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LENDA
DE VIRIATO
in
a LENDA DO PASTOR DA SERRA DA ESTRELA
(Versão completa)
Afinal
a História Continua...(ou a possível LENDA DE VIRIATO)

...
inesperadamente, um dia, mesmo sabendo que eram gente pacífica
e sem armas, mas fortes e valentes que sabiam manejar as pedras
e os cajados com que pasciam os seus rebanhos e habituados à
vida dura e agreste no meio das florestas e crestados ao rigor das
estações aguentando como filhos da terra as intempéries
do inverno como os rigores do verão, chegou àqueles
povos da Serra um pedido de socorro de povos seus irmãos
do norte da Ibéria. nessa altura, os filhos de Luso ou Lisa
que terão sido filhos de Baco ou companheiros como diz o
poeta maior, já se espalhavam entre o Douro e Tejo e se estendiam
por terras de Castela. as gentes da Galiza estavam a ser alvo da
cobiça dos Fenícios e Cartagineses que até
aí tinham sido pacatos mercadores e viajantes amigos... começara
a guerra. era no ano duzentos antes de Cristo e como os cartagineses
andavam em guerra com os romanos estes povos fizeram-se seus aliados
para os combater. em má hora. soava a hora de se acabar a
paz na Serra... esta aliança acendeu a cobiça dos
romanos senhores do grande império que ali viram uma oportunidade
de se estenderem ainda mais.
tendo
destruído Cartago os romanos ambiciosos foram alargando as
suas fronteiras e ciosos da sua superioridade pelo poder das suas
legiões e pela sua cultura foram alargando as suas fronteiras.
muitos povos da Ibéria submeteram-se sem luta. recebiam como
dádiva generosa os benefícios da sua poderosa protecção
contra outros povos e as vantagens da sua civilização
avançada, do seu poder de organização e administração
com as promessas de um progresso e desenvolvimento que muitos desejavam...
tarde davam conta que tinham perdido a sua independência e
liberdade.
avançaram
até às fronteiras da Lusitânia até onde
já chegava a influência dos montanheses herdeiros da
rebeldia, independência e liberdade do velho pastor jovem
que conquistara a Serra. hei-los de novo em armas. quando viram
que os seus povos corriam perigo de ceder aos romanos, da mesma
maneira que tinham socorrido os povos de Cádis, vários
chefes juntavam os seus pastores que se transformavam em guerreiros
e assim iam mantendo os romanos nos limites que lhes convinham...
não queriam a guerra! queriam tão só que os
deixassem em paz com a sua terra, os seus rebanhos a sua Serra...
não contavam com tal resistência o orgulho e a arrogância
dos romanos... povos pequenos e incultos organizados muito desorganizadamente
em clãs e tribo dispersas! como se atreviam a enfrentar um
império que lhes oferecia uma cultura e uma civilização
mais desenvolvida? consta que um chefe, de nome Púnio, conseguia
manter uma defesa eficaz e suficiente. nos acampamentos onde os
seus pastores guerreiros se agrupavam para preparar as suas incursões
e onde se reagrupavam depois dos combates por vezes ferozes, acendiam-se
fogueiras monumentais, e um velho de barbas brancas chamado Alípio
era o melhor contador de histórias um velho contaouvidor
de histórias... e contava as histórias do velho pastor
jovem que conquistara os montes ermos e como tinha vencido, sozinho,
o tal rei do mundo, e como tinham corrido em socorro dos povos amigos
do norte, eles que eram gente pacífica em paz com a terra
e com a serra... de entre os seus ouvintes, um dos mais jovens pastores
que por vezes fora guerreiro era um sonhador audaz corajoso e destemido
que se chamava Viriato... os seus olhos brilhavam como estrelas
com o reflexo das grandes fogueiras que iluminavam a noite e as
histórias do velho Alípio acendiam-lhe os olhos na
escuridão quando nas longas noites sem dormir contemplava
o firmamento iluminado por milhares de estrelas... se um pastor
sozinho venceu a insolência de um grande rei do mundo! ...
e sonhava, sonhava, mas quem era ele para realizar o sonho!?
um
dia correu a notícia de que Roma enviava finalmente um poderoso
exército nunca visto! quedaram-se nos limites dos povos que
se lhes tinham submetido. como senhores de um grande império
civilizado e civilizador não queriam conquistar os povos
insubmissos pela violência bruta e pela guerra cruel! as suas
legiões eram só para manter a ordem!!! convocavam
os povos da Lusitânia mais indómitos e resistentes
para uma reunião pacífica onde lhes seria exaustiva
e convincentemente explicadas as vantagens de uma tal civilização.
cansados de tanta guerra que os impedia de viver em paz na Serra,
estes povos rebeldes da montanha desceram a um grande vale. iam
como se fossem para uma grande festa e afinal iam como ovelhas para
um matadouro. homens velhos mulheres e crianças foram-se
juntando na margens do Tejo onde se tinha combinado a grande reunião
com os poderosos e compreensivos chefes das legiões de Roma.
