Serra da Estrela - Manteigas

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Fátima VI

O MISTÉRIO DO CRASTO E A LENDA DE ALFÁTIMA ( ou ALFÁTEMA)

por Manuel Ferreira d Silva

O MISTÉRIO DO CRASTO E A LENDA DE ALFÁTIMA ( ou ALFÁTEMA)

In Antologia I - Depoimentos Históricos - Etnográficos sobre Manteigas e Sameiro, José Lucas Baptista Duarte, 2ª ed. Câmara Municipal de Manteigas, 1985, pp. 256 - 257.
(Manuel Ferreira d Silva - do "Ecos de Manteigas" N.º 71 de 5.2.1956).

"Já por várias vezes temos dito que, subir á Serra da Estrela, não é apenas escalar um ponto geográfico da nossa terra: é, mais do que tudo, peregrinar no tempo e na lenda, juntando na mesma devoção á Serra os nomes mais interessantes da nossa História antiga e moderna - Viriato e Fátima.

Viriato aqui nasceu e dominou, percorrendo a Estrela, os belos Montes Hermínios, de cabelos soltos ao vento, medindo a passos largos a Serra em todas as direcções.
Fátima aqui viveu, igualmente. no doce enleio de um amor que não passou de um sonho, a cuja realização se opôs, ao tempo o orgulho de seu pai e, mormente, a diferença rácica e religiosa entre ela, moura de sangue e de fé, e o guerreiro cristão.
O tempo encheu-se de neblina, e a história do facto revestiu se de lenda, comunicando-nos o belo maravilhoso que, agora, nos sabe tão bem recordar.

? "... Ora, vivia ao tempo, como senhor absoluto destes domínios (Manteigas e seus limites) um EMIR, possuidor de seu castelo e detentor avaro da enorme riqueza de sua filha Fátima a, mais que todas, formosa Moura."

"Sorriso como nunca deparara,
Tão belo corpo e mui formosa cara..."

diz um poeta.

"Não dormiam os cristãos da vizinhança que, hora a hora, esperavam o momento oportuno de escalar a serra a toda a altura e conquistar, para seu rei, todos os redutos mouros dos Montes Hermínios.
Um dia descobriram a riqueza misteriosa dessa formosura mourisca, verdadeira "huri" do paraíso do amor.
Não tardou que a moura e o cristão se fizessem entender de longe, na linguagem silenciosa e apaixonada dos olhares esquivos. E,. pouco a pouco, se organizava já, nos arraiais cristãos, o assalto ao Castelo dos Mouros (nome por que ainda hoje é conhecido certo lugar do Vale do Zêzere, em Manteigas), para o rapto daquela que eles consideravam já a formosa cativa que vinha, às escondidas do pai, alta noite, pelo luar, que na serra tem um mistério singular, sobre as ameias do castelo,

"debruçar levemente o seu busto,
no doce enleio do seu próprio susto..."

Mas cedo compreendeu o Emir,

"que um fogo lento,
mistério ignorado, íntimo tormento,
mistério de amor, nascido num momento",

começava a invadir lhe a fortaleza, sem que suas armas o pudessem suster.
E, certa noite, depois de ter escondido todo o seu oiro nos subterrâneos do Castelo, foge com sua filha, em difícil e perigosa jornada, pela serra.
A "Barroca da Moura" a "Serrana" são nomes e sítios que nos legaram, com o tempo, os segredos dessa fuga, em que a formosa agarena sucumbiu de tristeza e cansaço.
A serra é alta e longa. Para lá de um monte, outro monte... e o fim parece nunca mais chegar.
Mas, de súbito, um enorme clarão rasga o espaço. O caminho parece agora mais breve. É que, às ordens do Emir, alguns emissários tinham partido adiante, anunciando a sua fuga ao palácio do Cabeço, (Coruto ou Crasto) onde uma fada, madrinha da Moura, os esperava agora, para os envolver nos seus encantos e os defender de quantos os perseguissem.

O que lá se passou ninguém sabe, mas o que se sabe é que, no dia seguinte, marcado para o assalto e para o rapto, acordam os arraiais cristãos alvoroçados pela estranha novidade da fuga do Emir e da sua filha Fátima.
Pastores desconhecidos percorriam, desde a hora da fuga, a serra em todas as direcções, encantando a todos com a magia das suas flautas.
E, a partir de então, toda a serra se encheu de maior mistério ainda.

Nunca mais o povo de Manteigas esqueceu os caminhos de Alfátima onde, durante muito tempo, foi, em jornada de encanto, visitar esse Cabeço, hoje apenas com restos de ruínas, esperando que não esqueçam sua lenda e seu maravilhoso.
E, logo em volta do Coruto ou Cabeço de Altátima, outras lendas surgiram.

Conta-se de uma rapariga encantada que por ali passou em manhã de S João, antes de o sol nascer.
Cansada da jornada, longa e difícil, que já tinha feito, sentou-se a donzela a descansar e adormeceu.... e sonhou. E viu a seu lado as gotas de orvalho transformadas em estranha fruta, que ela apanhou e meteu para seu bornal e, levando a consigo para as horas de menos fartura..., partiu.
Já longe, sentiu despertar-se lhe um estranho apetite e, metendo a mão no bornal para comer algumas dessas frutas, semelhantes a figos secos, verificou e com espanto, que toda a truta se transformara em ouro, de muita valia e peso.
E vai logo dali, de alma ambiciosa, caminho do Cabeço para apanhar o resto que lá tinha deixado.
Começavam lá os primeiros raios de sol a doirar os cimos da Estrela, quando a rapariga chegou a Alfátima. Procura... procura... mas em vão.
E logo uma voz lhe canta:

"Tudo era teu quanto viste, (Era teu, tudo o que viste,)
Agora tornaste em vão.
Não passes mais neste sítio,
Na manhã de São João.
Não te perdeu a pobreza,
Pode perder-te a ambição."

E nunca mais a lenda se perdeu, e aqui se reproduz em sinal e testemunho da sua perpetuidade."

Segue-se outra versão da mesma LENDA:

Fátima VII - 1 In Expedição Científica José Avelino de Almeida e outros...

 

 

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