Serra da Estrela - Manteigas

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um ANDARILHO em viagem pelas
7 partidas... 7 jornadas... 7 mundos... 7 mares... 7 temas... 7 espaços... 7 tempos...

por JORAGA o acrónimo de JOsé RAbaça GAspar e outros mais de 1001 deNÓMIOS...

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LENDA DE VIRIATO

in a LENDA DO PASTOR DA SERRA DA ESTRELA
(Versão completa)

Afinal a História Continua...(ou a possível LENDA DE VIRIATO)

... inesperadamente, um dia, mesmo sabendo que eram gente pacífica e sem armas, mas fortes e valentes que sabiam manejar as pedras e os cajados com que pasciam os seus rebanhos e habituados à vida dura e agreste no meio das florestas e crestados ao rigor das estações aguentando como filhos da terra as intempéries do inverno como os rigores do verão, chegou àqueles povos da Serra um pedido de socorro de povos seus irmãos do norte da Ibéria. nessa altura, os filhos de Luso ou Lisa que terão sido filhos de Baco ou companheiros como diz o poeta maior, já se espalhavam entre o Douro e Tejo e se estendiam por terras de Castela. as gentes da Galiza estavam a ser alvo da cobiça dos Fenícios e Cartagineses que até aí tinham sido pacatos mercadores e viajantes amigos... começara a guerra. era no ano duzentos antes de Cristo e como os cartagineses andavam em guerra com os romanos estes povos fizeram-se seus aliados para os combater. em má hora. soava a hora de se acabar a paz na Serra... esta aliança acendeu a cobiça dos romanos senhores do grande império que ali viram uma oportunidade de se estenderem ainda mais.

tendo destruído Cartago os romanos ambiciosos foram alargando as suas fronteiras e ciosos da sua superioridade pelo poder das suas legiões e pela sua cultura foram alargando as suas fronteiras. muitos povos da Ibéria submeteram-se sem luta. recebiam como dádiva generosa os benefícios da sua poderosa protecção contra outros povos e as vantagens da sua civilização avançada, do seu poder de organização e administração com as promessas de um progresso e desenvolvimento que muitos desejavam... tarde davam conta que tinham perdido a sua independência e liberdade.

avançaram até às fronteiras da Lusitânia até onde já chegava a influência dos montanheses herdeiros da rebeldia, independência e liberdade do velho pastor jovem que conquistara a Serra. hei-los de novo em armas. quando viram que os seus povos corriam perigo de ceder aos romanos, da mesma maneira que tinham socorrido os povos de Cádis, vários chefes juntavam os seus pastores que se transformavam em guerreiros e assim iam mantendo os romanos nos limites que lhes convinham... não queriam a guerra! queriam tão só que os deixassem em paz com a sua terra, os seus rebanhos a sua Serra... não contavam com tal resistência o orgulho e a arrogância dos romanos... povos pequenos e incultos organizados muito desorganizadamente em clãs e tribo dispersas! como se atreviam a enfrentar um império que lhes oferecia uma cultura e uma civilização mais desenvolvida? consta que um chefe, de nome Púnio, conseguia manter uma defesa eficaz e suficiente. nos acampamentos onde os seus pastores guerreiros se agrupavam para preparar as suas incursões e onde se reagrupavam depois dos combates por vezes ferozes, acendiam-se fogueiras monumentais, e um velho de barbas brancas chamado Alípio era o melhor contador de histórias um velho contaouvidor de histórias... e contava as histórias do velho pastor jovem que conquistara os montes ermos e como tinha vencido, sozinho, o tal rei do mundo, e como tinham corrido em socorro dos povos amigos do norte, eles que eram gente pacífica em paz com a terra e com a serra... de entre os seus ouvintes, um dos mais jovens pastores que por vezes fora guerreiro era um sonhador audaz corajoso e destemido que se chamava Viriato... os seus olhos brilhavam como estrelas com o reflexo das grandes fogueiras que iluminavam a noite e as histórias do velho Alípio acendiam-lhe os olhos na escuridão quando nas longas noites sem dormir contemplava o firmamento iluminado por milhares de estrelas... se um pastor sozinho venceu a insolência de um grande rei do mundo! ... e sonhava, sonhava, mas quem era ele para realizar o sonho!?