quando souberam que os principais chefes que eram contra a dominação
romana se encontravam entre a multidão Galba mandou avançar
as suas legiões fortemente armadas e apoiadas por numerosa
cavalaria reforçada com elefantes que eles tinham integrado
nos seus exércitos desde a vitória sobre Cartago...ali
foram milhares de Lusitanos brutalmente atacados e chacinados como
faria o conquistador Cortês aos Astecas e Pizarro com os Incas
indefesos... ali estava a traição, o embustes, as
promessas de paz e prosperidade para todos que aqueles montanheses
desconfiados não entendiam nem queriam entender nem aceitar!
o vale ficou cheio de mortos! era um exército como nunca
fora visto naquelas paragens para difundir os benefícios
da cultura e da civilização!!! vinham à procura
de oiro e de poder para aumentar a imensidão de oiro e de
poder e de cobiça do seu imperador que já não
se contentava com os limites quase sem limite do seu império!!!
não era para isto que os montanheses tinham saído
da sua paz e tinham corrido a combater fenícios e cartagineses.
era para poderem continuar em paz, com a sua independência
e liberdade.
parecia
tudo perdido. Púnio que reunia o consenso da maioria dos
chefes lusitanos ficara entre os mortos. Viriato que o viu cair
ao seu lado, atacado por um elefante, derruba o guia que conduzia
aquele animal que tudo esmagava à sua frente e cavalgando-o
derruba aquele monstro com a sua faca de pastor como aprendera a
matar de um golpe os grandes touros bravos e os ursos que eram preciso
matar para comer e para se servirem das suas peles... junta-se aos
descontentes e revoltados que se refugiam na Serra e assume o comando
dos que estavam dispostos a não tolerar o domínio
a arrogância de Roma e nunca acreditaram na salvação
e nas promessas dos invasores. à volta do pastor mais arrojado
que conhecia melhor que todos os segredos da serra organizaram então
numerosos e repentinos ataques às legiões romanas
que nem tempo tinham para organizar as suas invencíveis estratégias
de guerra! atraíam-nos a emboscadas... esmagavam-nos nos
vales onde acampavam... precipitavam-nos nas gargantas temerosas
quando se atreviam a procurá-los mais nas alturas... com
tácticas imprevisíveis para a pesada máquina
de guerra dos orgulhosos romanos, os lusitanos de Viriato tornavam-se
desesperadamente invencíveis. combatiam todos, homens e mulheres.
as próprias crianças com as suas fundas de manter
os lobos à distância dos seus rebanhos chegavam onde
as lanças dos inimigos se tornavam terrivelmente inúteis...
era um povo em luta pela sobrevivência que recusava uma ordem
e uma paz imposta por reis e imperadores... contam os povos da Serra
que o rico Astolfas era dos homens mais influentes e poderosos que
apoiava Viriato e lhe dava guarida e protecção quando
precisava de refúgio. Vanídia a sua filha apaixonara-se
por ele e requisitava-o nos breves intervalos entre um e outro combate.
mas conta-se também que era Lízia, a filha de Idevor
que lutava lado a lado com o seu herói e animava aquela força
indómita que parecia renascer depois de repousar profundamente
no ventre de uma caverna secreta da serra que lhe servia de abrigo.
mas Lízia ou Lízias nunca apareceu como mulher. era
o guerreiro mais audaz e temerário que seguia Viriato como
a sua sombra!
depois
de Galba que é denunciado em Roma como traidor pelo velho
Catão perante os trezentos membros do Senado Romano, mesmo
assim Roma não desiste e envia Caio Vetílio ou Marco
Vitélio que encontrando os povos ainda mal organizados e
divididos consegue vitórias fáceis e faz recuar as
fronteiras dos Lusitanos. é perante esta ameaça que
os novos chefes das tribos e dos clãs que escaparam à
chacina de Galba decidem confiar a bracelete de oiro símbolo
da força indomável ao pastor mais audaz que já
dera provas de saber lidar com tão poderosos exécitos
e lhe impõem o colar com a víria símbolo do
comando. Agora era Viriato o chefe incontestado com a sua víria
o que de imediato lhe granjeou poderosos e mortais inimigos que
se afastaram para o manto protector dos invasores... confiante nas
suas vitórias, fáceis até aí, Vitélio
organiza a sua poderosa cavalaria e resolve atacar em fúria
um numerosos grupo de cavaleiros lusitanos industriados por Viriato
que dias a fio, de longe, faziam negaças ao inatacável
campo romano... era uma planície imensa. movimentar legiões,
pensa o convencido Vitélio pensando o que o estúpido
Viriato queria que ele pensasse, não dariam caça eficaz
àqueles atrevidos. os elefantes, seriam pesados demais quando
os velozes lusitanos se embrenhassem pela montanha... a cavalaria
é disparada em fúria cega para os surpreender em velocidade...
