Serra da Estrela - Manteigas

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Fátima VII

CORUTO DE ALFATEMA

1 In Expedição Científica

José Avelino de Almeida e outros...

 

In Expedição Científica - Serra da Estrela, em 1881, - SECÇÃO DE ETHNOGRAPHIA, Relatório do SR. Luiz Feliciano Marrecas Ferreira , Lisboa - Imprensa Nacional, 1883
1. in Dicionário de José Avelino de Almeida e outros...
2. in Distrito da Guarda, N.º 246, por Barbosa Colen

Esta designação é applicada a um pequeno trato de planicie que forma a cumiada da serra, situado a pouca distancia de Manteigas. Quer o sr. Pinho Leal que fosse applicada a um templo romano dedicado a Lucifer, perto de Manteigas, templo mencionado em diversas obras a que já me referi; mas parece não ser esta a mais exacta indicação, porque a palavra coruto deve ser entendida como um logar culminante, e Alfatema, nome evidentemente árabe, trivial até nesta lingua, nunca podia ser posto pelos romanos a um templo seu, e igualmente não parece acertado o admitir-se que elle fosse posto pelos arabes a um templo romano.
Em Manteigas ha a crença de ter passado Júlio Cesar pelo Alfatema, de que nos falla o sr. J. A. F., a pag. 87 do volume do Almanach de Lembranças, correspondente a 1863:

"É tradição que Julio Cesar, à frente das suas cohortes, atravessando a serra pelo Alfatma, pernoitára n'esta vill e aqui deixára uma lapide commemorativa da sua jornada. Esta lapide, diz-se tambem, é a que está servindo de limiar à entrada da igreja de Santa Maria. Percebem-se-lhe apenas algumas letras da inscripção."

Esta lenda tem ainda sido apresentada por outros escriptores.
O sr. José Avelino de Almeida, no seu dicionário, e outros auctores fazem derivar a designação da seguinte lenda:

"Os mouros, quando se foram embora, não poderam levar as muitas riquezas que tinham, por isso as esconderam em sitios onde ninguem podesse chegar, a não ser que por acaso ou de proposito por ali passassem. Pozeram-lhe guardas encantadas, que eram sempre lindas mouras.
"Por esses tempos o rei mouro de Manteigas tinha uma filha chamada Fatima, muito formosa e a quem sobretudo estimava. Os christãos vizinhança porfiavam em lhe conquistar os estados, para lhe roubarem a filha; o rei fez-se forte na sua villa, mas cresceu tanto o poder d'aquelles que teve de fugir pelas mais occultas veredas da serra, levando a sua Fatima e as suas riquezas.
"Sobreveiu a noite, Fatima tinha desfallecido de cançasso, quando em frente d'elles se abre um caminho enxuto, calçado de pedras finas, e no fim uma luz que o alumiava todo; foi para elles um signal de salvação; voltaram as forças com a esperança, e em poucos minutos o rei, a filha e os que o acompanhavam entram em um magnifico palacio, onde tudo era tão grandioso que o mesmo ri ficou deslumbrado.
"O que .lá se passou ninguem o sabe, mas o certo foi que no outro dia desceram da serra uns pastores que ninguem conhecia, demoraram-se algum tempo no paiz, fazendo repetidas romarias, quando a estação o permittia, ao cabeço que elles chamaram a primeira vez Coruto de Alfatema, e por fim desappareceram sem haver mais noticia delles.
"Eram mouros disfarçados de pastores, e por elles se soube que uma fada, madrinha de Fatima, a guardára no seu palacio encantado, até que viessem tempos de paz para os mouros.
"Disto houve sempre memoria por aquelles sitios e ninguem duvidava do acontecido, quando succedeu passar pelo Coruto de Alfatema, antes do sol nado, em madrugada de S. João uma pobre mulher.
"Cansada de ter atravessado a serra, sentou-se um pedaço no tal Coruto, e emquanto comia um bocado de pão viu a seu lado um grande estendal de figos seccos, que pareciam ter esquecido a alguem de vespera; guardou no seu cestinho alguns para hora de menos fortuna, depois partiu.
"Indo seu caminho veiu-lhe a vontade dos figos, e quando retirou a mão do cesto viu, com grande espanto, que trazia umas poucas de peças de oiro de muito grande tamanho e peso. Veiu em seguida a malvada cubiça.
"A mulher, que horas antes se contentava de poder matar a fome com figos seccos, já se não satisfazia com um bom cento de peças, voltou atraz, já a tempo que os primeiros raios do sol douravam aquelles pincaros, não encontrou figos alguns, e ao mesmo tempo ouviu uma voz que lhe fallava assim:

Tudo era teu quanto viste;
Agora tornaste em vão,
São passes mais n'estes sitios
Na manhã de S. João:
Não te perdeu a pobresa
Póde perder-te a ambição.

"A mulher, com o bom peculio que tinha trazido, começou a prosperar, e só passados alguns annos e que se soube do caso.