um dia correu a notícia de que Roma enviava finalmente um poderoso exército nunca visto! quedaram-se nos limites dos povos que se lhes tinham submetido. como senhores de um grande império civilizado e civilizador não queriam conquistar os povos insubmissos pela violência bruta e pela guerra cruel! as suas legiões eram só para manter a ordem!!! convocavam os povos da Lusitânia mais indómitos e resistentes para uma reunião pacífica onde lhes seria exaustiva e convincentemente explicadas as vantagens de uma tal civilização. cansados de tanta guerra que os impedia de viver em paz na Serra, estes povos rebeldes da montanha desceram a um grande vale. iam como se fossem para uma grande festa e afinal iam como ovelhas para um matadouro. homens velhos mulheres e crianças foram-se juntando na margens do Tejo onde se tinha combinado a grande reunião com os poderosos e compreensivos chefes das legiões de Roma. quando souberam que os principais chefes que eram contra a dominação romana se encontravam entre a multidão Galba mandou avançar as suas legiões fortemente armadas e apoiadas por numerosa cavalaria reforçada com elefantes que eles tinham integrado nos seus exércitos desde a vitória sobre Cartago...ali foram milhares de Lusitanos brutalmente atacados e chacinados como faria o conquistador Cortês aos Astecas e Pizarro com os Incas indefesos... ali estava a traição, o embustes, as promessas de paz e prosperidade para todos que aqueles montanheses desconfiados não entendiam nem queriam entender nem aceitar! o vale ficou cheio de mortos! era um exército como nunca fora visto naquelas paragens para difundir os benefícios da cultura e da civilização!!! vinham à procura de oiro e de poder para aumentar a imensidão de oiro e de poder e de cobiça do seu imperador que já não se contentava com os limites quase sem limite do seu império!!! não era para isto que os montanheses tinham saído da sua paz e tinham corrido a combater fenícios e cartagineses. era para poderem continuar em paz, com a sua independência e liberdade.

parecia tudo perdido. Púnio que reunia o consenso da maioria dos chefes lusitanos ficara entre os mortos. Viriato que o viu cair ao seu lado, atacado por um elefante, derruba o guia que conduzia aquele animal que tudo esmagava à sua frente e cavalgando-o derruba aquele monstro com a sua faca de pastor como aprendera a matar de um golpe os grandes touros bravos e os ursos que eram preciso matar para comer e para se servirem das suas peles... junta-se aos descontentes e revoltados que se refugiam na Serra e assume o comando dos que estavam dispostos a não tolerar o domínio a arrogância de Roma e nunca acreditaram na salvação e nas promessas dos invasores. à volta do pastor mais arrojado que conhecia melhor que todos os segredos da serra organizaram então numerosos e repentinos ataques às legiões romanas que nem tempo tinham para organizar as suas invencíveis estratégias de guerra! atraíam-nos a emboscadas... esmagavam-nos nos vales onde acampavam... precipitavam-nos nas gargantas temerosas quando se atreviam a procurá-los mais nas alturas... com tácticas imprevisíveis para a pesada máquina de guerra dos orgulhosos romanos, os lusitanos de Viriato tornavam-se desesperadamente invencíveis. combatiam todos, homens e mulheres. as próprias crianças com as suas fundas de manter os lobos à distância dos seus rebanhos chegavam onde as lanças dos inimigos se tornavam terrivelmente inúteis... era um povo em luta pela sobrevivência que recusava uma ordem e uma paz imposta por reis e imperadores... contam os povos da Serra que o rico Astolfas era dos homens mais influentes e poderosos que apoiava Viriato e lhe dava guarida e protecção quando precisava de refúgio. Vanídia a sua filha apaixonara-se por ele e requisitava-o nos breves intervalos entre um e outro combate. mas conta-se também que era Lízia, a filha de Idevor que lutava lado a lado com o seu herói e animava aquela força indómita que parecia renascer depois de repousar profundamente no ventre de uma caverna secreta da serra que lhe servia de abrigo. mas Lízia ou Lízias nunca apareceu como mulher. era o guerreiro mais audaz e temerário que seguia Viriato como a sua sombra!