era exactamente o que Viriato tinha previsto. a planície
terminava num pantanal coberto de alta vegetação e
à aproximação dos romanos os velozes lusitanos
abrem-se pelos flancos em dois largos arcos e enquanto os primeiros
caem no atoleiro já Viriato e os seus homens estão
na rectaguarda do inimigo empurrando-os sobre os seus companheiros...
derrotado e humilhado este general, Roma envia Plâncio que
outros chamam Pláucio com dez mil soldados! sua cavalaria
e pesados elefantes. foram completamente dizimados na passagem de
um desfiladeiro que eles julgavam seguro e protegido! para vingar
esta afronta Cláudio Unimano que já tentara aprender
as inesperadas surpresas inventadas por Viriato organiza uma investida
poderosa para forçar os lusitanos a cair, em retirada, no
vale onde o confiante Caio Nigídio os aguardava com um exército
ainda mais poderoso. no momento em que Unimano se prepara para a
investida os sagazes zagais e zagalas soltos do corpo principal
dos guerreiros lusitanos caem de todos os lados sobre as suas legiões
logo atacados pelo grosso da coluna comandada por Viriato... e no
mesmo momento o acampamento das legiões de Nigídio
são esmagados e pulverizados por uma orda de touros selvagens
que os experimentados pastores assolaram sobre eles em correria
desenfreada que semeava a morte... vem ainda Caio Lélio,
mais prudente, que procura fomentar intrigas e divisões entre
as tribos e clãs já cansadas da guerra e invejosos
do poder que fora confiado a Viriato. sem êxito. Quinto Fábio,
outro experimentado general, fortemente prevenido e preparado para
todas as surpresas vem afinal a cair nas mãos dos pastores
sem luta. vem ainda Quíncio e depois Serviliano. novas artimanhas
e inesperadas manobras do infatigável e imbatível
Viriato batem todas as estratégias sabiamente estudadas e
poderosamente postas em prática pelas invencíveis
legiões romanas. Serviliano, ainda que vencido, tenta uma
cartada que porventura daria satisfação a Roma e domaria
aquela imbatível fúria lusitana. envia os seus mensageiros
com propostas para um tratado de paz e manda oferecer a Viriato
um cinto de oiro que o tornaria rei da Lusitânia por vontade
e às ordens do imperador de Roma! tantos anos de Guerra!?
não seria preferível a paz? os anos de luta e de chefia
não lhe granjeavam já o direito de acender às
vantagens do mando sem guerras! o poder corrompe! não estaria
já a produzir os seus efeitos? entretanto Roma mandara já
Pompílio e Pompeu em socorro do enfraquecido Serviliano para
reforçar o seu poder no terreno já conquistado e fazer
avançar os seus exércitos o mais possível e
finalmente Roma que criticou e retirou Galba por ter posto em causa
os princípios da civilização romana por causa
da traiçoeira chacina envia o prejuro e intriguista Quinto
Cipião com um imenso e vingativo exército! Mesmo assim
não ataca. envia mensageiros à Serra propondo um encontro
em que se possa discutir e rever o tratado feito por Serviliano.
Viriato, o portador da víria garante da honra e da fidelidade
à palavra dada e símbolo do comando e da independência
não vai. envia os três homens da sua maior confiança
experimentados conhecedores das artes de guerra dos romanos e da
sua cultura. são Minouro (Minuro), Ditallon (Dictaleão)
e Aulaces (Andaca). levam a incumbência de exigir que o tratado
de paz seja respeitado por Quinto Cipião e pelos seus poderosos
exércitos. que eles vivam na sua Pax Julia e o deixem a ele
Viriato e aos lusitanos viver em paz nos seus trabalhos e nas suas
choupanas que cobertas de colmo da cor dos campos tão bem
os defendem do frio e do calor e dos olhos cobiçosos dos
estranhos... a viagem dos três mensageiros é demorada.
são homens evoluídos e ambiciosos que podem ser trabalhados
por um intriguista refinado como é Cipião. tinham
sido escolhidos precisamente por terem uma educação
e um nível intelectual superior ao da maioria dos guerreiros
e assim estarem mais ao nível dos romanos. convinha dar a
ideia àqueles civilizados de que os montanheses também
tinham gente evoluída. são recebidos com todas as
honras. passam em revista as legiões mais vistosas do exército
romano com seus pendões e luzidias fardas... visitam cidades
e povoações que prosperaram sob a influência
e orientação dos pretores cônsules e administradores
romanos!!! que diferença! valia a pena continuar naquele
atraso e desconforto lusitano agravado ainda pelo desgaste de uma
guerra que parece não ter fim!?... estavam perdidos. ali
estava na prática muito do que eles tinham sonhado poder
proporcionar a todos os habitantes da serra. sabiamente seduzidos
por Cipião e seus generais com promessas de avultada recompensa
em ouro e notáveis cargos no exército ou na administração
das conquistas futuras... insistentemente trabalhadas as divergências
e a inveja que tinham a Viriato, um pastor inculto meio selvagem
autoritário e indomável... recebem ouro e partem para
cumprir a sua missão. não se fazem anunciar. chegam
de noite onde sabem que Viriato pernoitou. a confiança é
tanta e a ansiedade pela resposta que possa trazer alguma esperança
de paz é tamanha que têm acesso imediato aos aposentos
de Viriato que dorme. saem ainda pela calada da noite. no outro
dia se saberiam as grandes novas e o acontecimento que mudaria toda
a história! só uma traição tão
hedionda podia por fim àquele chefe providencial e genial
que dava aos lusitanos a oportunidade de manterem a sua liberdade
e independência perante uma guerra sem quartel a que eram
submetidos pela ambição desmedida dum imperialismo
desenfreado... era uma fatalidade! quando a traição
é descoberta os traidores estão prudentemente longe.
