Fátima
IV
FÁTIMA
por Fernanda Frazão

FÁTIMA
IN
Lendas Portuguesas, inv. Recolha, textos de Fernanda Frazão,
Amigos do Livro, Editores Ldª. 3º vol. (de 6), pp. 85
- 90
MANTEIGAS,
na serra da Estrela, é uma vetusta povoação,
que, já no tempo da romanização, possuía
uma certa importância. Na época da dominação
muçulmana, teve direito a alcaide ou emir, autoridades que
a tradição popularizou sob a designação
de reis.
A
cerca de duas léguas de Manteigas ergue-se o píncaro
de Alfátema, o cabeço mais elevado da serra da Estrela,
amiúde revestido de alvo manto de neve. De Alfátema
falará a nossa lenda, que se passa nessa época em
que o montante cristão não dava descanso ao alfange
muçulmano. Os mouros iam perdendo terreno de combate em combate,
e a perseguição que os cavaleiros cristãos
lhes moviam era tão rápida e implacável que
se lhes revelava impossível pôr a salvo todas as riquezas
que tinham acumulado ao longo dos séculos. Assim, escondiam
os seus tesouros nos sítios que julgavam mais adequados,
ocultando-os muitas vezes por artes mágicas, o que levava
o povo a dizer que eles estavam guardados por mouras encantadas.
Conta
a lenda que o rei mouro de Manteigas tinha uma filha, chamada Fátima,
e que era formosa como uma visão magnifica do Paraíso
de Alá. Os cristãos das vizinhanças empregavam
todos os seus esforços para se apoderarem do território
do Rei, da sua Fátima tão linda e de todas as suas
jóias e bens.
Ainda
quis resistir, o Rei, abrigado como estava dentro do seu castelo.
Mas o número dos assaltantes era tal que lhe pareceu loucura
ficar e resolveu fugir pelos carreiros escusos da serra, levando
a filha e o que das riquezas ainda não pusera a salvo.
Era
madrugada quando fugiram de Manteigas por uma pequena porta dissimulada
nas muralhas. Andaram, andaram todo o dia por entre penedos e escarpas
e, ao anoitecer, Fátima morria de cansaço e não
conseguia dar nem mais um passo porque os seus pés estavam
em chaga. Que fazer ali no sítio mais solitário da
serra? A quem pedir socorro naquele momento terrível?
Subitamente,
abre-se-lhes em frente um caminho esplêndido, todo ele florido,
calçado de pedras finíssimas e iluminado, lá
no fundo, por um foco de luz tão intenso que mais parecia
provir de uma estrela particular. Alá fizera o milagre! A
esperança renasceu em todos os corações e,
num inesperado alento, entraram na senda que se lhes abrira como
se nesse momento tivessem começado a caminhada. Ao fundo
da estrada, a luz que haviam divisado revelou-se-lhes um palácio
resplandecente, tão cheio de magnitude que se quedaram estarrecidos.
O
que depois se passou ninguém o soube, mas, nos dias imediatos,
os serranos viram subir e descer a encosta vários pastores
totalmente desconhecidos na localidade. Duraram algum tempo aquelas
idas e vindas ao Coruto de Alfátema, como chamavam àquele
sítio, e um belo dia os pastores desapareceram sem deixar
rasto.
Os
pastores desconhecidos eram mouros disfarçados e foi por
indiscrição de um deles que se soube que uma fada
boa, madrinha de Fátima, a guardaria no seu palácio
encantado do Coruto, sempre jovem e formosa, até ao dia em
que os fiéis sectários do Corão reconquistassem
Portugal.
Tão
arreigada ficou esta crença no espírito dos serranos
que, durante os séculos XII e XIII, as pessoas várias
vezes entraram em pânico por acreditarem ver chegar, ao longe,
os esquadrões mouriscos em busca da bela Fátima. E
a lenda tomou ainda mais corpo no espírito crédulo
dos aldeões quando, alguns anos depois de os cristãos
terem tomado Manteigas, aconteceu o que vamos contar a seguir.
Um
dia, uma mulher, das mais miseráveis da localidade, teve
de passar na madrugada de S. João no Coruto de Alfátema.
Fatigada, sentou-se a descansar num penhasco enquanto ia comendo
uma côdea de broa que trazia. O pão era duro de muitos
dias e, quando a mal-aventurada ia a dizer mal da sua vida, viu
a seu lado um vasto estendal de figos secos. Comeu uns quantos,
feliz por poder quebrar inesperadamente a sua pobre dieta, e, lembrando-se
dos filhos, encheu deles uma cesta que levava.
E,
rápida e alegre, dirigiu-se à sua choupana, antegozando
a alegria das crianças ao comerem os figos. Mas, uma vez
chegada a casa, ao destapar a cesta, ficou pasmada: no lugar dos
figos encontrou diamantes e moedas de ouro, tudo reluzente e novo.
Estava
rica! Mas a mendiga de há um minuto, conformada com o naco
de pão duro, sentiu a mordedura da ambição.
Não lhe bastando o que já tinha, quis tudo o que ficara
no Coruto e voltou a correr ao local onde deixara os restantes figos.
Entretanto,
o Sol subira no horizonte e estava agora no meio de um céu
sem nuvens. Passara a hora dos encantos e, dos figos, a mulher encontrou
apenas o lugar. Desesperada, começou a arrancar os cabelos
e ia blasfemar quando uma voz suavíssima ? a de Fátima,
sem dúvida ? caiu sobre si cantando :
Era
teu tudo o que viste;
Agora tornaste em vão!
Não passes mais neste sítio
Na manhã de S. João.
Não te perdeu a pobreza
Pode matar-te a ambição!
Segue-se
outra versão da mesma LENDA:
Fátima
V - por José Crespo

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