Fátima
VIII
LENDA
DE FÁTIMA
2 - in Expedição Científica
LENDA
DE FÁTIMA

LENDA
DE FÁTIMA
In
Expedição Científica - Serra da Estrela, em
1881, - SECÇÃO DE ETHNOGRAPHIA, Relatório do
SR. Luiz Feliciano Marrecas Ferreira , Lisboa - Imprensa Nacional,
1883
1. in Dicionário de José Avelino de Almeida e outros...
O
meu illustre amigo o sr. Barbosa Colen, cavalheiro que ha muitos
annos é conhecedor das localidades circumvizinhas da Guarda,
em folhetim inserto no n.º 246 do Distrito da Guarda sob a
epigraphe de Manteigas, refere-se tambem á Lenda de Fátima,
da qual faz a seguinte elegante descripcão, que não
ouso mutilar, preferindo repetir conhecidos episodios a fazer soluções
de continuidade n'este bello trecho:
"...
Do Herminio, a alterosa serra, que n'esse dia occultava a cabeça
orgulhosa entro as pardacentas nuvens, mosqueadas de pontos escuros
como um dorso de panthera ? vinham lufadas asperas, de um frio intenso,
agudo, penetrante, causando uma sensação simultaneamente
dolorosa e arrepiante, como, a que motivaria o espicaçar
insistente de innumeros alfinetes feitos de gelo. A neve, que cahira
por muitas horas seguidas, em grossos flocos alvíssimos,
estendia-se como um immenso tapete de arminho virginal, ao longo
das quebradas, e, mascarando traiçoeiramente os abysmos e
nivelando em baixo, na planicie, os mais salientes relevos orographicos,
dava a tudo ? desde a pedra musgosa até ao telhado esfumado
? o tom forte da sua alvura intensa, ophtalmica. Algumas raras avesinhas,
d'essas que nos dias invernosos saltitam graciosamente em voos baixos
e rapidos, bicavam aqui e alem, os montões da neve; e, a
espaços, era bonito vel-as, empoleiradas n'alguns dos ramos
crystalisados que rompiam das sarças soterradas, fazendo
a toilette das suas pequeninas azas graciosíssimas, agitando-as
nervosamente, entre pipilos sibillantes d'impaciemcia. De resto
havia por toda a parte um silencio profundissimo. Dir-se-hia que
alem, no povoado, tinha adormecido tudo n'uma funda lethargia fatal,
se das chaminés do casario, agrupado em volta do alcaçar
do emir, não rompesse o fumo em negros e espessos rolos,
que a densidade da atmosphera não deixava erguer em phantasiosas
espiraes, e impellia para a terra, onde rastejavam e corriam como
enormes reptis fabulosos.
De
subito, porém, todo aquelle silencio acordou ao grito de
alarma tão temido: Nazarenos! Nazarenos!
O
esculca, que de uma das roldas do palacio sarraceno de Mantcigas,
vigiava cuidadoso, vira subitamente desembocar no valle do Zezere,
unica saida d'essa cova gigantesca formada por montanhas cyclopicas,
um numeroso e luzido bando de cavalleiros christãos que avançavam
n'uma corrida vertiginosa para não dar tempo á defeza
dos descuidados almoravides.
Foi
rapida a peleja e pouco demorada a resistencia. A curto trecho o
pendão agareno abatia-se humilhado ante o estandarte triumphante
da cruz. Os gritos de "Allah-bu-Acbar! dos guerreiros de lslam,
eram abafados por os de "Christo, e ávante! dos destemidos
invasores, e formando côro a este hymno da victoria, ouviam-se
os gemidos lancinantes dos feridos e moribundos, cahidos por toda
a parte em montões confnsos e informes!...
Foi
enorme a carnificina n'essa lucta de instantes, mas, o que é
ainda mais desolador, é que aquelles dos mauritanos, que
escaparam ao fio dos montantes dos batalhadores christãos,
e procuraram na fuga, desordenada e doida, a salvação
das vidas, foram deixal-as nos abysmos da serra, occultos então
por a neve traiçoeira!...
Horrível!
...
Entretanto, por uma mysteriosa porta do Alcaçar escapava-se
o vencido emir de Manteigas, levando alguns creados fieis com a
parte mais importante dos seus immensos thesouros; e conduzindo
elle proprio, a joia mais cubiçada por os conquistadores
do seu poderio; ? a sua encantadora filha, a formosissima Fatima.