melhor do que ninguém eles sabiam como. mas nem chegam ao
acampamento principal. Cipião mandara assassinar miseravelmente
os três mercenários quando aterrorizados vinham receber
o prémio do seu horrível triunfo. intriguista e perjuro,
Cipião sabia bem que quem trai os seus não será
certamente fiel a estranhos que lhes pagam para trair. quem sabe
se não lhes pagariam para o atraiçoar a ele?!
quando
a notícia correu a Serra como um raio seguido de trovão
levanta-se um coro imenso e uníssono de dor e de vingança.
morte aos traidores! honra ao grande chefe! e logo chega a notícia
de que estão mortos. Vingança! clamam desvairados
os que se querem atirar sobre as legiões romanas em gesto
suicida. como?! se nem Viriato se atrevia a combater sem hábil
preparação um tão poderoso exército
ainda por cima em estado de alerta e prevenido... revoltados desanimados
e clamando vingança é em multidão que se junta
para celebrar os funerais de Viriato. é erguida uma enorme
pira no alto da montanha. os guerreiros revezam-se para o transportar
o chefe adorado até ao alto e o barulho das armas a bater
nos escudos e os gritos de vingança enchem os vales... Durante
dias e dias os druidas celebram-se as cerimónias rituais
em honra do deus Endovélico e quando o fogo é lançado
a enorme pira transforma-se numa fogueira abrasadora que transforma
a serra em estrela cintilante e as danças guerreiras atingem
o delírio misturado com os gritos de dor e luto de ódio
e de vingança... que deus e os manes nos protejam agora que
nos enviou um grande chefe e agora permitiu que morresse à
traição!
no
meio da confusão dos gritos dos coros e dos choros e no meio
dos cantos de guerra e de festa que se iam desenrolando à
roda da pira ardente agora num imenso braseiro os pastores guerreiros
querem eleger um chefe que conceba uma pronta e adequada vingança.
quem vingaria melhor o chefe morto senão o belo Suldório
aquele valente guerreiro duma beleza estranha e triste que viera
do sul logo que Viriato assumira o comando e que se tinha tornado
o seu maior amigo e companheiro inseparável e que o tinha
salvo em tantos perigos e emboscadas? Vingança! Vingança!
a víria ao belo Suldório que assuma o comando. Mas
Suldório, o belo Suldório como era conhecido, estava
junto à pira chorando incontroladamente olhando o corpo do
amigo que se transformava em cinza. surpreendido pelo clamor geral
que o aclamava, para surpresa geral, o intrépido guerreiro
rasga as vestes e precipita-se naquele braseiro abraçando
o corpo quase consumido pelas chamas. era uma bela e formosa mulher
dizem os que a viram atirar-se ao fogo para ali consumir a sua paixão
que a trouxera de longe para o lado de Viriato mas que sempre se
vira suplantada por Vanídia que tinha os seus favores e lhos
podia retribuir! era Lízias o seu companheiro inseparável
que o acompanhava por todo o lado como uma sombra e chorava desesperado,
agora desesperada, por não ter podido evitar a traição.
contam ainda aqueles que assistiram que os dois corpos finalmente
unidos a arder levantaram uma grande faúlha incandescente
que se ergueu acima do braseiro, ergueu-se mais, voou ao céu
e quando a tentaram seguir com o olhar eram uma estrela brilhante
faiscante que naquela noite brilhou mais ali sobre a serra e lá
continua a brilhar no céu distante ali tão perto do
alto da Serra da Estrela!
