Serra da Estrela - Manteigas

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Fátima I

"Fátima Lenda de S. João na Beira-Baixa."

Texto de Eduardo Noronha

Fátima - in Contos Populares e Lendas, coligidas por José Leite de Vasconcelos, coordenação de Alda da Silva Soromenho e Paulo Caratão Soromenho, edição Por Ordem da Universidade - Coimbra, 1966, II vol. Pp. 775 - 782
[De A Federação Escolar, 3.VII. 1909, Porto. Texto de Eduardo Noronha. Foi publicada com o título "Fátima Lenda de S. João na Beira-Baixa."

 

Manteigas, vila da Beira Baixa, (Beira Alta - nota) é uma das mais antigas povoações do País. Rodeada pelas montanhas alcantiladas da Serra da Estrela só tem uma saída.
Pode comparar-se a um monte de pedras, agrupadas no fundo dum poço seco. Sucede que, no Inverno, vários ribeiros, que se despenham dos cerros vizinhos, atravessam o povoado com um fragor temeroso e arrastam consigo fragas enormes, de algumas toneladas de peso, que ameaçam, com frequência arrasar a vila.
Um pouco arredada das manifestações da civilização, a gente de Manteigas conserva ainda a pureza dos costumes primitivos, ? é sã e de bons instintos. Dentro dos seus gabões com capuz, que raras vezes largam, encontram-se ainda as antigas virtudes dos velhos Lusitanos.
Manteigas foi, em tempo dos Agarenos, terra de importância, pois teve o seu alcaide ou emir, autoridades a quem os cronistas menos eruditos chamavam reis.
É dessas épocas que data a lenda que as av6s beiroas contam, assentadas à lareira, nas noites longas de Inverno, a fiar o linho ou a lã, em redor da fogueira vivificadora, às netinhas de olhos arregalados.
A duas léguas da vila, ergue-se altivo, e a miúdo revestido de alvíssimo manto de arminhos, o píncaro de Alfátema, o cabeço mais elevado da Serra da Estrela. O panorama que de lá se descobre, em dias claros, é coisa assombrosa. Muita gente que tem visitado a Suíça talvez nunca se lembrasse de fazer uma ascensão até esse ponto, onde com certeza ficaria maravilhado com a vista soberba que dali se goza. Sucede isso frequentemente : irmos procurar fora aquilo que possuímos em casa.
Então, quando a neve envolve como numa túnica de linho branco todos aqueles cerros, vertentes e vales; quando o olhar se prolonga até a faixa azul do oceano dum lado, galgando por cima das aldeias, dos rios, dos lacetes angulosos das estradas, da mata do Buçaco, dos campos escuros sulcados de fresco pela charrua; e do outro, até às planícies extensíssimas da Estremadura espanhola, demorando-se um instante a profundar as quebradas, a analisar a torre alvarrã da cidade da Guarda, o terreno penhascoso próximo da raia e os extensos olivedos até Ciudad Rodrigo, a alma dilata-se como na contemplação duma maravilha, que é, da Natureza.

