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AS
FALAS DO VELHO ContaOuvidor de ISTÓRIAS...

O VELHO JOVEM CONTAOUVIDOR DE HISTÓRIAS era um jovem muito
velho andarilho das sete partidas viajante caminhante que se tinha
farto de correr mundo e o muito que tinha ouvido ou visto, ouvisto
como ele dizia, e onde que eu já ouvi ou já
vi isto? ia jurar que tinha dito o mesmo já no capítulo
anterior..., sentia-se no direito de contar as histórias
dele e dos outros como se fossem dele e às tantas, acontecia
que já não era ele a contar porque as pessoas que
o ouviam não ouviam o jovem-velho contar nada porque eram
eles jovens e velhos que se punham a contar ouvindo ou vindo-viajando
as histórias deles que não eram deles, eram doutros,
e assim não se sabia quem contava ou quem ouvia porque cada
um contava as histórias dos outros como se fossem deles e
as histórias deles como se fossem dos outros de tal maneira
que nunca se sabia quem contava e quem ouvia daí ter de se
inventar uma palavra nova - CONTAOUVIDOR - que ninguém conhecia
mas toda a gente sabia que era para explicar aquilo que acontece
a toda a gente que quando está a ouvir e não está
a ouvir nada mas está a contar a sua própria história
e quando está a contar não está a contar nada
mas está a ouvir aquilo que aconteceu aos outros. ...
e
era assim. o velho jovem menino mulher pessoa já madura emigrante
de férias em regresso condicionado se... lá estava
em ameno baloiçar na varanda alevantada aberta sobre o vale
conversando de ouvir os velhos sábios magos da montanha desde
há milhares de anos esculpidos nos contornos dos cimos que
rodeiam aquela terra na serra contando as suas histórias
de encantar...
então
o sonho imaginado que era a realidade que eu vivia vestiu-se de
nuvens e o velho jovem contaouvidor de histórias começou
a falar a falar calado sem mexer os lábios, sem nexo, misturando
tudo, os tempos e os espaços e as histórias e as personagens,
confundindo as palavras que não dizia porque só as
imaginava com as letras escritas que ficavam a cintilar como as
estrelas que como é evidente ali estão à disposição
de serem lidas por todos mas que poucos lêem porque não
sabem ou porque não querem ou nem sequer têm tempo
de erguer o olhar para as estrelas ou porque a luz da civilização
é demasiado forte para permitir que se vejam as estrelas
ou pelo simples facto de não se poderem ver porque o céu
está coberto de nuvens exactamente naquela noite em que tinham
tempo e disposição para as olhar... ou então
havia ainda outro fenómeno estranho quando o velho-jovem-figura-de-mulher
contaouvidor de istórias começava a falar sem falar
e sem ser ouvido: as palavras expiradas ao ritmo da respiração
já um tanto arfante não se ouviam mas ficavam desenhadas
como balões de um código mágico no ar frio
que transformava em vapor o ar quente expirado pelo contador e ficávamos
a assistir como se estivéssemos num cinema mudo... tal e
qual como nos acontece na Serra quando vemos ao longe dois personagens
a conversar... um pastor a dar e um caçador a pedir infrmações...
o pastor a agradecer o inesperado cigarro oferecido já todo
enrolado e com uma ponta para entalar nos beiços... e o caçador
a agradecer as informações por ode terim passado as
perdizes e as lebres... "olhe qu'ainda o ano passado por'í
andavam"...
