - Amora, Seixal - Corroios
1981 -1991 - 1999 - 2000
A
VERDADEIRA HISTÓRIA DO PASTOR DA SERRA DA ESTRELA
contada do alto dos 2.000 anos...
A HISTÓRIA
VERDADEIRA DA SERRA DA ESTRELA CONTADA POR MIM PRÓPRIA DO
CIMO dos 2000 ANOS de Altitude uma história em que
evidentemente poucos ou ninguém vai acreditar...
também
já foram ditas muita verdades nas quais muito poucos acreditaram
e não deixaram de ser verdade por causa disso.
olha,
Zé da Serra, Zé Ninguém,...
ouve bem a minha história. a história da ESTRELA...
a história da serra que tem o meu nome.
sai
dessa varanda aberta sobre o vale. não olhes de baixo para
cima. ergue-te acima do vale. deixa essa posição cómoda,
intermédia de interlocutor dos cântaros, esses intrometidos
que tanto contam quando há tanto e tanto mais para contar.
abre os olhos mais para cima. o cimo. o Alto.
ergue-te acima da Serra... Terra.
baixa daí desse trono de senhor privilegiado de observador
que tudo quer saber sem se comprometer
e vem palpar com as tuas mãos as nervuras e as entranhas
do meu corpo.
a poucos é dado esse privilégio.
ama-me.
Eu, a Estrela,
Eu é que sou a Cabeça da Serra.
o Centro.
o Resumo.
o Cerne
o Ponto culminante.
os
homens são demasiado pequenos para me verem e entenderem...
andarilham por aí demasiado e só enxergam para a frente
e para o lado e às vezes para trás mas a curta distância...
olham pouco para o chão onde põem os pés e
ainda menos para o alto. andam muito ocupados com coisas importantes.
...com aquilo que eles consideram importante. poucos têm oportunidade
de olhar do alto. só os que sabem voar... nas asas do sonho...
são
muito distraídos os homens de hoje. os antigos muito antigos
não tinham os vossos aviões, os vossos engenhos de
voar e já sabiam ver melhor do que vós. do Alto. olhavam.
e depois fechavam os olhos mesmo abertos para VER. tinham mais tempo!
sabiam ver por dentro. mais além.
então
tu não vês essas gargantas profundas e horrendas!?
esses declives ciclópicos tremendos!?
pousa
aí na Torre no Malhão da Estrela a mil novecentos
e noventa e um metros dizem uns a mil novecentos e noventa e três
dizem outros que com a torre que lhe fizeram de uns nove metros
te põem a dois mil ou a dois mil metros e dois mais ou menos
como a história das mil noites e uma... vai rodando agora
por todo esse planalto essa imensa esplanada num raio de cerca de
um quilómetro e vai rodando sempre... tens o mundo a teus
pés. é o horizonte mais vasto que podes ambicionar
no teu torrão natal! se limpares esses olhos e a neblina
que pode toldar o olhar podes olhar sobre a Beira Alta e a Beira
Baixa andando de Norte para Nascente e para Sul podes olhar até
ao Alentejo e a Poente até à Estremadura... para o
lado donde nasce o sol vê-se até Espanha a Serra da
Gata que forma com a Serra dos Gredos e Guadarrama o Sistema Central
Divisório estudado pelos vossos geógrafos... a Serra
da Gata vem pela serranias das Mesas na fronteira ligar-se à
Serra da Gardunha que não se vê aqui do Alto e que
o Zêzere foi separando separando até abrir a fértil
e feliz Cova da Beira. caminhando agora do Sul para Poente podes
ver aa serras do Açor que o rio Alva separa de mim a Estrela,
Colcorinho, a Lousã separada do Açor pelo vale do
Ceira. podes ver quase mesmo na direcção exacta do
Poente a terra de Buarcos junto à Figueira da Foz, há
até quem diga que foram as gentes da serra, de Manteigas
que terão posto este nome a esta terra de barcos devido à
sua maneira pesada e própria de falar... e caminhando um
pouco para Norte até o Buçaco se pode divisar!...
nesse triângulo a Poente entre o Noroeste e o Sudoeste pode
descortinar-se em dias de excepcional transparência uma linha
de mar que começa em Espinho abaixo do Porto até ao
morro da Nazaré do lendário Fuas Roupinho... no ângulo
para Norte entre o Noroeste e o Nordeste podem-se ver os cerros
do Alto Douro e para os lados de Espanha a Guarda com as suas muralhas
e castelo!...
é
um panorama deslumbrante!
mas
não precisas de olhar tão longe e tão distante.
ali
bem perto podes ir localizando barrancos e ondulações
na direcção da PENHA DO GATO, sim um pouco para Noroeste
e se ergue a mais de mil e setecentos metros e estende a sua sombra
do poente sobre a Lagoa Comprida e a Lagoa Escura aquela das lendas
que dizem que tem ligação com o Mar. será com
a Mar? Amar?
agora,
um pouco mais para Poente a PENHA DOS ABUTRES a mil e oitocentos
metros de altura como um gigante de mil e cem metros acima de Loriga
abrindo sobre esta terra serrana gargantas medonhas de pasmar!
a partir
do MALHÃO GROSSO quase a mil e novecentos metros de altitude
adivinha os precipícios e abismos que se precipitam sobre
Alvoco da Serra que evoca um chamamento um grito um eco!...
mais
ao lado para Sul tens o TERROEIRO e o ALTO DA TORRE entre os mil
e oitocentos e os mil e novecentos metros e no fundo dos seus terríveis
despenhadeiros atiram-se as ribeiras de Alforfa e da Estrela sobre
Unhais da Serra. Bastava voar um pouco para a ver entre a verdura
do vale!
na
direcção dos CÂNTAROS agora para Nascente donde
vem o Sol que se erguem pelos mil e novecentos metros tens a SERRA
DA CANDEEIRA com a sua ribeira e espinhaço, alinhar a Rua
dos Mercadores ao lado do CÂNTARO MAGRO para o RASO, o Espinhaço
do Cão que verias do ar entre o Covão do Boi e a Nave
de S. António da Argenteira e daí do Poio do Judeu
ver correr o ZÊZERE pelo vale glaciar até Manteigas
seguir para Sameiro, Vale de Amoreira, Valhelhas e Belmonte sempre
para Nordeste como se andasse perdido sem tino nem sentido do mar,
para logo fazer uma brusca inversão e voltar para Poente,
Sudoeste e regar toda a Cova da Beira da Covilhã e Fundão
e da Gardunha à procura enfim do Mar, de A Mar que só
irá encontrar depois de se perder no Tejo...
podes
ir traçando linhas e mais linhas a partir da Estrela e seguir
a Norte a linha do GORGULÃO e do Vale do Conde até
lá longe à Fraga da Varanda e ao Coruto de Alfátima
que apontam para Gouveia e Folgosinho e encontrar pelo caminho as
ribeiras do Vale do Conde e do Vale do Urso que vão dar vida
ou já são o Rio Alva...
podemos
completar as sete pontas duma ESTRELA e seguir a linha do CUME sobre
a Lagoa dos Cântaros a mais de 1800 metros de altitude seguir
sobre o Curral do Martins e a Fraga das Penas para o Vale do Rossim
e adivinhar as nascentes do Alva e do Mondego. Aquele que se despenha
pelos desfiladeiros do Sabugueiro e o Mondego que depois de aparecer
à luz do dia e à flor da Serra na Fonte do Mondeguinho,
logo desaparece no Sumo e vai aparecer Rio depois da curva do Jejuo
e vai abraçar a Guarda, perdido como o Zêzere, e quase
que encontrando-se com ele, e logo voltar por Celorico e Fornos
de Algodres a caminho de Coimbra e da Figueira da Foz... para a
foz... para o mar... para a mar? para amar?
há
um destino irresistível em todos os rios. o Mar que em muitas
línguas é palavra feminina e então será
A MAR! parece ser um destino irrecusável em todos os seres,
mesmo quando aparecem montanhas e acidentes de terreno pelo caminho!...
é o de pouco a pouco irem caminhando para o mar... não
será que este planeta Terra não é afinal essencial
e predominantemente MAR? qual será então o destino
dos seres humanos que habitam A TERRA? talvez AMAR!!!
há
ainda um desenho interessante de sete linhas que podemos desenhar
a partir do maciço central da ESTRELA e que ficou desenhado
profundamente desde tempos muito antigos no corpo rugoso da SERRA
e foi marcado pelos mestres geógrafos como Orlando Ribeiro
e de tão claros e profundos talvez só os mestres atentos
e profundos os conseguem divisar... são os que foram marcados
pelos antiquíssimos glaciares que se formaram na Serra e
deixaram as suas marcas bem visíveis...
o maior,
o do ZÊZERE, conhecido de todos, com mais de treze quilómetros
de extensão e partiu da base dos Cântaros para deixar
os últimos blocos erráticos de granito perto das Caldas
de Manteigas na Várzea do Castro...
o da
Ribeira da ESTRELA com mais de setecentos metros que a certa altura
se foi juntar com
o da
Ribeira de Alforfa com mais ou menos a mesma extensão e vão
ambos terminar junto das termas de Unhais...
o que
forma a GARGANTA DE LORIGA e partiu da base da Penha dos Abutres.
o do
COVÃO GRANDE...
o do
COVÃO DO URSO...
e o
do VALE DE ALVOCO onde terá ficado apenas um pequeno covão
suspenso!
podes
se quiseres ir riscando uma ESTRELA de sete vezes sete raios, de
mil braços a partir do Centro, do Cerne, do Cimo, do mais
Alto ali a mil novecentos e noventa e um ou a mil novecentos e noventa
e três mil metros de altitude que com a Torre perfazem os
dois mil ou os dois mil e dois metros que simbolizam o fim que não
tem fim!!!
já
viste uma ESTRELA de mil raios?! mil cintilações?!
uma ESTRELA desenhada em mil gargantas e vales e covões e
espinhaços e precipícios e fragas e penhas e rios
e ribeiras e fontes?!!!
eis
aí o mapa da SERRA. da TERRA. do MUNDO. do UNIVERSO. do COSMOS!?
quem
já desenhou o mapa do Cosmos infinito?
aí
tens talvez, na SERRA, na ESTRELA a maqueta. o resumo. o modelo.
o exemplo...
e a
partir desta ESTRELA tão pequena neste planeta que é
A/MAR?! e tão ínfima nesta galáxia que chamamos
do Sistema Solar tu podes vê-la agora engrenada em mil de
mil galáxias, que ginástica de representações
têm de fazer os homens sábios para perceber o Universo!,
e vê-las todas no Espaço, o que é o espaço?,
em movimento constante estonteante de VIDA sempre em crescimento
sempre em movimento em mudança em criação que
os homens grandes sábios tentam desvendar e perceber!!!
não
vês tu, tudo isto, aí na SERRA, aí na TERRA,
na tua Serra Terra, ó Zé da STerra do Vale do Zêzere???
tu
não podes só olhar o vale.
ergue
a tua varanda acima desse vale. vem conversar comigo. olha a Serra.
olha a Serra toda... a Terra... o Universo... o Cosmos... o que
Não Começa nem Acaba...
essa
SERRA sou eu e eis a minha história...
ERA
UMA VEZ...
ERA
UMA VEZ... há muitos muitos... muitos anos, vivia eu aqui
sozinha. Só. nos Montes ermos. nos Hermínios.
Era
assim que os homens de longe , tímidos, medrosos, distantes,
temerosos, me chamavam.
Cansada
de estar só,
Um dia,
Lancei os meus olhos sobre o Mundo...
e descobri para os lados do mar sem fim mais para os lados do meio
dia para os lados de uma planície imensa que parecia o mar...
descobri um PASTOR.
um pastor que quase ainda era menino e já era homem.
Seduzi-o.
Acenei-lhe cá de longe com o meu encanto, canto-conto-lenda,
manto branco
de princesa inacessível e distante...
e ele passou a fitar-me lá de longe...
Sonhador.
A olhar. A olhar... !
Deixei-o olhar, a sonhar, algum tempo. A enamorar-se...
Enamorou-se.
Já não podia deixar de me fitar, de me olhar, de pensar
em mim...
Ora
um dia... Uma noite que estes encontros de amantes têm de
ser discretos clandestinos...
Uma noite em que o Pastor se deixou ficar
sem dormir
ao luar
a sonhar sem dormir
numa noite de lua cheia... feiticeira!
Apareci-lhe.
Como é que eu havia de cativar um homem? Um Pastor? Criança
ainda! Um Poeta? Jovem. Enamorado!?
Apareci-lhe sob a forma de mulher.
O meu manto era branco de neve. Era neve.
Recamado de rendas argentinas. Da Argenteira.
Debruado de guarnições douradas. Das Penhas Douradas.
O meu vestido era tecido da branca espuma das fontes e dos rios.
Do Zêzere do Alva e do Mondego
e salpicado de oiro fino que corria pelas suas águas...
Tinha sido tecido pelas mãos prodigiosas das feiticeiras
da Cova da Lã. Da Covilhã.
As minhas formas de mulher deixavam-se adivinhar por debaixo das
rendas e do manto em belas formas indefinidas. Definidas...
Era um deslumbramento!
O pobre homem pensava que sonhava. Que dormia.
Jovem, temia uma aparição que desejava...