é
Tântalo o Lusitano que vai herdar a víria e comandar
a vingança contra Cipião. perante tanta baixeza e
iniquidade dos romanos aparece Sertório, romano que se oferece
aos lusitanos para combaterem mais eficazmente os inimigos. sucedem-se
ainda outros chefes que durante mais de um século conseguiram
resistir aos sucessivos exércitos romanos e seus aliados...
estávamos no ano cento e trinta e oito antes de Cristo e
só no ano dezanove antes de Cristo se dá a rendição
da Península que é ocupada pelos romanos até
ao século sétimo da nossa era em que os árabes
vão subindo até às Astúrias onde se
refugiam os resistentes...
quantos
anos séculos correram até hoje! quem somos e donde
vimos os que hoje habitamos estes montes? dos romanos restam castros
e vias empedradas ainda visíveis nalguns pontos da Serra
e muitos outros vestígios. há um Campo Romão
a caminho das Penhas Douradas, mas em muitos lugares ermos, não
há sinal da sua passagem. houve sempre os que se bateram
pela sua independência e liberdade dispensando o brilho da
civilização romana tentando manter a Serra como esteio
estrela para todos os povos da península. da passagem dos
árabes, teria para te contar a lenda dramática da
moura Alfátima que fugiu à perseguição
dos cristãos refugiando-se no monte que tem o seu nome e
onde espera o regresso dos que a virão salvar!
aí
tens Zé da Serra a história da minha serra a minha
história. sempre longínqua e distante, foi sempre
terra de pastores e dos que trabalharam as lãs e o leite
quase esquecida e ignorada por todos. apareceram em mil oitocentos
e oitenta e um os cientistas que vieram para desvendar os mistérios
e desvelar os segredos! honra ao seu trabalho pioneiro, mas ficaram-se
muito pelos dados científicos e pelos números e explicações
superficiais que para eles eram muito profundos! de resto, desapareceram
florestas, replantaram florestas. quase desapareceram as pastagens
para os imensos rebanhos... interesses obtusos e ínvios têm
desfigurado a minha Serra!
como
os Maias, Incas, Azetecas, os Índios da América e
os da imponente Amazónia também os indomáveis
Lusitanos foram dizimados e dispersos... que aconteceu a estes povos?
todos vencidos à força de traição, da
ambição, da ganância, da cegueira, arrogância,
temeridade e prepotência dos grandes povos civilizados - civilizadores
que se encarregaram de DAR, oh! DOR!, a todos os povos que chamaram
atrasados, selvagens, incultos, terroristas..., os benefícios!
da sua civilização, da sua religião, da sua
verdade, da sua política, da sua democracia, dos seus valores,
das suas crenças... dos seus defeitos e crimes... em nome
de deus e de deuses e do diabo... em nome do direito e da justiça...
e do direito de conquista... em nome da ciência e da cultura...
sobretudo em nome de uma civilização apoiada num deus
criador do universo e detentora de uma única verdade para
todos, em nome do respeito pela pessoa humana... em nome da família...
quantos crimes cometidos em nome das coisas mais sagradas que foram
profanadas e tornadas obscenas até à náusea
e ao nojo pelo modo irracional e vergonhoso como foram impostas
e que, em vez de encherem de vergonha e repúdio público
os que cometeram tais monstruosidades, são exaltados e promovidos
a heróis pela imortalidade da história, na história
que tem sido oficialmente divulgada, considerando grandes conquistadores
e heróis os que podiam ter descoberto a grandeza variedade
e unidade deste vasto mundo tão pequeno!!! como é
que é feita a história? quem faz a história?
como é que é contada a história? quem conta
a História? qual é a versão da história
que é oficializada? por quem? porquê? para quê?
até agora foram consagrados como grandes heróis da
humanidade os grandes descobridores e conquistadores como modelos
de uma humanidade civilizada que se erigiu como modelo dominado
pela sede de conquista pela ambição loucura e insensatez
humana que parece não querer parar enquanto não conquistar
tudo o que lhe foi dado, mas à sua maneira de conquista sem
conquistar, sem aceitar as diferenças, sem respeitar, sem
admitir que há outras verdades, outras crenças, outros
valores, outros costumes, tradições, direitos... sem
tolerar os defeitos... sem aceitar o direito ao lazer e à
preguiça... Uma sociedade desenvolvida que sonha atingir
um nível económico que permita aos privilegiados o
lazer, o direito à preguiça, o direito a consagrar
o seu tempo ao que mais gostam ao que lhes dá prazer àquilo
que os realiza como pessoas humanas, não suportou ter encontrado
clãs tribos povos que tachou de selvagens, atrasados, incultos
que já realizavam este ideal!... vemos uma sociedade modelo
que se desprendeu das sua raízes, cortou as suas ligações
vitais, não respeita mais a sua mãe natureza e a sua
integração intrínseca no cosmos... que confundiu
o corte do cordão umbilical vital, com a irrecusável
e fundamental ligação às suas raízes,
às suas fontes... é ver como ainda agora as grandes
nações civilizadas que não souberam respeitar
e guardar as suas raízes primitivas das suas gentes, da sua
mãe terra, que destruíram as suas florestas, que poluíram
os seus rios, se impuseram como modelos, andam agora por aí
a gritar aos povos que chamam atrasados que não poluam...
que não agridam... que não destruam... que não
esqueçam as suas raízes... que copiem a suas democracias,
os seus modelos, a sua liberdade, o seu progresso, o seu desenvolvimento...