...se
aqui a gente sabe ler? aH! ah! ah! ria-se o velho. sabe sim senhor.
sobretudo os mais velhos que não sabem ler essas coisas da
escola e dos padres e dos doutores esses sabem ler nas nuvens e
na cor do céu e na forma e movimento das estrelas o rumo
do tempo e dos tempos... mas são coisas muito complicadas
e simples em que ninguém agora acredita porque dizem que
já vem tudo nos livros e toda a gente já mandou estudar
os filhos por mor disso e os jornais e o rádio já
dizem as coisas todas que as pessoas querem saber e não lhes
interessa para nada aquilo que nós sabemos e lemos nas cores
e nas formas do céu...
atão
o menino zé nuo suabe? nu uouviu faluar? um dos puoucos que
acredituou nuessas cuousas foi o ruei o sunhuor duom Cuarlos e a
rainha senhuora duona Amélia que nuos primueiros anos do
século estava este século a amanhecer vieram aqui
para ver o aurora boreal aquela luz fortíssima vermelha e
cor de rosa de muitas cores que ali esteve dias e dias e ele e a
rainha vieram até cá e eu e muitos como a sua avó
e o seu avô pudémos ver os reis ainda uma vez na vida
e vieram cá para ver o que anunciava aquela luz especial
que só acontece uma vez em cada cem anos e o rei dizem que
era um homem com estudos e muito sabedor destas coisas e cá
vieram para ver mais de perto aquela luz e o que podia anunciar
e veja o que lhes aconteceu... mataram-nos a ele e ao filho para
ficarem a mandar aí os da república e andarmos por
aí mandados pior de que se fosse o rei a mandar que isto
nunca se sabe mas é o que parece... se os que nasceram para
mandar no dão avego, os outros que vão aprender à
nossa custa vão-nos fazer penar muito até acertarem...
é o que eu lhe digo e eu não sei nada disso que é
a política... a política para mim é mourejar
aí por esses carreiros da serra com a ajuda das alimárias
que têm de ser muito bem tratados para aguentarem tanta lida
e tão pesada...
mas
enquanto o velho jovem contava as suas histórias que eu já
não ouvia, ouvia subitamente outra história que não
percebia quem a contava ou para quem.
olha,
zé da serra! olha-me bem o que digo zé da serra do
vale do zêzere que eu não tenho tempo para estar aqui
a falar para o ar e não vou repetir aquilo que te digo!...
isto, descobri depois mas nunca tive a certeza porque não
tinha nada a ver comigo! isto era a maga da estrela a falar com
o velho menino jovem com cara de mulher sedutora que estava sentado
na cadeira de baloiço que não estava lá na
varanda mas estava lá no espaço do tempo muito alto
e muito longe dali a falar com os magos da montanha... olha-me bem,
ó zé ninguém, olha bem para mim que eu vou
contar-te a minha história, a HISTÓRIA VERDADEIRA
DA SERRA DA ESTRELA!
já
tantos contaram a história e a lenda que tu te pões
para aí a rir porque todos pensam que aquilo que contaram
é a minha história e a lenda do meu nome que se escreve
com as letras da estrela e antes até lhe chamavam hermínios
ou montes ermos porque pensavam que isto aqui era tudo uma ermidade,
uma solidão onde não havia nada nem ninguém
e depois de lhe chamarem da estrela, e não é que acertaram
porque ela é mesmo minha, ficaram tão vaidosos de
o terem inventado e de terem inventado as lendas e as histórias
e até as descobertas científicas que nunca se lembraram
de me vir perguntar se era verdade e se por acaso eu sabia a minha
história verdadeira!? ... São assim as pessoas quando
sabem tudo. Até arranjaram para aí uns guardas da
verdade da serra para a guardarem e não a deixarem estragar!
deixa-os...
a
ti, hoje, eu decedi contar-ta.