depois de Galba que é denunciado em Roma como traidor pelo velho Catão perante os trezentos membros do Senado Romano, mesmo assim Roma não desiste e envia Caio Vetílio ou Marco Vitélio que encontrando os povos ainda mal organizados e divididos consegue vitórias fáceis e faz recuar as fronteiras dos Lusitanos. é perante esta ameaça que os novos chefes das tribos e dos clãs que escaparam à chacina de Galba decidem confiar a bracelete de oiro símbolo da força indomável ao pastor mais audaz que já dera provas de saber lidar com tão poderosos exécitos e lhe impõem o colar com a víria símbolo do comando. Agora era Viriato o chefe incontestado com a sua víria o que de imediato lhe granjeou poderosos e mortais inimigos que se afastaram para o manto protector dos invasores... confiante nas suas vitórias, fáceis até aí, Vitélio organiza a sua poderosa cavalaria e resolve atacar em fúria um numerosos grupo de cavaleiros lusitanos industriados por Viriato que dias a fio, de longe, faziam negaças ao inatacável campo romano... era uma planície imensa. movimentar legiões, pensa o convencido Vitélio pensando o que o estúpido Viriato queria que ele pensasse, não dariam caça eficaz àqueles atrevidos. os elefantes, seriam pesados demais quando os velozes lusitanos se embrenhassem pela montanha... a cavalaria é disparada em fúria cega para os surpreender em velocidade... era exactamente o que Viriato tinha previsto. a planície terminava num pantanal coberto de alta vegetação e à aproximação dos romanos os velozes lusitanos abrem-se pelos flancos em dois largos arcos e enquanto os primeiros caem no atoleiro já Viriato e os seus homens estão na rectaguarda do inimigo empurrando-os sobre os seus companheiros... derrotado e humilhado este general, Roma envia Plâncio que outros chamam Pláucio com dez mil soldados! sua cavalaria e pesados elefantes. foram completamente dizimados na passagem de um desfiladeiro que eles julgavam seguro e protegido! para vingar esta afronta Cláudio Unimano que já tentara aprender as inesperadas surpresas inventadas por Viriato organiza uma investida poderosa para forçar os lusitanos a cair, em retirada, no vale onde o confiante Caio Nigídio os aguardava com um exército ainda mais poderoso. no momento em que Unimano se prepara para a investida os sagazes zagais e zagalas soltos do corpo principal dos guerreiros lusitanos caem de todos os lados sobre as suas legiões logo atacados pelo grosso da coluna comandada por Viriato... e no mesmo momento o acampamento das legiões de Nigídio são esmagados e pulverizados por uma orda de touros selvagens que os experimentados pastores assolaram sobre eles em correria desenfreada que semeava a morte... vem ainda Caio Lélio, mais prudente, que procura fomentar intrigas e divisões entre as tribos e clãs já cansadas da guerra e invejosos do poder que fora confiado a Viriato. sem êxito. Quinto Fábio, outro experimentado general, fortemente prevenido e preparado para todas as surpresas vem afinal a cair nas mãos dos pastores sem luta. vem ainda Quíncio e depois Serviliano. novas artimanhas e inesperadas manobras do infatigável e imbatível Viriato batem todas as estratégias sabiamente estudadas e poderosamente postas em prática pelas invencíveis legiões romanas. Serviliano, ainda que vencido, tenta uma cartada que porventura daria satisfação a Roma e domaria aquela imbatível fúria lusitana. envia os seus mensageiros com propostas para um tratado de paz e manda oferecer a Viriato um cinto de oiro que o tornaria rei da Lusitânia por vontade e às ordens do imperador de Roma! tantos anos de Guerra!? não seria preferível a paz? os anos de luta e de chefia não lhe granjeavam já o direito de acender às vantagens do mando sem guerras! o poder corrompe! não estaria já a produzir os seus efeitos? entretanto Roma mandara já Pompílio e Pompeu em socorro do enfraquecido Serviliano para reforçar o seu poder no terreno já conquistado e fazer avançar os seus exércitos o mais possível e finalmente Roma que criticou e retirou Galba por ter posto em causa os princípios da civilização romana por causa da traiçoeira chacina envia o prejuro e intriguista Quinto Cipião com um imenso e vingativo exército! Mesmo assim não ataca. envia mensageiros à Serra propondo um encontro em que se possa discutir e rever o tratado feito por Serviliano. Viriato, o portador da víria garante da honra e da fidelidade à palavra dada e símbolo do comando e da independência não vai. envia os três homens da sua maior confiança experimentados conhecedores das artes de guerra dos romanos e da sua cultura. são Minouro (Minuro), Ditallon (Dictaleão) e Aulaces (Andaca). levam a incumbência de exigir que o tratado de paz seja respeitado por Quinto Cipião e pelos seus poderosos exércitos. que eles vivam na sua Pax Julia e o deixem a ele Viriato e aos lusitanos viver em paz nos seus trabalhos e nas suas choupanas que cobertas de colmo da cor dos campos tão bem os defendem do frio e do calor e dos olhos cobiçosos dos estranhos... a viagem dos três mensageiros é demorada. são homens evoluídos e ambiciosos que podem ser trabalhados por um intriguista refinado como é Cipião. tinham sido escolhidos precisamente por terem uma educação e um nível intelectual superior ao da maioria dos guerreiros e assim estarem mais ao nível dos romanos. convinha dar a ideia àqueles civilizados de que os montanheses também tinham gente evoluída. são recebidos com todas as honras. passam em revista as legiões mais vistosas do exército romano com seus pendões e luzidias fardas... visitam cidades e povoações que prosperaram sob a influência e orientação dos pretores cônsules e administradores romanos!!! que diferença! valia a pena continuar naquele atraso e desconforto lusitano agravado ainda pelo desgaste de uma guerra que parece não ter fim!?... estavam perdidos. ali estava na prática muito do que eles tinham sonhado poder proporcionar a todos os habitantes da serra. sabiamente seduzidos por Cipião e seus generais com promessas de avultada recompensa em ouro e notáveis cargos no exército ou na administração das conquistas futuras... insistentemente trabalhadas as divergências e a inveja que tinham a Viriato, um pastor inculto meio selvagem autoritário e indomável... recebem ouro e partem para cumprir a sua missão. não se fazem anunciar. chegam de noite onde sabem que Viriato pernoitou. a confiança é tanta e a ansiedade pela resposta que possa trazer alguma esperança de paz é tamanha que têm acesso imediato aos aposentos de Viriato que dorme. saem ainda pela calada da noite. no outro dia se saberiam as grandes novas e o acontecimento que mudaria toda a história! só uma traição tão hedionda podia por fim àquele chefe providencial e genial que dava aos lusitanos a oportunidade de manterem a sua liberdade e independência perante uma guerra sem quartel a que eram submetidos pela ambição desmedida dum imperialismo desenfreado... era uma fatalidade! quando a traição é descoberta os traidores estão prudentemente longe. melhor do que ninguém eles sabiam como. mas nem chegam ao acampamento principal. Cipião mandara assassinar miseravelmente os três mercenários quando aterrorizados vinham receber o prémio do seu horrível triunfo. intriguista e perjuro, Cipião sabia bem que quem trai os seus não será certamente fiel a estranhos que lhes pagam para trair. quem sabe se não lhes pagariam para o atraiçoar a ele?!

