Fátima
III
LENDA
DA MOURA ALFÁTIMA
por Gentil Marques

LENDA
DA MOURA ALFÁTIMA
In:
Lendas de Portugal, Gentil Marques, Editorial Universus, Porto,
1964, III vol. (de 5) pp. 265 - 272.
O
manto da noite estendera-se , sobre a serra. Suavemente. Lentamente.
Agora havia apenas uma moldura de céu. Mas o jovem Ataúlfo
(1) não se importava. Combinara encontrar-se
com a bela princesa Fátima, (2) a mais
linda moura daquelas redondezas, e nada o poderia impedir. Nem a
noite. Nem os mouros. Ele sentia se forte e feliz!
E quanto tempo fora necessário para convencer a formosa Fátima!...
De princípio, ela escusara se por completo. Que não!
Nunca faria isso a seu pai, o poderoso emir de Manteigas. (3)
Dar ouvidos às falas aliciantes de Ataúlfo, um cavaleiro
ousado, já era muito. Porém, fugir com ele, isso nunca!
Mas Ataúlfo insistiu. Nos fins de tarde, quando a apanhava
solitária e se podia acercar ele cantava-lhe o seu amor,
prometendo-lhe um futuro risonho e maravilhoso. Um futuro de felicidade
plena.
Fátima escutava o e amolecia a pouco e pouco. Ficava imaginando
o que seria essa vida alegre e graciosa, lá longe, nas terras
dos cristãos, entre cantigas e danças de prazer. E
um dia, quando seu pai, o emir de Manteigas a descobriu em pleno
idílio, e a arrastou pelos cabelos (4),
fazendo a sofrer e gritar, ? a bela Fátima pensou que talvez
Ataúlfo tivesse razão.
No entanto, levou ainda longo tempo a reflectir e não cedeu
logo. Todavia, perante a insistência de Ataúlfo, cada
vez mais enamorado e também cada vez mais destemido para
a ver, ela acabou por concordar:
? Irei contigo, sim!... Na primeira noite em que a Lua se esconder,
podes vi,. buscar me! (5)
? Assim farei, minha bem-amada! ? gritou Ataúlfo, radiante
de alegria ? Mas porque tens tu de esperar, que a Lua se esconda?
Ela hesitou ainda. Mas logo confessou, ingenuamente:
? Porque a Lua é a minha madrinha... e eu não a quero
envergonhar. (6)
Ataúlfo não soube que responder. Partiu, pois, levando
na alma a esperança de uma próxima noite com a Lua
escondida...
Assim
acontecera nessa noite. Logo que deu pelo facto, Ataúlfo
montou ligeiro e meteu-se a caminho. Todo ele ardia em ansiedade.
Aquilo representava para ele uma dupla vitória: conquistava
a mulher amada e simultaneamente convertida à fé de
Cristo mais uma linda princesa agarena.
Aliás, ela deixava raptar-se na melhor altura. Ataúlfo
bem sabia que as hostes lusitanas estavam prestes a conquistar toda
a serra. Manteigas não podia resistir. (7)
Ataúlfo esporeou a sua montada. Não podia haver demoras.
A ideia de Fátima ser raptada numa noite sem Lua tinha, afinal,
muitas vantagens. Assim, estaria mais à vontade, tudo se
passaria em plena escuridão, sem possibilidade de qualquer
alarme. Mas não poderia haver a mínima demora....
Pressentindo que a bela Fátima já o esperava, preparada
para a fuga, o jovem Ataúfo espicaçou o cavalo ainda
mais, correndo à desfilada pelo caminho que bem conhecia,
agradecendo à Lua a sua protecção.
Porém,
Ataúlfo enganava-se por completo, ao pensar que a Lua escondida
o estava a proteger. Mal podia ele adivinhar que se tratava apenas
de uma emboscada.
A Fada da Lua, madrinha da princesa Fátima, descobrira tudo
facilmente. Vira as tentativas de aproximação do jovem
Ataúlfo. Compreendera que Fátima não ia resistir
muito tempo aos galanteios do cavaleiro cristão. E acertara!
Depois, seguira passo a passo o idílio vivido entre Fátima
e Ataúlfo, ambos sedentos de amor. Assistira também
à violenta intervenção do poderoso emir de
Manteigas, pai de Fátima, e ouvira esta aceder ao seu rapto...
mas só numa noite em que a Lua estivesse escondida.
A fada sorrira... E logo preparara também o seu plano. Descera
à montanha e convocara o conselho dos Velhos Deuses. (8)
? Preciso mais uma vez da vossa ajuda.. A minha afilhada Fátima,
a princesa de Manteigas, quer fugir com um jovem cavaleiro cristão.
Que devemos fazer?
Os velhos deuses entreolharam-se. Com espanto. Com mágoa.
Com deslento.