Effectivamente,
nada mais gracioso, mais sublimemente ideal, que essa doce creança,
que principiava a revelar-se mulher na exuberancia dos seios, e
que ia ali, tiritando de frio e medo, encostada ao braço
tremulo do pae.
Os
cabellos escuros tufavam-lhe n'uma opulencia irrequieta sob um bournós
alvadio listrado de côres vivas; ~ os olhos negros, rasgados,
luminosos, dir-se-ia que nadavam em effluvios de uma ternura, de
um sentimento intraduzivel em palavras; a tez de uma suavidade opalina,
tinha, como as perolas de Ceylão, essa rara transparencia
baça; os labios breves, finos, rosados, encrespados n'um
sorriso meiguissimo, resignado e bom, pareciam pincelados com amor
por um pintor de genio; o collo de uma curva ideal ia morrer em
linhas brandas entre encantos que se sonhavam, por o desenho enlouquecedor
esboçado nas graciosas roupas lentejoladas.
Tal
era Fatima, a princesa moura, que o wali guiava, em busca de um
recanto desconhecido da serra que lhes servisse de abrigo e esconderijo.
A
violencia da carreira, porém, prostrou por fim desfallecida
e palpitante a gentil agarena. Gotejavam-lhe sangue os pequeninos
pés, e as lagrimas, retidas com esforço para não
exacerbar a immensa afflicção do pae, cahiam agora,
abundantes e silenciosas, ao longo das faces arroxeadas por o frio.
Pobre Fatima!
A
noite vinha cahindo, rapidamente, cheia de ameaças mysteriosas.
A pequena caravana fugitiva olhou em volta, e, n'uma enorme afflicção
desesperadora, viu só, aos ultimos clarões do dia
que se extinguia, a vastidão interminavel d'esse lençol
de neve, que seria talvez em breve a mortalha que os envolveria
n'alguma das suas gelidas pregas!
Então,
aquelle desoladissimo pae, apertou a filha estremecida de encontro
ao peito, n'um amplexo febril e louco, e quedaram-se assim os dois,
enlaçados por largo tempo, na convicção de
que chegára para elles a hora da eterna e irremediavel despedida!...
...
A serra, porém, toma de subito um aspecto estranhamente bisarro.
As trevas já densas dissipam-se; a neve funde-se; o caminho
apparece calçado de finas pedras preciosas; e ao longe uma
luz forte illumina completamente essa senda salvadora, servindo
de seguro fanal aos fugitivos.
Reanimados
por a esperança caminham rapidamente para o luzeiro providencial,
e, dentro de pouco transpõem o peristylo de um palacio inimitavel,
formado por clumnnas de ouro puro com os capiteis ornados de grossos
diamantes.
Ha
nos vastos salões riquezas incontaveis. Vê-se por toda
a parte luxo deslumbrador, de que não podem dar pallida idéa
as mais faustuosas habitações da Asia. Explendido,
como um sonho! Era o encantado palacio do Coruto de Alfatema, que
ainda hoje la existe, mas que ninguem mais encontrou...
...
Depois d'essa noite ali ficou vivendo a linda moura Fatima, a filha
do emir. Ás vezes, quando a lua illumina a serra com reflexos
pallidos, os pastores vêem-na vaguear por sobre as mais altas
penedias, cantando uma estranha canção soluçante,
aonde se expressa a saudade do seu povo, que ainda não voltou
a reconquistar-lhe o reino usurpado a seu pae. E em noutes de S.
João, é certa no coruto da serra, deixando fluctuar
as longas roupagens brancas ao sabor do vento, emquanto dedilha
n'uma harpa melodias suavisssimas que fazem enlouquecer d'amor quem
tem logrado ouvil-as.
D'uma
vez - há que tempos que isto já foi! - passava perto
do palacio da moura, na noite dos mysterios, uma rapariga da villa,
muito pobre, muito honesta e muito recatada. Tinha no coração
uma funda idolatria por um moço pegureiro, na serra, mas
não tinha siquér uma vara de linho na arca do bragal.
A pobresinha caminhava chorando a miseria que lhe não consentia
a realisação do sonho da sua alma, quando junto de
uma pedra do caminho que leva ao Alfatema, apercebeu um grande estendal
de figos seccos. Recolheu os que podia levar na sua cesta e seguiu
triste por os pensamentos que a affligiam. Quando chegou abaixo,
à pobre casinha em que habitava, viu com alvoraçada
alegria, que a ventura não era já para ella um sonho
irrealisavel. Os figos que recolhera transformara-os a boa fada
em preciosos brilhantes e grandes peças de ouro.