quando a notícia correu a Serra como um raio seguido de trovão levanta-se um coro imenso e uníssono de dor e de vingança. morte aos traidores! honra ao grande chefe! e logo chega a notícia de que estão mortos. Vingança! clamam desvairados os que se querem atirar sobre as legiões romanas em gesto suicida. como?! se nem Viriato se atrevia a combater sem hábil preparação um tão poderoso exército ainda por cima em estado de alerta e prevenido... revoltados desanimados e clamando vingança é em multidão que se junta para celebrar os funerais de Viriato. é erguida uma enorme pira no alto da montanha. os guerreiros revezam-se para o transportar o chefe adorado até ao alto e o barulho das armas a bater nos escudos e os gritos de vingança enchem os vales... Durante dias e dias os druidas celebram-se as cerimónias rituais em honra do deus Endovélico e quando o fogo é lançado a enorme pira transforma-se numa fogueira abrasadora que transforma a serra em estrela cintilante e as danças guerreiras atingem o delírio misturado com os gritos de dor e luto de ódio e de vingança... que deus e os manes nos protejam agora que nos enviou um grande chefe e agora permitiu que morresse à traição!

no meio da confusão dos gritos dos coros e dos choros e no meio dos cantos de guerra e de festa que se iam desenrolando à roda da pira ardente agora num imenso braseiro os pastores guerreiros querem eleger um chefe que conceba uma pronta e adequada vingança. quem vingaria melhor o chefe morto senão o belo Suldório aquele valente guerreiro duma beleza estranha e triste que viera do sul logo que Viriato assumira o comando e que se tinha tornado o seu maior amigo e companheiro inseparável e que o tinha salvo em tantos perigos e emboscadas? Vingança! Vingança! a víria ao belo Suldório que assuma o comando. Mas Suldório, o belo Suldório como era conhecido, estava junto à pira chorando incontroladamente olhando o corpo do amigo que se transformava em cinza. surpreendido pelo clamor geral que o aclamava, para surpresa geral, o intrépido guerreiro rasga as vestes e precipita-se naquele braseiro abraçando o corpo quase consumido pelas chamas. era uma bela e formosa mulher dizem os que a viram atirar-se ao fogo para ali consumir a sua paixão que a trouxera de longe para o lado de Viriato mas que sempre se vira suplantada por Vanídia que tinha os seus favores e lhos podia retribuir! era Lízias o seu companheiro inseparável que o acompanhava por todo o lado como uma sombra e chorava desesperado, agora desesperada, por não ter podido evitar a traição. contam ainda aqueles que assistiram que os dois corpos finalmente unidos a arder levantaram uma grande faúlha incandescente que se ergueu acima do braseiro, ergueu-se mais, voou ao céu e quando a tentaram seguir com o olhar eram uma estrela brilhante faiscante que naquela noite brilhou mais ali sobre a serra e lá continua a brilhar no céu distante ali tão perto do alto da Serra da Estrela!