como
te vi aí sisudo pensativo meditabundo calado de olhar atento
perscrutando a serra da varanda da tua terra aberta sobre o vale
glaciar do zêzere rodeado de verdes azereiros daqueles que
dão umas drupas muito amargas acres aceradas como o fel mas
que dão umas flores muito bonitas na primavera e como te
vi aí há longos anos sentado à procura das
minas de oiro que eu criei como anunciou o mestre Gil Vicente não
que ele o tivesse encontrado para fazer as suas obras de arte como
a custódia de Belém que dizem que foi ele mas parece
que foi um mestre Gil que também era Vicente mas porque já
o propagandeava Estrabão que só nasceu quase um século
depois de Viriato mas como bom geógrafo e historiador já
dizia que estas terras da serra eram ricas em oiro e prata e outros
metais como em frutos e gados animais que dão leite e outros
produtos, até há aquela que chamam manteigas por assim
guardarem o melhor dos vários leites! ...acendendo mais a
cobiça dos romanos que aqui se instalaram uns anos do nascimento
de Cristo depois de tanta luta e tanta guerra e tanta morte e de
terem sido enxovalhados e envergonhados pelo Viriato que de pastor
se fez chefe de pastores e tendo escapado à chacina da Galba
que até o senado romano condenou como vergonhosa e indigna
da civilização romana se tornou chefe dos heróis
ou das ordas lusitanas e destroçava legiões com artes
e estratégias dignas de um génio militar... parece
que se impunha igualmente aos outros lusitanos e povos da Ibéria
que não gostavam muito dele e o trairam e mataram e preferiram
a paz e o progresso dos invasores até lhe assimilarem a língua
e o modo de pensar... herói hermíneo intratável
áspero rude selvagem que queria defender o direito à
diferença e à liberdade de cada povo ser o que é?...
ou bandido autoritário que só queria ser caudilho
e impor a sua vontade a sua lei e os seus interesses?... é
bom que as pessoas o vejam como herói. as pessoas precisam
de heróis e vão-nos inventando quando e onde precisam
deles. como os deuses. como a minha lenda!...
pois
eu como te vi aí mudo e talamurdo, nessa varanda aberta sobre
o vale, olhando observando divagando tentando adivinhar os mistérios
da serra gritando calado o nome destes montes destes moios destes
colossos destes povos destas gentes que tu tão bem tão
pouco conheces também misturando tudo e trocando tudo misturando
nomes antigos com os novos e chamando as pessoas pelos nomes que
têm e pelos outros que lhe deram, bem, apesar disso tudo,
olhei bem para ti e decidi-me contar-te. ...
contar-te
só a ti que é segredo.
ai
de ti se a divulgares! livra-te de a contar aos donos do poder e
do saber. eles já podem tudo! já sabem tudo! se ficam
a saber esta história vão conhecer os segredos desta
serra desta terra e destas gentes e assim ficaria maior o seu poder
e o seu saber! se fosse o saber saber dos sábios? não
havia perigo! também os outros? não há grande
perigo porque os que pensam que sabem tudo não vão
entender patavina destas coisas que te vou contar. os sabelivros
vão-te ridicularizar... olha o parvo! esta não vem
nos livros, portanto não pode ser verdade. diga lá
senhor autor deste livro onde é que vem isso nos livros.
se já vem nos livros escusava de o ter escrito, se não
vem não pode ser verdade e por isso escusava de ter perdido
tempo a escrevê-lo. parvoíces! ora esta, que não
vem nos livros, digo-to eu, não pode ser verdadeira. é
verdade. bem, com os sabelivros estás feito. os poderricos
vão tentar destruir-te. os ricardos não podem suportar
que os outros tenham tanto como eles, como os mandapoder não
podem suportar que haja outros que mandem como eles. que mandem
executar o que eles mandam? está bem. mandar outra coisa?
não. então onde é que íamos parar? era
a anarquia! era a bagunça completa! porque é que te
vão odiar? por ensinares aos pobres os segredos das cavernas
e os mistérios da serra que só eles pensavam conhecer
e guardavam muito bem guardados... às vezes deixavam escapar
assim umas pistas e umas dicas para as pessoas se entreterem e arranjarem
umas guerras uns com os outros e eles poderem mandar mais tranquilos.