Espicaçada
por a insaciabilidade da ambição, corre a pobre de
novo à serra, mas debalde se afadiga e procura. Então
uma voz simultaneamente meiga e reprehensiva, cantou-lhe este conselho
amigo:
(Segue
a estrophe que precedentemente foi apresentada).
Era Fatima, a encantada moura, filha do emir de Manteigas. Foi ella
quem déra o ouro e o conselho à rapariga enamorada
de um dos pegureiros da sua serra.

Apertado
o emir (e não o rei mourisco, como a lenda diz), que era
o chefe dos arabes em Manteigas, pelo exercito christão,
qne subia o valle, tendo á sua retaguarda o enorme escarpado
que n'aquelle sitio apresenta a serra da Estrella, com 800 metros
de altura, não podendo prolongar por muito tempo a defeza,
por mais aguerridas que fossem as suas tropas, depois de caírem
os campos d'onde se aprovisionava a praça em poder do inimigo,
é claro que lhe restavam como unicos recursos o bater-se
até á morte ou fugir, ganhando a serra, embrenhando-se
no mais aspero das penedias.
O illuslre general Povoas, apertado n'um d'aquelles valles, no de
Alvoco, como em outras eras o foram os arabes, em virtude do grande
conhecimento do terreno que possuia desde a intancia, porque tinha
nascido n'uma das faldas da serra, conseguiu tomar por veredas de
pouco trilho e ganhar outro valle, sem dar um tiro, sempre a coberto
das vistas do inimigo, e, o que mais é ainda, sem despertar
desconfianças, favorecendo-o muitissimo n'este empenho de
evitar ao seu exercito uma derrota certa, o grande relevo do terreno,
que lhe mascarou os movimentos com as suas dobras, e o ter escolhido
a noite para levar a effeito o projecto.
Não havia a mesma estrella propicia para os arabes; era-lhes
completamente impossivel o lograrem o melhor exito de uma tentativa
analoga; expulsos de Manteigas e occupado pelos christãos
todo o terreno ao norte da serra, que elles disputaram, palmo a
palmo, n'uma guerra sem treguas nem quartel, toda a retirada possivel
só se poderia effectuar trepando ao mais alto da serra e
d'ali seguindo para a região ainda vasta da bacia hydrographica
do Tejo, sujeita ao crescente, vedada como se achava a melhor passagem,
valle abaixo, que agora só atravez das hostes inimigas se
poderia realisar.
Devia
de ser o Zezere a primeira das bacias secundarias do Tejo occupada
pelos christãos e o theatro de uma das mais renhidas luctas
de conquista, em consequencia de ser esta bacia a de origem mais
septentrional das que possuem os affluentes do Tejo, e das difficuldades
que o terreno apresentava aos conquistadores.
Segundo
assevera Santa Rosa de Viterbo, derrotados os mouros em Coimbra,
Vizeu, Lamego e Chaves, por D. Affonso III das Asturias, mandou
este monarcha erguer um forte padrasto no Tintinolho, proximo do
local onde se fundou a cidade da Guarda, para o oppor ás
correrias dos mouros da Idanha.
A
camara municipal da Guarda auxiliou a expedição scientifica
mandando executar escavações no Tintinolho, d'onde
se retirou varios objectos antigos, que foram presentes á
secção de archeologia do corpo expedicionario. Não
ha a minima duvida ácerca de ter ali existido uma povoação.
Refere
a lenda que o emir ganhou a serra, o que, segundo deixo dito, parece
quasi certo, levando familia e os bens que pôde conduzir;
a imaginação popular, excitada vivamente pelo grande
e primeiro revez que o exercito mourisco experimentava n'aquelle
valle, architectou uma lenda ácerca da fuga do emir, que
subtrahia uma filha de peregrina belleza ás garras dos inimigos.
Aquelles
para os quaes as lendas, longe de serem um frivolo passatempo, constituem,
pelo contrario, um interessante objecto de estudo, reconhecerão
n'esta um episodio, palpitante de interesse, da longa historia de
sangue e de lucto que teve sobre o nosso solo a pugna ferida entre
as raças e as religiões que ali se digladiaram.
É
interessante a analogia que a lenda nos apresenta com muitas outras
germanicas. Em varias lendas da D. Branca convertiam-se em oiro
os presentes que fazia este ser phantastico; no regaço da
rainha Santa Izabel transformava-se, pelo contrario, em flores o
oiro da esmola.
