Serra da Estrela - Manteigas

in joraga.net aminhaTEIAinterminávelnaREDEilimitada

um ANDARILHO em viagem pelas
7 partidas... 7 jornadas... 7 mundos... 7 mares... 7 temas... 7 espaços... 7 tempos...

por JORAGA o acrónimo de JOsé RAbaça GAspar e outros mais de 1001 deNÓMIOS...

contacto © joraga - ® em construção desde Maio 2000 in joraga2000 - em rec. Outubro de 2002

 

 

CONTOS e LENDAS da minha STerra - Manteigas e da SERRA da ESTRELA

O GRITO do ÍNDIO - SERRA DA ESTRELA

O GRITO DO ÍNDIO

Uma adaptação, para a SERRA, da FALA do ÍNDIO, o Grande Chefe Seatle, perante o Presidente dos Estados Unidos da América, em 1855...

 

José da Serra do Vale do Zêzere
Viagens do Cigano Castanho e da Cigana Mariana através do Maravilhoso...
CONTOS e CANTOS e LENDAS de enC(o)ANT(r)AR...

IIIª Jornada

O ECO do GRITO surdo DO ÍNDIO
grito mudo do VENTRE DA TERRA
a ribombar pelas ENCOSTAS da SERRA DA ESTRELA
Discurso em 3 andamentos para Coro e Orquestra...

(uma tradução livre ou uma intromissão abusivas!!! ?)
em defesa do Homem, da Sterra,
da MÃE NATUREZA

USA Seatle 1855
Penedo-Gordo-Beja, 1985 - COROIOS 1999-2000


FICHA TÉCNICA:
título O Eco do Grito surdo do Índio - O Grande Chefe Seatle
autor José da Serra do Vale do Zêzere - O Búfalo Castanho
Todos os direitos reservados - @ direitos de autor JORAGA, Corroios
composição e lay-out JORAGA- Pentium 200 MWord - hp Desk jet 550C
adaptação e tradautor José Rabaça Gaspar sobre uma tradução em língua alemã: Wir sind ein Teil der Erde - Die Rede des Häuptlings Seattle vor dem Präsidenten der Vereinigten Staaten von Amerika im Jahre 1855, Walter-Verlag AG Olten, 1982, Switzerland.
ilustração e montagem José Rabaça Gaspar a aprtir de uma fotografia de um bloco granítico na Serra da Estrela, sobre Manteigas - Souto do Concelho
impressão e registo final Corroios, Fevereiro de 2000
E-mail e Site na Web joraga@netcabo.pt e joraga@netc.pt
v isite o Site na WEB - http://www.geocities.com/joraga2000


FALA DO GRANDE CHEFE SEATTLE


A S

M I N H A S

P A L A V R A S

S Ã O C O M O A S

E S T R E L A S...


S O M O S P A R T E

I N T E G R A N T E

D A

ST E R R A ...


ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA, 1855
PENEDO GORDO, BEJA, 1985/1993 CORROIOS, 1999 - 2000

SEATTLE

AS MINHAS PALAVRAS SÃO COMO AS ESTRELAS
SOMOS PARTE INTEGRANTE DA TERRA

AS MINHAS PALAVRAS SÃO COMO AS ESTRELAS
AS MINHAS PALAVRAS SÃO COMO ESTRELAS
AS MINHAS PALAVRAS SÃO ESTRELAS


SOMOS PARTE INTEGRANTE DA TERRA
SOMOS PARTE INTEGRANTE DA SERRA
SOMOS PARTE INTEGRANTE DA STerra


TODOS NÓS
FAZEMOS PARTE DA TERRA, DA SERRA


TODOS NÓS


HOMENS
MULHERES
CRIANÇAS
NOVOS
VELHOS
VIVOS
MORTOS
DO PASSADO
DO PRESENTE
DO FUTURO
TERRAS
POVOS
POPULAÇÕES
...
SOMOS PARTE INTEGRANTE DA STerra

AS MINHAS PALAVRAS SÃO COMO AS ESTRELAS...

UMA INTRODUÇÃO

...esta viagem à minha STerra foi ou é dominada por muitos sentimentos... outros sentimentos? que eu dificilmente saberei explicar além do desejo profundo de ir às raízes, às fontes beber a seiva que me criou, me deu a vida...

... porque meter esta tradução adaptação nos anexos ou complementos da VIAGEM À MINHA STerra?

quis o acaso que uma mão amiga, amiga?, que não sei quem foi!, deixasse em cima da minha mesa de trabalho, mesa onde como onde leio onde escrevo onde convivo e converso onde por vezes me irrito e rio e choro e me revolto e partilho e bebo com os amigos onde por vezes esqueço os recados e os poemas onde por vezes ficam os manuscritos desta viagem à minha STerra... que nunca mais acaba claro como não me lembro de quando começou apesar de eu dizer e escrever que comecei quando comecei a tomar notas e que foi pelos anos setenta e nove ou oitenta isso são referências porque antes de nascer já eu tomava notas com certeza e desde essa altura até não sei quando nem aonde, andarei sempre em viagem nesta Viagem à minha STerra...

...ora quis uma mão amiga deixar esquecido ou esquecido propositadamente?, um livro um opúsculo uma brochura um álbum um poema um escrito com um discurso suposto ou verdadeiro? que um suposto ou verdadeiro chefe índio Seattle grande Chefe da Tribo dos DUWAMISH fez ou teria feito perante o Grande Chefe o Presidente dos Estados Unidos da América, no ano de 1855 a propósito da proposta que este grande chefe branco dos brancos lhe fazia para acabar com a guerra de conquista e extermínio propondo-lhe comprar a terra onde viveram e viviam os DUWAMISH oferecendo-lhe em troca a paz a prosperidade uma longa vida sem cuidados nem preocupações numa reserva que eles BRANCOS, peles brancas, tinham reservado para eles peles vermelhas... e lhes ofereciam!!! em troca...

SOMOS PARTE INTEGRANTES DA TERRA!
SOMOS PARTE INTEGRANTE DESTA TERRA!
NÓS FAZEMOS PARTE DESTA TERRA!

AS MINHAS PALAVRAS SÃO COMO SE FOSSEM ESTRELAS!
AS MINHAS PALAVRAS SÃO COMO AS ESTRELAS!
AS MINHAS PALAVRAS SÃO COMO ESTRELAS!