é Tântalo o Lusitano que vai herdar a víria e comandar a vingança contra Cipião. perante tanta baixeza e iniquidade dos romanos aparece Sertório, romano que se oferece aos lusitanos para combaterem mais eficazmente os inimigos. sucedem-se ainda outros chefes que durante mais de um século conseguiram resistir aos sucessivos exércitos romanos e seus aliados... estávamos no ano cento e trinta e oito antes de Cristo e só no ano dezanove antes de Cristo se dá a rendição da Península que é ocupada pelos romanos até ao século sétimo da nossa era em que os árabes vão subindo até às Astúrias onde se refugiam os resistentes...

quantos anos séculos correram até hoje! quem somos e donde vimos os que hoje habitamos estes montes? dos romanos restam castros e vias empedradas ainda visíveis nalguns pontos da Serra e muitos outros vestígios. há um Campo Romão a caminho das Penhas Douradas, mas em muitos lugares ermos, não há sinal da sua passagem. houve sempre os que se bateram pela sua independência e liberdade dispensando o brilho da civilização romana tentando manter a Serra como esteio estrela para todos os povos da península. da passagem dos árabes, teria para te contar a lenda dramática da moura Alfátima que fugiu à perseguição dos cristãos refugiando-se no monte que tem o seu nome e onde espera o regresso dos que a virão salvar!

aí tens Zé da Serra a história da minha serra a minha história. sempre longínqua e distante, foi sempre terra de pastores e dos que trabalharam as lãs e o leite quase esquecida e ignorada por todos. apareceram em mil oitocentos e oitenta e um os cientistas que vieram para desvendar os mistérios e desvelar os segredos! honra ao seu trabalho pioneiro, mas ficaram-se muito pelos dados científicos e pelos números e explicações superficiais que para eles eram muito profundos! de resto, desapareceram florestas, replantaram florestas. quase desapareceram as pastagens para os imensos rebanhos... interesses obtusos e ínvios têm desfigurado a minha Serra!

como os Maias, Incas, Azetecas, os Índios da América e os da imponente Amazónia também os indomáveis Lusitanos foram dizimados e dispersos... que aconteceu a estes povos? todos vencidos à força de traição, da ambição, da ganância, da cegueira, arrogância, temeridade e prepotência dos grandes povos civilizados - civilizadores que se encarregaram de DAR, oh! DOR!, a todos os povos que chamaram atrasados, selvagens, incultos, terroristas..., os benefícios! da sua civilização, da sua religião, da sua verdade, da sua política, da sua democracia, dos seus valores, das suas crenças... dos seus defeitos e crimes... em nome de deus e de deuses e do diabo... em nome do direito e da justiça... e do direito de conquista... em nome da ciência e da cultura... sobretudo em nome de uma civilização apoiada num deus criador do universo e detentora de uma única verdade para todos, em nome do respeito pela pessoa humana... em nome da família... quantos crimes cometidos em nome das coisas mais sagradas que foram profanadas e tornadas obscenas até à náusea e ao nojo pelo modo irracional e vergonhoso como foram impostas e que, em vez de encherem de vergonha e repúdio público os que cometeram tais monstruosidades, são exaltados e promovidos a heróis pela imortalidade da história, na história que tem sido oficialmente divulgada, considerando grandes conquistadores e heróis os que podiam ter descoberto a grandeza variedade e unidade deste vasto mundo tão pequeno!!! como é que é feita a história? quem faz a história? como é que é contada a história? quem conta a História? qual é a versão da história que é oficializada? por quem? porquê? para quê? até agora foram consagrados como grandes heróis da humanidade os grandes descobridores e conquistadores como modelos de uma humanidade civilizada que se erigiu como modelo dominado pela sede de conquista pela ambição loucura e insensatez humana que parece não querer parar enquanto não conquistar tudo o que lhe foi dado, mas à sua maneira de conquista sem conquistar, sem aceitar as diferenças, sem respeitar, sem admitir que há outras verdades, outras crenças, outros valores, outros costumes, tradições, direitos... sem tolerar os defeitos... sem aceitar o direito ao lazer e à preguiça... Uma sociedade desenvolvida que sonha atingir um nível económico que permita aos privilegiados o lazer, o direito à preguiça, o direito a consagrar o seu tempo ao que mais gostam ao que lhes dá prazer àquilo que os realiza como pessoas humanas, não suportou ter encontrado clãs tribos povos que tachou de selvagens, atrasados, incultos que já realizavam este ideal!... vemos uma sociedade modelo que se desprendeu das sua raízes, cortou as suas ligações vitais, não respeita mais a sua mãe natureza e a sua integração intrínseca no cosmos... que confundiu o corte do cordão umbilical vital, com a irrecusável e fundamental ligação às suas raízes, às suas fontes... é ver como ainda agora as grandes nações civilizadas que não souberam respeitar e guardar as suas raízes primitivas das suas gentes, da sua mãe terra, que destruíram as suas florestas, que poluíram os seus rios, se impuseram como modelos, andam agora por aí a gritar aos povos que chamam atrasados que não poluam... que não agridam... que não destruam... que não esqueçam as suas raízes... que copiem a suas democracias, os seus modelos, a sua liberdade, o seu progresso, o seu desenvolvimento... que combatam a fome e a miséria que a sua interferência civilizacional as suas leis, os seus crimes, as suas imposições e o seu modelo lhes impuseram!... ver como as sociedades desenvolvidas estão a permitir o aparecimento de grupos e movimentos que agora, passados séculos, se lançam à descoberta das ruínas, dos vestígios, dos valores que eles próprios varreram e destruíram como retrógrados, como selvagens, como indignos da sociedade humana!!!