? Que podemos nós fazer, querida fada ?
? Os Lusitanos estão a escorraçar todos os mouros
destas terras... Depois será a nossa vez.
? Nada nem ninguém se pode opor à fúria dos
invasores!
? Eles são protegidos pelo Deus verdadeiro, contra o qual
somos impotentes.
E trazem à frente um rei invencível!
Nada há a fazer, boa fada!
Mas ela não se de por vencida nem convencida.
? Pois se vós, velhos deuses, já não sabeis
pensar... eu pensei por vós!
Mais espanto. Mais mágoa. Mais desalento.
? E que podereis vós pensar?
Ela inclinou-se para diante e obrigou-os a fazer um círculo
em seu redor.
? Escutai, então! Fazei com que dois dos mais fortes guerreiros
mouros saiam ao caminho de Ataúlfo... Ele poderá vencer
um... mas dois ser-lhe-ão sempre superiores. É necessário
que Ataúlfo fique no caminho!... Compreendeis? Depois eu
me encarregarei de castigar a pérfida Fátima.
Os velhos deuses entreolharam-se mais uma vez e encolheram os ombros
Já que não havia outro remédio, pois que se
fizesse a vontade à irmã fada... Mas eles não
acreditavam no resultado. Já não acreditavam em coisa
alguma, depois de tudo o que se estava a passar. Só um deles,
o mais feio e o mais triste, conseguiu sorrir. Um sorriso enigmático
Um sorriso amoroso...
E
foi assim que o jovem Ataúlfo, correndo vertiginosamente
ao encontro da sua bem amada, viu de súbito na sua frente
dois fortes guerreiros mouros que o obrigaram a parar. (9)
? Onde ides, miserável cão cristão?
? Que tendes com isso? Este caminho já não é
vosso, porcos sarracenos!
? Enganais-vos, imbecil! Tudo isto ainda é nosso!
Deixai-me passar, se tendes amor à vida!
Os dois mouros riram' estrepitosamente. Depois um deles falou, continuando
a rir.
? Isso dizemos nós, abjecto cristão...
E o outro rematou logo num tom duro e desagradável:
? Se tens amor à pele, desaparece... enquanto nós
nos preparamos para te esfolar!
Mas Ataúlfo não era homem que cedesse perante quaisquer
ameaças. Num instante, desceu a viseira, empunhou a espada
e atirou-se como um leão sobre os adversários, que
mal tiveram tempo para segurar as adagas.
No silêncio da noite escura, o com bate ganhou proporções
dramáticas. Brutais. De vida ou de morte!
Do
seu recanto, escondidos aos olhos do mundo, os velhos deuses e a
Fada da Lua seguiam a luta que se desenrolava. Luta sem tréguas.
Luta sem piedade.
? Vede, irmã fada... O lusitano parece levar a melhor!
? É verdade, que força tamanha a dele!
E que valentia sem par!
? Já derrubou um dos guerreiros agarenos... Olhai... Está
a escorrer sangue e o cavalo arrasta-o!
? Resta o outro... mas o cavaleiro cristão começa
a dominá-lo.
? Não é possível! Não é possível!
? Infelizmente vai vencê-lo, querida irmã... Nada mais
podemos fazer!
Foi então que o mais feio e o mais triste dos deuses da montanha
se ergueu e avançou para a Fada da Lua.
? Sim, ainda podemos fazer. alguma coisa... Eu, pelo menos, posso
fazer alguma coisa!
Os outros olharam-no espantados.
? Se me permitis, boa fada que eu sempre adorei... vou sacrificar
me vós!
Ela suspirou profundamente e estendeu as sua mãozinhas diáfanas,
como que a tentar impedir o gesto. Mas o mais feio e o mais triste
dos deuses da montanha continuou imperturbavelmente:
? Não há tempo a perder... Vede como o jovem Ataúlfo
domina o adversário... Vai matá-lo de um momento para
o outro... Tenho de intervir imediatamente! ... Adeus, companheiros!
Adeus, minha querida fada!
E, num milésimo de segundo, à vista de todos eles,
o mais feio, o mais triste dos deuses da montanha transformou se
num penhasco horrível. Penhasco que rolou pela montanha e
foi cair com estrondo enorme sobre o jovem cavaleiro Ataúlfo,
fazendo-o rolar com o seu cavalo pela ribanceira abrupta... (10)
Em
vão, Fátima, a bela Fátima, esperou pelo seu
enamorado. Ele não mais apareceu. A Lua deixou de estar escondida
e revelou-se de novo aos olhos de toda a gente, enchendo a noite
de claridade. E quando a Lua reapareceu ? foi a fada que surgiu
junto de Fátima.
? Vós... aqui... minha madrinha?
? Sim... Venho buscar-te!
Fátima olhou-a, sem compreender.