AS PALAVRAS SÃO COMO AS ESTRELAS!
AS PALAVRAS SÃO ESTRELAS!

...disse ele, o grande chefe índio ao grande chefe branco traduzindo repetindo mudando alterando tentando fazer-se entender, em 1855, há já cem anos em 1955... há cento e trinta anos em 1985... há cento e trinta e oito anos em 1993... há cento e quarenta e quatro anos em 1999..., proclamou ele, confiado na calma e na força da sua sabedoria ancestral e telúrica com palavras sábias e medidas seguras e submissas perante o grande chefe branco de brancos ambiciosos insaciáveis cegos, esperando ser ouvido! Mas como é que os donos da verdade e os senhores do poder podem ouvir os outros que, se dizem algo diferente deles? ...é porque, evidentemente, não podem dizer a verdade!!!

passaram-se cem anos, já eu teria dezassete anos ou mais, já eu me documentara abundantemente sobre os índios com os filmes os westerns as coboyadas as histórias aos quadrinhos, sim sim aos quadrinhos, no tim-tim ou no mosquito ou no mundo de aventuras e... não me lembro de ter visto ou ouvido falar deste grande chefe e deste povo índio... talvez alguns poucos da minha geração ainda se lembrem e das que se nos seguiram...? alguém se lembra? ou será que o nome de um povo índio ou duma parte de um povo índio desapareceu dos nomes dos povos e dos homens?! Há quem diga que sim!!! que é o destino!!! na ascensão imparável das criaturas para a perfeição!!!

as palavras desse grande chefe não foram ouvidas.
o grande chefe dos brancos e os brancos civilizados e cultos não as ouviram.

as palavras que ele acendeu como estrelas para serem vistas por todos só poucos as olham distantes nostálgicos e impotentes... estão possivelmente ainda a muitos anos luz!... estamos talvez ainda a muitos anos luz do dia em saberemos o alfabeto para ler os astros e as estrelas!... Há muitos que dizem que já sabem!!!

os poderosos brancos caminham para as estrelas a grande velocidade... até já chegaram à lua com os seus mísseis satélites e foguetões e é de crer que correm na ânsia de as ler melhor...!?

será que as estrelas acesas pelo índio estarão ao alcance dos seus foguetões? Qual é a pretensão de virmos a entender a linguagem dos habitantes das estrelas se não entendemos a deste homem apesar de as ouvirmos e terem sido ditas na nossa terra e numa língua que era a nossa e não a deles?! Estaria o índio mais longe que as estrelas e a sua linguagem mais distante que a linguagem da técnica que esperamos encontrar nos habitantes dos outros possíveis planetas!

as suas palavras gritos perderam-se abafadas pelo turbilhão da cavalgada de conquista do este e do oeste pela horda feroz dos civilizados civilizadores em nome da cultura e da ciência e do progresso e da competência desse portentoso progresso que ilumina e desafia a terra e viaja já através do cosmos!...

os cultos herdeiros da civilização greco-romana-católico-civilizada que heroicamente se defenderam da invasão de todos os bárbaros e de todos os ateus e selvagens foram, depois de terem conspurcado o seu mundo, dar novos mundos ao mundo, conquistando bárbara e selvaticamente as terras e os povos que intolerantemente chamaram pagãos e selvagens primitivos e atrasados indígenas peles vermelhas índios e pretos e amarelos inimigos terroristas descrentes ateus incultos e bandidos... enfim... e aí temos o mundo que construímos assente num barril de pólvora prestes a explodir de intolerância!

será também esta VIAGEM À MINHA STerra só um grito desesperado e rouco, escrito e falado numa linguagem estranha e desconhecida distante como as estrelas inacessíveis!?

pretendia ser uma luz de esperança! pobre pretensão!
pretendia ser uma estrela, ao menos como a Clara Estrela d'Alva que não é Estrela! pobre pretensão!

talvez seja uma esperança vã, um grito louco, nestes tempos em que os homens se lançam na conquista do espaço a caminho das estrelas... em que já não se deixam seduzir pelas estrelas longínquas!... pela estrela, pela serra da estrela pela minha serra!...já não tentam entender o que elas dizem!...

os homens ditos civilizados poderosos cultos competentes deixaram de se sentir parte integrante da terra! são conquistadores! dominadores! excomungaram-se! excluíram-se! Violam-na. Violam-se. Prostituem-na. Prostituem-se. Conspurcam-na. Conspurcam-se. Alguns, poucos, os que tentam defendê-la porque a amam porque não podem deixar de a amar porque são parte dela, fazem parte dela, são um com ela!, como os outros! são tão poucos e tão isolados e fracos que estão condenados a desaparecer com ela - a Terra - como os outros! os senhores os dominadores! só que os dominadores estão dispostos a sugar até às fezes o sangue da mãe terra para poderem possuir a terra! Temos dificuldade de entender a ordem deste imenso cosmos que no seu caos e desordem e morte cria e gera e desenvolve a vida! ...será? é a forma de gerar a vida, mas para os "inteligentes", os "bem comportados", os "sabidos", o caos, a desordem, a morte "morrida" é algo que não podem entender ou dominar... daí muitas vezes decidirem a morte "matada"!!!

É talvez por isso que me atrevo a cometer esta inútil tarefa de escrever esta louca VIAGEM À MINHA STerra e esta aventura inútil de traduzir um discurso que foi dito e escrito na língua mais conhecida do mundo e já foi traduzido em todas as línguas e me chega numa língua estranha que não é a do grande chefe índio nem eu a entenderia e já não é pensada em índio... que já foi traduzida para americano ouvir... para inglês ver... já foi difundida à europeia... já foi retocada pela erudição dos poetas civilizados... corrigida e aumentada nas mais diversas línguas e chegou até mim numa língua que mal leio...

Apesar de tudo, aqui registo a minha tradução! a minha leitura da FALA DO ÍNDIO ligada à VIAGEM À MINHA STerra.