Criança ainda, olhou para mim humana, simples, candidamente...
Levava no braço um Cântaro de água cristalina
e pura. Viva.
Uma água como ele nunca bebera.
Cântaro Magro.
Levava no outro braço um cesto de pão negro. Cor Torrado.
O centeio.
Arcas do Pão.
Nas mãos, a ferrada do leite. Leite de vaca de cabra e de
ovelha.
Da Serra.
Num pano branco, no cesto do pão, uns cremes de gosto raro
e esquisito que nem ele nem ninguém nunca provara e que eram
de força sobrehumana... as Manteigas, os cremes, as natas
desses leites para se conservarem e durarem...
Toma e come, Pastor.
Olhou-me aterrado!!!
Toma e bebe, Pastor.
Passou as mãos pelos olhos a certificar-se de que não
estava a dormir ou a sonhar!, ou se tinha acordado por dentro do
seu sonho!...
Não és tu que me olhas todas as noites?
Espantado!!! de se ver surpreendido nos seus sonhos secretos, acordou
do seu sonho!
Não és tu que sonhas com a brancura de neve do meu
manto e com a espuma transparente dourada do meu vestido que deixa
adivinhar o meu corpo pleno de mistérios e tesouros com promessas
de delícias mil?
Quase confiante, rendido por se ver descoberto, desperto, no mais
íntimo dos seus segredos só sonhados, olhou-me como
se fosse um sonho que era realidade!
Toma.
Come.
Bebe.
Levanta-te.
Caminha.
Venho-te chamar...
Incrédulo de novo.
Não. Não me venho entregar rendida.
Não te venho buscar.
Conquista-me.
Tens de me conquistar.
Atónito. Acobardado. Tímido. Confiante. Sonhou acordado...
Oh! como eu desejaria partir!...
Desde que te vi ao longe sempre te desejei alcançar!
Era o meu sonho!
Tão longe!
Era isso que estava a sonhar aqui sentado esta noite olhando a Lua
Cheia. Acordado.
Há tanto tempo!
A minha tristeza e a minha felicidade era sonhar que um dia te poderia
alcançar e conformar-me por seres inacessível e distante!...
Desfalecido. Conformado. Acordou do seu sonho. Mais sonhador acordado!
QUEM
É SONHADOR!? QUEM É, SONHA A DOR!
QUEM SONHA ACORDADO! E SONHA A COR DADA!
SONHA SEMPRE A DOR SONHA SONHADOR
COM A COR QUE LHE É DADA. A DOR QUE LHE É DADA.
...
Aceitou o meu pão. Barrou com os cremes manteigas. Comeu.
Bebeu da água e do leite que lhe dei...
Ficou absorvido comendo e bebendo como quem sonha e não precisa
de comer ou de beber!
Quando lhe pareceu que se tinha recomposto e depois de pensar talvez
então pudesse tomar uma decisão... de me seguir...
Já não estava lá.
Olhou desconfiado em volta. Olhou o chão. Olhou as alturas...
Não me viu.
Sonhara?
Não dormi.
O luar encanta!
Olhou de novo o alto e o longe... e... viu-me.
Acenei-lhe.
Cintilei.
Luz...
Morto de sono, cansado, adormeceu.
Quando acordou, era dia. Viu-me ao longe.
Neve.
Brilhei...
Eram
mais que horas. Por certo já tinham dado pela sua falta.
Meteu-se ao trabalho sem olhar. A vida é dura e os pastores
da aldeia e os pais que eram pastores não podem permitir
que a falta de sono ou uma noite mal dormida lhes roube braços
para o trabalho que é duro e nunca acaba. Dor. Não
podem olhar com bons olhos um Pastor, um Poeta, Sonhador que descobre
a DOR no SONHO e pode descobrir a pureza na dureza mudando só
o d em p e acordado pode ver a COR que lhe é dada pelo sonho
e dar à DOR a dimensão do SONHO... uma dimensão
nova, um universo de sentimemtos que podem encher uma vida como
a comida e o trabalho enche a vida dos demais que trabalham para
comer e têm de comer para trabalhar... só...quase mais
nada... quando afinal cavando a terra, descobrindo o seu ventre,
há sempre minas de mistério carregadas de tesouros
e seguindo a gado pode-se empreender uma viagem sem fim que não
tem volta...
Mas
não vale a pena sonhar! que já há os donos
da poesia e do sonho. Os que sabem o que é. O gozo prazer
que deve ter e dar a poesia e o sonho! A necessidade de a comunicar.
De a vender para viver. E já inventaram definiram determinaram
as regras as normas as leis que é preciso respeitar...
Os outros? Proibidos de inventar. Obrigados a seguir o inventado
já determinado. Mas como se o sonho é invenção...
Se a poesia é criar?
Têm de deixar sair os seus versos da alma como o mestre Caeiro
guardador de rebanhos e, um dia, deixá-los partir de si acenando-lhes
com um lenço branco da varanda aberta sobre o imenso vale...
e deixá-los ir... voar entre o céu e a terra como
as aves... como as nuvens... quem sabe? em chegando o tempo esperar
que se abram em chuva fecunda sobre a terra, a serra... que sejam
semente a germinar na terra, na serra... talvez que se dêem
só na serra como a campânula dos hermínios que
só se dá naquela serra da Estrela e quase ninguém
conhece... nunca viu. Desgraça ou sorte será mesmo
se aquelas nuvens se desfazem em tempestade avassaladora e tremenda
que tudo destrói à sua passagem... Mas pode ser que
caia de improviso em chuva suave e fecundante num dia qualquer de
primavera e que os homens desprevenidos se tenham esquecido dos
guarda-chuvas e dos impermeáveis...!
mas o pastor?!... um pastor tem a vida dura. o trabalho aperta.
os outros! que vêem e comentam... o pastor que não
tem vida para a poesia... para essa poesia... essa já feita
que tem mercado certo. é só promovê-la, dar-lhe
algum reclame, umas medalhas umas promoções!... o
pastor atirou-se ao trabalho.
Mas
o meu manto ao longe prendia-lhe o olhar.
No
tem tino o demoncre do home! Toma tento! Olha o que fazes! Tonto!
Trapalhão!... Eram os outros.
Dormia acordado.
Angustiado esperou a noite e foi dormir para velar sentado numa
pedra ao luar. Ao menos a noite era dele. deixavam-no em paz...
o luar encanta!
Olhou o céu todo para ter a certeza que sonhara. Iludido!
São todas iguais estas estrelas!
Não existe essa estrela mulher que veio ver-me!...
Quando corria com o olhar a Estrada de Santiago a Via Láctea
seguiu o Sete Estrelo o Ofioco serpente a Cassiopeia descobriu as
Ursas em forma de carroças...
Viu-me.
Disfarçou.
Seguiu olhando o brilho das estrelas do lado do poente. Procurou
o Boieiro o Capricórnio o Touro e o Carneiro e miríades
de outras que não conhecia ou não tinha nome e voltou
atrás...
Viu-me de novo.
...E
foram noites e noites a ver-me branca azul vermelha a cintilar...
...E foram dias e dias a sonhar-me luz de mil cores a luzir...
...Tentava iludir-se. Atirava-se ao trabalho. Procurava ter tento
no rebanho e no trabalho. Não sonhar.
As pessoas do povo abanavam a cabeça. Eram sérias.
Honestas. Trabalhadoras. Eram crentes religiosas cumpridoras respeitadoras...
compreensivas até!
Anda variado o rapaz! Dorme de dia! Passa noites acordado! ...!?
O corpo doía-lhe. Ardia em febre...
Ah! um pouco daquela água!...
Andava fraco. Mole. Descorçoado!...
Ah! um pouco daqueles cremes manteigas naquele pão negro!...
Mas eu sonhei. Não vi. Não comi. Não bebi.
...
Vou
partir. Decidiu. Vou partir à procura daquilo que não
existe. Vou partir em busca daquela que não existe e me seduziu.
Não existe. Mulher encantadora! Fartura que sacia a fome!
Frescura que sacia a sede! Riquezas sem par que matam o desejo!
Beleza sedutora que sacia a alma! Corpo esbelto de virgem que sacia
o corpo! ...
Chamou o cão e partiu.
O cão hesitou. Olhou. Ia ficar-se enroscado no ninho mas
foi. Afinal já não estranhava o dono. Ladrou a despedir-se.
Deu sinal. Acordou a aldeia. Adivinhou.
Os homens sérios viraram-se na cama. O trabalho. O descanso
merecido. A família. O governo da casa. As responsabilidades...
Não é coisa de monta. Viu-se pelo ladrar. ... Nem
abriram o olho.
As mulheres fingiram que dormiam. As mais novas deram voltas e reviravoltas
com o travesseiro. Afinal nem o conheciam! Nunca lhe falaram! Poeta!?
Pff.!!! Louco.
Os velhos espertaram e ficaram de olhos abertos a olhar o escuro.
Parados. A sonhar a juventude que tiveram e a vida que levaram.
Louco! Depois de serras e serras aquela é sempre mais longe.
É sempre a outra. Distante. Também eles tinham sonhado.
Também a tinham visto. Alguns deles até tinham arriscado.
Mais longe, já longe, tiveram que voltar. ...
As crianças deram voltas na enxerga e falaram alto. Estão
a sonhar. Os pais mandaram-nas calar. Dormir que são horas.
Há horas para tudo...
Ele
vai voltar. Deixá-lo ir. Experimentar. Não adianta
explicar...
Não
voltou.
Caminhou.
Caminhou dias e dias sem parar. Meses. Parava. Trabalhava onde pernoitava.
Havia sempre falta de braços por onde passava para aqueles
trabalhos que ninguém queria e ele sabia fazer. Ganhava o
seu sustento e caminhava. Pouco descansava. Só o suficiente
e necessário. Não se prendia. A viagem não
sabia bem o que durava e quando terminava mas sabia que não
era ali. Não se podia deixar prender. A montanha ao longe.
Sempre ao longe. Será que teria andado para trás?!
Aquela montanha entre montanhas ao longe obcecava-o cada vez mais
longe. Era melhor voltar. Todos afinal esperavam por isso. Não
podia. Podia ao menos ficar pelo caminho. Ninguém sabia dos
seus sonhos. Podia deixar-se seduzir. Houve trabalhos e terras e
gentes e gente que até eram agradáveis. Se ficasse?!
Um dia até houve uns olhos donos de um sorriso encantador
que tudo pareciam perceber compreensivo que o seduziram... Não.
Tenho de caminhar. Ao longe a serra. Aquela. Ao longe a estrela.
Aquela.
Uns
dias aparecia-lhe resplandecente e difusa vestida de um esplendoroso
manto branco. Depois mudava Aparecia-lhe de manto verde e florida
de mil pequenas cores... A seguir ficava de um amarelo torrado e
negro com grandes manchas verdes. Logo ficava despida. Aparecia-lhe
nua ainda com o ténue manto verde mais sedutor e caprichoso
ostentando provocante as curvas do corpo sinuoso. Vestida de branco
outra vez ou perdida envolta em negro, de noite... Piscava-lhe a
estrela. Umas vezes com brilho agressivo, gélido, faiscante...
Apagado repentinamente por cortinas negras. Brilhava outras vezes
suave, luminosa, doce, através de rendas esbranquiçadas.
Logo o brilho se tornava rival da lua mas quente, chamejante. Aparecia
de novo mais ténue, romântica, quase triste, para logo
aparecer luminosa, desaparecer negra, reaparecer em clarão
intenso que se estendia por um mar de brancura...
Era a estrela que lhe acenava de longe, se escondia, lhe piscava
os olhos cintilante... lhe sorria... chorava... fugia... se eclipsava...
lhe acenava outra vez.
Ele caminhava. Desesperava. Cansava-se. Tornava a caminhar. Desistia.
Caminhava.
De
tanto caminhar o cão ficou velho e morreu. O pastor fez-lhe
uma sepultura. Assinalou-a com pedras e com paus em forma de cruz.
Chorou. Era o seu único companheiro, cúmplice da sua
loucura! Hesitou uns momentos. Dias. Agora só?! Se custou
tanto! ... E ela longe, mas lá estava sempre... ora branca
florida morena nua de dia ora fria luminosa chamejante doce durante
a noite...
O manto branco, o mais belo e raro!?... Encantava-o.
Florida de mil cores!?... Seduzia-o.
Morena de manchas negras, sinais?!, quente!?... Atraía-o.
nua, lânguida, de cabelos soltos!?... Arrebatava-o.
E caminhou. Caminhou tantos anos que chegou perto. Parou às
portas dos montes ermos... Era assim que os homens lhe chamavam,
tímidos medrosos receosos respeitosos e se escusavam de ir
mais além... Parou e mostraram-se exemplo. Para além?!
caminheiro, não há caminho. Acaba aqui o mundo. Informaram-no
os homens que olhavam os montes ao longe agora para ele já
muito perto que viera de tão longe ali mesmo às portas
da estrela que o chamara... Aquilo é outro mundo. E contaram-lhe
horrores de estarrecer como aquilo que se conta por nunca se ter
visto...