afinal por onde caminha a humanidade? por onde e para onde quer caminhar? quais são afinal as forças dominantes? as elites que dominam pela força pela economia e pela cultura institucionalizada? ou as maiorias herdeiras duma tradição milenar? sem poder senão o da força das águas que as barragens podem travar e rentabilizar mas não podem parar?! sem poder económico?! sem voz e meios que dêem voz à sua voz?!

estávamos, estamos numa encruzilhada! era, é a confusão! os que se sentem filhos da terra... os povos com uma cultura ligada às suas raízes, à terra que os pariu... entram em confronto com os que já não se sentem filhos da terra... se envergonham dela como os que singraram na vida se envergonham dos seus pais pobres e analfabetos que permaneceram rurais, atrasados, ligados à terra... sonho querido e possibilitado por esses próprios pais que se sentiram marginalizados pela sociedade... e produziram o tipo híbrido de desenraizados sempre saudosos das suas raízes!... contradição! cruzamento de conflitos! Quando é que o progresso e o desenvolvimento vão crescer respeitando as suas raízes mais profundas?...

era a confusão! que fazer nas horas graves em que a loucura e a insensatez e a arrogância dominam sobre os amantes da paz e da terra?! os lusos, como os maias os incas os azetecas os índios os amantes da independência e da liberdade ligados às suas raízes com a natureza e com a terra que os pariu, os indomáveis... agora mortos... desaparecidos... os sobreviventes agora dispersos e em fuga que haviam de fazer? na confusão da dispersão, consciente uns, inconscientes outros, trocaram os nomes dos espaços e lugares lançando ainda mais confusão sobre os inimigos que invadiam a sua terra e a sua serra abandonando-os aos mistérios da terra e da serra para subverterem e inverterem a seu bel-prazer e imporem os seus modelos e as suas soluções... passaram fenícios cartagineses romanos conquistadores mouros faustosos e fanáticos com suas lendas e lindas mouras de encantar, vieram visigodos celtas celtiberos alanos suevos hunos e todos partiram vencidos e frustrados deixando raízes vestígios palavras usos costumes... à frente dos últimos conquistadores os resistentes das astúrias que se lançam na luta da reconquista os cruzados da terra santa e do condado potucalense e da tomada de lisboa aos mouros e de santarém e de évora e de ourique e dos algarves... do in hoc signo vinces... com verdades valores e certezas, com uma civilização para impor... e como os outros encheram a terra e a serra e as gentes com os nomes e os fantasmas e as ligações que eles tinham com a serra e a terra e as gentes e as fontes e os rios e as plantas e os astros... baptizaram tudo e todos! tentaram apagar os nomes sagrados profundos e verdadeiros nascidos de culturas mais ligadas à natureza? profanaram os nomes sagrados das coisas dos tempos dos espaços dos lugares das formas que as coisas formam profanaram os nomes das estrelas e constelações que brilham no espaço? quem profanou o quê? quem mudou o quê? que sentido têm os nomes das coisas e das pessoas? que sentido tiveram? quem lhes deu os nomes? como se foram mudando os nomes? lenta ou bruscamente? porquê? uma mentalidade que se ia mudando e evoluindo ou fruto de rompimentos bruscos provocados por uma revolução que pretendia tudo mudar e deixava tudo mais ou menos na mesma?!

a confusão. o caos. o caos normal do universo que afinal não se rege pelas leis que nós supomos ou determinamos mas sim pelas leis que é preciso descobrir e ver... ou o caos provocado pela falta de lucidez de clarividência de verdade de justiça de respeito...? E onde está a lucidez e a verdade?

antes chamaram-me serra erma. Montes ermos ou Hermínios. talvez nunca o tenha sido como agora! Serra avara, ciosa, estrela, terra erma, guardo em mim os mistérios dos meus segredos e tesouros e valores que tantos a todo o custo tentam desvendar escavando sulcando rasgando desfigurando salvaguardando construindo destruindo limpando arranjando emporcalhando sujando ornamentando civilizando enturismando... até um dia... só no dia em que a ganância e a ambição e a cegueira deixarem de dominar os homens e mulheres e as mulheres e os homens deixarem de dominar e espezinhar homens e mulheres e crianças e os animais e os seres e as pedras e as coisas... então, é que o meu segredo se revelará. quando souberem ver ouvir e ler, então a estrela que brilha tão longe aqui tão perto falará e a estrela serra terra se abrirá àqueles que tendo olhos querem ver ouvidos querem ouvir nariz querem cheirar e boca querem saborear e cantar e membros e pele querem sentir e sentindo e cantando e cheirando e ouvindo e vendo querem perceber e entender o sentido profundo das coisas que eu revelo com as formas que têm as pessoas e as coisas e os seres e as flores e as fontes e os montes e os vales... e as estrelas... e entendendo as amem. porque tal como toda a água das nascentes e das fontes e cascatas e corgos e ribeiros e ribeiras e rios... corre para o mar, assim tudo o que é fonte de água vida corre para Amar.