UMA EXPLICAÇÃO DO DISCURSO


as minhas palavras são estrelas

***** ***** ***** ***** *****


SOMOS PARTE INTEGRANTE DA TERRA

Fala do Grande Chefe Índio
SEATTLE
perante o Presidente dos Estados Unidos
da América
no ano de 1855

... o estado de Washington no nordeste dos Estados Unidos foi em tempos a pátria a terra mãe dos DUWAMISH um povo índio que, como todos os índios, se consideram como sendo parte da Terra da Natureza, com a qual, gerações atrás de gerações, sempre viveram em harmonia em perfeita comunhão nutrindo por ela o respeito e a veneração natural nascida dum sentimento muito profundo, telúrico, que tem a ver com o enraizamento ligação vital cordão umbilical invisível não cortável como o da mãe carnal...

... no ano de mil oitocentos e cinquenta e cinco, o décimo quarto presidente dos Estados Unidos da América, o democrata Franklin Pierce, homem cheio de boas intenções, político realista, sensível, comovido ou simplesmente cansado da guerra e da violência contra os índios promovida ou consentida pelos seus treze antecessores, acabou por fazer aos DUWAMISH uma generosa proposta:

eles, os índios..., venderiam as suas terras aos colonos brancos que se tinham lançado numa corrida louca e imparável de conquista para as desenvolverem civilizarem e tornarem mais produtivas e úteis à humanidade!, era o seu ponto de vista! e assim não teriam que morrer pela sua TERRA que mais tarde ou mais cedo haviam de perder perante a fúria e os sofisticados meios de destruição e extermínio que os brancos civilizados selvagens tinham à sua disposição e seriam levados para uma RESERVA onde poderiam viver felizes! em paz!!!

...os índios não entenderam. Não podiam, não podem entender uma tão generosa e estranha proposta. "Como poderemos nós entender uma proposta de se vender ou se comprar a MÃE, A MÃE-TERRA da qual fazemos parte integrante e inseparável?!..."

...os brancos generosos, compreensivos e poderosos também não entenderam, não entendem esta estúpida falta de entendimento daqueles selvagens senhores de extensas e ricas terras que não sabiam aproveitar nem desenvolver... aquele desenvolvimento entendido pelos brancos!!! Estúpidos!

... as pessoas, os filhos da terra, ? pensavam os índios!, estúpidos! para a maneira de pensar dos brancos! inteligentes! civilizados! cultos! empreendedores!... ? não podem dispor da sua terra, da terra de que são uma parte integrante, como não podem dispor do céu que os cobre ou do ar fresco que os envolve ou da pureza brilhante das águas que os refresca lhes mata a sede e rega os campos que produzem a sua comida...

... para explicar isto, o chefe Seattle, o grande chefe da tribo dos Duwamish, responde ao grande chefe dos brancos, o democrata Franklin Pierce, com PALAVRAS QUE SÃO COMO ESTRELAS distantes e incompreensíveis..., que nós chamamos discurso que, pela sua clareza e sabedoria, mantêm ainda hoje para nós, para todos nós, passado mais de século e meio! (em 1995) todo o seu poder de verdade humana e profundidade evidente contra todas as evidências imediatas como é evidente que a terra está parada e é plana e chata como nos mostram os nossos olhos que se não enganam..., mantêm todo o seu poder de esperança desesperada que ainda nos impressiona mais pela cegueira incurável e inexplicável surdez manifesta na louca velocidade com que os poderosos de hoje correm para o abismo da destruição e da morte arrastando tudo e todos em nome do progresso! do bem-estar! da ciência! da cultura! do desenvolvimento! ... Tudo, menos prejudicar as florescentes indústrias que produzem armas e produtos que destroem a Natureza Mãe! A Terra Mãe que é MAR pois é o MAR que é maior e envolvente que deve dar o nome ao PLANETA e assim não será A TERRA mas A MAR!

..."as minhas palavras são como estrelas. ...elas não caem dos seus tronos luminosos, nem o seu brilho se apaga... mesmo que fechemos os olhos para não as ver! ... ou que a luz do sol não as deixe ver durante o dia ...ou as nuvens nos impeçam de as ver!!!"

Entretanto! apesar de ser verdade! verdade evidente! o seu Povo não sobreviveu! ...não ficaram na terra dos seus antepassados! ...morreram arrancados como as ervas daninhas que se mondam, como as papoilas que se queimam com as químicas para que as searas produzam mais... é o polícromo da paisagem que se apaga e desaparece mas os homens empreendedores ficam extasiados perante as suas imensas e rentáveis searas!

enfim! as suas palavras não foram ouvidas! ...
as constelações de estrelas acendidas pelas suas palavras não disseram/dizem nada aos homens que construíram arranha-céus encheram as cidades de luzes cintilantes!...

Estaremos ainda a tempo de as ouvir?
Estaremos ainda a tempo de ver e ler o brilho dessas estrelas?
Estaremos ainda a tempo de sobreviver?


O DISCURSO começa assim:

"O Grande Chefe que manda em Washington manda-nos uma mensagem em que nos manifesta o desejo de comprar a nossa TERRA!"

O grande chefe civilizado dos povos civilizados e desenvolvidos, num acesso de generosidade e compreensão, manda uma proposta honrosa e irrecusável ao grande chefe dos povos selvagens e atrasados pedindo-lhes para venderem a sua terra para ser trabalhada e desenvolvida pelos brancos civilizados desenvolvidos audazes e empreendedores... venderem-na em vez de morrerem pela sua terra virgem e promissora e que eles não sabiam nem podiam aproveitar e desenvolver devidamente, segundo a perspectiva dos brancos, explorando todas as suas potencialidades para bem da humanidade, segundo a maneira de ser e de ver dos brancos ávidos e ansiosos que fugiam das suas degradadas e exaustas terras para criarem ali um mundo novo! E lá está o exemplo da esplendorosa civilização em Washington a antiga terra dos Duwamish!, em Nova Yorque a deslumbrante!, em Los Angeles o brilhante reino das estrelas!, em S. Francisco! em... cinquenta Estados onde brilha a civilização enleada com mil teias de racismo violência intolerância arrogância ganância... e outros produtos do desenvolvimento realizado e desenvolvido!!!