Mas vamos à lenda.
O montante cristão não dava repouso à cimitarra muçulmana.
Mais fortes os Nazarenos, ou mais felizes, levaram de roldão os sequazes de Mafoma. Repelidos de combate em combate, perseguidos sem mercê, era-lhes impossível transportar todas as riquezas adquiridas durante sécu1os. Recorriam então ao expediente de as ocultar nos sítios, que julgavam mais adequados.
Principia aqui a dar largas à sua expansibilidade a imaginação popular. Esses tesouros eram, no dizer do povo, guardados por mouras encantadas.
O rei agareno de Manteigas tinha uma filha chamada Fátima. Era formosa como uma visão do paraíso prometido por Maomé e o pai estremecia-a como a fibra mais sensível da sua alma. Os cavaleiros cristãos das vizinhanças empregavam os maiores esforços para se apoderarem dos seus estados, cativarem a filha e assenhorarem-se dos seus bens e jóias.
O rei quis resistir, abrigado com as muralhas da cidade, mas como as hostes assaltantes eram em número descomedido e a resistência seria uma loucura, resolveu fugir pelos carreiros mais escusos da serra, levando a filha e o resto das riquezas, que ainda não tinham sido postas em lugar seguro.
Andaram, andaram durante todo o dia, mas ao anoitecer Fátima não podia dar mais passada, morria de cansaço. A conjuntura era temível. Como socorrê-la naquele descampado, no sítio mais agreste da serra? De súbito, na sua frente, abre-se um esplêndido caminho todo florido, calçado de pedras finíssimas, e ao cabo dele, um foco de luz que iluminava tudo como se o Sol brilhasse no Zénite.
Era como um milagre operado pelo Profeta, a salvação que surgia a alguns passos. Então o rei, a filha e a comitiva sentiram a esperança renascer-lhes no coração. Seguiram a estrada que se lhes abria na frente e entraram num palácio resplandecente, tão cheio de coisas magnificas que todos se quedaram deslumbrados.
O que depois se passou nunca ninguém o soube, mas nos dias imediatos viram os serranos subir e descer pelas encostas diversos pastores, que ninguém conhecia na localidade. Demoraram-se algum tempo por aqueles sítios e faziam repetidas visitas ao Coruto de Alfátema, nome por que se designava o cabeço. Um belo dia desapareceram e nunca mais ninguém lhes tornou a pôr a vista em cima.
Esses pastores eram mouros disfarçados, e foi por indiscrição deles que se soube que uma boa fada, madrinha de Fátima, a prometera guardar na sua vivenda encantada, sempre jovem e formosa até que os fiéis sectários do Alcorão conquistassem de novo Portugal.
Esta crença estava arreigadíssima no animo dos camponeses, e durante os séculos XIl e XIII era enorme o pânico, na persuasão de ver chegar os esquadrões mouriscos em busca da linda Fátima.

A lenda ainda tomou mais corpo no espírito crédulo dos simples aldeões quando, poucos anos depois de os Cristãos tomarem Manteigas, se deu o acontecimento que vamos narrar.
Uma pobre mulher, das mais miseráveis da localidade, teve de passar, de madrugada, no dia de S. João, pelo Coruto de Alfátema. Sentindo-se fatigada, sentou-se num dos muitos penhascos que por ali abundam para descansar e comer algumas côdeas de pão que trazia.
A boroa, dura de muitos dias, quase não se podia tragar. Quando a desventurada dizia mal à sua vida por ter de ingerir um tão pouco alimento, viu a seu lado um vasto estendal de figos secos.
Comeu alguns, e, lembrando-se dos filhos que choravam longe, encheu deles uma cesta que levava.
Dirigiu-se lépida para a choupana, gozando antecipadamente da alegria que ia proporcionar às crianças. Qual não foi, porém, o seu pasmo, quando, ao destapar a cesta, em vez de figos se lhe deparam diamantes e reluzentes moedas de ouro.
Estava rica. Mas a mendiga que minutos antes dera graças a Deus por ter só pão para saciar a sua fome e a dos seus, sentiu mordedura da ambição. Um cabaz de pedras preciosas e de boas dobras de ouro já era pouco para ela! Queria ser riquíssima.
Volta apressurada ao Coruto. Mas o Sol, que subira de todo no horizonte e que refulgia agora no imenso céu sem nuvens, arrancava da superfície polida dos fraguedos miríades de cintilações ofuscantes. O encanto quebrara-se, os figos tinham-se sumido.
Presa de uma grande aflição e desespero, arrepelando os cabelos, ia para blasfemar, quando ouviu uma voz suavíssima cantar .

Era teu tudo o que viste ;
A gora tornaste em vão!
Não passes mais neste sítio
Na manhã de S. João.
Não te perdeu a pobreza,
Pode matar-te a ambição.

(1) Reproduzimos a sextilha tal como a canta o povo de Mantejgas.

[De A Federação Escolar, 3.VII. 1909, Porto. Texto de Eduardo Noronha. Foi publicada com o título "Fátima Lenda de S. João na Beira-Baixa."]

[Segue-se outra versão literária da mesma lenda.]

Fátima II - Escrito por Branca de Cameira

 

 

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