Parou. Dormiu. Estava exausto. Trabalhou para arranjar farnel. Não
tinha vindo para ficar ali. Para além das portas não
vou encontrar ninguém que precise de braços para o
meu trabalho!... O que haverá para além? ... Vai voltar
a casa pensaram os homens sérios e sensatos que eram dali
e o viam arranjar farnel para a viagem e alguns também tinham
vindo de longe mas tinham o condão de ser sensatos razoáveis
apesar da loucura de terem chegado ali... Mas há limites
para tudo! Partiu. Quando descobriram incrédulos a direcção
que ele seguia os homens de longe que eram dali perto ainda lhe
gritaram. Acenaram. Injuriaram. Abanaram a cabeça. Desistiram.
A maior parte nem deu conta. Que sabia aquele estrangeiro para além
das portas do fim do mundo, dos montes ermos povoados quem sabe
de outros seres coisas estranhas diferentes das humanas conhecidas
sensatas razoáveis... Alguns ainda ficaram a olhar até
desaparecer a pensar talvez que também eles deviam ter ousado!
Mas o facto é que eles tinham ousado. Deixai-o ir. É
um estrangeiro. Louco. Caminhante. De longe. Nunca mais saberemos
dele!!!
Intrépido,
o pastor, enamorado, corajoso, atrevido, temerário, transpõe
as portas dos montes ermos, os hermínios como lhe chamavam
os de longe mesmo ali de perto temerosos sérios ocupados
insatisfeitos razoáveis azedos sensatos responsáveis
compreensivos intolerantes correctos bem comportados conformados
com os limites do seu mundo..., transpõe as portas dos montes
ermos... Só. Fica embevecido. Deslumbrado! Fascinado! Seduzido
e abalado por um imenso temor. Toca com as mãos a tremer
a fímbria do manto branco da sua amada, apanha-a com as mãos
fortes e calosas. Sente-as quentes ao contacto com aquela matéria
mole branca fria gelada que se lhe escapa em gotas de água
por entre os dedos derretida... Ainda mal refeito da surpresa fica
estarrecido. Sempre eram verdade os perigos e fantasmas de que o
tinham avisado. Larga a neve branca e arma-se com o cajado. Põe-se
em guarda. Eram novelos brancos em movimento rolando... que o atacavam?
Fora de facto imprudente não ter dado ouvidos a tantos avisos
sensatos que lhe tinham feito. Defende-se do que pensa ser um ataque.
Não era. Eram simples ovelhas simplesmente mais felpudas
de lã branca puríssima como as que já conhecia
muito bem da sua vida de pastor mas mais protegidas para viverem
ali para lá nos montes ermos na neve. Come da sua carne e
veste-se da sua pele. Encontra abrigo nas cavernas da montanha.
Repousa. Esta será a Cova da lã que me deu Refúgio...
Mas a estrela que o seduzira é lá no alto. Tem ainda
muito que caminhar. Tocara só ao de leve na fímbria
do seu manto. Que faltará ainda para a conquistar?!
Quando
vai empreender de novo a viagem estaca de súbito. Agora é
um monstro negro cinzento acastanhado que investe direito a ele.
Ia defender-se. Parou em guarda enfrentando-o. O monstro ou o que
parecia um monstro parou. Olhou. Olharam-se. Observou. Observaram-se.
Mediu-o de alto abaixo, abanou a cabeça, pareceu compreender.
Não adiantava armar em papão a meter medo. Estava
ali alguém que não ia fugir de medo espavorido só
por o ver... Voltou-se. Voltou pelo caminho que trouxera e parou.
Tornou a voltar-se. Voltou-se e tornou a andar ou a fingir que andava.
O pastor quedo, mudo, a tremer sem medo, parado, decidido... O monstro
parou de novo, tornou a voltar-se, olhou o pastor, esperou, tornou
a andar, tornou a olhar o pastor virando só a cabeça...
Chamava-o sem dúvida. Decidiu-se. Avançou. Caminhou
depois de ver que era seguido. Continuou a caminhar e levou-o a
um vale onde se travava uma violenta batalha. Um rebanho de novelos
brancos que ele já sabia ovelhas mais felpudas que as que
ele conhecia desde há muito lutavam vencidas com uns monstros
ferozes acinzentados castanhos terríveis em tudo semelhantes
ao monstro negro castanho acinzentado que parecera que o ia atacar
mas não atacou... o convidou... e a luta era tão feroz
que metade do rebanho estva dizimado. Pastor como era percebeu.
O monstro escuro investia já em grande correria trovejando
depois de o ter olhado atacando o flanco onde a luta era mais renhida...
Volteando o cajado e armado de pedras o pastor voou em sua ajuda
. Lutaram bravamente. Lutaram até que aquelas feras acinzentadas
largaram as presas e fugiram... No final tinham muito que comer
e leite para beber e peles para se vestir e cobrir... O pastor estava
estupefacto! De repente voltava ao seu mundo depois de tanto ter
corrido e depois de ter arriscado entrar num mundo novo tão
longínquo e completamente desconhecido! A Estrela fada feiticeira
dera-lhe um novo companheiro em troca daquele que lhe fora fiel
até à morte mas que não poderia enfrentar os
frios e as ferezas da serra... e ali tinha outro que, em combate
de morte, lhe oferecia um tesouro imenso... Seria, com ele, o dono
de todos os rebanhos que não tinham quem os protegesse! Selaram
logo ali um pacto de sangue. O pastor, o Cão da Serra da
Estrela, o Rebanho, formariam a trilogia tríade trindade
triângulo que dariam feição imagem signo voz
significante e significado à Serra da Estrela!...
Passou
tempo. O manto branco feiticeiro de neve foi-se desfazendo e começou
a surgir o manto verde fascinante que ele já adivinhara de
longe... O pastor comeu dos frutos silvestres e abrigou-se nas lajes...
Caminhou rodeado de um imenso rebanho que se acolheu à sua
guarda e do seu companheiro e aí continuavam inseparáveis
o pastor, o cão da serra da estrela e os seus imensos rebanhos...
· medida que o manto branco se desfazia podiam agora caminhar
melhor mais para o alto. O cão era agora mais o seu guia.
As pastagens verdes e suculentas marcavam o ritmo da subida. Quando
os lobos e os linces atacavam onde o cajado e as pedras não
chegavam chegava a fúria e o urro aterrador... as armas retorcidas
dos carneiros de olhar enviesado, ainda assim, faziam uma razia
considerável naquela luta de feras pela sobrevivência,
atirando em arco ao ar os lobos mais afoitos que abocanhavam as
ovelhas indefesas...
Agora
o pastor assim com um companheiro amigo e guia era já dono
e senhor de todos os rebanhos dos montes ermos nunca descobertos
e chegou ao cimo triunfante. Tinha um dote de rei para oferecer
à sua amada finalmente conquistada! Um dote que ela própria
lhe permitira conquistar e era seu!
Chegou
ao alto. Deslumbramento! Do ponto mais alto, do cimo dos montes
ermos nunca pisados por pés humanos, olhou o mundo a seus
pés. Fascinante! O manto branco da sua amada amante desfazia-se.
Aqui e além ainda fiapos remendos que se derretiam. Desnudava-se
a Serra. Esperou a noite. Seria esta a mulher que o seduzira? Ou
seria a outra? A que brilhava sorria piscava chorava luzia lá
no alto? Ficou sentado, espectante, parado, esperando, cansado,
descansando...
Ao
começo da noite apareceu ela, a Estrela. Olhou-a. Hesitou
olhar fingindo que não via. Ela sorria a Estrela. Brilhou
de um modo estranho. Piscava os olhos. Ele, não sabia se
era ele que os piscava, se era ela. Encantou-o. Ela já o
encantara desde que o seduzira lá de longe e o arrancara
da sua terra de menino e o obrigara a percorrer sem o querer os
caminhos que os velhos e os sensatos diziam não ter caminho...
Encantado, ficou seduzido. Seduzido, perdeu o siso. E nessa noite,
o pastor, quando foi para se abrigar, perdeu o medo e caminhou para
o mais profundo das cavernas que encontrou e abraço-se à
terra, à serra, e em espasmos, convulsões, aos gritos
incontrolados incontidos, amou a terra, a serra, entregou-se, serenou,
adormeceu confundido no seu corpo mergulhado na terra, fundido com
a serra... sonhou... e viu-se astro brilhante como estrela!
...Não
mais soube se acordara se sonhava! Ela enternecida correspondia
aos seus amores... dava-lhe cada dia daquela água abundante
e viva que lhe dera um dia... num sonho?... comia da carne das ovelhas,
bebia do seu leite... aprendeu a transformá-lo e a guardá-lo
em cremes de manteigas, em soro azedo e forte com ervas e com flores
que aprendera a seleccionar... cedo conheceu aqueles grãos
negros que triturados entre duas pedras que rodavam davam aquele
pão negro inesquecível que um dia ela lhe levara...
em sonho?... ou era agora que sonhava? De noite, a estrela que luzia
e que brilhava, revelava-lhe segredos que, de dia, ele procurava...
as nascentes... os cântaros... as fontes... os rios... os
lagos... os fraguedos... as penhas... os tesouros... a argenteira...
a cova da moura... E ele, assim, sonhando, dono de tudo, começou
a nomeá-los, a dar-lhes sentido como os conhecia... Tu aí
ficas a Penha dos Abutres onde eles me vêem e vêm espiar
para depois comerem os restos que eu lhes deixo... Aquela é
a Penha do Gato... Talvez seja um lince que lá aparece, mas
a esta distância de respeito distante mais parece um gato
matreiro e atrevido... Essas gargantas como que protegidas por couraças
ficam Gargantas de Loriga como se fossem os escudos da Serra...
As outras onde soam as vozes como ecos ficam a chamar-se de Alvoco
como se fossem o chamamento da Serra... Essa ribeira aí vai
ficar a da Estrela por ser aquela onde melhor se reflecte a minha
estrela quando a procuro no chão, na terra, na serra... A
outra ao lado rodeado de plantas que servem para alimentar os meus
rebanhos fica a da Alforfa... Vós picos soberbos que quase
dominais o ponto mais alto ficais o Terroeiro a desfazer-se em terrões
e o outro em forma mais de arpão fica o Taloeiro... Ao fundo
desses precipícios escarpados lá muito ao fundo como
que rodeados de garras afiadas vão ficar os Unhais da Serra...
Esta cova aqui mais perto fica o Covão do Boi como redil
do cobridor mais potente que cobriu a serra de novos e ricos rebanhos
que se reproduziram em toda a largueza da serra em manadas que deram
outros leites e cremes e manteigas... Mesmo ao lado, esses penedos
redondos, ficam a chamar-se as Queijeiras que me ensinaram a forma
e o modo de fazer e empilhar os queijos fabricados pelas minhas
mãos para os guardar quando o leite escasseia e para os amigos
da serra... Vós colossos de pedra onde nascem as águas
glaciares sereis os Cântaros... o do meio mais majestoso e
imponente será o Cântaro Magro... o outro ao lado onde
mais brilha o reflexo das estrelas e se chama Candeeira, ficará
a chamar-se Cântaro Gordo, pesado, impressionante... Este
a estender-se espreguiçando-se até à Argenteira
das minas de prata encimada pelo Poio do Judeu errante devoto e
prodigioso, fica o Cântaro Raso como rasa para medir tesouros
fabulosos de nunca imaginados que todos sonham poder um dia ver
e procuram em todo o lado... Aí entre os dois passará
a Rua dos Mercadores como fenda aberta na muralha para os mercadores
dos sonhos verdadeiros que nunca serão realidade... e vai
dar a esse rio que nasce destes cântaros a desfazerem-se em
água rodeado de azereiros e ele será Zêzere
ziguezagueando como serpente pelo vale do glaciar que abriu a Serra
enchendo-a de zumbidos e zunidos criando uma estranha melodia que
dá cor e cheiro e gosto e rugas e som e um sortilégio
ímpar e sedutoramente irresistível a esta Terra Serra...
Depois
o pastor caminhou para mais longe e foi nomeando os vales as lagoas
e as fontes... Esta será a Fonte dos Perus onde eles andaram
misturados com os meus rebanhos e canta glu-glu como eles... Essa
outra larga e bela como fonte de rico palácio será
o Chafariz Del'Rei... Essa que brota a gorgolejar do chão
será do Gorgolão... Essa lagoa perdida escondida ficará
a Lagoa Escura dos mistérios e das lendas que talvez até
tenha ligação com o mar pelos restos de naufrágios
e fantasmas que lá se podem ver... A outra será a
Lagoa da Caldeira... A outra da Candeeira... A outra as Salgadeiras...
A outra do Pachão por dar nas suas margens pastagens imensas...
A maior essa será a Lagoa Comprida... Esse vale o Vale do
Urso que mais se regala com o mel das abelhas que com os meus rebanhos...