mas o certo é que, felizmente para ti e para mim, nem uns
nem outros são de temer. a uns e aos outros e a todos eu
hei-de engolir e depois, os que sabem ler, talvez não saibam
ler ou nem acreditem naquilo que lêem ou se calhar nem se
vão dar ao trabalho de ler. então não querias
mais nada senão arranjar uns dinheiritos com a venda do livro
e ficares aí rico como eles! e depois acontece também
que a verdade como a luz do sol é demasiado brilhante e assim
as pessoas não olham para o sol, cuidado que até pode
cegar! e usam-se para evitar isso uns óculos escuros para
proteger a vista e até há quem arrange assim uns panos
ou umas peneiras como os guarda-sóis ou os guardas-chuvas
para a luz e o sol não fazerem mal aos olhos das pessoas
e com a verdade passa-se a mesma coisa. dá-se só aos
bocadinhos quando se tem que é para não fazer mal
à vista!...
bem,
não percas tempo com eles que já estamos a perder
muito tempo. mas atenção, só mais uma coisa.
homem prevenido vale por dois e mais vale estar prevenido do que
remediar! olha que os podenovos são mais ou menos como os
podevelhos ou para lá caminham. mesmo os podeeleitos pelo
povo duma coisa que chamaram democracia que é poder do povo
e depois o povo como é povo dá o poder aos poderepresentantes
que depois de estarem no poder e poderem, de repente, passam a saber
tudo, a ter a experiência de saber o que o povo sabe e o que
o povo pode e depois passam eles a dizer ao povo o que pode saber
e pode poder e daí a trocarem a primeira letra do poder com
um efe é um saltinho que nem chega a ser de gafanhoto!
esta
história, zé da serra do vale do zêzere ou lá
como te chamas ou te chamam, compenetra-te bem do que eu te digo
e vê lá se penetras bem nos segredos que te confio...
conta-a só aos pobres. conta-a aos pastores. às crianças.
aos poetas. esses sim vão gostar de ouvir-te. verdade seja
que é uma perca de tempo. pobres já não há
ou há muito poucos! pastores? estão a acabar! as crianças
não sabem ler! poetas? ...! mas a esses também não
precisam muito que tu lha contes porque esses sabem-na contada por
mim directamente que sou a fonte e falo com eles e enquanto falo
os vou fecundando embora muitos não acreditem muito nos frutos
que vão nascendo nos seus ventres! pensam que são
histórias fabulosas como os sonhos para se evadirem da sua
grande miséria e solidão qoe os impede de serem aquilo
que podiam porque os valores e as leis e os princípios dos
mundos em que vivem são outros muito diferentes e não
é muito fácil viver com outros... os verdadeiros.
dou-te
mais uma pista. como esta história é de facto um segredo
fabuloso, contai-a só assim em segredo uns aos outros de
boca em boca de fala em fala, assim à maneira de quem mergulha
nas águas sem fundo da lagoa escura! já lá
mergulhaste? medricas! naquelas águas perdidas em cavernas
de mistério que rasgam o ventre da serra da terra da sterra
até ao mar... não pode ser? fugia toda que está
muito alta?! isso é o que pensam os que pensam que sabem
tudo das leis da natureza como se fossem eles que as fizeram! aqueles
que lá mergulham sentem-se perdidos fascinados deslumbrados
e depois não têm palavras para contar ao tentarem recordar
os segredos comunicados pelas águas as minhas entranhas e
pelo fogo a cada fímbria do seu ser...
cuidado
com as fantasias! que é o que acontece com as pessoas a quem
se revelam coisas inacreditáveis inacessíveis e depois
as tentam contar com conceitos e ideias verdades que não
têm palavras nem cabeça para as apreender e comunicar!...
alguns até já leram muitos livros e ouviram muitas
doutrinas e depois tentaram ser bem educados modestos e vão
dizer que ouviram de mim aquilo que ouviram doutros doutos e sabidos
e até lhes pagam bem e lhes dão confortáveis
espaços e papéis e escaparates onde muita gente os
pode ouvir e ver e ler e então me(n)tem muita erudição
e informação e deformação nessas revelações
que lhes são ditas para ver e sentir para cheirar saborear
digerir recrear sonhar e recriar e aí estão a comunicá-las
como algo que se não pode comunicar porque só usam
um ou dois meios de comunicação e esquecem-se que
temos pelo menos cinco ou sete para ser mais preciso e que afinal
é só um as pessoas é que precisam de os separar
e contar... e isto não são coisas só para ouvir
com os olhos e ver com o nariz ou saborear com os ouvidos ou cheirar
com as mãos ou palpar com a boca ou comunicar com signos
símbolos ou enigmas... repara que as vossas palavras de falar
de ler e de escrever, mesmo poderosas, são muito pobres para
dizerem coisas destas!