Proposta fabulosa! generosa e audaz, compreensiva e tolerante, naqueles tempos de conquista feroz e cega que dura há dois séculos e vem desde os descobrimentos em que não adiantava negociar com selvagens atrasados e incultos como os Maias e os Incas que não podiam entender outra linguagem senão a força e os argumentos das armas de fogo e destruição nascidas da civilização da cultura da ciência e da religião e da intolerância dos povos da Europa e do ocidente civilizado deslumbrado pelo seu poder pela sua ciência pela sua cultura pela sua verdade... e assim decidiram levar a luz e a salvação para todos os povos da humanidade que jaziam nas trevas... para não dizerem que eram movidos pela sua fome insaciável de conquista de ouro de poder de TER, já que tinham perdido a capacidade para SER!
Que teria sido da Humanidade sem este surto de conquista e evangelização?!
Não sabemos.
Todos os selvagens eram um modelo de virtudes e de coerência e de humanidade?
Também não.

A FALA DO ÍNDIO

EIS A FALA DO ÍNDIO:

O grande Chefe que manda em Washington
manda-nos uma mensagem
manifestando-nos o seu desejo de comprar a nossa terra.

O grande Chefe envia-nos também boas palavras de amizade
e manifestações de boa vontade.
É muito simpático da sua parte.
Bem sabemos que o seu poder e a sua força
diante dos arcos e flechas e lanças dos nossos heróicos guerreiros
não precisa para nada da nossa compreensão e amizade.
Ele, eles, vós, nós bem o sabemos,
pode ter pelas armas aquilo que nos pede tão amavelmente.
Temos assim de agradecer a sua generosa proposta
pois nós bem sabemos também que
se não aceitarmos a sua oferta,
se não vendermos a nossa terra,
se não nos vendermos com a nossa terra!,
hão-de vir, com certeza,
nuvens e nuvens de homens brancos,
os homens mais inteligentes e cultos dos povos civilizados
e conquistá-la-ão com as suas armas.

Mas, como é que se pode, Oh! céus!,
como é que se pode pedir para vender e comprar a terra?
como se pode pedir para vender e comprar o céu e as estrelas?
como se pode, ó gentes, comprar e vender o calor da terra? ou a frescura do vento? ou o brilho das estrelas? ou a sua fascinante cintilação na clara e mansa superfície das águas?

É uma proposta simpática!
É uma generosa oferta!
Temos de compreender esta dura e evidente realidade.
Ainda por cima, esta proposta,
é-nos feita em termos que nos honram sobremaneira
considerando-nos parceiros dignos de negociar com eles!...
mas é uma proposta e uma oferta que não entendemos.
uma proposta que não podemos entender.
qualquer coisa que se encontra fora da nossa capacidade de entendimento.
uma ideia completamente estranha para nós.
fora da nossa capacidade de compreensão.

Como é que gente inteligente e culta nos pode pedir uma coisa destas?

Como nós não somos os donos da frescura do ar ou da velocidade do vento...
como não somos nós que mandamos no brilho das estrelas...
como não depende de nós o seu reflexo sedutor nas águas cristalinas...
como não somos nós que produzimos o esplendor do sol ou fabricamos o seu calor...
nem somos nós que fazemos o frio...
Como é que vós nos podeis propor comprar a nossa terra?

Entretanto, oh dor!,
perante a vossa generosa e honrosa proposta,
apesar de incompreensível para o nosso entendimento,
temos de tomar uma decisão.

É tão generosa da vossa parte!
É tão nobre e honrosa segundo a vossa maneira de ver e de pensar!...
que se nos apresenta como exigência delicada e irrecusável, aquilo que para nós é um insulto e uma afronta indesmentível.
Não temos escolha.
Temos de tomar uma decisão.

Não compreendemos.
Não compreendemos como tentamos compreender que os nossos Irmãos Brancos não nos compreendam nem possam compreender...
como acreditamos que muitos deles não vão entender o vossa decisão acusando-vos, a vós, o grande Chefe dos Brancos, de fazer uma concessão ingénua e escusada propondo-se negociar e conversar connosco...
considerando mesmo um perigoso precedente este de nos darem uma oportunidade de falar e decidir sobre coisas e assuntos que não temos poder nem saber para decidir!...

O que diz o Chefe Seattle é tão simples
que o grande Chefe dos brancos em Washington o pode entender facilmente,
tal como todos os nossos Irmãos Brancos o podem entender
pois, tal como nós,
vós podeis assistir à sucessão das estações do ano
que se renovam e sucedem em constante movimento e repetição,
em constante mudança...
a seguir ao tempo das flores vêm os frutos...
depois os frutos hão-de cair no chão...
e fecundados ou fecundando a terra hão-de morrer...
e depois vão aparecer de novo as plantas que por sua vez hão-de florir e dar frutos de novo...
sempre tão igual e tão diferente
numa explosão de vida e morte e de novo a vida...

As minhas palavras são como estrelas.
Elas não caem dos seus tronos altaneiros.
Estão muito acima do nosso poder e compreensão.
Assim
cada parcela desta terra que habitamos é sagrada para a gente do meu povo...
como é sagrada cada agulha de caruma brilhante dos pinheiros coberta pelo orvalho da manhã ou lavada pela água torrencial das chuvas ou envolta em farrapos de neve que tomba no inverno...
é sagrada cada folha verde ou seca das árvores das imensas florestas que nos rodeiam...
é sagrado cada grão de areia das nossas praias que se estendem a perder de vista...
é sagrada a neblina que cobre os nossos vales escuros...
é sagrada toda e cada brilhante cintilação que rasga o espaço e a escuridão que nos envolve...
é sagrado o zumbido de cada insecto que enche o ar de sons...
Tudo isto é sagrado segundo o pensar e o sentir mais profundo do meu Povo!
A própria seiva que sobe nos troncos dos pinheiros e se espalha pelos ramos até às folhas e aos frutos traz até nós a memória dos nossos antepassados que enterrámos na nossa Terra. São os nossos Manes! a quem devemos respeito e veneração como fazem todos os povos desde a antiguidade.