que combatam a fome e a miséria que a sua interferência
civilizacional as suas leis, os seus crimes, as suas imposições
e o seu modelo lhes impuseram!... ver como as sociedades desenvolvidas
estão a permitir o aparecimento de grupos e movimentos que
agora, passados séculos, se lançam à descoberta
das ruínas, dos vestígios, dos valores que eles próprios
varreram e destruíram como retrógrados, como selvagens,
como indignos da sociedade humana!!!
afinal
por onde caminha a humanidade? por onde e para onde quer caminhar?
quais são afinal as forças dominantes? as elites que
dominam pela força pela economia e pela cultura institucionalizada?
ou as maiorias herdeiras duma tradição milenar? sem
poder senão o da força das águas que as barragens
podem travar e rentabilizar mas não podem parar?! sem poder
económico?! sem voz e meios que dêem voz à sua
voz?!
estávamos,
estamos numa encruzilhada! era, é a confusão! os que
se sentem filhos da terra... os povos com uma cultura ligada às
suas raízes, à terra que os pariu... entram em confronto
com os que já não se sentem filhos da terra... se
envergonham dela como os que singraram na vida se envergonham dos
seus pais pobres e analfabetos que permaneceram rurais, atrasados,
ligados à terra... sonho querido e possibilitado por esses
próprios pais que se sentiram marginalizados pela sociedade...
e produziram o tipo híbrido de desenraizados sempre saudosos
das suas raízes!... contradição! cruzamento
de conflitos! Quando é que o progresso e o desenvolvimento
vão crescer respeitando as suas raízes mais profundas?...
era
a confusão! que fazer nas horas graves em que a loucura e
a insensatez e a arrogância dominam sobre os amantes da paz
e da terra?! os lusos, como os maias os incas os azetecas os índios
os amantes da independência e da liberdade ligados às
suas raízes com a natureza e com a terra que os pariu, os
indomáveis... agora mortos... desaparecidos... os sobreviventes
agora dispersos e em fuga que haviam de fazer? na confusão
da dispersão, consciente uns, inconscientes outros, trocaram
os nomes dos espaços e lugares lançando ainda mais
confusão sobre os inimigos que invadiam a sua terra e a sua
serra abandonando-os aos mistérios da terra e da serra para
subverterem e inverterem a seu bel-prazer e imporem os seus modelos
e as suas soluções... passaram fenícios cartagineses
romanos conquistadores mouros faustosos e fanáticos com suas
lendas e lindas mouras de encantar, vieram visigodos celtas celtiberos
alanos suevos hunos e todos partiram vencidos e frustrados deixando
raízes vestígios palavras usos costumes... à
frente dos últimos conquistadores os resistentes das astúrias
que se lançam na luta da reconquista os cruzados da terra
santa e do condado potucalense e da tomada de lisboa aos mouros
e de santarém e de évora e de ourique e dos algarves...
do in hoc signo vinces... com verdades valores e certezas, com uma
civilização para impor... e como os outros encheram
a terra e a serra e as gentes com os nomes e os fantasmas e as ligações
que eles tinham com a serra e a terra e as gentes e as fontes e
os rios e as plantas e os astros... baptizaram tudo e todos! tentaram
apagar os nomes sagrados profundos e verdadeiros nascidos de culturas
mais ligadas à natureza? profanaram os nomes sagrados das
coisas dos tempos dos espaços dos lugares das formas que
as coisas formam profanaram os nomes das estrelas e constelações
que brilham no espaço? quem profanou o quê? quem mudou
o quê? que sentido têm os nomes das coisas e das pessoas?
que sentido tiveram? quem lhes deu os nomes? como se foram mudando
os nomes? lenta ou bruscamente? porquê? uma mentalidade que
se ia mudando e evoluindo ou fruto de rompimentos bruscos provocados
por uma revolução que pretendia tudo mudar e deixava
tudo mais ou menos na mesma?!
a
confusão. o caos. o caos normal do universo que afinal não
se rege pelas leis que nós supomos ou determinamos mas sim
pelas leis que é preciso descobrir e ver... ou o caos provocado
pela falta de lucidez de clarividência de verdade de justiça
de respeito...? E onde está a lucidez e a verdade?
antes
chamaram-me serra erma. Montes ermos ou Hermínios. talvez
nunca o tenha sido como agora! Serra avara, ciosa, estrela, terra
erma, guardo em mim os mistérios dos meus segredos e tesouros
e valores que tantos a todo o custo tentam desvendar escavando sulcando
rasgando desfigurando salvaguardando construindo destruindo limpando
arranjando emporcalhando sujando ornamentando civilizando enturismando...
até um dia... só no dia em que a ganância e
a ambição e a cegueira deixarem de dominar os homens
e mulheres e as mulheres e os homens deixarem de dominar e espezinhar
homens e mulheres e crianças e os animais e os seres e as
pedras e as coisas... então, é que o meu segredo se
revelará. quando souberem ver ouvir e ler, então a
estrela que brilha tão longe aqui tão perto falará
e a estrela serra terra se abrirá àqueles que tendo
olhos querem ver ouvidos querem ouvir nariz querem cheirar e boca
querem saborear e cantar e membros e pele querem sentir e sentindo
e cantando e cheirando e ouvindo e vendo querem perceber e entender
o sentido profundo das coisas que eu revelo com as formas que têm
as pessoas e as coisas e os seres e as flores e as fontes e os montes
e os vales... e as estrelas... e entendendo as amem. porque tal
como toda a água das nascentes e das fontes e cascatas e
corgos e ribeiros e ribeiras e rios... corre para o mar, assim tudo
o que é fonte de água vida corre para Amar.