Aquele será o Vale das Éguas onde elas pascem e correm
à desfilada... Aqueles fragões onde bate a luz do
sol poente serão as Penhas Douradas... E o vale aos seus
pés será o Vale do Rocim dos cavalos pequenos como
o rocinante quixotesco de aventuras cavaleirescas mais sonhadas
que realizadas... ou será o recinto como um templo a céu
aberto onde se pode adorar o sol que morre para logo no outro dia
ressurgir esplendoroso do outro lado do mundo e, à alva,
fazer brilhar a lagoa do vale que vai fazer correr o Rio que se
chamará Alva que (me) acordou cantando as albas que um dia
hão-de ser cantadas acompanhadas pelo alaúde pelo
rei lavrador: "Levantou-(se) a velida, Levantou-se (a) alva,
E vai lavar camisas En no alto. Vai-las lavar (à) alva..."
ou pelo Pêro Meogo que cantava(rá): Levou-s(e) a louçana,
levou-se a velida; Vai lavar cabelos na fontana fria, Leda dos amores,
dos amores leda..." ...rio que vai desfazer as suas raivas
irrequietas lá longe na Raiva no rio que lhe nasce ali no
mistério ali ao lado desaparecendo no Sumo e aparecendo logo
como Mondego por levar o eco do meu ego ao mundo da cidade dos sábios
e doutores que estudam e que cantam se encantam e encantam sem deixar
de estar eternamente enamorados do rio e das plantas do choupal
e das flores e das tricanas e das fadas magas sábias como
eles enamoradas e onde há-de nascer a Fonte das Lágrimas
da linda Inês do Pedro o Justiceiro... e esta pedra onde me
assento e vejo o vasto mundo por onde correm os rios será
a Fraga da Varanda, a Varanda dos Pastores senhores desta serra...
E assim
viajando caminhando andando vai o pastor correndo a serra toda dando
nomes a todos os lugares à medida e na medida em que o impressionavam
lhe agradavam ou o aterrorizavam ou lhe lembravam bons ou maus momentos
porque, como dizia o filósofo escravo que até os centuriões
romanos reconheciam como sábio, não são as
coisas e os seres que aterrorizam as pessoas mas os nomes que as
pessoas dão às coisas e aos seres e até à
outras pessoas é que lhes dão a elas a ideia de medo
ou de terror, de alegria ou de prazer... de dor... e assim vão
nomeando e fazendo com que as coisas e os seres que não têm
nome, existam para eles, passem a fazer parte do seu mundo, esquecendo-se
por vezes que eles, pessoas, sem nome, também fazem parte
do mundo, do universo, do cosmos e nele estão integrados
sem cuidarem de saber que nome porventura lhes será dado
pelas coisas!? ou pelos seres a quem eles tão superiormente
deram nomes para se apossarem deles!!!
Foi assim com certeza que nasceu a NOMINÁLIA, a festa dos
nomes, o canto dos nomes da Serra e da Terra recebendo cada canto,
cada pedra, cada vale, cada recanto, cada forma recortada desenhada
ou esculpida pelo tempo e pelos elementos... um nome imagem do encanto
ou desencanto da magia qual harpia cabeça de mulher corpo
de abutre ou do aspecto ou halo ou impressão ou fantasia
sentida pelos sete sentidos do pastor, dos pastores de todos os
tempos e lugares, impressões registadas pelos sentidos de
fora e de dentro que se repercutem no seu íntimo e logo se
formam em significantes palavras quase insigificantes a traduzir
as sensações de fora que a vista o cheiro o ouvido
o gosto o tacto lhe faziam chegar de mistura com as sensações
de dentro que a imaginação e a criação
transformam em sentimentos dores que não doem em sensações
que não se sentem sentindo mas se sentem sentindo e por isso
são sentimentos vividos ou fingidos e assim o pastor, os
pastores, o homem aprendeu a ser o artista fingidor eternamente
insatisfeito a dar o nome às coisas e aos seres e às
outras pessoas e aos seus sentimentos fingindo que se torna dono
delas quando é ele que lhes pertence e assim fica encalhado
nas calhas da roda talvez só por não saber o nome
que as coisas e os outros seres lhe dão a ele...
Aquelas
portas por onde entrei ficarão as Portas dos Hermínios
por me terem aberto este mundo de mistérios dos montes ermos
logo a seguir à Cova da Lã que foi o meu último
Refúgio donde saí ao Cantar-Galo para passar à
terra do Carvalho e chegar às Penhas da Saúde onde
renasci como homem novo para a conquista da montanha que afinal
era a minha amada Serra a Estrela que de longe lá do fundo
me chamava e chama para continuar esta grande viagem peregrinação
a toda a roda da serra e do mundo à procura do que está
sempre tão longe tão perto... à procura de
mim este universo imenso... e assim vou viajando peregrinando...
...Esses
precipícios aí ficaram a chamar-se Calçada
do Inferno onde precipitei os inimigos que me atacaram e à
serra, à terra sua mãe e suas raízes... essa
rua escondida ao abrigo dos Cântaros, os magos da Montanha,
essa rua bem perto da Rua dos Mercadores por onde chegaram os primeiros
viajantes sedentos de longe famintos rotos desabrigados à
procura do que precisavam da lã do leite e das manteigas
e descobriram esta fenda na muralha intransponível entre
os colossos que guardam os tesouros secretos da serra só
visíveis para os olhos atrevidos dos eleitos para os pastores
sonhadores poetas artistas ladrões aventureiros que se arriscam
a conquistá-los a qualquer preço..., essa é
a Rua das Roseiras... e aquele outro espinhaço é o
Espinhaço do Cão da Candeeira... e lá mais
além são as Arcas do Pão onde todos os famintos
se podem saciar e todos os pastores podiam acorrer... e lá
ao fundo será Manteigas onde podem encontrar todos os leites
transformados para barrar o pão das arcas e do centeio...
E mais além aquela cascata há-de ser o Poço
do Inferno tão abrigado e fresco e de águas tão
límpidas refrescantes capazes de apagar todo o fogo dos infernos...
E do outro lado ao alto é o Tornáqua que torna todos
os anos com as neves derretidas a encher o Zêzere e a encher
as fontes onde podem beber todos os que têm sede e até
curar as doenças nas águas da Fonte Santa e nas águas
que nascem quentes e sulfurosas para banhar o corpo e o tornar são...
para seguir a toda a roda da Serra e encontrar as Sarnadas, Verdelhos,
Sameice; Sameiro, Valhelhas, Vale de Amoreira; Vale Formoso ou Aldeia
de Mato; Belmonte, Trinta, Videmonte; Corujeira, Maçainhas;
Chãos, Mizerela, Prados; Rapa, Cadafaz, Fonte Arcada; Soutinho,
Vale de Azares; Lageosa, Vide entre vinhas, Celorico; Galisteus,
Cortiçô, Salgueirais; Qiuntãs, Assanhadas; Figueiró,
Freixo, Linhares; Minados, Azimbrais; Folgosinho, Melo, Nabais;
Nabainhos, Nespereira, Vinhó, Gouveia; Moimenta, Aldeias,
Mangualde; Paços, Eirô, Arrifana; Vodra, Póvoa,
Sabugueiro, Lagarinhos; Quintela, Maceira, Assamassa, Desterro,
Cova, Lapa dos Dinheiros; Valezim, Sazes, Furtado, Sandomil; Cabeço,
Cabeça, Corga, Queiroz; Loriga, Casal do Rei, Muro, Vide;
Fontão, Alvoco, Esteves, Unhais, Bouça; Borralheira,
Canhoso, Teixoso; Tortosendo, Peso, Vales, Barco, Casegas; Minas
da Panasqueira, Erada, Dominguiso; Boidobra, Terlamonte, Orjais,
Souto, Sarzedo... tudo nome de terras e lugares da Serra que fui
e foram e se foram nomeando e que depois alguns vieram renomear
com nomes de outras religiões que diziam mais verdadeira
que esta natural da deusa natureza, e rodearam a serra de uma corte
celestial com nomes de santos e santas como São Pedro, Santa
Maria, Senhora dos Verdes, São Martinho, São Romão,
São Paio, São Sebastião, Senhora do Desterro,
Senhora de Fátima... tudo ao sabor da fé e crenças
e crendices daqueles que os nomeavam pretendendo mudar a serra porque
aquilo que impressiona os homens são os nomes que os homens
dão às coisas e assim os nomes vão mudando
ao sabor da imaginação e da fantasia ou da visão
que os homens vão tendo das coisas... Quem terá dado
nome à maior parte das terras e dos lugares da Serra? Que
sonhos e fantasmas acendiam a sua imaginação? Talvez
este Pastor signo símbolo das gentes da Serra...
...E
assim, depois desta nominália que se estendeu sem fim a toda
a Serra e seria impossível transplantar para aqui em letras
transformando a Serra numa montanha de palavras escritas para serem
lidas tal é a loucura desta viagem que pretende semear letras
como estrelas criando uma nova Serra... o Pastor da Serra da Estrela
sentiu-se dono e senhor de toda a Serra ou assim constava por ter
dado nome a tudo... e por isso chegou notícia do Pastor a
outro Rei do Mundo, grande senhor de muitas terras daquelas redondezas
muito longe dali perto daquele tempo e lugar...
Era
já velho o Pastor jovem de tantos anos e tantas caminhadas
e viagens que conquistou a Serra e a percorria e nela se fixava
sem parar, sempre velho e novo em cada espaço e tempo sem
tempo nem lugar...
Mandou-lhe
esse tal rei emissários dizendo que dele ouvira falar e do
seu grande poder que dava nomes a tudo e dos seus tesouros e sabedoria,
oferecendo em troca outras riquezas diferentes mas muito correntes
e rentáveis no mundo que era do seu reino, tudo lhe daria,
mesmo metade do seu reino, em troca da fama que corria de ser ele
grande senhor de mil tesouros secretos desconhecidos sem valor no
mercado dos outros reinos e constavam que havia mil segredos que
uma estrela misteriosa lhe contava e cantava e eram de encantar...
O velho
pastor jovem recebeu os emissários. Ouviu-os. Lá no
alto da Serra onde permitiu que o encontrassem o Pastor ouviu os
emissários do grande rei do mundo e olhava em roda. Olhou
as gargantas e os precipícios e os vales e os covões
abertos pelos glaciares... olhava a sua estrela de sete raios...,
de setenta vezes sete raios que brilhavam cintilando... olhava a
sua estrela enquanto os emissários do rei do mundo falavam
e o olhavam boquiabertos para o pastor e para o céu à
espera que o Pastor se denunciasse e denunciasse a sua Estrela e,
espantados de o verem só olhar a terra, ouviram a resposta
do Pastor...
Ide,
e dizei ao vosso rei do mundo que sou um velho muito jovem que vim
de muito longe daqui ao pé e desde há muitos anos
que são hoje, não conheço reis nas redondezas
nem no mundo que vislumbro das alturas destes montes ermos... Não
tem o vosso rei, seja rei já que assim ele o quer e vós
o creis e quereis, não tem o vosso rei, que eu saiba, riquezas
que valham um pouco, os imensos tesouros desta Serra... Tesouros
que pouco ou nada valem para os vossos Poderricos que alguns chamam
de Ricardos... Nunca estes imensos tesouros se abrirão a
reis cobardes e ambiciosos que tudo governam com dinheiro e exércitos
como os que vos governam ou vós vos deixeis governar... Se
isso pudesse vir a acontecer, por fatalidade, nem vós nem
eles os chegariam a possuir... seriam destruídos antes de
os poderem saborear... desfazer-se-iam como a neve desta serra se
derrete quando chega o calor e as mãos impuras e se perde
sumindo-se na terra para criar independente do vosso poder e corre
das fontes e dos rios para a mar... assim tudo se desfará
se um dia estas riquezas forem conquistadas à força
por reis e súbditos que tenham outros valores e outros preços
que não os desta terra e desta serra de pastores e cães,
de rebanhos e penedos, de vales de cabeços e de rios e de
fontes, de fragas e fragões e de montes e ... Ide. Parti.
O vosso rei até pode mandar matar-me e atrever-se a mandar
conquistar a Serra... Ide. Parti enquanto é tempo...
Era
tempo. A serra começava a ficar nua e preparava-se para vestir
o seu manto branco da solidão e da intimidade que não
admite estranhos e curiosos e só permite a presença
dos verdadeiros amantes... Um vento gelado varreu a Serra... As
palavras do pastor aos emissários dos rei que eram imateriais
e distantes brilhantes como estrelas luminosas incompreensíveis
e inaudíveis para os olhos e ouvidos e entendimento daqueles
emissários, materializavam-se por instantes pelo bafo quente
na aragem fria como que em pequenas nuvens de formas caprichosas
que eram signos sinais susceptíveis de serem captados por
sentidos que soubessem sentir transformando-se em mensagens que
o vento correio transportava nas suas asas para longe... Parti enquanto
é tempo deste reino que é a Serra! Tendes uma resposta
para o vosso rei. Parti antes que o não possais fazer. Não
sou eu quem vos vai impedir. Não preciso. É mais um
segredo tesouro mistério desta Serra este condão de
prender e fazer desaparecer no seu seio aqueles que atrevidamente
se aventuram a profaná-la, como por vezes acontece também
com aqueles que a amam de tal maneira nela se perdem e nela se transformam...
é algo de muito misterioso e secreto para o poder/des entender...
e aquelas palavras que apareciam e desapareciam em breves e quase
imperceptíveis sinais de fumo impressionaram finalmente os
emissários do rei...
Partiram
apressados os ministros que olhavam inquietos os morros e ravinas
que os rodeavam tentando ler os sinais das nuvens e da luz no céu
que não entendiam e levavam ao rei as palavras fala do Pastor
que momentaneamente tinham sido nuvens que desapareciam com o vento
correio que já as tinha feito chegar para serem lidas pelos
sábios distantes... Aflitos, não sabiam o que mais
temer... Se a fúria do seu rei, se a mensagem sibilina e
hermética do Pastor que não adregavam de entender!
