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Fátima
V
A
MOURA DO ALFÁTEMA
por José Crespo

A
MOURA DO ALFÁTEMA
In
Contos da Lagoa Escura, José Crespo, Coimbra Editora Ldª,
1957, pp. 9 - 16.
A pouco e pouco, as sombras do crepúsculo aproximaram as
coisas umas das outras até as diluírem nas trevas
e no silêncio. A lua assomou à janela do Oriente para
tomar o fresco da noite. Abeirou-se do lago. seduzida pela enganadora
transparência das suas águas. Quis ver-se nelas, mas
as águas ondularam ao Impulso inquieto da brisa nocturna.
A lua desgostou-se, porque o espelho lhe pareceu estalado e os cacos
oscilavam. Pesarosa, escondeu-se atrás duma nuvem. As águas
cobriram-se de tristeza e de rugas sombrias.
O barco que vogava solitário no lago encostou à margem
rochosa. A Fada que o conduzia, de alvas vestes roçagantes
recamadas de conchas e da nívea espuma dos mares, desembarcou.
A nuvem desfez-se. para que o luar lhe iluminasse o caminho.
Os Deuses da Montanha esperavam-na sentados nas varandas de granito.
Desceram das rochas e vieram recebê-la. Estenderam um tapete
de servum macio para a Fada passar. Pequeninas joaninhas, de vestidos
vermelhos, abriram alas. Tocou a orquestra das ralas e dos grilos.
Os bancos das varandas tinham almofadas de musgo fofo. Depois dos
cumprimentos, a Fada sentou-se. Os Deuses sentaram-se à sua
volta. O mais velho disse então, num tom solene de carinhosa
majestade:
? Sê bem vinda, Fada mensageira...
A Fada falou, por sua vez:
? O aviso que, em tempestades e enxurradas, me mandaste pelo Tagus
e pelo Munda levaram a inquietação ao seio das vagas.
Compreendi que algo de novo se passava aqui.
? Tua afilhada, a princesa Fátima, corre grande perigo e
nós já não podemos valer-lhe ? redarguiu o
Deus da Montanha.
? Eu confiei-a à vossa protecção ? suspirou
a recém-vinda. entre surpreendida e desalentada.
? Sim... e nós sempre procurámos merecer a tua confiança.
Mas o nosso poder extinguiu-se. Os filhos de Alah vão ser
expulsos desta serra, pois todas as behetrias hermínias já
foram conquistadas aos mouros...
? O Deus do Oceano. meu tutor ? interrompeu a Fada pediu-me para
vos avisar de que D. Fuas Roupinho, bravo condutor da frota dos
barões portucalenses, está a investir a Lusitânia
pelo litoral.
? É que chegou a vez de ser atacado o poderoso e rico Emir
de Manteigas.
A Fada sobressaltou-se. Torceu as mãos. num gesto de desespero,
e exclamou:
Mais do que o seu reino e do que as suas riquezas, cobiçam-lhe
os cristãos a linda princesa Fátima, sua filha. a
mais bela de todas as mouras nascidas na lbéria. Querem convertê-la
à fé de Cristo.
? Sabedor disso, o Emir abandonou Manteigas. ? prosseguiu o Deus,
numa voz triste e comovida. ? Não se achava ali seguro. Fugiu
através da serra, com os seus homens de armas, e foi refugiar-se
no Crasto do Alfátema, a fortaleza dos túrdulos que
domina o vale do Munda. É um baluarte poderoso, onde se entrincheirou
Júlio César na sua última investida contra
os aguerridos lusitanos. O Vali quer a todo o custo salvar sua filha.
Vai resistir-lhes aqui e tentar depois escapar-se com ela para o
Sul, para o que ainda resta do reino da heresia na Península.
? Mas se vocês já nada podem contra os Nazarenos e
se eles, com o auxílio que lhes trouxe D. Fuas Roupinho,
descobrem e investem o esconderijo do Emir, este depressa sucumbirá
e Fátima cai-lhes nas mãos. Os Nazarenos são
persistentes, bravos e insubmissos.