E os vossos mortos?
Os Brancos esquecem a Terra do seu nascimento onde têm as suas raízes... esquecem os seus mortos... quando partem vagueando por esse mundo além sob o olhar das estrelas.
Os nossos mortos não podem esquecer esta Terra maravilhosa... ou antes, nós nunca podemos esquecer os nossos mortos sepultados como sementes na nossa Terra porque ela é a Mãe dos Peles Vermelhas.
SOMOS UMA PARTE DA TERRA.
SOMOS PARTE INTEGRANTE DA TERRA.
ELA É UMA PARTE DE NÓS.
A TERRA É PARTE INTEGRANTE DE CADA UM DE NÓS.
A TERRA SEM NÓS NÃO ESTÁ COMPLETA.
As flores perfumadas dos campos verdes e das montanhas agrestes são nossas irmãs...
As corças e os veados...
Os cavalos...
As grandes águias que rasgam os céus com o seu voo...
são nossos irmãos... são nossas irmãs.
Os cimos das colinas e os píncaros rochosos dos altos montes e das montanhas inóspitas...
As planícies desérticas, as campinas viçosas, os prados verdejantes...
são nossos irmãos e irmãs.
Tudo o que tem sangue quente nas veias e todos os seres mesmo sem vida semelhante à nossa...
tudo pertence à mesma família.

Então,
quando o grande Chefe que manda em Washigton nos vem propor que pensa comprar a nossa terra, há-de compreender que está a pedir algo demasiado que nos ultrapassa, que ultrapassa a nossa capacidade de entender!!!
O grande Chefe dos Brancos garante-nos ainda que nos dará um lugar onde poderemos viver...
Mas então, é como se ele se tornasse como um pai para nós e nós passássemos a ser seus filhos. Alguma vez isto pode ser verdade? Alguma vez pode acontecer uma coisa destas?
Deus passou a amar somente os seus filhos - os Brancos ? e terá esquecido os seus filhos Peles-Vermelhas...
Ele ajuda o Homem Branco com poderosas máquinas para tornar o seu trabalho mais fácil e eficiente e levou-os a construir grandes aldeias para eles habitarem...
Ele torna o vosso Povo cada vez mais forte e populoso dia após dia e assim, dentro em pouco, vós inundareis a Terra inteira como um rio que se precipita pelas estreitas gargantas e barrancos submergindo as terras baixas depois duma súbita e devastadora tempestade.

Perante o que os meus olhos espantados vêem acontecer, o meu Povo é como uma maré vazante sem a esperança duma próxima preia-mar...
Não. Decididamente nós não somos da mesma raça.
Somos raças diferentes.
As nossas crianças não brincam em conjunto...
Os nossos velhos não contam as mesmas histórias de encantar... não?!
Não.
Decididamente, Deus tomou o vosso partido, adoptou-vos como filhos, e a nós, a nós deixou-nos na orfandade.
Temos de pensar seriamente na proposta que nos fazeis de nos comprarem a nossa terra.
Não é uma decisão fácil. Para nós esta terra é sagrada,
mas teremos de ponderar a sério essa hipótese.

Sentimo-nos bem nestas florestas. Sentimo-nos em casa.
Não sei se a nossa maneira de ser e de pensar é muito diferente da vossa. É com certeza. Tem mesmo de ser.

A água corrente e brilhante que espelha nela a luz do sol e a imagem das montanhas e das árvores que bordam as margens dos ribeiros e rios que atravessam a nossa terra não é só água. É o sangue a seiva a vida dos nossos antepassados.
Se acabarmos por ter de vos vender a nossa terra, como parece que ter á de acontecer, ficai sabendo que ela é sagrada e deveis ensinar aos vossos filhos que ela é sagrada! o que é o sagrado?!, para que possam ver em cada cintilação mesmo fugidia das límpidas águas dos nossos lagos os reflexos que contam a história, as tradições, enfim, a vida do nosso Povo.
O marulhar das águas que correm nos rápidos e deslizam nas planícies são as vozes dos nossos antepassados.
Os rios são nossos irmãos e amigos. Eles matam a nossa sede. Os rios levam e trazem as nossas canoas que flutuam sobre as águas e alimentam os nossos filhos com os peixes que nos permitem pescar para nos alimentarmos.

Quando nós tivermos que vos vender a nossa terra, parece que isso terá de acontecer, não é? parece uma fatalidade!
vocês devem lembra-se e os vossos filhos devem aprender
que os rios são nossos irmãos - e vossos irmãos também - e por isso devem dar aos rios só as coisas boas, aquilo que têm de melhor como se deve fazer com os outros irmãos que temos.

Reparem. Nós os Peles-Vermelhas vamos sempre recuando à medida que os Brancos vão avançando sempre cada vez mais tal como a neblina matinal que cobre os montes se esvai ao romper da aurora com os primeiros raios de sol e desaparece completamente à medida que o sol se vai elevando no horizonte.

Mas as cinzas dos nossos Pais são sagradas e as suas campas são chão consagrado tal como estas colinas estas árvores esta parte da Terra é sagrada para nós.

Nós sabemos que os homens Brancos não entendem esta nossa maneira de pensar e esta maneira de estar na vida. Para eles!?, para vós, um pedaço de terra é igual a qualquer outro pedaço e então eles comportam-se como pessoas que lhe são completamente estranhas, desligadas da terra, sem laços nem raízes e apoderam-se de tudo o que precisam ou pensam precisar e roubando-as à Terra comportando-se como ladrões que vêm pela calada da noite porque não têm nenhuma ligação com ela.

Os Brancos não são irmãos da Terra.
Não dão conta que são filhos nascidos do ventre da Terra onde hão-de de novo ser sepultados...
não são amigos da Terra mas seus inimigos e então à medida que a vão conquistando e conspurcando destruindo, vão avançando, sempre conquistando e destruindo...
Deixam pelo caminho as campas dos seus pais e não se preocupam com isso...
Arrancam os filhos da terra onde nasceram e nem param para pensar no problema...
As campas dos seus antepassados
e os laços que prendem os seus filhos a uma terra
não têm importância para eles.
Esquecem.

O homem Branco trata a sua Mãe a Terra, e o seu irmão o Céu, como se fossem coisas para comprar e para vender... como se fossem objectos perdidos à mercê do primeiro aventureiro atrevido ou audaz salteador... ou como se fossem animais que estão à venda no mercado ou pérolas brilhantes que acendem a cobiça dos mais ambiciosos...

A sua fome insaciável e a sua ambição é de tal maneira desmedida que devorarão tudo à sua passagem e não deixarão senão o deserto e destroços pelo caminho a assinalar a sua passagem, coisa que nem os animais que chamam selvagens fazem...

Eu não sei,
mas nós não temos a mesma maneira de ser e de pensar.

O aspecto das vossas cidades faz-nos doer os olhos.
Possivelmente é porque, como dizem, os Peles Vermelhas são uns selvagens e não entendem nada do progresso e da civilização dos homens Brancos.