Era louco sem dúvida aquele homem que se encontrava lá
no alto da montanha perdido entre fraguedos, noutro reino, a viver
muito perto da terra muito distante de todas as outras terras e
muito mais distante da maneira de ser e de pensar e dos hábitos
e dos valores e das crenças e dos costumes e das artes e
da vida e do modo de viver e de falar da vida de todos os outros
homens, das outras pessoas, das pessoas normais e sensatas e decentes
e correctas e negociáveis e negociantes que sabiam viver
e pensar e falar das coisas comuns e dos interesses e que encolhiam
os ombros aos caprichos arrogantes dos tiranos... que queres tu?
é assim a vida... todos fazem assim... é preciso é
a gente fazer o que eles querem para fazermos o que podemos e queremos
com as mesmas artes e meios que podermos o que alguns até
conseguiam mais ou menos como que fingindo ignorar que os tiranos
nunca dão tempo nem espaço para os outros fazerem
o que eles não crêem ou não querem antes usam
todos os meios e o tempo e o espaço e até a dependência
de sobreviver para todos moldar e de/formar com grandiosos programas
de de/formação e de des/educação em
que todos têm de atingir objectivos muito objectivos como
aprender a ler e a escrever e a contar as coisas importantes para
a sua pátria e valores deles...! Era louco sem dúvida
aquele homem perdido nas montanhas que se atrevia a enfrentar um
império tão poderoso e total com rei e com ministros
e emissários e leis e servos e criados e polícias
e exércitos e... encarregados de fazer cumprir essas leis
inventadas para o Bem de toda a Humanidade que eram só o
bem e a humanidade dele... Vejam a desfaçatez insensatez
o atrevimento a pouca vergonha! esta loucura!... Mas também
qual é o problema para um reino todo poderoso eliminar pura
e simplesmente aquele louco perigoso e tomar-lhe pela força
aquilo que tão delicada e habilmente lhe foi mandado pedir
com tanta correcção e respeito e até tanta
consideração e deferência!!! Como é que
o nosso rei e o nosso reino vão tolerar esta diferença
granítica imoldável indómito impermeável
à boa educação e às conveniências
inconveniente selvagem mal-educado indomesticável... E ainda
lhe manda mensagens o nosso rei???
O rei
daqueles mensageiros correctos e delicados agora apavorados porque
a mensagem do Pastor tinha chegado no correio do vento nas formas
caprichosas e indecifráveis das nuvens que iam formando mensagens
fantásticas ao sabor do vento e das correntes e dos olhos
e dos ouvidos dos que as olhavam e tentavam ler e que ora se esfiapavam
em nuvens de algodão branco que corriam entre o azul do céu
e o escuro da terra ora se tornavam cinzentas e negras preanunciadoras
de tempestades e borrascas aterradoras... e o rei daqueles mensageiros
ficou furioso que era uma maneira de ficar amedrontado mais próprio
de pessoas importantes que não podia ali ficar a tremer amedrontado
como os seus criados mas antes tremia de raiva e de medo mais profundo...
e tanto mais furioso e ofendido quanto não tolerava a insolência
do outro ainda por cima um reles pastor... ainda se fosse uma provocação
resposta digna da parte de um outro rei poderoso que lhe pudesse
fazer frente... agora um insolente daqueles!... e de furioso e justiceiro
que não admitia insolências e faltas de respeito dentro
e fora do seu reino, aquele rei poderoso mandou organizar um numeroso
exército para castigar aquele atrevido a quem mandara pedir
e pagar uma coisa tão simples: só o segredo sabedoria
de toda a sua vida vivida na serra!!! Ora de pobres e mal-agradecidos
está o inferno cheio!... Não se podia admitir um insolente
um atrevido um malcriado um mal-agradecido daqueles naquele reino
nem naquelas redondezas nem no resto do mundo conhecido!... Era
o que faltava! Seria o fim do respeito e da ordem e do progresso
já tão desenvolvido e organizado!!! Seria o fim do
reino e dos reinados dos tiranos que tanto se sacrificam e trabalham
para o bem-estar e prosperidade dos seus súbditos!!! Seria
a desordem! A guerra! A anarquia! Estava em causa a salvação
de uma civilização! A salvação da humanidade!
Ia porventura deixar cair o poder na rua? Não faltariam outros
atrevidos e insolentes a apanhá-lo a toda a pressa e que
seria do povo coitado! sem os seus reis e os seus mestres o orientá-lo
e sem a polícia a guardá-lo e sem os ministros e outros
iluminados a governá-lo a encaminharem-no a ensiná-lo
a administrar os seus bens e o seu trabalho através de sisas
e contribuições e impostos impostos de uma maneira
sábia e suave! Todos impostos sobretudo muito suaves que
às vezes só pediam tudo mas só quando os cofres
do reino e do rei corriam o risco de ficar pouco cheios e que às
vezes era preciso impor pela força das circunstâncias
àqueles que não entendiam a suavidade e grandeza daquele
benefício imerecido fruto da indiscutível clarividência
de tais governantes reis e senhores que tão sacrificadamente
governavam e se governavam com guardas e polícias e soldados
e generais e juízes e doutores só por causa dos malvados
que não entendiam porque eles até explicavam delicadamente
ao povo as vantagens irrecusáveis daqueles impostos e sacrifícios
distribuídos em décimas e dízimas e sisas e
côngruas tão de acordo com as suas necessidades e tão
sabiamente estudados para o bem deles! para o bem de todos pois
onde todos pagam nada é caro e os poucos bens de muitos podem
dar um Grande Bem desde que muito bem orientado e governado por
quem sabe!!! Não! Não se podia tolerar!
Era
preciso uma lição. Um exemplo! Uma execução
exemplar não fosse aquele exemplo sem exemplo e quase sem
importância proliferar e dar resultados imprevisíveis!
Era preciso, urgentemente, prevenir possíveis abusos e atrevimentos
contra a ordem e o bem e a paz estabelecidas! Não se podia
admitir um mau exemplo daqueles! Intolerável! Tinha de ser
castigado e apontado como traidor dos superiores interesses de todo
o povo e de toda a humanidade!!!
Tinha
de ser assim. Perante algo de insólito e profundamente diferente!
contra a ordem estabelecida?! por quem? aonde? Só havia uma
decisão a tomar. Os exércitos do rei do Mundo atacaram
a serra de todos os lados e em todos os sentidos. Não imaginavam
que uma serra tão pequena fosse tão grande! Nunca
o encontraram. Mas também não fazia mal, pensavam
eles, porque iam isolá-lo pela fome e pelo frio. Iam destruí-lo
pela solidão! Bastava manter o cerco. A pressão. O
medo. O terror discreto e distante mantido por um exército
de proporções desmedidas para um perigo tamanho representado
por um Pastor sozinho! Entretanto, o manto branco da neve crescera
alimentado dia e noite por pequenos flocos brancos quase imponderáveis
e minúsculos que caíam ora mansamente sobre a terra,
dia e noite, ora batidos por violentos temporais que parecia os
ia atirar para longe... Parecia não haver perigo para tão
poderoso exército! Mantiveram o cerco. Ordens superiores.
Quando o cerco já durava bastante e quiseram retirar para
mais longe, para os flancos da serra, uns foram atacados pelas feras,
essas sim esfomeadas que também procuravam refúgio
nas faldas das montanhas e tiveram assim um banquete inesperado...;
outros, muitos deles, amedrontados já desesperados destroçados,
tanta guerra por tão pouco diziam eles furiosos! ou pensavam-no
só porque não o podiam dizer nem aos mais amigos!,
numa retirada que já era fuga desordenada precipitaram-se
nas gargantas e barrancos e barroqueiras e formaram com a neve avalanches
que se iam desfazer destruidoras nos vales e nas naves longínquas
e nos covões... A maioria precipitou-se do Poio da Morte...
Veio então o imenso manto branco que vestiu a Serra toda
até aos vales já na planície e os exércitos
do rei tinham desaparecido cobertos pela neve! Isto não fez
mais que redobrar a sua fúria incontida e cega e a sua violência
absurda!... Havia sempre outros exércitos que, mais tarde,
haviam de erigir, ao lado, a Fraga da Cruz e dar o nome de Vale
dos Murtórios ao vale onde aconteceu aquela mortandade inútil
e insensata...! Quando enfim a Serra vestiu o seu manto verde ainda
matizado de milhares de manchas brancas as águias e os abutres,
os milhafres e os peneireiros, os lobos em grandes alcateias e os
linces... tiveram um banquete inesperado e limparam a Serra! Os
rebanhos com os seus cães e o Pastor que tinham os seus refúgios
secretos para passarem o longo inverno, regressaram e encheram a
Serra de sons, de movimento e de vida...
Passaram
anos e anos... Os temores daquele rei louco tinham fundamento...
As palavras do Pastor transformadas em bandeiras de liberdade correram
com a fama das suas vitórias retumbantes... Corriam por todo
o lado estas palavras que ficavam a pairar no ar ou caiam no chão
como sementes atrás dos peregrinos e dos mercadores e dos
viandantes e caminhantes mendigos e cegos com os seus guias... que
passavam por ali a abastecer-se de peles, de queijos e manteigas
e depois corriam o mundo sempre à procura de alguma coisa
que nunca encontravam... e, sem o saberem, ao contarem as suas viagens,
ao cantarem o que tinham visto e ouvido e tinham ouvido cantar...
difundiam a boa nova de que era possível viver em liberdade
sem tiranos nem escravos, e em harmonia com a terra e com a serra,
sem a agredir e deixar agredir ou profanar pelos insensatos que
só vêem os seus interesses imediatos... Assim de todos
vieram mais pastores e jovens seduzidos de longe para procurarem
como ele, o velho jovem Pastor, os mistérios segredos e tesouros
dos montes ermos e conquistarem o direito de ser livres das ambições
generosas e sacrificadas de reis imperadores senhores e ditadores
que impõem as leis e a ordem que lhes convém a ferro
e fogo se necessário for e continuam a distribuir os benefícios
irrecusáveis da sua iluminada e superior orientação
espalhando generosamente os seus impostos impostos até pela
força se necessário, exigindo as décimas do
produzido mesmo quando as décimas exigidas era tudo o que
era produzido ou até mais do que era produzido, recolhendo
as dízimas que dizimavam entre o povo todas as esperanças
de uma razoável colheita... Tudo para bem de todo povo e
de toda a humanidade que eles, os senhores, guardavam e protegiam
como rebanhos de ovelhas cegas e bem comportadas...!
E foi assim que uma onda de juventude generosa e empreendedora invadiu
a Serra e aprendeu com aquele velho jovem Pastor... aprenderam a
percorrê-la em todos os sentidos até às suas
cavernas mais secretas... aprenderam a distribuir entre si os trabalhos
e os proveitos, os rebanhos e os alimentos... Juntavam-se em grupos
que deram origem a dezenas e dezenas de povoações...
sustentavam-se... socorriam-se... defendiam-se... raramente precisavam
de atacar... E foi assim que uma onda de juventude generosa e empreendedora
invadiu a Serra e aprendeu com aquele velho jovem Pastor a respeitá-la
e a amá-la para a conquistar...
Passaram
muitos anos. Ali viviam aqueles povos isolados habitando as cavernas
e morando em casas que nasciam das pedras e do que a serra dava
plenamente integrados irmanados com a terra a serra! Quase ninguém
os conhecia. Os raros que ouviam falar deles empreendiam então
a longa viagem e, como peregrinos viandantes e mercadores iam à
procura do que aqueles povos lhes podiam dar... as peles que lhe
sobravam, a lã, o leite dos seus animais, os queijos e as
manteigas de sabor tão raro, as carnes, as plantas misteriosas
que curavam tantas doenças, as águas que purificavam
e faziam andar os coxos... os ares que quase ressuscitavam os mortos
pois rejuvenesciam os doentes já desenganados por todos os
médicos e curandeiros... e o esplendor de um firmamento sem
fronteiras nem limites para olhar os astros as estrelas e as constelações
e enfim aprender a lê-las... a ver a olhar o sol e receber
a sua luz!. No meio daquela vida simples de gente simples profundamente
ligada à Serra à Terra, aqueles que os procuravam
de coração puro, podiam dizer com verdade as palavras
da Bíblia: os coxos andam, os cegos vêem, os mortos
ressuscitam... parecia que ali tinha chegado o sinal dos tempos
anunciado pelos profetas!!! Um dia, quando uns viandantes perguntaram
por curiosidade pelo velho pastor jovem de que ouviam falar em toda
a parte e se por acaso o poderiam encontrar para o verem, falarem
com ele e poder dizer em toda a parte que o tinham visto tão
lendário e famoso se tornara, foram-se apercebendo de que
todos praticamente o conheciam mas ninguém sabia ao certo
onde se encontrava e em que lugar vivia. A sua presença estava
em todos os lugares e os próprios habitantes da Serra deram
conta que há muito o não viam pessoalmente nem sabiam
para onde tinha ido. Havia de aparecer um dia como sempre acontecia,
mas há muito muito tempo que isso não acontecia e
isto verificava-se em todos os lugares por onde passavam esses peregrinos...