? Nós já lhe valemos uma vez, quando o cristão
Ataulfo a quis raptar, com o consentimento dela própria,
A perjura prometeu desposá-lo e converter-se ao cristianismo.
Soubemo-lo por denúncia da sua aia e confidente. Mas antes
que o lusitano pudesse cumprir o seu intento, armámos-lhe
uma cilada. Saíram-lhe de noite ao caminho, quando se dirigia
para Manteigas, dois dos mais bravos guerreiros árabes. A
luta foi terrível e o cristão pereceu.
Mas teria vencido se não se desse um acidente imprevisto
para ele. Quando os mouros o surpreenderam próximo das nascentes
do Munda, enfrentou-os com ardor indómito. Os Árabes
estremeceram. Tiveram um momento de hesitação, de
receio. Mas já não podiam recuar. Os três aprestaram-se
para o combate. Afastaram as montadas. Mediram as distâncias,
0 cristão desceu a viseira e empunhou a aduna, enquanto os
filhos de Alah, atirando os albornozes para as costas, desembainharam
as adagas. Envolveram-se numa pugna feroz, inclemente. O ruído
da luta acordava o silêncio espectral da noite serrana.
As montadas, cobertas de espuma e de suor, faziam esforços
inauditos para se equilibrarem no terreno íngreme, pedregoso.
Trocaram vários golpes sangrentos. Ataulfo parecia levar
a melhor sobre os infiéis. Valeu-lhes o nosso auxílio,
que decidiu a seu favor o desfecho da luta. Um dos génios
da Montanha, transformado em penhasco, despertou sob a nossa invocação
e enroscou-se nas patas do cavalo, que caiu e rolou com o cavaleiro
pela encosta abaixo.
Os nossos Irmãos desmontaram, desceram a lombada aspérrima
e aproximaram-se do cristão a fim de o liquidarem antes que
ele se levantasse. Não foi preciso. este jazia imóvel,
com o crânio fracturado imerso numa poça de sangue.
A Fada escutava em silêncio. O Deus deteve-se, perscrutando
com ansiedade os longes montanhosos, mergulhados na escuridão.
Depois, como que acordando dum sonho, acrescentou:
? A estas horas já os cristãos investem o cocuruto
do Alfátema. O Vali não pode escapar. Todos os Árabes
serão mortos ou aprisionados.
? E Fátima? ? inquiriu a Fada, num tom de voz consternado.
Trémulo, implorativo.
O Deus da Montanha olhou-a com tristeza, encolhendo os ombros, num
gesto vago de incerteza e de impotência. Ela insistiu, com
a voz alterada pelo desgosto e pela comoção.
? Não quero que Fátima caia nas mãos dos Nazarenos.
Devo também castigá-la por ter querido trair, amando
um infiel, a sua raça e a sua religião.
E, decidida, levantou-se e ajuntou, virando-se para o Deus da Montanha:
? Dá-me um dos génios desta serra que me leve sem
demora ao Alfátema.
O Deus conduziu-a até junto dum penhasco e, depois de proferir
algumas palavras mágicas, tocou-lhe com a mão e este
transformou-se num gigante alado. A Fada sentou-se-lhe no dorso
e os dois partiram através da serra.
Quando
a Fada chegou ao Alfátema era noite cerrada. A refrega estava
no auge e acordava nos montes ecos sinistros, apavorantes. Os cristãos,
através de ravinas e algares fragosos, num assalto impetuoso,
quasi per latrocinium, aproximavam-se do coruto do Crasto. Aqui
e além, nos urgueirais espessos, erguiam-se labaredas de
incêndios atiçados pelos contendores. Os lobos fugiam
espavoridos, enchendo de uivos lamentosos as encostas abruptas.
Um sopro de fé e de liberdade abrasava as almas bravias dos
assaltantes. Estes iam a pé, em grupos isolados, dispersos.