até
tu já ouviste tantas vezes esta lenda. lembras-te?
a
tua avó contava-ta a ti e aos teus irmãos à
volta daquela velha lareira, aquela da pedra grande a grande lajem
da cozinha do primeiro andar que os construtores perante a teimosia
do teu avô que ia lá ficando esmagado por ela elevaram
através duma rampa em prodígios de inusitado engenho
e com graves riscos e ali ficou, dizem, a segurar a casa toda donde
nasceu a lenda temerária de que se um dia fosse partida seria
o fim... tudo correu bem e não houve discussões mesmo
quando a comida deixou de ser feita no lume do chão da lareira
e passou a fazer-se no fogão de lenha que era outra limpeza
e tinha forno e assadeira e depósito de água quente
e foi um melhoramento e uma limpeza que nos permitia ombrear com
as melhores famílias da terra. nos dias de matança,
tirava-se a longa chaminé que ia até ao telhdo por
dentro da outra e a lareira funcionava com aquela panfernália
de caldeiras e correntes e panelas de ferro e durante uns tempos
ali se regressava ao princípio com os varais carregados dos
chouriços paios sempre poucos e em destaque e as morcelas
e as farnheiras e os farnhotes até que já meias secas
iam para o sobrado. o pior foi quando a lenha começou a escacear
e a ser mais cara e a higiene e a competição exigiam
outra limpeza e apareceram os fogões a gás e electricidade.
a cozinha não podia continuar assim. a lareira iria para
o quintal ou para o sótão. ganhou o sótão.
subiu para o sobrado. e então a pedra da lareira? encravada
na parede chegava a um terço da grande cozinha? deita-se
abaixo! corta-se rente à parede! deixa-se só um pequeno
degrau para os cântaros e o resto da cozinha fica em ladrilhos
mas ao nível de todo o primeiro andar. pois sim! foi o carmo
e a trindade. antes das obras começarem o meu pai e a minha
avó deixaram de se falar. não adianta discutir com
teimosos... tem lá algum geito nos tempos que se correm até
a segunda guerra já tinha acabado acreditar em crendices
e reviver os pesadelos daquela contrução com grandes
blocos de granito mas aquela pedra escolhida a dedo e transportada
com incríveis trabalhos até ali tinham tido o atrevimento
de a erguer até ao nível do primeiro andar porque
a lereira do rés-do-chão era para o mata-bicho e a
janta dos jornaleiros e assalariados... a casa da família
tem de ter a sua independência e privacidade!!! ...e a minha
mãe aflita a fazer de bombo e para-raios entre os dois...
durante o dia a ouvir a avó... porque não metes o
teu homem na ordem... mas em casa quem manda é o homem...
mas enquanto eu for viva quem manda aqui sou eu que o teu pai já
morreu e eu quase o vi morto debaixo daquela maldita que ia sendo
a nossa perdição ...os homens são uns casmurros
e pronto naquela pedra não se mexe nem que eu me meta lá
debaixo se a forem partir... e à noite depois do trabalho...
lá ouvia mais... porque estamos noutros tempos... porque
mais vale sair desta casa e termos a nossa casa sem estar a aturar
isto... mas o dinheiro mal dá para as obras e tu queres que
dê para uma casa... e os filhos... e os que já estão
a estudar e os que estão para ir... e luta e as intrigas
que foram para nós aqui ficarmos que era a irmã mais
nova e as outras manas tinham mais direito que os irmãos
foram todos para o brasil... aquilo ainda meteu compadres e comadres
e o resto dos parentes e até a opinião respeitável
das autoridades e do senhor vigário... e por fim lá
teve que se resolver. enche-se o resto da cozinha de burgau brita
e areão e faz-se um degrau... é preciso cortar a porta.