O Pastor que conquistara a Serra porque eu a Serra o seduzira e
conquistara e possuía todos os segredos dos meus tesouros,
de todos os meus mistérios e encantos de todas as lendas
e nomes de todos os meus cantos vales cabeços covões
penhas poios penedos fragas e figuras e formas que as pedras e os
montes formam... Quando finalmente ele me possuiu toda e recebeu
dentro de si tudo tudo o que eu, a Estrela lhe comunicara, multiplicou-se
nesses povos que enchem a Serra e assim se tinha entregue totalmente
de tal modo que se transformou em mim, a Serra, a Estrela!!! Transformado
em Estrela brilhante, ele aponta com seus raios e sua luz os lugares
secretos das imensas riquezas que eu, a Serra, guardo no meu ventre!
Quase
terminava aqui a minha história. A do Pastor da Serra da
Estrela. Mas não termina. Aquele Pastor agora multiplicado
em mil por mil lugares ali vivia em comunhão com a Serra
a Terra e as Estrelas...
Afinal
a História Continua...
(ou
a possível LENDA DE VIRIATO)

...
inesperadamente, um dia, mesmo sabendo que eram gente pacífica
e sem armas, mas fortes e valentes que sabiam manejar as pedras
e os cajados com que pasciam os seus rebanhos e habituados à
vida dura e agreste no meio das florestas e crestados ao rigor das
estações aguentando como filhos da terra as intempéries
do inverno como os rigores do verão, chegou àqueles
povos um pedido de socorro de povos seus irmãos do norte
da Ibéria. nessa altura, os filhos de Luso ou Lisa que terão
sido filhos de Baco ou companheiros como diz o poeta maior, já
se espalhavam entre o Douro e Tejo e se estendiam por terras de
Castela. as gentes da Galiza estavam a ser alvo da cobiça
dos Fenícios e Cartagineses que até aí tinham
sido pacatos mercadores e viajantes amigos... começara a
guerra. era no ano duzentos antes de Cristo e como os cartagineses
andavam em guerra com os romanos estes povos fizeram-se seus aliados
para os combater. em má hora. soava a hora de se acabar a
paz na Serra... esta aliança acendeu a cobiça dos
romanos senhores do grande império que ali viram uma oportunidade
de se estenderem ainda mais.
tendo
destruído Cartago os romanos ambiciosos foram alargando as
suas fronteiras e ciosos da sua superioridade pelo poder das suas
legiões e pela sua cultura foram alargando as suas fronteiras.
muitos povos da Ibéria submeteram-se sem luta. recebiam como
dádiva generosa os benefícios da sua poderosa protecção
contra outros povos e as vantagens da sua civilização
avançada, do seu poder de organização e administração
com as promessas de um progresso e desenvolvimento que muitos desejavam...
tarde davam conta que tinham perdido a sua independência e
liberdade.
avançaram
até às fronteiras da Lusitânia até onde
já chegava a influência dos montanheses herdeiros da
rebeldia, independência e liberdade do velho pastor jovem
que conquistara a Serra. hei-los de novo em armas. quando viram
que os seus povos corriam perigo de ceder aos romanos, da mesma
maneira que tinham socorrido os povos de Cádis, vários
chefes juntavam os seus pastores que se transformavam em guerreiros
e assim iam mantendo os romanos nos limites que lhes convinham...
não queriam a guerra! queriam tão só que os
deixassem em paz com a sua terra, os seus rebanhos a sua Serra...
não contavam com tal resistência o orgulho e a arrogância
dos romanos... povos pequenos e incultos organizados muito desorganizadamente
em clãs e tribo dispersas! como se atreviam a enfrentar um
império que lhes oferecia uma cultura e uma civilização
mais desenvolvida? consta que um chefe, de nome Púnio, conseguia
manter uma defesa eficaz e suficiente. nos acampamentos onde os
seus pastores guerreiros se agrupavam para preparar as suas incursões
e onde se reagrupavam depois dos combates por vezes ferozes, acendiam-se
fogueiras monumentais, e um velho de barbas brancas chamado Alípio
era o melhor contador de histórias um velho contaouvidor
de histórias... e contava as histórias do velho pastor
jovem que conquistara os montes ermos e como tinha vencido, sozinho,
o tal rei do mundo, e como tinham corrido em socorro dos povos amigos
do norte, eles que eram gente pacífica em paz com a terra
e com a serra... de entre os seus ouvintes, um dos mais jovens pastores
que por vezes fora guerreiro era um sonhador audaz corajoso e destemido
que se chamava Viriato... os seus olhos brilhavam como estrelas
com o reflexo das grandes fogueiras que iluminavam a noite e as
histórias do velho Alípio acendiam-lhe os olhos na
escuridão quando nas longas noites sem dormir contemplava
o firmamento iluminado por milhares de estrelas... se um pastor
sozinho venceu a insolência de um grande rei do mundo! ...
e sonhava, sonhava, mas quem era ele para realizar o sonho!?
um
dia correu a notícia de que Roma enviava finalmente um poderoso
exército nunca visto! quedaram-se nos limites dos povos que
se lhes tinham submetido. como senhores de um grande império
civilizado e civilizador não queriam conquistar os povos
insubmissos pela violência bruta e pela guerra cruel! as suas
legiões eram só para manter a ordem!!! convocavam
os povos da Lusitânia mais indómitos e resistentes
para uma reunião pacífica onde lhes seria exaustiva
e convincentemente explicadas as vantagens de uma tal civilização.
cansados de tanta guerra que os impedia de viver em paz na Serra,
estes povos rebeldes da montanha desceram a um grande vale. iam
como se fossem para uma grande festa e afinal iam como ovelhas para
um matadouro. homens velhos mulheres e crianças foram-se
juntando na margens do Tejo onde se tinha combinado a grande reunião
com os poderosos e compreensivos chefes das legiões de Roma.
quando souberam que os principais chefes que eram contra a dominação
romana se encontravam entre a multidão Galba mandou avançar
as suas legiões fortemente armadas e apoiadas por numerosa
cavalaria reforçada com elefantes que eles tinham integrado
nos seus exércitos desde a vitória sobre Cartago...ali
foram milhares de Lusitanos brutalmente atacados e chacinados como
faria o conquistador Cortês aos Astecas e Pizarro com os Incas
indefesos... ali estava a traição, o embustes, as
promessas de paz e prosperidade para todos que aqueles montanheses
desconfiados não entendiam nem queriam entender nem aceitar!
o vale ficou cheio de mortos! era um exército como nunca
fora visto naquelas paragens para difundir os benefícios
da cultura e da civilização!!! vinham à procura
de oiro e de poder para aumentar a imensidão de oiro e de
poder e de cobiça do seu imperador que já não
se contentava com os limites quase sem limite do seu império!!!
não era para isto que os montanheses tinham saído
da sua paz e tinham corrido a combater fenícios e cartagineses.
era para poderem continuar em paz, com a sua independência
e liberdade.
parecia
tudo perdido. Púnio que reunia o consenso da maioria dos
chefes lusitanos ficara entre os mortos. Viriato que o viu cair
ao seu lado, atacado por um elefante, derruba o guia que conduzia
aquele animal que tudo esmagava à sua frente e cavalgando-o
derruba aquele monstro com a sua faca de pastor como aprendera a
matar de um golpe os grandes touros bravos e os ursos que eram preciso
matar para comer e para se servirem das suas peles... junta-se aos
descontentes e revoltados que se refugiam na Serra e assume o comando
dos que estavam dispostos a não tolerar o domínio
a arrogância de Roma e nunca acreditaram na salvação
e nas promessas dos invasores. à volta do pastor mais arrojado
que conhecia melhor que todos os segredos da serra organizaram então
numerosos e repentinos ataques às legiões romanas
que nem tempo tinham para organizar as suas invencíveis estratégias
de guerra! atraíam-nos a emboscadas... esmagavam-nos nos
vales onde acampavam... precipitavam-nos nas gargantas temerosas
quando se atreviam a procurá-los mais nas alturas... com
tácticas imprevisíveis para a pesada máquina
de guerra dos orgulhosos romanos, os lusitanos de Viriato tornavam-se
desesperadamente invencíveis. combatiam todos, homens e mulheres.
as próprias crianças com as suas fundas de manter
os lobos à distância dos seus rebanhos chegavam onde
as lanças dos inimigos se tornavam terrivelmente inúteis...
era um povo em luta pela sobrevivência que recusava uma ordem
e uma paz imposta por reis e imperadores... contam os povos da Serra
que o rico Astolfas era dos homens mais influentes e poderosos que
apoiava Viriato e lhe dava guarida e protecção quando
precisava de refúgio. Vanídia a sua filha apaixonara-se
por ele e requisitava-o nos breves intervalos entre um e outro combate.
mas conta-se também que era Lízia, a filha de Idevor
que lutava lado a lado com o seu herói e animava aquela força
indómita que parecia renascer depois de repousar profundamente
no ventre de uma caverna secreta da serra que lhe servia de abrigo.
mas Lízia ou Lízias nunca apareceu como mulher. era
o guerreiro mais audaz e temerário que seguia Viriato como
a sua sombra!
depois
de Galba que é denunciado em Roma como traidor pelo velho
Catão perante os trezentos membros do Senado Romano, mesmo
assim Roma não desiste e envia Caio Vetílio ou Marco
Vitélio que encontrando os povos ainda mal organizados e
divididos consegue vitórias fáceis e faz recuar as
fronteiras dos Lusitanos. é perante esta ameaça que
os novos chefes das tribos e dos clãs que escaparam à
chacina de Galba decidem confiar a bracelete de oiro símbolo
da força indomável ao pastor mais audaz que já
dera provas de saber lidar com tão poderosos exécitos
e lhe impõem o colar com a víria símbolo do
comando. Agora era Viriato o chefe incontestado com a sua víria
o que de imediato lhe granjeou poderosos e mortais inimigos que
se afastaram para o manto protector dos invasores... confiante nas
suas vitórias, fáceis até aí, Vitélio
organiza a sua poderosa cavalaria e resolve atacar em fúria
um numerosos grupo de cavaleiros lusitanos industriados por Viriato
que dias a fio, de longe, faziam negaças ao inatacável
campo romano... era uma planície imensa. movimentar legiões,
pensa o convencido Vitélio pensando o que o estúpido
Viriato queria que ele pensasse, não dariam caça eficaz
àqueles atrevidos. os elefantes, seriam pesados demais quando
os velozes lusitanos se embrenhassem pela montanha... a cavalaria
é disparada em fúria cega para os surpreender em velocidade...
era exactamente o que Viriato tinha previsto. a planície
terminava num pantanal coberto de alta vegetação e
à aproximação dos romanos os velozes lusitanos
abrem-se pelos flancos em dois largos arcos e enquanto os primeiros
caem no atoleiro já Viriato e os seus homens estão
na rectaguarda do inimigo empurrando-os sobre os seus companheiros...
derrotado e humilhado este general, Roma envia Plâncio que
outros chamam Pláucio com dez mil soldados! sua cavalaria
e pesados elefantes. foram completamente dizimados na passagem de
um desfiladeiro que eles julgavam seguro e protegido! para vingar
esta afronta Cláudio Unimano que já tentara aprender
as inesperadas surpresas inventadas por Viriato organiza uma investida
poderosa para forçar os lusitanos a cair, em retirada, no
vale onde o confiante Caio Nigídio os aguardava com um exército
ainda mais poderoso. no momento em que Unimano se prepara para a
investida os sagazes zagais e zagalas soltos do corpo principal
dos guerreiros lusitanos caem de todos os lados sobre as suas legiões
logo atacados pelo grosso da coluna comandada por Viriato... e no
mesmo momento o acampamento das legiões de Nigídio
são esmagados e pulverizados por uma orda de touros selvagens
que os experimentados pastores assolaram sobre eles em correria
desenfreada que semeava a morte... vem ainda Caio Lélio,
mais prudente, que procura fomentar intrigas e divisões entre
as tribos e clãs já cansadas da guerra e invejosos
do poder que fora confiado a Viriato. sem êxito. Quinto Fábio,
outro experimentado general, fortemente prevenido e preparado para
todas as surpresas vem afinal a cair nas mãos dos pastores
sem luta. vem ainda Quíncio e depois Serviliano. novas artimanhas
e inesperadas manobras do infatigável e imbatível
Viriato batem todas as estratégias sabiamente estudadas e
poderosamente postas em prática pelas invencíveis
legiões romanas. Serviliano, ainda que vencido, tenta uma
cartada que porventura daria satisfação a Roma e domaria
aquela imbatível fúria lusitana. envia os seus mensageiros
com propostas para um tratado de paz e manda oferecer a Viriato
um cinto de oiro que o tornaria rei da Lusitânia por vontade
e às ordens do imperador de Roma! tantos anos de Guerra!?
não seria preferível a paz? os anos de luta e de chefia
não lhe granjeavam já o direito de acender às
vantagens do mando sem guerras! o poder corrompe! não estaria
já a produzir os seus efeitos? entretanto Roma mandara já
Pompílio e Pompeu em socorro do enfraquecido Serviliano para
reforçar o seu poder no terreno já conquistado e fazer
avançar os seus exércitos o mais possível e
finalmente Roma que criticou e retirou Galba por ter posto em causa
os princípios da civilização romana por causa
da traiçoeira chacina envia o prejuro e intriguista Quinto
Cipião com um imenso e vingativo exército! Mesmo assim
não ataca. envia mensageiros à Serra propondo um encontro
em que se possa discutir e rever o tratado feito por Serviliano.