(Nota de JRG) Como se sabe, na Expedição Scientifica à Serra da Estrela - 1881, a Secção de ETHNOGRAPHIA, teve como Chefe Luiz Feliciano Marrecas Ferreira, S. S. G., capitão de engenharia, professor da escola do exercito; e Antonio Lopes Mendes, S. S. G. Agronomo. Ora como se diz na apresentação do trabalho desta Secção: "Este relatório foi recebido na Secretaria da Comissão Administrativa da Expedição em 19 de Novembro de 1882." Logo a seguir, o "auctot" dedica este trabalho a Luciano Cordeiro, Presidente da Sociedade de Geographia de Lisboa. Logo a seguir vem uma advertência importante que vamos transcrever. É bom ter presente que uma das finalidades da Expedição, talvez a principal, era dar uma resposta aos muitos boatos e lendas que se contavam sobre a Serra, exactamente por ser mal conhecida e não haver dados científicos sobre os mais variados aspectos, como se pode ver pelo número das Secções que foram organizadas: Agronomia e Sylvicultura, Anthropologia (chefiada por dois médicos), Botanica, Chimica, Ethnographia (que não esteve no terreno), Geologia, Hydrographia (com uma sub-secção para - Levantamento e sondagem das Lagoas), Medicina (com uma sub-secção para Hydrologia Minero-medicinal e outra de Ophtalmologia, de Meteorologia, Photogrphia, Zoologia, Zootechnia, com uma secção auxiliar de Topografia... Pela ADVERTÊNCIA a seguir verificamos que se perdeu uma oportunidade única de se ter realizado no terreno a recolha dos contos e Lendas da tradição Oral! Entretanto temos de reconhecer a oportunidade e o valor do trabalho realizado por esta secção e parece no Relatório com o título: AS LENDAS DA SERRA DA ESTRELA NA TRADIÇÃO ESCRIPTA - com 11 divisões: I - Communicação das lagoas com o mar, fluxo e refluxo, bramidos quando ha tempestade. II - Profundidade indefinida das lagoas. III - Olhos marinhos. IV - Qualidades maravilhosas das aguas. V - Exageradas dimensões da Serra. VI - Teshouros encantados. VII - Crusta do terreno. VIII - Cavernas. IX - Opiniões de estrangeiros ácerca da serra. X - Connexão das lendas - Viriato. XI - Interpretações locativas.
"ADVERTENCIA: Quando a expedição partiu para a serra da Estrella, ninguem ia inscripto na secção de ethnographia, de sorte que bem poucos foram os apontamentos, que ácerca de tão interessante assumpto poderam tomar os membros das outras secções os quaes deviam occupar-se dos serviços especiaes que lhes foram commettidos.
N'estas condições era impossivel o elaborar um trabalho. fructo de uma dletida exploração, que se não fez; congreguei, porém, as minhas escassas forças, ara reunir alguns materiaes, que possam num dia. talvez proximo servir para a descrição do meio em que a lenda se conserva, como por muitos muitos annos a neve, ou onde se fórma e avulta como a torrente das montanhas.
Na impossibilidade de obter dos meus apontamentos uma indicação dos thesouros, que andam na tradição oral, fui pedir à tradição escripta os materiaes de que neste trabalho me servi.
A tradição escripta ha de nortear, de certo, algumas das minhas explorações ethnographicas a que a serra tão singularmente se presta.
No estudo das lendas se deve cifrar, segundo julgo, o ambicioso empenho dos que quizerem lançar os primeiros lineamentos da historia do pensamento."
Conclusão, desafio para JRG - Possivelmente um PROJECTO ? Procurei manter, nas lendas e nas transcrições do Relatório a ortografia original e empreender uma reescrita das LENDAS, destas e outras, para assim, no início de III Milenium, tentar descobrir a forma de pensar, os medos e as fantasias dos Lusitanos e dos Povos que nos precederam e formaram a nossa identidade cultural e assim contribuir de alguma maneira para melhor sabermos quem somos - nós os povos da Serra, nós os Lusitanos portugueses, nós os Habitantes desta aldeia Global que é a Humanidade de Hoje - a caminho das Estrelas depois de termos aberto - descoberto os Caminhos do MAR, ou, como diz o Poeta, os Caminhos de A MAR. É porventura um Projecto demasiado ambicioso, mas que será gratificante, ao menos, para mim.
O sr. J. A. F. apresenta, no seu interessante artigo, a seguinte indicação relativa a Manteigas: "Os seus habitantes, leaes, hospitaleiros, e singelos no seu modo de viver, trajam calção e rabene (especie de jaqueta comprida). Homens e mulheres usam de gabão com capuz." ... "Como não ha vias de communicação para esta villa, todos os transportes se fazem em cavalgaduras muares, das quaes ha ali para cima de setecentas." ... "Possue quatro fabricas de lanificios com motor de agua, que produzem saragoças e borlinas bastante ordinarias."

Segue-se outr VERSÃO da mesma LENDA:

Fátima VIII - 2 - In Expedição Científica

LENDA DE FÁTIMA

 

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