? Buscar-me? Mas... para onde?
Meu pai não quer que eu saia de Manteigas...
? Enganas te... Sais tu... e sai ele também, com todos os
seus homens... Os cristãos já estão perto!
(11)
Um grito abafado morreu na garganta da princesa moura.
Eu não posso . não quero... sair daqui!
? Esperas alguém?
Fitaram se. Intensamente. Profundamente. Por fim, a bela Fátima
ousou responder:
? Sim Espero alguém!
? Pois escusas de esperar. Esse alguém nunca mais chegará!
Desta vez foi um grito que se ouviu. Grito de dor lancinante.
? Que dizeis?
Calma, a Fada da Lua retorquiu:
? Isso mesmo! O jovem Ataúlfo já não é
deste mundo.
As lágrimas inundaram o lindo rosto de Fátima.
? Como... Como o sabeis?
Sempre serenamente. veio a explicação.
? Assisti à sua morte. Morreu como um valente, mas morreu.
Os deuses da montanha não o deixaram passar. Quero dizer:
um dos deuses, por amor de mim, não o deixou passar!
Fátima nada mais disse. Chorou apenas. E foi num silêncio
molhado de lágrimas que ela escutou o resto da explicação.
? Já falei com o teu pai, Fátima. Ele ficou muito
pesaroso, acredita. Pesaroso e doente. Pediu-me para te castigar,
por pretenderes fugir com um cavaleiro cristão. Já
não quer saber de ti. Vai fugir agora para o alto de Alfátema,
(12) mas sabe que não poderá resistir
muito mais. Os cristãos, fortes e ousados como são,
apossar-se-ão de tudo isto, como já se apossaram do
resto. Ainda possuímos Al Gharb, (13)
mas fica muito longe... Nós teremos de ficar por aqui. Vem
comigo!
E
saíram silenciosamente, por caminhos que só a fada
conhecia. A luta estava no auge e até elas chegavam os gritos
dos combatentes. Misturavam se os berros de vitória dos cristãos
com os queixumes desalentados dos mouros, e com os gemidos dos moribundos,
e com o tropel dos que fugiam em debandada.
? Ouves, Fátima? Os cristãos já estão
a assaltar o cimo de Alfátema... Temos de andar mais depressa!
E andaram até chegar a um recanto do monte, junto do qual
pararam, a um sinal da fada. Esta bateu com a sua varinha mágica
na rocha e logo uma porta se abriu misteriosamente, dando-lhes passagem.
(14)
? Eis onde ficarás encantada para sempre, princesa Fátima...
É um palácio construído de propósito
para ti.
Só então a bela princesa reagiu, perante o castigo
de ficar ali enterrada, para sempre.
? Oh, minha madrinha! Eu não quero... Eu não posso!...
Mas de repente notou que estava falar sozinha. A fada desaparecera.
Fátima caiu de joelhos, soluçando. E teve a impressão
de que escutava ainda uma voz no espaço que lhe dizia:
? Ficarás aqui até que algum guerreiro da tua raça
tenha coragem para te vir libertar... E uma noite em cada ano poderás
subir ao penhasco e chorar a morte do teu bem-amado Ataúlfo,
por amor do qual sofres tamanho castigo:
Nada mais...
E talvez por isso mesmo os pastores da Serra da Estrela dizem ainda
hoje que em certa noite do ano se pode ver nos penhascos de Alfátema
uma visão estranha, muito bela, vestida de branco, cantando
e chorando ... (15)
1-
ATAÚLFO - Embora decerto não se
trate de Ataúlfo, primeiro rei godo que dominou a Península
em princípios do século V, todas as versões
que conheço desta lenda, orais e escritas, se referem a Ataúlfo,
cavaleiro cristão.
2
- FÁTIMA ? A primeira lenda do primeiro
volume desta obra intitula-se Lenda da Princesa Fátima. Mas
o nome de Fátima era muito vulgar entre as princesas. mouras
e, portanto não admira que apareça a identificar outra
bela protagonista.
3
- MANTEIGAS - Vila da comarca de Gouveia, (nota:
Vila e Cancelho do Distrito da Guarda) da qual dista uns 42 kms.
Situa-se num dos locais privilegiados da Serra da Estrela e possui
um esplêndido estabelecimento termal. Diz se que Manteigas
é povoação muito antiga ? e assim o parecem
demonstrar os vestígios arqueológicos encontrados
na região. Sabe-se que foi conquistada aos Mouros, no tempo
de D. Afonso Henriques, e que D. Sancho I, lhe deu o primeiro foral
em 1188. No concelho de Manteigas fica a Torre, que marca o ponto
mais alto da Serra da Estrela.
