Serra da Estrela - Manteigas

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Fátima II

FÁTIMA

Escrito por Branca de Cameira

Fátima - in Contos Populares e Lendas, coligidas por José Leite de Vasconcelos, coordenação de Alda da Silva Soromenho e Paulo Caratão Soromenho, edição Por Ordem da Universidade - Coimbra, 1966, II vol. Pp. 775 - 782

(Escrito por Branca de Cameira. Oferecido por D. Ana de Castro Osório. Fátima nas lendas de mouros: também em Wolf, Primavera, nº. 84-a, p. ,67).

Houve uma vez um rei moiro que vivia e governava em Manteigas. Possuía muitos e valiosos tesouros, e tinha uma filha muito bonita, chamada Fátima, a quem ele estremecia e amava loucamente.
Os Cristãos odiavam o rei moiro. e por isso faziam todas as diligências e empregavam todos os meios para cativarem a bela princesa, para conquistarem os seus domínios e para se apoderarem das suas riquezas, que eram enormes.
O rei, entrincheirado na vila, defendia-se das correrias e ataques dos seus inimigos, e neste sentido empregava todos os meios de resistência. Pensando, porém, que mais tarde ou mais cedo seria vencido e cairia no poder dos Cristãos, tratou de arranjar as suas malas, onde meteu os seus tesouros e todas as jóias e valores que tinha no seu palácio.
Num certo dia foi atacado por um poderoso exército de Cristãos, e ele, vendo que não poderia resistir por muito tempo, resolveu fugir e abandonar Manteigas. Numa noite muito escura, a fim de não poder ser visto nem pressentido pelos Cristãos, fugiu pelas mais ocultas e intransitáveis veredas da Serra da Estrela, levando consigo a sua querida e formosa filha, os seus vassalos e os seus tesouros.
Andaram e andaram muito, tropeçando aqui, caindo além, e quando estava prestes a romper a manhã, a linda e encantadora Fátima, de cansada, tinha desfalecido. Imagine-se o desgosto de D. Kalibab, que assim se chamava o rei moiro! Via a sua filha, tão amada e de tão surpreendente formosura e beleza, descalça, com os pés feridos a gotejarem sangue, e desfalecida e dominada por um invencível cansaço! Todos estiveram parados, durante algum tempo, sem saberem o que haviam de fazer, e a pensarem na sua triste sorte, quando esta, ainda havia bem poucas horas, tinha sido tão feliz.
O rei, apesar de guerreiro e austero, chorava como uma criança, e suplicava ao seu Alá, que era o seu Deus, que o protegesse naquela crítica situação, e que reanimasse sua idolatrada filha para continuarem a fuga.
Os passos dos lobos e das raposas que, a pequena distância deles, eram muitos, o sibilo do vento, que se quebrava e dividia nas anfractuosidades da gigantesca serra, pareciam-lhes os passos dos Cristãos que os perseguiam e os vinham roubar e matar.
D Kalibab, desvairado, passeava de um para outro lado neste sítio pedregoso e cheio de mato, e viu que na sua frente se abria uma formosa estrada, orlada de árvores e jardins, calcetada de pedras muito finas. Deu um ai, cheio de alegria, olhou pela estrada fora e viu que a distância não grande oscilava uma luz muito clara que iluminava tão bem construído quão formoso caminho. O Deus dos Moiros, que realmente é o mesmo que o Deus das Cristãos, porque Deus é um só, tinha ouvido as súplicas de um pai amantíssimo e atribulado.
Aquela estrada e aquela luz foram, para todos, um sinal de salvação. A esperança de se ver livre de perigos e de uma morte certa reanimou Fátima, que chamou a si todas as energias e que, com a rapidez do relâmpago, se levantou e se pôs a caminho.
O rei, Fátima e o seu séquito, mal tinham dado alguns passos, começaram a reconhecer que a luz provinha de um palácio que ficava no fim da estrada. Chegaram a este edifício, que era belo na forma e sumptuoso no seu interior. Estava todo iluminado, e tinha vastos salões, ricamente alcatifados e luxuosamente mobilados. Ali havia tudo, tudo quanto a imaginação mais caprichosa e exigente fosse capaz de apetecer.
Todos ficaram deslumbrados com tantas riquezas, tanto luxo e tão boa disposição de todas as cousas.
Chegaram a uma sala espaçosa e bem iluminada pelos primeiros raios do Sol, que nestas paragens são mais doirados que o mais puro e fino oiro, e deparou-se-lhes uma grande mesa coberta das mais delicadas e apetitosas iguarias que, em baixela de oiro lavrado, poisavam numa toalha de fino e alvíssimo linho beirão, fiado e tecido por mãos de fadas. Os guardanapos eram da mesma qualidade, os talheres eram de oiro, incrustados de brilhantes, e as garrafas e copos eram do mais fino cristal da Boémia.
D. Kalibab, Fátima e vassalos olharam uns para os outros profundamente impressionados e mudos com tanta riqueza e com a surpresa de um saboroso e opíparo almoço. Almoçaram. O rei, satisfeitíssimo com este encontro, chegou a uma janela e viu, com assombro, um extenso e bem cuidado jardim, em que se admiravam as mais delicadas e formosas flores. Chamou Fátima e séquito, que ficaram maravilhados e estonteados com tão surpreendente espectáculo, num dos montes mais elevados da cordilheira.