Não existe nem um pouco de sossego e de silêncio e de paz nas cidades dos Brancos.
Nas cidades dos homens Brancos não há espaço para as folhas das árvores se estenderem e para as flores se abrirem em liberdade na Primavera ou para se ouvir o zumbido vivo dos insectos.

Mas isso, como dizem, é porque eu sou um selvagem e não posso compreender os benefícios da civilização.

Os vossos ruídos estridentes e a vossa música estrepitosa soa aos nossos ouvidos para os ferir como uma faca, ofender os nossos sentidos e para pôr a nossa cabeça à roda como se tivéssemos bebido a água de fogo que queima as entranhas...

Mas o que é que a vida tem de belo e bom quando já se não pode ouvir o grito arrepiante do noitibó, ou o coaxar estonteante das rãs nos charcos em doce e envolvente melodia pela noite fora?
Eu sou um Pele Vermelha e não posso perceber como isso é possível.

O Índio sabe apreciar a música suave do vento que sopra sobre a superfície tranquila dum lago...
aspira profundamente o cheiro da terra que voa no vento depois de purificada pela chuva da manhã como se fosse um doce perfume... ou deixa-se possuir pelo odor acre dos pinheiros bravos que o tonificam...

O ar é algo de precioso para o Pele Vermelha.
É ao ar que todas as coisas vão buscar o sopro de vida que as torna vivas. Os animais, as árvores, os seres, as pessoas humanas, todos respiramos o mesmo ar.

O homem Branco!, parece que nem d á conta da necessidade que tem do ar para respirar. Como alguém que já morreu há muitos dias, o homem Branco habituou-se a conviver com o maus cheiros que empestam as suas cidades...

Mas se, como parece, temos de facto de vos vender a nossa terra, não se devem esquecer que o ar é algo de muito precioso e insubstituível... e que a sua força o seu génio o seu espírito é que mantém na vida tudo o que tem vida e está presente em todos os momentos da vida para se estar vivo... Foi o vento que deu aos nossos pais o seu primeiro sopro e foi o vento que lhe arrebatou o último suspiro. É ele o vento que dará o espírito da vida aos nossos filhos como no-lo deu a nós.

Se por acaso tivermos de vos vender a nossa terra, não se esqueçam! devem considerá-la como algo de muito especial e de sagrado, como um lugar onde também os homens Brancos possam sentir que o vento traz nas suas asas o doce perfume das flores dos prados coloridos de mil cores.

Temos de pensar seriamente nessa proposta que se tornou para nós uma exigência impertinente e avassaladora que nos transtorna a mente e o pensar, mas se nos decidirmos, como parece que tem de ser, que seja ao menos com uma condição ? uma só ? os homens Brancos tratarão os animais da Terra como seus irmãos que são.

Eu sou um selvagem e não posso entender muitas coisas que os meus olhos viram.
Eu vi com estes meus olhos milhares de carcaças de búfalos que foram deixadas a apodrecer na pradaria por homens brancos que dispararam sobre eles e os mataram de dentro de um comboio lançado a grande velocidade...
Oh horror! Para quê tão inútil mortandade?
Eu sou um selvagem e não posso entender como é que um fumarento cavalo de ferro pode ser mais importante do que um búfalo que nós só matamos para nos podermos manter vivos, quando precisamos.
O que é o Homem sem os animais?
Exterminai todos os animais da Terra e vereis os Homens ficarem prisioneiros da maior solidão que o seu espírito não poder á suportar.
Aquilo que acontecer no mundo dos animais, há-de acontecer também no mundo dos humanos.
Todas as coisas estão interligadas.

Tudo o que prejudica a Terra
prejudica também os filhos da Terra.

Não se esqueçam de ensinar aos vossos filhos que o chão que pisam com os seus pés são as cinzas dos nossos antepassados.
Para que os vossos filhos tenham respeito pela terra que pisam explicai-lhe que a terra está impregnada pelo espírito dos nossos avós...
Explicai aos vossos filhos aquilo que nós ensinamos aos nossos filhos:
A Terra é a nossa Mãe. Nascemos dela. É o nosso berço. é a nossa morada enquanto vivemos. Ser á a nossa última morada quando morrermos. Somos feitos com o barro da terra e a Terra é feita do nosso barro quando os nossos corpos se transformarem em pó.
Aquele que fizer alguma coisa contra a terra está a intentar algo contra os filhos da terra.
Aqueles que desprezam e escarram contra a terra estão a conspurcar-se a si próprios.
É assim que nós entendemos as coisas na nossa maneira selvagem e humana de ver as coisas.
A Terra não pertence às pessoas.
São as pessoas que pertencem à Terra.
É isto que nós sentimos no mais fundo do nosso ser.
Tudo está interligado e em comunhão como o sangue une uma família com laços que se não podem quebrar ou ignorar.
Tudo está interligado.
O que prejudica a terra prejudica os filhos da terra.
Não foi o homem que teceu o tecido da vida.
O Homem é apenas um fio um mero filamento desse tecido inteiro que é a vida toda.
Se estiverdes constantemente a esfarrapar o tecido da terra, cuidado que estais a esfarrapar os fios onde o vosso fio está entrelaçado.

Não. decididamente não nos podemos entender.
O dia e a noite não podem estar presentes no mesmo momento...

Os nossos mortos continuam a viver lançados nas torrentes que percorrem o corpo da terra, voltam de novo nos furtivos passos da Primavera e o seu espírito paira nas águas que agitam a superfície das águas.

Temos de pensar nessa proposta irrecusável dos homens Brancos que decidiram comprar a nossa terra.
Mas o meu Povo pergunta:
? O que é que quer afinal o homem Branco?

Como é que alguém pode comprar o céu ou o calor da terra?
Já alguém se lembrou de comprar a velocidade dos antílopes?
Como é que nós podemos vender coisas como estas e como é que eles as podem comprar?
Porventura podem fazer da terra o que quiserem
só porque o Pele Vermelha vai assinar um pedaço de papel
e o dá assinado ao homem Branco?
Como nós não somos donos da frescura do ar nem das cintilações que brilham sobre as águas,
como é que eles no-las podem comprar?
Poderão eles vender-nos de novo os búfalos quando os tiverem exterminado a todos?

Temos que pensar na proposta que nos fizeram.