Viriato, o portador da víria garante da honra e da fidelidade
à palavra dada e símbolo do comando e da independência
não vai. envia os três homens da sua maior confiança
experimentados conhecedores das artes de guerra dos romanos e da
sua cultura. são Minouro (Minuro), Ditallon (Dictaleão)
e Aulaces (Andaca). levam a incumbência de exigir que o tratado
de paz seja respeitado por Quinto Cipião e pelos seus poderosos
exércitos. que eles vivam na sua Pax Julia e o deixem a ele
Viriato e aos lusitanos viver em paz nos seus trabalhos e nas suas
choupanas que cobertas de colmo da cor dos campos tão bem
os defendem do frio e do calor e dos olhos cobiçosos dos
estranhos... a viagem dos três mensageiros é demorada.
são homens evoluídos e ambiciosos que podem ser trabalhados
por um intriguista refinado como é Cipião. tinham
sido escolhidos precisamente por terem uma educação
e um nível intelectual superior ao da maioria dos guerreiros
e assim estarem mais ao nível dos romanos. convinha dar a
ideia àqueles civilizados de que os montanheses também
tinham gente evoluída. são recebidos com todas as
honras. passam em revista as legiões mais vistosas do exército
romano com seus pendões e luzidias fardas... visitam cidades
e povoações que prosperaram sob a influência
e orientação dos pretores cônsules e administradores
romanos!!! que diferença! valia a pena continuar naquele
atraso e desconforto lusitano agravado ainda pelo desgaste de uma
guerra que parece não ter fim!?... estavam perdidos. ali
estava na prática muito do que eles tinham sonhado poder
proporcionar a todos os habitantes da serra. sabiamente seduzidos
por Cipião e seus generais com promessas de avultada recompensa
em ouro e notáveis cargos no exército ou na administração
das conquistas futuras... insistentemente trabalhadas as divergências
e a inveja que tinham a Viriato, um pastor inculto meio selvagem
autoritário e indomável... recebem ouro e partem para
cumprir a sua missão. não se fazem anunciar. chegam
de noite onde sabem que Viriato pernoitou. a confiança é
tanta e a ansiedade pela resposta que possa trazer alguma esperança
de paz é tamanha que têm acesso imediato aos aposentos
de Viriato que dorme. saem ainda pela calada da noite. no outro
dia se saberiam as grandes novas e o acontecimento que mudaria toda
a história! só uma traição tão
hedionda podia por fim àquele chefe providencial e genial
que dava aos lusitanos a oportunidade de manterem a sua liberdade
e independência perante uma guerra sem quartel a que eram
submetidos pela ambição desmedida dum imperialismo
desenfreado... era uma fatalidade! quando a traição
é descoberta os traidores estão prudentemente longe.
melhor do que ninguém eles sabiam como. mas nem chegam ao
acampamento principal. Cipião mandara assassinar miseravelmente
os três mercenários quando aterrorizados vinham receber
o prémio do seu horrível triunfo. intriguista e perjuro,
Cipião sabia bem que quem trai os seus não será
certamente fiel a estranhos que lhes pagam para trair. quem sabe
se não lhes pagariam para o atraiçoar a ele?!
quando
a notícia correu a Serra como um raio seguido de trovão
levanta-se um coro imenso e uníssono de dor e de vingança.
morte aos traidores! honra ao grande chefe! e logo chega a notícia
de que estão mortos. Vingança! clamam desvairados
os que se querem atirar sobre as legiões romanas em gesto
suicida. como?! se nem Viriato se atrevia a combater sem hábil
preparação um tão poderoso exército
ainda por cima em estado de alerta e prevenido... revoltados desanimados
e clamando vingança é em multidão que se junta
para celebrar os funerais de Viriato. é erguida uma enorme
pira no alto da montanha. os guerreiros revezam-se para o transportar
o chefe adorado até ao alto e o barulho das armas a bater
nos escudos e os gritos de vingança enchem os vales... Durante
dias e dias os druidas celebram-se as cerimónias rituais
em honra do deus Endovélico e quando o fogo é lançado
a enorme pira transforma-se numa fogueira abrasadora que transforma
a serra em estrela cintilante e as danças guerreiras atingem
o delírio misturado com os gritos de dor e luto de ódio
e de vingança... que deus e os manes nos protejam agora que
nos enviou um grande chefe e agora permitiu que morresse à
traição!
no
meio da confusão dos gritos dos coros e dos choros e no meio
dos cantos de guerra e de festa que se iam desenrolando à
roda da pira ardente agora num imenso braseiro os pastores guerreiros
querem eleger um chefe que conceba uma pronta e adequada vingança.
quem vingaria melhor o chefe morto senão o belo Suldório
aquele valente guerreiro duma beleza estranha e triste que viera
do sul logo que Viriato assumira o comando e que se tinha tornado
o seu maior amigo e companheiro inseparável e que o tinha
salvo em tantos perigos e emboscadas? Vingança! Vingança!
a víria ao belo Suldório que assuma o comando. Mas
Suldório, o belo Suldório como era conhecido, estava
junto à pira chorando incontroladamente olhando o corpo do
amigo que se transformava em cinza. surpreendido pelo clamor geral
que o aclamava, para surpresa geral, o intrépido guerreiro
rasga as vestes e precipita-se naquele braseiro abraçando
o corpo quase consumido pelas chamas. era uma bela e formosa mulher
dizem os que a viram atirar-se ao fogo para ali consumir a sua paixão
que a trouxera de longe para o lado de Viriato mas que sempre se
vira suplantada por Vanídia que tinha os seus favores e lhos
podia retribuir! era Lízias o seu companheiro inseparável
que o acompanhava por todo o lado como uma sombra e chorava desesperado,
agora desesperada, por não ter podido evitar a traição.
contam ainda aqueles que assistiram que os dois corpos finalmente
unidos a arder levantaram uma grande faúlha incandescente
que se ergueu acima do braseiro, ergueu-se mais, voou ao céu
e quando a tentaram seguir com o olhar eram uma estrela brilhante
faiscante que naquela noite brilhou mais ali sobre a serra e lá
continua a brilhar no céu distante ali tão perto do
alto da Serra da Estrela!
é
Tântalo o Lusitano que vai herdar a víria e comandar
a vingança contra Cipião. perante tanta baixeza e
iniquidade dos romanos aparece Sertório, romano que se oferece
aos lusitanos para combaterem mais eficazmente os inimigos. sucedem-se
ainda outros chefes que durante mais de um século conseguiram
resistir aos sucessivos exércitos romanos e seus aliados...
estávamos no ano cento e trinta e oito antes de Cristo e
só no ano dezanove antes de Cristo se dá a rendição
da Península que é ocupada pelos romanos até
ao século sétimo da nossa era em que os árabes
vão subindo até às Astúrias onde se
refugiam os resistentes...
quantos
anos séculos correram até hoje! quem somos e donde
vimos os que hoje habitamos estes montes? dos romanos restam castros
e vias empedradas ainda visíveis nalguns pontos da Serra
e muitos outros vestígios. há um Campo Romão
a caminho das Penhas Douradas, mas em muitos lugares ermos, não
há sinal da sua passagem. houve sempre os que se bateram
pela sua independência e liberdade dispensando o brilho da
civilização romana tentando manter a Serra como esteio
estrela para todos os povos da península. da passagem dos
árabes, teria para te contar a lenda dramática da
moura Alfátima que fugiu à perseguição
dos cristãos refugiando-se no monte que tem o seu nome e
onde espera o regresso dos que a virão salvar!
aí
tens Zé da Serra a história da minha serra a minha
história. sempre longínqua e distante, foi sempre
terra de pastores e dos que trabalharam as lãs e o leite
quase esquecida e ignorada por todos. apareceram em mil oitocentos
e oitenta e um os cientistas que vieram para desvendar os mistérios
e desvelar os segredos! honra ao seu trabalho pioneiro, mas ficaram-se
muito pelos dados científicos e pelos números e explicações
superficiais que para eles eram muito profundos! de resto, desapareceram
florestas, replantaram florestas. quase desapareceram as pastagens
para os imensos rebanhos... interesses obtusos e ínvios têm
desfigurado a minha Serra!
como
os Maias, Incas, Azetecas, os Índios da América e
os da imponente Amazónia também os indomáveis
Lusitanos foram dizimados e dispersos... que aconteceu a estes povos?
todos vencidos à força de traição, da
ambição, da ganância, da cegueira, arrogância,
temeridade e prepotência dos grandes povos civilizados - civilizadores
que se encarregaram de DAR, oh! DOR!, a todos os povos que chamaram
atrasados, selvagens, incultos, terroristas..., os benefícios!
da sua civilização, da sua religião, da sua
verdade, da sua política, da sua democracia, dos seus valores,
das suas crenças... dos seus defeitos e crimes... em nome
de deus e de deuses e do diabo... em nome do direito e da justiça...
e do direito de conquista... em nome da ciência e da cultura...
sobretudo em nome de uma civilização apoiada num deus
criador do universo e detentora de uma única verdade para
todos, em nome do respeito pela pessoa humana... em nome da família...
quantos crimes cometidos em nome das coisas mais sagradas que foram
profanadas e tornadas obscenas até à náusea
e ao nojo pelo modo irracional e vergonhoso como foram impostas
e que, em vez de encherem de vergonha e repúdio público
os que cometeram tais monstruosidades, são exaltados e promovidos
a heróis pela imortalidade da história, na história
que tem sido oficialmente divulgada, considerando grandes conquistadores
e heróis os que podiam ter descoberto a grandeza variedade
e unidade deste vasto mundo tão pequeno!!! como é
que é feita a história? quem faz a história?
como é que é contada a história? quem conta
a História? qual é a versão da história
que é oficializada? por quem? porquê? para quê?
até agora foram consagrados como grandes heróis da
humanidade os grandes descobridores e conquistadores como modelos
de uma humanidade civilizada que se erigiu como modelo dominado
pela sede de conquista pela ambição loucura e insensatez
humana que parece não querer parar enquanto não conquistar
tudo o que lhe foi dado, mas à sua maneira de conquista sem
conquistar, sem aceitar as diferenças, sem respeitar, sem
admitir que há outras verdades, outras crenças, outros
valores, outros costumes, tradições, direitos... sem
tolerar os defeitos... sem aceitar o direito ao lazer e à
preguiça... Uma sociedade desenvolvida que sonha atingir
um nível económico que permita aos privilegiados o
lazer, o direito à preguiça, o direito a consagrar
o seu tempo ao que mais gostam ao que lhes dá prazer àquilo
que os realiza como pessoas humanas, não suportou ter encontrado
clãs tribos povos que tachou de selvagens, atrasados, incultos
que já realizavam este ideal!... vemos uma sociedade modelo
que se desprendeu das sua raízes, cortou as suas ligações
vitais, não respeita mais a sua mãe natureza e a sua
integração intrínseca no cosmos... que confundiu
o corte do cordão umbilical vital, com a irrecusável
e fundamental ligação às suas raízes,
às suas fontes... é ver como ainda agora as grandes
nações civilizadas que não souberam respeitar
e guardar as suas raízes primitivas das suas gentes, da sua
mãe terra, que destruíram as suas florestas, que poluíram
os seus rios, se impuseram como modelos, andam agora por aí
a gritar aos povos que chamam atrasados que não poluam...
que não agridam... que não destruam... que não
esqueçam as suas raízes... que copiem a suas democracias,
os seus modelos, a sua liberdade, o seu progresso, o seu desenvolvimento...
que combatam a fome e a miséria que a sua interferência
civilizacional as suas leis, os seus crimes, as suas imposições
e o seu modelo lhes impuseram!... ver como as sociedades desenvolvidas
estão a permitir o aparecimento de grupos e movimentos que
agora, passados séculos, se lançam à descoberta
das ruínas, dos vestígios, dos valores que eles próprios
varreram e destruíram como retrógrados, como selvagens,
como indignos da sociedade humana!!!
afinal
por onde caminha a humanidade? por onde e para onde quer caminhar?
quais são afinal as forças dominantes? as elites que
dominam pela força pela economia e pela cultura institucionalizada?
ou as maiorias herdeiras duma tradição milenar? sem
poder senão o da força das águas que as barragens
podem travar e rentabilizar mas não podem parar?! sem poder
económico?! sem voz e meios que dêem voz à sua
voz?!
estávamos,
estamos numa encruzilhada! era, é a confusão! os que
se sentem filhos da terra... os povos com uma cultura ligada às
suas raízes, à terra que os pariu... entram em confronto
com os que já não se sentem filhos da terra... se
envergonham dela como os que singraram na vida se envergonham dos
seus pais pobres e analfabetos que permaneceram rurais, atrasados,
ligados à terra... sonho querido e possibilitado por esses
próprios pais que se sentiram marginalizados pela sociedade...
e produziram o tipo híbrido de desenraizados sempre saudosos
das suas raízes!... contradição! cruzamento
de conflitos! Quando é que o progresso e o desenvolvimento
vão crescer respeitando as suas raízes mais profundas?...