 

 

é esta a minha história Zé da Serra, Zé Ninguém. é esta a minha história verdadeira para ti, para tu leres o universo infindo, para te leres, que eu te contei em segredo do alto do ano de dois mil metros com os pés assentes no chão a nove ou sete metros anos de distância do dois mil. conta-a, Zé da Serra. divulga a minha história secreta que cada um terá de descobrir e inventar chamando-me pelo nome e, inventando procurando descobrindo achando adivinhando, encontre de novo o nome das coisas e das pedras e das pessoas e dos sítios e dos lugares e tempos em cada tempo e lugar redescobrindo e recriando as lendas que se perdem e renascem cada vez que são contadas... aprendendo afinal a ler as letras de um alfabeto secreto aberto às escancaras nas alturas aos olhos de todos para todos poderem ler desde que eu existo serra-terra... faz-te ouvir por todos nesse mundo de homens loucos que só pensam em guerras e conquistas e pensam que sabem tudo mas não fazem, e se não fazem é porque não sabem ou fazem sem pensar e então fazem mal porque não pensam e então passam a vida em conflitos e intrigas sem fazer e sem deixar fazer os que pensam e sabem e querem tempo para pensar e para fazer porque enredados em redes de rendas labirintos sem saída que provocam o cansaço o desgaste a morte sem sentido, sem prazer, sem a felicidade de se tornar vida! é essa a tua responsabilidade Zé da Serra do Vale do Zêzere nesta viagem única à minha Serra Terra Sterra, viagem súmula das mil viagens dos milhares de viajantes, que só eu posso proporcionar a cada um colectivamente, de cada vez ao mesmo tempo, a um lugar a todos os lugares, à sua serra à sua terra que é a Terra toda o Mar A mar o espaço.