mas agora o soalho velho e os caibros não vão aguentar
o peso das pedras e mais o cimento. vamos refazer o soalho e ver
em que estado estão os caibros. mais uma despesa extra por
causa daquela teimosia... e lá ficou a cozinha cimentada
com a porta cortada e um degrau respeitável em relação
ao primeiro andar... nos primeiros tempos sucederam-se os tropeções
e a louça partida... eu bem dizia que era um disparate! isto
as mulheres a mandar!...
casa
de granito aparelhado do princípio do século das primeiras
que se construiram com tal engenho e arte. iguais ou talvez uma
ou outra melhor só as dos industriais que o tinham à
custa dos operários! aquela não, era fruto de muita
lida e de muito mourejar pelas tapadas uma em cada lado, os lameiros
o souto as vinhas... enfim! muita gente por conta e a dar por conta
a quem dispensava jornaleiros e carradas e bois e bestas... aquela
lareira de pedra grande feita duma lage alevantada até ao
primeiro andar foi, durante a vida do meu avõ e depois até
à segunda grande guerra até passar para o fogão
de lenha serrada a serrote enorme de meia lua com os pinheiros deitados
no cavalete cortada a malho e machado e empilhada ao sol e no telheiro,
aquela lareira foi durante duas gerações o lar o centro
onde o fogo ardia praticamente todo o dia cheia de trempes e panelas
de ferro e onde subiam e desciam as caldeiras guindadas pela cadeia
de ferro que se travava a diversas alturas com ganchos que muitas
vezes ficavam ao rubro por cima do lume trepidante de labaredas
mágicas para depois os panelões com água ou
com os restos que iam para a vianda ou para as galinhas a aproveitarem
a aproveitarem o calor das brasas que se juntavam as tenazes e as
pás e até o calor morno do borralho e da cinza quente
que se mantinha durante todo o inverno até o enchido ficar
curado..., oh! os tormentos daqueles primeiros dias em que o enchido
ainda pingava... tu sai-me daí debaixo que um pingo desses
na cabeça põe-te careca que nem um santo antónio
com o menino ao colo! as mulheres podiam arriscar-se que não
havia mulheres carecas e usavam lenços por mor dos lutos
e dos cabelos na comida...e ali ficava até o enchido ficar
curado e a casa e as pessoas precisarem de calor e as braseiras
precisarem de cinza de moínha das castanhas e carvões
e os tijolos aquecidos para se levarem para as camas embrulhados
em panos ou papéis... e isto tudo visto nas noites geladas
e intermináveis do inverno à luz fantasmagórica
e fantástica das candeias de azeite e dos condeeiros e lanternas
de petróleo... enfim, aquela lareira marcava toda a vida
da casa ao ritmo e ao sabor da vida daquele tempo em que tudo nascia
da terra e ia para a terra passando pelos animais e por nós!
depois,
como já disse, quando a família precisou de uma cozinha
ao ritmo dos tempos que evoluiam de acordo com a electricidade que
chegou, o gás e a pressa dos tempos modernos, a lareira das
correntes que vinham de lá pretas e tisnadas do meio do escuro
da grande chaminé com as caldeiras e panelões de ferro
ainda mudou para o sobrado já povoado de recordações
e tradições que ainda se usavam como as balanças
de pratos e as decimais e a romana com seus braços ganchos
e pilões de pesar arráteis e arrobas as braseiras
que competiram muito tempo com as eléctricas as caldeiras
as masseiras as peneiras e cirandas bailarinas que punham tudo a
cirandar desde a escolha dos grãos dos cereais até
às farinhas mais diversas, o farelo para as viandas, a de
centeio para o pão, a mais fina para os bolos e doces nas
mãos ágeis e incansáveis das mulheres caiadas
de branco que depois continuavam na masseira onde ficava a fintar
e a tomar o ponto sobre um pano branco e depois das respectivas
rezas até que era outra vez amassada e transformada pouco
a pouco em bolas que se rebolavam outra vez em farinha para serem
encarreiradas nos tabuleiros cobertos com um pano imaculadamente
branco... para ir para a vez para o forno da quelha e vir transformado
em pão.