Saíram da sala, desceram por uma escadaria de mármore alvíssimo com corrimãos de polido e finíssimo marfim, e chegaram ao jardim. As fontes, os repuxos e os arbustos e árvores floríferas de inúmeras variedades tornavam verdadeiramente celestial aquela estância de fadas.
Numa das placas, feita com arte e primoroso gosto, via-se um arbusto, de folhagem larga, escura e carnosa, do qual se elevava uma haste, que terminava na extremidade livre por uma flor de extraordinária beleza. Era esta, sem dúvida alguma, a flor mais bela e mais encantadora do vastíssimo e bem cuidado jardim.
D. Kalibab, fascinado pelo surpreendente aspecto de flor tão rara e de cores tão variadas, tão magistralmente combinadas e de tão irresistível atracção, lembrou-se de a colher e de a oferecer à sua formosa e querida Fátima. Sem mais demora e sem mais reflexão, precipitou-se sobre o arbusto, curvou a haste, que era bastante elevada, e cortou a flor mimosa que sobressaia em todo o jardim e que o dominava como soberana, como rainha. Cortada a flor, saiu imediatamente de uma espessa mouta de arbustos uma grande e horrenda serpente, com a boca escancarada a mostrar os pontiagudos dentes e a língua bifurcada e seca, e com os olhos muito abertos e injectados, a traduzirem ira e vingança. Contorcendo o feio e escamoso corpo, e batendo com vigor, que metia medo, com a cauda nos arbustos, que esmagava, disse, em tom áspero e horrendo:
? Ingrato! Pagas com um roubo quase sacrílego e com a mais infame vilania a recepção e hospedagem principescas que a minha ama e senhora te proporcionou no seu palácio. Este sumptuoso edifício e vastíssimos jardins pertencem à fada Al-Fátima, madrinha de tua filha. a princesa Fátima, e tua comadre. É o que te vale, porque, se não fosse isto, matava-te já, bem como a tua filha e aos teus vassalos. Minha ama e senhora, a fada Al-Fátima, está ausente e a ela tenho de prestar contas pelo roubo feito no seu jardim. Para me justificar de tão criminosa ocorrência, fica em meu poder tua filha, e tu e teus vassalos saiam imediatamente destes domínios.
O rei moiro estava como que petrificado, ao ouvir as últimas palavras da serpente. Um gélido calafrio lhe percorreu o corpo.
A tremer e com a voz entrecortada, disse à serpente.
? Perdoai, Senhor, a minha ousadia. Da melhor vontade nos ausentamos destes lugares, mas permiti, Senhor, que leve em minha companhia a minha querida filha, que é a luz dos meus olhos e da minha vida. Sem ela prefiro a morte, por mais horrorosa que seja, porque viver sem a minha Fátima é milhões de vezes pior que morrer.
? Nem te deixo levar Fátima nem vais morrer. Sai imediatamente, com os teus, deste jardim e, para que os Cristãos vos não conheçam e matem, eu vos transformo em pastores.
Ditas estas palavras, o rei e seus vassalos representavam uns verdadeiros pastores da Serra da Estrela. Assim disfarçados, saíram do jardim e do palácio, onde ficou Fátima com sua madrinha Al-Fátima. A princesa ficou encantada neste palácio até que os Moiros voltem a Portugal.
O rei moiro e os seus vassalos, vestidos de pastores, ainda foram muitas vezes ao cabeço de Alfátema com o fim de verem a princesa, mas nem Fátima nem palácio tornaram a ver. Tudo estava encantado. O cabeço chama-se ainda hoje Alfátema, do nome de Fátima ou da fada Al-Fátima. Tudo isto aconteceu como fica dito e não há por aquele sítio pessoa alguma que duvide do acontecimento, que é comprovado pelo seguinte facto.
Há anos passou pelo cabeço de Alfátema, e na manhã do S. João, uma pobre mulher de Manteigas. Vinha de Mangualde e vinha muito cansada e com alguma fome. Sentou-se, tirou um bocado de pão de uma cesta e começou a comer. Olhou para o lado e viu uma grande porção de figos secos estendidos em tolhos. Encheu a cesta e partiu, para que não fosse vista.
Quando chegou a Manteigas já tinha nascido o Sol, e viu então que os figos se tinham transformado em valiosas peças de oiro, e em finíssimos brilhantes! Pegou num saco e foi a correr ao cabeço de Alfátema para o encher de figos, mas não encontrou nenhum.
Tinha-se quebrado o encanto, por já ter nascido o Sol. Tendo ficado com cara de parva, ouviu a seguinte voz que lhe dizia, debaixo de um enorme barroco :
Era teu tudo o que viste;
Agora tornaste em vão!
Não passes mais neste sítio
Na manhã de S. João.
Não te perdeu a pobreza,
Pode matar-te a ambição.
A mulherzinha lá foi a chorar para Manteigas, onde foi a mais rica da vila, em virtude da transformação dos figos em riquezas.
Tudo isto foi verdade.

(Escrito por Branca de Cameira. Oferecido por D. Ana de Castro Osório. Fátima nas lendas de mouros: também em Wolf, Primavera, nº. 84-a, p. ,67).

Segue-se outra versão da mesma LENDA:

Fátima III - por Gentil Marques


 

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