tu és louca serra terra. deixa-me falar assim já que passado tanto tempo tanta história chegámos a esta intimidade... afinal tu és ainda mais louca do que eu e do que me tinham contado. quem sou eu para me fazer ouvir? já não estamos no tempo das histórias da Carochinha ou da Gata Borralheira ou da Bela Adormecida! os homens de hoje já não acreditam que é o menino Jesus que põe a pedra no sapatinho na noite de Natal. já não acreditam em estrelas que falam e têm segredos e mistérios. não há mais mistérios para os homens que são também mulheres. têm livros, enciclopédias, ciências, têm a Ciência e centros de saber. têm máquinas e até fabricam estrelas de um firmamento fabricado por máquinas... e têm jornais e revistas e rádios e cinemas e televisões e meios de comunicação cada vez mais avançados em que uns comunicam e os outros são comunicados... e inventam estrelas que falam e até dizem os sabonetes ou os sabões que dizem que usam para serem belas e assim se tornaram estrelas... e têm jogos que dão prémios a qualquer hora do dia ou da noite e lotarias e totobolalotos que resolvem escondem os problemas dos que não têm salários de miséria... e têm salvadores e ministros e ministras e presidentes e eleições e deputados e santos e messias e até aparições e salvam a humanidade todos os dias... e param inflações e sobem inflações... até mandam jogar na bolsa... e com duas penadas o que ontem era insucesso hoje é sucesso e vice-versa sem nexo ou sem sexo... e até ensinam e oferecem a cultura aos incultos tudo já em caixinhas muito enfeitadinhas e prontas a servir e irresistíveis... deite a sua cultura fora como os móveis velhos e adquira esta ao melhor preço!!! ...e têm máquinas para escreverem as falas de alguns que podem falar em nome de milhões porque têm milhões e os milhões que não têm milhões não precisam de falar porque não têm nada de importante para dizer... e para salvarem a civilização e os milhões matam ou mandam matar ou deixam que morram milhões dizendo que salvam milhões... e têm até máquinas que voam a caminho das estrelas e as lêem e ficam finalmente a saber do que são feitas o que têm e o que não têm porque elas coitadas! não sabem nem há ninguém que saiba... eles já sabem tudo, estrela. têm até sábios e escolas se aprende tudo sem precisar de ir à tua realidade de terra ou serra porque já vem tudo nos livros e nas máquinas que inventaram e fabricaram e ali resolvem tudo e tudo decidem... e como há muitos que já sabem tudo embora não saibam as mesmas coisas já pouco falam uns com os outros... tentam falar uns para os outros a ver quem fala mais alto e quem fala mais alto é quem tem as melhores máquinas... não vale a pena perder tempo porque já têm tudo... têm ciência e cientistas... têm religiões... têm partidos... inteiros ou íntegros parece que já não há ou há muito poucos... têm até democracia... Democracia?! não se sabe bem!... têm revoluções quando não têm democracia e ficam cansados de não a ter e depois e depois fazem outras revoluções quando já estão cansados de a ter... têm nações poderosas que mandam nas outras e lhes dizem o que podem e não podem fazer e depois e depois vão libertar os povos oprimidos pelas nações que querem ser grandes e ter poder como elas e depois podem-lha tirar outra vez se não sabem usar a liberdade que lhes foi tão prodigamente oferecida como deve ser... e têm exércitos e armas infernais em quantidades infernais prontas para intervir em qualquer lado e a qualquer momento mas quando começam a ser demais e o que é demasiado é perdido vão negociando a redução dessas quantidades para ver se ficam só com o suficiente para poderem mandar... depois de negociar ou para negociar viajam visitam-se abraçam-se... depois zangam-se depois fazem as pazes... juntam-se aos molhos em sociedades economicosociopoliticoculturais e in/dependentes ... têm tudo serra-terra! e tu mesmo terra-serra um dia destes apareces aí civilizada e defendida e enfeitada pelos defensores de todos os valores e ainda te vais rir quando vires o que restar de ti SERRA-TERRA... então pode lá ser? Assim agreste rústica tortuosa!... com tantos pedregulhos... selvagem... com tantos precipícios onde as criancinhas podem cair coitadinhas! com uns montes mais pequenos do que outros... uns pedregulhos maiores outros mais pequenos!... uns rios que são rios outros que não são!... mas que bagunça!... que desordem!... que caos!... mas então a ordem e a democracia e a organização tudo como deve ser? Sabes uma coisa? Estou mesmo a ver-te, SERRA-TERRA, transplantada para este inconcebível inadmissível incrível imaginoso fantasioso perigoso tortuoso desorganizado indecente revoltado intrigante sedutor prodigioso livro que chamei VIAGEM · MINHA STERRA dum miserável zé da serra do vale do zêzere, louco que quis meter a tua grandeza e beleza numas páginas em branco cobertas de palavras!

têm tudo os homens de hoje! quase tudo! menos o essencial. donde vimos? que estamos cá a fazer? para onde vamos? que há para além da morte? os mistérios da vida e da morte, da liberdade e da felicidade, do Amor! a felicidade alegre contagiante criadora geradora de felicidade e liberdade em criação!

vai, zé da serra. eu te ordeno, zé da serra, zé ninguém, zé da serra do vale do zêzere de lado nenhum de todo o lado e de toda a terra nenhuma e de todas e nenhuma estrela... fala as minhas falas que são deles a todos os homens que são homens e mulheres e crianças de todos os géneros e números e casos de todas as idades e tempos... agride se for preciso... claro que não podes agredir. ...grita, insulta, pragueja, ruge... claro que não podes insultar e ser malcriado. ...fala doce como o canto das fontes e duro e forte como o trovão... corre manso como o regato de água pequenino e discreto que ninguém pode parar, ou em fúria avassaladora como as cascatas e os rios caudalosos que arrastam tudo à sua frente, ou como a chuva! miudinha? ou em tromba de água? fica manso como as águas de um lago, ou como as ondas do mar calmo, ou como ondas alterosas vagalhões destruidores?... sopra suave como a brisa ou leve manso e constante como o vento que por vezes ataca em vendaval desfeito estonteante soprando de todos os lados ao mesmo tempo e destrói em furacão feroz... ninguém pode construir insensata e irreflectidamente uma barragem prisão sem nexo nem juízo para ali aprisionar as águas sem lhe dar saída! ... ninguém, ouviste bem, ninguém pode parar a força impetuosa de um pequeno fio de voz de água corrente que corre sempre sempre para a foz... fala. não te vão ouvir. hão-de te ouvir. hão-de me ouvir... pelo menos os amantes da serra, os amantes da terra...

para eles, a(qu)í fica toda uma história verdadeira por inventar para inventar e EN/C/A/O/N/T/R/AR!? porque eu é que existo, zé da serra. tu e o teu prodigioso livro de viagem à sterra que nem é viagem nem é serra nem é terra, não existe. eu a prodigiosa serra/terra/estrela é que existo e sou a mãe a fonte o ventre a madre e posso permitir que se criem livros contos lendas que prodigiosamente podem criar uma viagem através dos tempos e espaço do ventre da serra terra estrelas galáxias universo...

 

 

 

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