era
a confusão! que fazer nas horas graves em que a loucura e
a insensatez e a arrogância dominam sobre os amantes da paz
e da terra?! os lusos, como os maias os incas os azetecas os índios
os amantes da independência e da liberdade ligados às
suas raízes com a natureza e com a terra que os pariu, os
indomáveis... agora mortos... desaparecidos... os sobreviventes
agora dispersos e em fuga que haviam de fazer? na confusão
da dispersão, consciente uns, inconscientes outros, trocaram
os nomes dos espaços e lugares lançando ainda mais
confusão sobre os inimigos que invadiam a sua terra e a sua
serra abandonando-os aos mistérios da terra e da serra para
subverterem e inverterem a seu bel-prazer e imporem os seus modelos
e as suas soluções... passaram fenícios cartagineses
romanos conquistadores mouros faustosos e fanáticos com suas
lendas e lindas mouras de encantar, vieram visigodos celtas celtiberos
alanos suevos hunos e todos partiram vencidos e frustrados deixando
raízes vestígios palavras usos costumes... à
frente dos últimos conquistadores os resistentes das astúrias
que se lançam na luta da reconquista os cruzados da terra
santa e do condado potucalense e da tomada de lisboa aos mouros
e de santarém e de évora e de ourique e dos algarves...
do in hoc signo vinces... com verdades valores e certezas, com uma
civilização para impor... e como os outros encheram
a terra e a serra e as gentes com os nomes e os fantasmas e as ligações
que eles tinham com a serra e a terra e as gentes e as fontes e
os rios e as plantas e os astros... baptizaram tudo e todos! tentaram
apagar os nomes sagrados profundos e verdadeiros nascidos de culturas
mais ligadas à natureza? profanaram os nomes sagrados das
coisas dos tempos dos espaços dos lugares das formas que
as coisas formam profanaram os nomes das estrelas e constelações
que brilham no espaço? quem profanou o quê? quem mudou
o quê? que sentido têm os nomes das coisas e das pessoas?
que sentido tiveram? quem lhes deu os nomes? como se foram mudando
os nomes? lenta ou bruscamente? porquê? uma mentalidade que
se ia mudando e evoluindo ou fruto de rompimentos bruscos provocados
por uma revolução que pretendia tudo mudar e deixava
tudo mais ou menos na mesma?!
a confusão.
o caos. o caos normal do universo que afinal não se rege
pelas leis que nós supomos ou determinamos mas sim pelas
leis que é preciso descobrir e ver... ou o caos provocado
pela falta de lucidez de clarividência de verdade de justiça
de respeito...? E onde está a lucidez e a verdade?
antes
chamaram-me serra erma. Montes ermos ou Hermínios. talvez
nunca o tenha sido como agora! Serra avara, ciosa, estrela, terra
erma, guardo em mim os mistérios dos meus segredos e tesouros
e valores que tantos a todo o custo tentam desvendar escavando sulcando
rasgando desfigurando salvaguardando construindo destruindo limpando
arranjando emporcalhando sujando ornamentando civilizando enturismando...
até um dia... só no dia em que a ganância e
a ambição e a cegueira deixarem de dominar os homens
e mulheres e as mulheres e os homens deixarem de dominar e espezinhar
homens e mulheres e crianças e os animais e os seres e as
pedras e as coisas... então, é que o meu segredo se
revelará. quando souberem ver ouvir e ler, então a
estrela que brilha tão longe aqui tão perto falará
e a estrela serra terra se abrirá àqueles que tendo
olhos querem ver ouvidos querem ouvir nariz querem cheirar e boca
querem saborear e cantar e membros e pele querem sentir e sentindo
e cantando e cheirando e ouvindo e vendo querem perceber e entender
o sentido profundo das coisas que eu revelo com as formas que têm
as pessoas e as coisas e os seres e as flores e as fontes e os montes
e os vales... e as estrelas... e entendendo as amem. porque tal
como toda a água das nascentes e das fontes e cascatas e
corgos e ribeiros e ribeiras e rios... corre para o mar, assim tudo
o que é fonte de água vida corre para Amar.
é
esta a minha história Zé da Serra, Zé Ninguém.
é esta a minha história verdadeira para ti, para tu
leres o universo infindo, para te leres, que eu te contei em segredo
do alto do ano de dois mil metros com os pés assentes no
chão a nove ou sete metros anos de distância do dois
mil. conta-a, Zé da Serra. divulga a minha história
secreta que cada um terá de descobrir e inventar chamando-me
pelo nome e, inventando procurando descobrindo achando adivinhando,
encontre de novo o nome das coisas e das pedras e das pessoas e
dos sítios e dos lugares e tempos em cada tempo e lugar redescobrindo
e recriando as lendas que se perdem e renascem cada vez que são
contadas... aprendendo afinal a ler as letras de um alfabeto secreto
aberto às escancaras nas alturas aos olhos de todos para
todos poderem ler desde que eu existo serra-terra... faz-te ouvir
por todos nesse mundo de homens loucos que só pensam em guerras
e conquistas e pensam que sabem tudo mas não fazem, e se
não fazem é porque não sabem ou fazem sem pensar
e então fazem mal porque não pensam e então
passam a vida em conflitos e intrigas sem fazer e sem deixar fazer
os que pensam e sabem e querem tempo para pensar e para fazer porque
enredados em redes de rendas labirintos sem saída que provocam
o cansaço o desgaste a morte sem sentido, sem prazer, sem
a felicidade de se tornar vida! é essa a tua responsabilidade
Zé da Serra do Vale do Zêzere nesta viagem única
à minha Serra Terra Sterra, viagem súmula das mil
viagens dos milhares de viajantes, que só eu posso proporcionar
a cada um colectivamente, de cada vez ao mesmo tempo, a um lugar
a todos os lugares, à sua serra à sua terra que é
a Terra toda o Mar A mar o espaço.
tu
és louca serra terra. deixa-me falar assim já que
passado tanto tempo tanta história chegámos a esta
intimidade... afinal tu és ainda mais louca do que eu e do
que me tinham contado. quem sou eu para me fazer ouvir? já
não estamos no tempo das histórias da Carochinha ou
da Gata Borralheira ou da Bela Adormecida! os homens de hoje já
não acreditam que é o menino Jesus que põe
a pedra no sapatinho na noite de Natal. já não acreditam
em estrelas que falam e têm segredos e mistérios. não
há mais mistérios para os homens que são também
mulheres. têm livros, enciclopédias, ciências,
têm a Ciência e centros de saber. têm máquinas
e até fabricam estrelas de um firmamento fabricado por máquinas...
e têm jornais e revistas e rádios e cinemas e televisões
e meios de comunicação cada vez mais avançados
em que uns comunicam e os outros são comunicados... e inventam
estrelas que falam e até dizem os sabonetes ou os sabões
que dizem que usam para serem belas e assim se tornaram estrelas...
e têm jogos que dão prémios a qualquer hora
do dia ou da noite e lotarias e totobolalotos que resolvem escondem
os problemas dos que não têm salários de miséria...
e têm salvadores e ministros e ministras e presidentes e eleições
e deputados e santos e messias e até aparições
e salvam a humanidade todos os dias... e param inflações
e sobem inflações... até mandam jogar na bolsa...
e com duas penadas o que ontem era insucesso hoje é sucesso
e vice-versa sem nexo ou sem sexo... e até ensinam e oferecem
a cultura aos incultos tudo já em caixinhas muito enfeitadinhas
e prontas a servir e irresistíveis... deite a sua cultura
fora como os móveis velhos e adquira esta ao melhor preço!!!
...e têm máquinas para escreverem as falas de alguns
que podem falar em nome de milhões porque têm milhões
e os milhões que não têm milhões não
precisam de falar porque não têm nada de importante
para dizer... e para salvarem a civilização e os milhões
matam ou mandam matar ou deixam que morram milhões dizendo
que salvam milhões... e têm até máquinas
que voam a caminho das estrelas e as lêem e ficam finalmente
a saber do que são feitas o que têm e o que não
têm porque elas coitadas! não sabem nem há ninguém
que saiba... eles já sabem tudo, estrela. têm até
sábios e escolas se aprende tudo sem precisar de ir à
tua realidade de terra ou serra porque já vem tudo nos livros
e nas máquinas que inventaram e fabricaram e ali resolvem
tudo e tudo decidem... e como há muitos que já sabem
tudo embora não saibam as mesmas coisas já pouco falam
uns com os outros... tentam falar uns para os outros a ver quem
fala mais alto e quem fala mais alto é quem tem as melhores
máquinas... não vale a pena perder tempo porque já
têm tudo... têm ciência e cientistas... têm
religiões... têm partidos... inteiros ou íntegros
parece que já não há ou há muito poucos...
têm até democracia... Democracia?! não se sabe
bem!... têm revoluções quando não têm
democracia e ficam cansados de não a ter e depois e depois
fazem outras revoluções quando já estão
cansados de a ter... têm nações poderosas que
mandam nas outras e lhes dizem o que podem e não podem fazer
e depois e depois vão libertar os povos oprimidos pelas nações
que querem ser grandes e ter poder como elas e depois podem-lha
tirar outra vez se não sabem usar a liberdade que lhes foi
tão prodigamente oferecida como deve ser... e têm exércitos
e armas infernais em quantidades infernais prontas para intervir
em qualquer lado e a qualquer momento mas quando começam
a ser demais e o que é demasiado é perdido vão
negociando a redução dessas quantidades para ver se
ficam só com o suficiente para poderem mandar... depois de
negociar ou para negociar viajam visitam-se abraçam-se...
depois zangam-se depois fazem as pazes... juntam-se aos molhos em
sociedades economicosociopoliticoculturais e in/dependentes ...
têm tudo serra-terra! e tu mesmo terra-serra um dia destes
apareces aí civilizada e defendida e enfeitada pelos defensores
de todos os valores e ainda te vais rir quando vires o que restar
de ti SERRA-TERRA... então pode lá ser? Assim agreste
rústica tortuosa!... com tantos pedregulhos... selvagem...
com tantos precipícios onde as criancinhas podem cair coitadinhas!
com uns montes mais pequenos do que outros... uns pedregulhos maiores
outros mais pequenos!... uns rios que são rios outros que
não são!... mas que bagunça!... que desordem!...
que caos!... mas então a ordem e a democracia e a organização
tudo como deve ser? Sabes uma coisa? Estou mesmo a ver-te, SERRA-TERRA,
transplantada para este inconcebível inadmissível
incrível imaginoso fantasioso perigoso tortuoso desorganizado
indecente revoltado intrigante sedutor prodigioso livro que chamei
VIAGEM · MINHA STERRA dum miserável zé da serra
do vale do zêzere, louco que quis meter a tua grandeza e beleza
numas páginas em branco cobertas de palavras!
têm
tudo os homens de hoje! quase tudo! menos o essencial. donde vimos?
que estamos cá a fazer? para onde vamos? que há para
além da morte? os mistérios da vida e da morte, da
liberdade e da felicidade, do Amor! a felicidade alegre contagiante
criadora geradora de felicidade e liberdade em criação!
vai,
zé da serra. eu te ordeno, zé da serra, zé
ninguém, zé da serra do vale do zêzere de lado
nenhum de todo o lado e de toda a terra nenhuma e de todas e nenhuma
estrela... fala as minhas falas que são deles a todos os
homens que são homens e mulheres e crianças de todos
os géneros e números e casos de todas as idades e
tempos... agride se for preciso... claro que não podes agredir.
...grita, insulta, pragueja, ruge... claro que não podes
insultar e ser malcriado. ...fala doce como o canto das fontes e
duro e forte como o trovão... corre manso como o regato de
água pequenino e discreto que ninguém pode parar,
ou em fúria avassaladora como as cascatas e os rios caudalosos
que arrastam tudo à sua frente, ou como a chuva! miudinha?
ou em tromba de água? fica manso como as águas de
um lago, ou como as ondas do mar calmo, ou como ondas alterosas
vagalhões destruidores?... sopra suave como a brisa ou leve
manso e constante como o vento que por vezes ataca em vendaval desfeito
estonteante soprando de todos os lados ao mesmo tempo e destrói
em furacão feroz... ninguém pode construir insensata
e irreflectidamente uma barragem prisão sem nexo nem juízo
para ali aprisionar as águas sem lhe dar saída! ...
ninguém, ouviste bem, ninguém pode parar a força
impetuosa de um pequeno fio de voz de água corrente que corre
sempre sempre para a foz... fala. não te vão ouvir.
hão-de te ouvir. hão-de me ouvir... pelo menos os
amantes da serra, os amantes da terra...
para
eles, a(qu)í fica toda uma história verdadeira por
inventar para inventar e EN/C/A/O/N/T/R/AR!? porque eu é
que existo, zé da serra. tu e o teu prodigioso livro de viagem
à sterra que nem é viagem nem é serra nem é
terra, não existe. eu a prodigiosa serra/terra/estrela é
que existo e sou a mãe a fonte o ventre a madre e posso permitir
que se criem livros contos lendas que prodigiosamente podem criar
uma viagem através dos tempos e espaço do ventre da
serra terra estrelas galáxias universo...
à
2ª parte desta versão, decidi chamar também a
LENDA DE VIRIATO

E
daqui pode passar para A/s LENDA/s de ALFÁTIMA
A
MOURA DE MANTEIGAS...!

A Lenda do PASTOR
da Serra da Estrela (completa)
(em eBOOK,
AQUI nesta PÁGINA da minha TEIA na REDE)
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