4-
A cólera DO EMIR ? A este respeito as versões
que conheço diferem bastante. Na opinião de alguns,
o emir de Manteigas, ao descobrir o idílio da filha, matou
o jovem Ataúlfo e encantou imediatamente a bela princesa
Fátima. Para outros, o emir mandou perseguir Ataúlfo
até que o matassem. Finalmente, ainda para outros (entre
os quais eu me incluo), o emir apenas ameaçou sua filha de
morte e passou a votar maior ódio aos cristãos, que
tudo lhe queriam roubar: o castelo, os tesouros. o poderio e a filha...
5
- A LUA ESCONDIDA ? Não é a primeira
vez que encontro, em histórias lendárias, este curioso
simbolismo. Quanto a mim, representa um instinto nativo de esconder
as fraquezas humanas ao domínio sentimental da Lua. Porém,
com a continuação do tempo (e talvez devido em grande
parte à infelicidade dos casos, como o que se conta nesta
lenda) aLua escondida ou velada passou a valer como mau presságio.
6
- A MADRINHA LUA ? Desde sempre, a afinidade entre
a Lua e o sexo feminino foi evidente ? e basta repararmos nas coincidências
existentes entre os meses lunares e os ciclos menstruais. Não
admira portanto que, nas histórias antigas, a Lua desempenhe
o papel de madrinha e de fada.
7
- A CONQUISTA DE MANTEIGAS - O escritor Dr José
Crespo, nos seus "Contos da Lagoa Azul (Escura)", escreve
que, em face dos ataques insistentes dos Lusitanos cm toda a serra,
"o emir abandonou Manteigas Não se achava ali seguro
Fugiu através da serra, com os seus homens de armas, e foi
refugiar-se no crasto de Alfátema.
8
- OS VELHOS DEUSES DA MONTANHA - Também
o mesmo escritor, no livro já citado, descreve assim graciosamente
a chegada da fada ao recinto onde se reune o conselho. "Os
deuses da montanha esperavam-na sentados nas varandas de granito.
Desceram das rochas e vieram recebê-la. Estenderam um tapete
de servum macio para a Fada passar. Pequeninas joaninhas de vestidos
vermelhos abriram alas. Tocou a orquestra dos ralos e dos grilos."
9
- OS GUERREIROS MOUROS - Algumas das versões
indicam cinco e seis valentes mouros como adversários inesperados
do jovem Ataúlfo. Outras (a maioria) reduzem o número
de inimigos apenas a dois. E uma outra, como já referi anteriormente,
dá a morte de Ataúlfo às mãos do próprio
emir de Manteigas.
10
- MORTE DE ATAÚLFO - Igualmente neste pormenor
as várias versões divergem. Fundamentalmente as orais
e as escritas. Aquelas defendem a ideia do jovem Ataúlfo
ter sido morto, ou por ódio do emir, ou por sacrifício
de amor do "mais feio e triste deus da montanha...". As
versões escritas aventam a hipótese dos deuses da
montanha terem precipitado um penhasco sobre o cavaleiro cristão
e chegam a atribuir a morte aos malefícios da própria
fada.
11
- A APROXIMAÇÃO DOS CRISTÃOS
- Segundo regista a história, desde a fulgurante vitória
do almirante D. Fuas Roupinho sobre a esquadra moura, que deu aos
cristãos a possibilidade de invadirem o território
a partir do litoral, os sarracenos não mais tiveram um momento
de descanso.
12
- ALFÁTEMA - Há também quem
escreva Alfátima. Consta que o velho castelo (ou castro)
de Alfátema, no alto da Serra da Estrela, fora construído
pelos Túrdulos e servira de baluarte a Júlio César.
13
- ALGHARB - Ouvi em várias versões,
que o emir de Manteigas pensava na verdade fugir com a sua filha
para Al-Gharg, logo que se intensificaram os ataques dos cristãos.
Porém, a traição amorosa da bela Fátima
fê-lo, possivelmente, mudar de ideias.
14
- A PASSAGEM DA ROCHA - Tal como aconteceu na
Lenda do Almocreve de Estói, inserta neste mesmo volume,
também aqui há uma passagem na rocha que se abre com
as pancadinhas de uma varinha mágica. Porém, neste
caso nada tenho a opor, porque se trata de facto de uma fada e as
varinhas de condão são atributos clássicos
das fadas.
15
- A MOURA ENCANTADA DE ALFÁTEMA - Há
quem diga que ela se inclina sempre num determinado sentido, e que
esse sentido indica o local, onde deve ter caído o jovem
Ataúlfo. Outros garantem que já a viram pentear-se,
com um lindo pente de ouro que brilha à distância...
(Ver neste mesmo volume a Lenda da Moura que Chora). De qualquer
modo, para as bandas da Serra da Estrela, muita gente acredita no
Moura de Alfátema ou Afátima...
Segue-se
outra versão da mesma lenda:
Fátima
IV - por Fernanda Frazão

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