mesmo
assim, para ser despromovida com um pontapé pelas escadas
acima, aquela lareira que passou do meio da casa para o canto do
sótão em chão de tijolo burro e barro foi isolada
do resto com uns taipais a prevenir faúlhas e fogo, e teve
de obedecer a certas exigências para compensar os hábitos
e os quereres da minha avó que afinal era o dona dos teres
e haveres e a guardiã das tradições e da maneira
de viver da minha terra na serra. quando as coisas assim evoluiram
afinal ela era a dona da casa mas dos haveres...?! só quando
a grande laje foi coberta é que talvez ela se tenha apercebido
que afinal a vida e a economia familiar tinham mudado e o mundo
do tempo em que a tinham construído ficava ali sepultado
com o cimento e o ladrilho. então, para aliviar o choque
desta morte, aquela lareira despromovida para cima foi aprimorada
com mais alguns requintes extra. os varões para os enchidos
tinham apoios de madeira recortados de forma caprichosa que a habilidade
dos carpinteiros engendrou e teve de levar uma grande trave para
lá se montaram as cadeias sobe e desce com os ganchos para
os caldeirões, sim que a matança do porco sempre tinha
sido e foi a base da economia familiar para todo o ano... com os
enchidos e presuntos e a banha guardados na salgadeira havia pelo
menos sempre qualquer coisa para comer com o pão mesmo que
viesse outra guerra e viessem as carências e as carestias...
tinha
ainda uma vantagem esta nova lareira que não se podia comparar
nunca com a força o peso e o lugar que ocupava a outra. foi
coberta por um caniço para secar as castanhas, ora aí
estava mais uma vantagem que a outra não tinha. depois dos
dias enregelados da apanha das castanhas e das picadas dos ouriços
e de encher a barriga enquanto se procedia à escolha e lá
vinham os piolhos que as castanhas cruas têm aquele biquinho
na ponta que em um apanhando o piolho era um viveiro multiplicado
por aquelas cabeças da miudagem toda... eram ensacadas as
que davam para vender. guardavam-se uns punhados para ir roendo
e levar no bolso... e as outras, antes que o bicho tomasse conta
delas, eram espalhadas no caniço e o mesmo calor e o fumo
que ia secando o enchido ia secando as castanhas e o fumo lá
ia saindo pelas telhas quando não era uma fumarada por todo
aquele sobrado... e lá iam ficando até secarem e a
casca saltar... mais uns serões a pilar as castanhas e as
festas quando aparecia uma daquelas que ficavam moles... e as cascas
secas calcadas ou batidas com um pilão transformavam-se em
buínha que depois servia para misturar com as brasas e a
cinza das braseiras sim que depois da lareira subir eram precisas
mais braseiras e o calor das braseiras não pode ser só
o carvão com lume tinha de ser a cinza e o calor guardado
e reavivado com as folhas de estanho que sobravam dos chocolates
quando os havia para o carvão durar mais tempo e o calor
se manter... sim porque era preciso poupar e no poupar é
que está o ganho... e os tempos eram maus e as bocas muitas...
e a fome era negra e a guerra com o seu cortejo de calamidades mesmo
longe estendia até ali as suas garras em senhas de racionamento
para tudo o que havia e era muito pouco... e só se conseguia
à custa de longas bichas de espera e nós que éramos
muitos lá nos íamos revesando para não passar
tanto frio e suportar as dores nas pernas... ele era bichas para
o pão e para tudo o que fosse de comer que o vestir e a roupa
ia-se resolvendo com o deitado e o ditado que dizia que deus dava
o frio conforme a roupa mas sempre era preciso uma roupa mais lavada
e apresentável para a missa dos domingos e dias santos...