é
esta a minha história Zé da Serra, Zé Ninguém.
é esta a minha história verdadeira para ti, para tu
leres o universo infindo, para te leres, que eu te contei em segredo
do alto do ano de dois mil metros com os pés assentes no
chão a nove ou sete metros anos de distância do dois
mil. conta-a, Zé da Serra. divulga a minha história
secreta que cada um terá de descobrir e inventar chamando-me
pelo nome e, inventando procurando descobrindo achando adivinhando,
encontre de novo o nome das coisas e das pedras e das pessoas e
dos sítios e dos lugares e tempos em cada tempo e lugar redescobrindo
e recriando as lendas que se perdem e renascem cada vez que são
contadas... aprendendo afinal a ler as letras de um alfabeto secreto
aberto às escancaras nas alturas aos olhos de todos para
todos poderem ler desde que eu existo serra-terra... faz-te ouvir
por todos nesse mundo de homens loucos que só pensam em guerras
e conquistas e pensam que sabem tudo mas não fazem, e se
não fazem é porque não sabem ou fazem sem pensar
e então fazem mal porque não pensam e então
passam a vida em conflitos e intrigas sem fazer e sem deixar fazer
os que pensam e sabem e querem tempo para pensar e para fazer porque
enredados em redes de rendas labirintos sem saída que provocam
o cansaço o desgaste a morte sem sentido, sem prazer, sem
a felicidade de se tornar vida! é essa a tua responsabilidade
Zé da Serra do Vale do Zêzere nesta viagem única
à minha Serra Terra Sterra, viagem súmula das mil
viagens dos milhares de viajantes, que só eu posso proporcionar
a cada um colectivamente, de cada vez ao mesmo tempo, a um lugar
a todos os lugares, à sua serra à sua terra que é
a Terra toda o Mar A mar o espaço.
tu
és louca serra terra. deixa-me falar assim já que
passado tanto tempo tanta história chegámos a esta
intimidade... afinal tu és ainda mais louca do que eu e do
que me tinham contado. quem sou eu para me fazer ouvir? já
não estamos no tempo das histórias da Carochinha ou
da Gata Borralheira ou da Bela Adormecida! os homens de hoje já
não acreditam que é o menino Jesus que põe
a pedra no sapatinho na noite de Natal. já não acreditam
em estrelas que falam e têm segredos e mistérios. não
há mais mistérios para os homens que são também
mulheres. têm livros, enciclopédias, ciências,
têm a Ciência e centros de saber. têm máquinas
e até fabricam estrelas de um firmamento fabricado por máquinas...
e têm jornais e revistas e rádios e cinemas e televisões
e meios de comunicação cada vez mais avançados
em que uns comunicam e os outros são comunicados... e inventam
estrelas que falam e até dizem os sabonetes ou os sabões
que dizem que usam para serem belas e assim se tornaram estrelas...
e têm jogos que dão prémios a qualquer hora
do dia ou da noite e lotarias e totobolalotos que resolvem escondem
os problemas dos que não têm salários de miséria...
e têm salvadores e ministros e ministras e presidentes e eleições
e deputados e santos e messias e até aparições
e salvam a humanidade todos os dias... e param inflações
e sobem inflações... até mandam jogar na bolsa...
e com duas penadas o que ontem era insucesso hoje é sucesso
e vice-versa sem nexo ou sem sexo... e até ensinam e oferecem
a cultura aos incultos tudo já em caixinhas muito enfeitadinhas
e prontas a servir e irresistíveis... deite a sua cultura
fora como os móveis velhos e adquira esta ao melhor preço!!!
...e têm máquinas para escreverem as falas de alguns
que podem falar em nome de milhões porque têm milhões
e os milhões que não têm milhões não
precisam de falar porque não têm nada de importante
para dizer... e para salvarem a civilização e os milhões
matam ou mandam matar ou deixam que morram milhões dizendo
que salvam milhões... e têm até máquinas
que voam a caminho das estrelas e as lêem e ficam finalmente
a saber do que são feitas o que têm e o que não
têm porque elas coitadas! não sabem nem há ninguém
que saiba... eles já sabem tudo, estrela. têm até
sábios e escolas se aprende tudo sem precisar de ir à
tua realidade de terra ou serra porque já vem tudo nos livros
e nas máquinas que inventaram e fabricaram e ali resolvem
tudo e tudo decidem... e como há muitos que já sabem
tudo embora não saibam as mesmas coisas já pouco falam
uns com os outros... tentam falar uns para os outros a ver quem
fala mais alto e quem fala mais alto é quem tem as melhores
máquinas... não vale a pena perder tempo porque já
têm tudo... têm ciência e cientistas... têm
religiões... têm partidos... inteiros ou íntegros
parece que já não há ou há muito poucos...