Quando se reuniam, mandavam alguns adiante sondar o caminho, escolher
o local do ataque. E enquanto a vanguarda dominava as sentinelas,
a hoste avançava, trepando os combatentes uns por cima dos
outros para atingirem os tesos mais altos e escalarem os hirtos
penedões. Os Árabes que resistiam eram liquidados
sem piedade. Nos alcantis do Crasto, transformados em cubelos e
adarves. as almenaras alumiavam a estarrecida e dizimada guarnição
moura, a qual, em torno do Emir, debalde se opunha à mortífera
escalada dos guerreiros hermínios.
A
entrevista da Fada com o Vali, à luz trémula dos archotes
e no meio do fragor do combate, foi curta. Quando se despediram,
o mouro recomendou-lhe:
? Vai. Salva minha filha. Cumpre o teu desígnio. Nós
não podemos escapar. Eu venderei cara a vida e, se Alah me
poupar, duro cativeiro me espera.
E
voltou para junto dos combatentes. A Fada foi ao encontro de Fátima,
que aguardava placidamente o desfecho da luta.
?
Vem comigo - disse-lhe.
Levou-a
para um recesso escuro do monte e bateu numa fraga com a sua varinha
de condão. A rocha abriu-se, descobrindo um caminho atapetado
de musgo. Desceram por ele e entraram num palácio encantado,
verdadeira mansão de fadas, onde nada faltava para tornar
uma solidão agradável e confortável.
Magníficas
galerias de cristal ligavam salas sumptuosas, com tapetes de seda,
reposteiros de brocado, divãs de alabastro cobertos de estofos
de Meca, pisos de mármore preto e branco, estuques de oiro
e prata incrustados de diamantes resplandecentes. Artísticos
candelabros de cristal espargiam uma luz deslumbrante. Nos cantos,
perfumadores de oiro lavrado aromatizavam o ambiente. Nos jardins
interiores, por entre tabuleiros de flores raras e canteiros de
relva setinosa, sombreados de plantas odoríferas e de árvores
com frutos capitosos, havia cascatas marulhantes, cujos repuxos
se desfaziam em pérolas e esmeraldas.
Fátima, sem compreender, deixava-se conduzir, atónita
e deslumbrada. Por fim, perguntou numa voz alterada pela curiosidade
e pelo receio:
? A quem destinas, minha madrinha, todas estas maravilhas?
? Ergui este palácio encantado para ti ? respondeu a Fada.
? E pela força dos meus encantos te ordeno que fiques aqui
isolada do mundo e das gentes até que um guerreiro da tua
raça e da tua fé tenha a coragem de vir libertar-te.
Fátima
compreendeu então o destino amargo que lhe era destinado
e quedou-se triste e lacrimosa nos seus vestidos brancos...
*
A
Fada regressou à Lagoa Escura por veredas desconhecidas,
já os Lusitanos ocupavam toda a fortaleza. Embarcou de novo
e partiu para o Oceano.
A aurora ergueu a sua foice luminosa e ceifou as estrelas. Mas,
da estrela matutina, vendo-a tão linda e tão pura
teve pena e deixou-a ficar. Veio o Sol, encheu-se de ciúmes
e correu sobre ela uma cortina de fogo.
Os
Deuses abandonaram a Montanha e deixaram-na entregue aos cristãos.
Estes
procuraram Fátima por toda a parte e nunca a encontraram.
Mas, durante muitos anos, pastor que se transviasse nos caminhos
do monte, vinha contar, ao fogo da lareira, que vira, à luz
pálida do luar, uma figura de mulher toda vestida de branco,
sentada nos penhascos, penteando os longos cabelos negros com um
pente de ouro e pedrarias refulgentes...
E
assim nasceu a lenda da moura encantada do Alfátema.
Segue-se outra versão da mesma LENDA:
Fátima
VI - por Manuel Ferreira d Silva

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