Nós sabemos que se não vendermos
é mais que certo que virão os homens Brancos com as suas armas e vão tomá-la, a nossa terra, pela força.
Mas nós somos uns selvagens e não podemos desligar-nos assim da terra a que pertencemos.
O homem Civilizado, habituado como está a cavalgar o cavalo do poder e a obter pela força das armas o que não pode ter pela razão e pelo que é justo,
julga-se já um deus, e que por isso a terra lhe pertence... que pode ser o dono da terra. Mas como pode um ser humano usar e abusar da sua Mãe?

Temos que pensar na proposta que nos fizeram de querer comprar a nossa terra pois o dia e a noite não podem coexistir ao mesmo tempo...
Teremos de pensar na vossa proposta e partir para a reserva que nos destinaram.
Temos de partir para longe para podermos viver em paz porque os Brancos cobiçaram esta terra onde vivemos desde sempre.
É como caminharmos para a morte.
Pouco importa assim para onde nos levam o resto dos dias que temos para viver.

Os nossos filhos vêem os seus pais humilhados e vencidos e nunca lhes vão perdoar.
Os nossos guerreiros foram achincalhados pela vergonha.
Terão de se entregar sem combater.
A seguir a esta humilhante derrota verão passar os seus dias ociosos e vão envenenar os seus corpos com comidas leves e bebidas fortes.

Pouco interessa assim onde nos levarão os últimos dias que temos para viver.
Não poderão ser muitos.
Mais algumas horas!, alguns Invernos mais!, e mais nenhuma criança destas grandes tribos que aqui viviam nestas terras e agora vagueiam em pequenos grupos por essas florestas, nenhuma criança mais se vai sentir impelido a sentir orgulho de pertencer a um Povo que aqui cavou profundamente as suas raízes e outrora se sentiu tão forte e cheio de esperança como vós vos sentis agora.

Mas porque é que havemos de acreditar no ocaso e fim do nosso povo que é feito de pessoas humanas como os outros?
Os homens vêm e vão como as ondas do mar

Mesmo o homem branco que tem o seu deus a caminhar a seu lado e fala com ele como um amigo fala com o seu amigo, mesmo o homem branco não pode escapar a este destino comum.

Afinal talvez sejamos mesmo irmãos, quem sabe?

Duma coisa temos a certeza, e, um dia, quem sabe, o homem Branco vai também descobrir a mesma verdade inegável, é que o nosso deus! é o mesmo deus.
Vocês pensam, se calhar, como tudo está a correr a vosso favor, que ele, deus, também pode ser propriedade vossa da mesma maneira como querem tornar-se donos da nossa terra, mas isso, creio que não pode acontecer. Deus, se existe, e tem de existir senão nem os homens nem as coisas existiam, só pode ser o deus de todas as coisas e por isso deus dos brancos e dos peles vermelhas.
Esta terra, como toda a terra é algo de muito precioso para ele - e aquele que atentar e causar qualquer mal à terra, ferir a terra é o mesmo que ferir o seu criador, atentar contra deus e desprezá-lo.

Atenção, homens civilizados! Atenção, homens Brancos! Também a raça branca um dia há-de passar...
também a vossa vez há-de chegar e, quem sabe,
talvez o vosso fim chegue primeiro do que para outras raças que vós agora desprezais...
Continuem por esse caminho!
Não se esqueçam de que cada um faz a cama onde se há-de deitar...
e... um belo dia, ao acordar, vão descobrir, surpreendidos! que estão enterrados no vosso próprio lixo!...
Pode ser que então, já em plena queda, vocês vejam brilhar a luz que vos há-de abrir os olhos,
luz essa que ser á acesa pela força do mesmo deus que vos conduziu a esta terra e está a permitir que exerçam um domínio imparável sobre esta terra e sobre os peles vermelhas que caminham para o seu ocaso.

Não podemos perceber, mas temos de aceitar.
Isto por exemplo que está a acontecer - o nosso desaparecimento incontrolável em contraste com o vosso avanço irresistível permanece um mistério que não podemos desvendar. Movemo-nos na escuridão. Não conseguimos perceber os desígnios de deus e os seus caminhos...

Quando os búfalos forem todos dizimados...
Quando os cavalos selvagens forem todos domesticados...
Quando os recantos mais recônditos das florestas forem infestados pela presença profanadora de multidões eufóricas...
Quando a visão das onduladas colinas cobertas de searas maduras estiver completamente violado pelos trepidantes fios e postes que levam a fala dos homens a distâncias inconcebíveis...

Onde o espaço para os lugares secretos e impenetráveis dos bosques e florestas?...
Onde o espaço para o voo majestoso das águias?...

Vamos, que significará termos de dizer adeus aos póneis
velozes e à caça que nos surpreende com as suas mil artimanhas de defesa e ataque?...

TUDO ISTO SIGNIFICARÁ O FIM DA VIDA - VIDA
e O INÍCIO DA SOBREVIVÊNCIA que será uma mera caricatura do que é a VIDA.

Não podemos entender.
Deus dá-vos o poder para dominarem os animais, para dominarem as florestas e até os Peles Vermelhas... ora se isso acontece, tem de ser por uma razão muito especial?
Qual é essa razão? Porquê? Porque é que isso está a acontecer?
É isso que continua um mistério insondável para nós!
É um enigma.

Talvez houvesse uma maneira de o descobrir...
Se nós pudéssemos desvendar os sonhos do homem Branco...
Se nós pudéssemos saber que secretas esperanças eles sussurram aos seus filhos nas longas noites de inverno...
Se nós pudéssemos tentar desvelar as visões que se acendem no seu imaginário sentindo-se já senhores dos mundos novos que hão-de construir...
Se...
Talvez nós pudéssemos desvendar este mistério!

Mas nós somos selvagens e assim, nem sequer podemos conceber o que o homem Branco é capaz de sonhar...
Temos de seguir o nosso caminho... o nosso destino...
Acima de tudo temos de respeitar o direito que cada Homem tem de viver como deseja e quer e constatar, mesmo com espanto, o modo como é tão diferente do dos outros seus irmãos...

Não são muitas as coisas que nos unem!
Somos de facto muito diferentes!