(Nota de JRG) Como se sabe, na Expedição
Scientifica à Serra da Estrela - 1881, a Secção
de ETHNOGRAPHIA, teve como Chefe Luiz Feliciano Marrecas Ferreira,
S. S. G., capitão de engenharia, professor da escola do exercito;
e Antonio Lopes Mendes, S. S. G. Agronomo. Ora como se diz na apresentação
do trabalho desta Secção: "Este relatório
foi recebido na Secretaria da Comissão Administrativa da
Expedição em 19 de Novembro de 1882." Logo a
seguir, o "auctor" dedica este trabalho a Luciano Cordeiro,
Presidente da Sociedade de Geographia de Lisboa. Logo a seguir vem
uma advertência importante que vamos transcrever. É
bom ter presente que uma das finalidades da Expedição,
talvez a principal, era dar uma resposta aos muitos boatos e lendas
que se contavam sobre a Serra, exactamente por ser mal conhecida
e não haver dados científicos sobre os mais variados
aspectos, como se pode ver pelo número das Secções
que foram organizadas: Agronomia e Sylvicultura, Anthropologia (chefiada
por dois médicos), Botanica, Chimica, Ethnographia (que não
esteve no terreno), Geologia, Hydrographia (com uma sub-secção
para - Levantamento e sondagem das Lagoas), Medicina (com uma sub-secção
para Hydrologia Minero-medicinal e outra de Ophtalmologia, de Meteorologia,
Photogrphia, Zoologia, Zootechnia, com uma secção
auxiliar de Topografia... Pela ADVERTÊNCIA a seguir verificamos
que se perdeu uma oportunidade única de se ter realizado
no terreno a recolha dos contos e Lendas da tradição
Oral! Entretanto temos de reconhecer a oportunidade e o valor do
trabalho realizado por esta secção e parece no Relatório
com o título: AS LENDAS DA SERRA DA ESTRELA NA TRADIÇÃO
ESCRIPTA - com 11 divisões: I - Communicação
das lagoas com o mar, fluxo e refluxo, bramidos quando ha tempestade.
II - Profundidade indefinida das lagoas. III - Olhos marinhos. IV
- Qualidades maravilhosas das aguas. V - Exageradas dimensões
da Serra. VI - Teshouros encantados. VII - Crusta do terreno. VIII
- Cavernas. IX - Opiniões de estrangeiros ácerca da
serra. X - Connexão das lendas - Viriato. XI - Interpretações
locativas.
"ADVERTENCIA: Quando a expedição partiu para
a serra da Estrella, ninguem ia inscripto na secção
de ethnographia, de sorte que bem poucos foram os apontamentos,
que ácerca de tão interessante assumpto poderam tomar
os membros das outras secções os quaes deviam occupar-se
dos serviços especiaes que lhes foram commettidos.
N'estas condições era impossivel o elaborar um trabalho,
fructo de uma detida exploração, que se não
fez; congreguei, porém, as minhas escassas forças,
para reunir alguns materiaes, que possam num dia. talvez proximo
servir para a descrição do meio em que a lenda se
conserva, como por muitos muitos annos a neve, ou onde se fórma
e avulta como a torrente das montanhas.
Na impossibilidade de obter dos meus apontamentos uma indicação
dos thesouros, que andam na tradição oral, fui pedir
à tradição escripta os materiaes de que neste
trabalho me servi.
A tradição escripta ha de nortear, de certo, algumas
das minhas explorações ethnographicas a que a serra
tão singularmente se presta.
No estudo das lendas se deve cifrar, segundo julgo, o ambicioso
empenho dos que quizerem lançar os primeiros lineamentos
da historia do pensamento."
Conclusão, desafio para JRG - Possivelmente um PROJECTO ?
Procurei manter, nas lendas e nas transcrições do
Relatório a ortografia original e empreender uma reescrita
das LENDAS, destas e outras, para assim, no início de III
Milenium, tentar descobrir a forma de pensar, os medos e as fantasias
dos Lusitanos e dos Povos que nos precederam e formaram a nossa
identidade cultural e assim contribuir de alguma maneira para melhor
sabermos quem somos - nós os povos da Serra, nós os
Lusitanos portugueses, nós os Habitantes desta aldeia Global
que é a Humanidade de Hoje - a caminho das Estrelas depois
de termos aberto - descoberto os Caminhos do MAR, ou, como diz o
Poeta, os Caminhos de A MAR. É porventura um Projecto demasiado
ambicioso, mas que será gratificante, ao menos, para mim.
Segue-se,
ainda, outra VERSÃO da mesma LENDA:
Fátima
IX
LENDA
DE FÁTIMA
a
sua versão

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