têm até democracia... Democracia?! não se sabe
bem!... têm revoluções quando não têm
democracia e ficam cansados de não a ter e depois e depois
fazem outras revoluções quando já estão
cansados de a ter... têm nações poderosas que
mandam nas outras e lhes dizem o que podem e não podem fazer
e depois e depois vão libertar os povos oprimidos pelas nações
que querem ser grandes e ter poder como elas e depois podem-lha
tirar outra vez se não sabem usar a liberdade que lhes foi
tão prodigamente oferecida como deve ser... e têm exércitos
e armas infernais em quantidades infernais prontas para intervir
em qualquer lado e a qualquer momento mas quando começam
a ser demais e o que é demasiado é perdido vão
negociando a redução dessas quantidades para ver se
ficam só com o suficiente para poderem mandar... depois de
negociar ou para negociar viajam visitam-se abraçam-se...
depois zangam-se depois fazem as pazes... juntam-se aos molhos em
sociedades economicosociopoliticoculturais e in/dependentes ...
têm tudo serra-terra! e tu mesmo terra-serra um dia destes
apareces aí civilizada e defendida e enfeitada pelos defensores
de todos os valores e ainda te vais rir quando vires o que restar
de ti SERRA-TERRA... então pode lá ser? Assim agreste
rústica tortuosa!... com tantos pedregulhos... selvagem...
com tantos precipícios onde as criancinhas podem cair coitadinhas!
com uns montes mais pequenos do que outros... uns pedregulhos maiores
outros mais pequenos!... uns rios que são rios outros que
não são!... mas que bagunça!... que desordem!...
que caos!... mas então a ordem e a democracia e a organização
tudo como deve ser? Sabes uma coisa? Estou mesmo a ver-te, SERRA-TERRA,
transplantada para este inconcebível inadmissível
incrível imaginoso fantasioso perigoso tortuoso desorganizado
indecente revoltado intrigante sedutor prodigioso livro que chamei
VIAGEM · MINHA STERRA dum miserável zé da serra
do vale do zêzere, louco que quis meter a tua grandeza e beleza
numas páginas em branco cobertas de palavras!
têm
tudo os homens de hoje! quase tudo! menos o essencial. donde vimos?
que estamos cá a fazer? para onde vamos? que há para
além da morte? os mistérios da vida e da morte, da
liberdade e da felicidade, do Amor! a felicidade alegre contagiante
criadora geradora de felicidade e liberdade em criação!
vai,
zé da serra. eu te ordeno, zé da serra, zé
ninguém, zé da serra do vale do zêzere de lado
nenhum de todo o lado e de toda a terra nenhuma e de todas e nenhuma
estrela... fala as minhas falas que são deles a todos os
homens que são homens e mulheres e crianças de todos
os géneros e números e casos de todas as idades e
tempos... agride se for preciso... claro que não podes agredir.
...grita, insulta, pragueja, ruge... claro que não podes
insultar e ser malcriado. ...fala doce como o canto das fontes e
duro e forte como o trovão... corre manso como o regato de
água pequenino e discreto que ninguém pode parar,
ou em fúria avassaladora como as cascatas e os rios caudalosos
que arrastam tudo à sua frente, ou como a chuva! miudinha?
ou em tromba de água? fica manso como as águas de
um lago, ou como as ondas do mar calmo, ou como ondas alterosas
vagalhões destruidores?... sopra suave como a brisa ou leve
manso e constante como o vento que por vezes ataca em vendaval desfeito
estonteante soprando de todos os lados ao mesmo tempo e destrói
em furacão feroz... ninguém pode construir insensata
e irreflectidamente uma barragem prisão sem nexo nem juízo
para ali aprisionar as águas sem lhe dar saída! ...
ninguém, ouviste bem, ninguém pode parar a força
impetuosa de um pequeno fio de voz de água corrente que corre
sempre sempre para a foz... fala. não te vão ouvir.
hão-de te ouvir. hão-de me ouvir... pelo menos os
amantes da serra, os amantes da terra...
para
eles, a(qu)í fica toda uma história verdadeira por
inventar para inventar e EN/C/A/O/N/T/R/AR!? porque eu é
que existo, zé da serra. tu e o teu prodigioso livro de viagem
à sterra que nem é viagem nem é serra nem é
terra, não existe. eu a prodigiosa serra/terra/estrela é
que existo e sou a mãe a fonte o ventre a madre e posso permitir
que se criem livros contos lendas que prodigiosamente podem criar
uma viagem através dos tempos e espaço do ventre da
serra terra estrelas galáxias universo...

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