Temos de pensar na vossa inconcebível proposta!
Se a aceitarmos, é com certeza para assegurar o direito a viver numa Reserva que nos prometem. Resta-nos a esperança de ali podermos viver, à nossa vontade, ali? os curtos dias de vida que nos restam...

Quando o último Pele Vermelha desaparecer desta terra e a sua recordação não for mais do que a sombra de uma nuvem sobre a pradaria, mesmo nessa altura, ficai sabendo que o espírito dos nossos antepassadas estará vivo e palpitante nas margens destes rios e no coração destas florestas...
É que eles amaram esta terra e estiveram ligados a ela como o bebé que vai nascer está ligado ao palpitar do coração da sua mãe.

Se vos vendermos a nossa terra como parece ter de acontecer pela vossa proposta irrecusável,
então, ao menos,
continuem a amá-la como nós a amámos...
cuidem dela como nós a cuidámos...
guardem ao menos a recordação de como ela é na altura em que nós vo-la entregarmos...
e, com todas as vossas forças
com todo o vosso espírito
com o vosso coração
guardai-a para os vossos filhos
e amai-a
como deus nos ama a todos e a tudo

Ao menos temos a certeza de uma coisa:
O NOSSO DEUS É O MESMO DEUS.
Esta terra pertence-lhe, por isso é sagrada.
Mesmo o homem Branco não pode deixar de sentir esta verdade universal...

Afinal, talvez sejamos irmãos!
Um dia, ainda havemos de o saber.

IDEIAS? PROPOSTAS para a LEITURA DRAMATIZAÇÃO REPRESENTAÇÃO...

desta FALA, destas FALAS... destes GRITOS...

1. Numa sala. Num teatro. Num recinto qualquer... ao ar livre...
Prever dois campos nitidamente separados...
Ao meio, para separar estes dois campos, um fundo branco, um lençol, uma tela onde se podem estar a projectar... filme/s do oeste, uns westerns, umas coboyadas... uns diapositivos de índios, usos, costumes, símbolos... história dos EUA, cidades, monumentos, paisagens... imagens que por contraste, sintonia ou ironia... vão acompanhando e/ou ilustrando o discurso, A FALA DO ÍNDIO... ao mesmo tempo, noutra tela ou intervaladas na mesma, aparecem imagens da nossa SERRA, das nossas terras na Serra...

À esquerda, possivelmente sentados no chão, em esteiras, vai aparecer a personagem que representarão Grande Chefe Índio acompanhado pelos seus conselheiros e/ou os seus bravos... que vão dizer em coro ou com falas marcadas de solistas ou coros, ou simplesmente acompanhar o que diz a FALA DO ÍNDIO...
Como são eles que vão dominar todo o tempo do discurso talvez tenha de se estudar um plano superior que os torne mais visíveis e audíveis pela plateia... e facilite a comunicação.
Por cima deles, atrás, em paralelo com a tela, uma foto antiga, um desenho, um esboço de um Chefe Índio ou grupo de Índios...
Misturados, ou noutro lado em paralelo, Viriato e um grupo de pastores que eram também agricultores e tiveram de ser guerreiros... e depois foram e são industriais operários comerciantes funcionários... tudo o que são forças vivas, produtivas e culturais e fomentadoras de desenvolvimento...

À direita e o mais perto possível da plateia de modo a dar a entender que o discurso é para a plateia e todos os da plateia somos os possíveis presidentes dos EUA, uma mesa com o Presidente dos EUA e seus conselheiros, 2?, ou só, que vai ou vão ouvir, atentamente! e pacientemente?! o discurso ou fala, tendo por de trás, acima, em paralelo/contraste com o quadro que faz de cenário aos Índios, um sóbrio e pomposo cenário próprio dos Presidentes dos EUA... a Bandeira, uma águia, as Estrelas dos 50 Estados..., enfim...
Jogando em paralelo com Viriato e os pastores e/ou todos os que representam a Serra, fica na verdade sem se saber se o discurso é dito pelo grande Chefe Índio ou por Viriato, o grande Chefe Lusitano, ou pela Serra ou pela Natureza...

Em frente, na plateia, o mais descaída possível para a direita, o público, a assistência, os espectadores nos seus lugares normais que vão tentando seguir o filme e ou os diapositivos ou..., ouvir a FALA DO ÍNDIO... e seguir atentamente as reacções ao discurso do presidente e seus conselheiros, as deles e as dos outros que estarão a sentir-se mais no lugar do presidente, dos seus conselheiros... ou do índio ou dos seus conselheiros ou dos seus bravos...

Em vez de coboyadas ou monumentos, talvez seja aconselhável projectar filmes ou imagens de belezas naturais especialmente fascinantes... enfim!
Pode estudar-se toda uma movimentação de grandes grupos que representam a Serra e as suas gentes, os seus montes, as pedras, as fragas, os cântaros, as penhas... os fragões... as fontes, os rios... as plantas... as flores... que representam, dançam, cantam... enfim! todo um mundo de sugestões que pode tornar-se num espectáculo GLOBAL e diversificado, rude e belo como é a SERRA.
Algumas dessas imagens, seleccionadas, podiam, claro, ilustrar este livro...


Penedo Gordo, Beja, 1985 - Amora, Seixal, Julho de 1992 e 1993; Corroios, 1999 -2000



Este trabalho foi acabado de realizar e imprimir
@ JORAGA - Pentium 200 - WinWord,
Hewlett Packard Desk Jet 550C
Corroios, Fevereiro de 2000
com todos os direitos reservados por:

joraga@netcabo.pt e joraga@netc.pt
e visite o Site na WEB - http://www.geocities.com/joraga2000

 

Nota: Em breve, AQUI, nesta minha TEIA na REDE,  a minha tradução livre desse monumental discurso...
(em eBOOK, em breve nesta PÁGINA da minha TEIA na REDE)

 

Sempre que visite esta página e tenha elementos ou críticas ou sugestões, CONTACTE:

 

 

 

E-Mail: joraga@netcabo.pt e joraga@netc.pt
pelo telefone 212 553 223 ou pelo Telmv. 917 632 524
e pelo CORREIO: Rua Almada Negreiros, 48 - 2855-405 CORROIOS.
visite ainda a minha TEIA na REDE além de joraga.net - joraga.net/gilViTeatro/cart2325/bart2838/alice2000rgGaleria

Compatível com IE/Netscape na resolução 800x600
Joraga 2000 em viagem