também quando a fome apertava era melhor ir mais cedo para
a cama que se poupava no lume e na luz e um bom sono é meia
mantença e com o sono se enganava a fome... o pior era se
vinham as doenças!... e sempre era uma verdade mais aceitável
que quem não comia por ter comido não tem doença
de perigo... e todo o cuidado era pouco.
pois
aí nessa lareira, como na outra a primeira, ainda o velho
jovem contaouvidor de histórias contava e ouvia histórias
que saíam misturadas com o fumo e povoadas de sombras das
correntes e dos objectos pendurados nas paredes iluminadas com as
cores e as formas das labaredas caprichosas e fantásticas
ou, a maioria das vezes já só à luz do borralho
que ia ficando cinza dominando então as sombras irrequietas
e fantasmagóricas criadas pela luz mortiça e bruxoleante
das candeias que toda se abanava à menor aragem... quem contava
mais? além da avó e dos da casa, todos nos íamos
deixando por ali ficar a dar uma ajuda para ouvir as mulheres de
fora que lá iam por conta e tinham sempre histórias
de bruxas, lobishomens e encontros com o diabo ou com ladrões
ou com lobos que aconteciam por aqueles caminhos escalavrados da
serra... creio que ainda me lembro da tiarosa pelada e de tázuefa
pica enquanto migavam as carnes e as apimentavam em grandes alguidares
de barro para toda a qualidade de enchidos... e depois enquanto
iam enchendo as tripas com aqueles funis de cano curto boca da largura
das tripas e se iam transformando em chouriços, chouriças,
paios que era de ficar com a boca aguada tanta carninha ali a ser
guardada e outros com tão pouco!, e em morcelas e farnheiras
e farnhotes que depois eram pendurados e ali ficavam como sinal
de abastança discreta como reserva para quando faltasse outro
mantimento ou para mandar de presente àqueles que gostavam
mas já não tinham casa nem vida para isso de matanças
que era muita maçada e muita lida e muito lixo... ou para
pagar um trabalho ou um favor... ou até dar quando se não
contava como aquela que aconteceu à minha avó... iam-se
chegando as horas de fazer o almoço que a minha mãe
tinha saído e ia-se demorar um migalho e aquela vizinha que
até era muito simples e simpática a senhora e era
viúva e não tinha muito que fazer a ali aparecia umas
vezes para dar uma mão mas daquela vez só para dar
duas de conversa e lembrar os nossos que nosso senhor levou na sua
infinita sabedoria e ele lá sabe mas que muita falta nos
fazem cá mais valia ter ido com eles e os filhos por lá
já a tratar das vidas, mas que sem a ajuda do homem muito
trabalho e muita canseira teve de sair deste corpinho... e pronto...
logo conversamos doutra vez... olhe que devem ser horas de ir pelo
almoço... oh! para uma pessoa sozinha e quais sem nada ele
qualquer coisa arremedeia... e a mulher nunca mais se ia embora.
precisava de conversar a mulher e em vez de ir para a má
língua com as comadres a dizer mal deste e daquele e daquelas
que ainda cavava a sua perdição... bom a minha avó
lá teve de se decidir e subir aquelas escadas que eram um
inferno para ir lá em cima à lareira do sobrado e
trazer um ou dois enchidos para meter na panela como estava destinado
naquele dia e as panelas já estavam a ferver... enquanto
subia e descia lá iam conversando... ou espere aí
que aqui em cima não a ouço que o ouvido já
não é como dantes! os anos não perdoam... e
quando vinha a descer... Aí minha santa senhora os favores
que eu já devo esta casa... e não queria que se estivesse
a incomodar... eu até cá vim sem interesse nenhum
que embora não tenha não ando aí a pedir esmola...
mas que seja tudo pelas alminhas de quem lá têm...
da próxima vez eu hei-de trazer um coelhinho branco de olhos
vermelhos que lá tenho para o seu netinho e até umas
couves e uns agriões que o mê genro arrebanhou lá
na ribeira... que seja tudo por amor de deus e pelas alminhas...
com esta me vou mas não era preciso estar-se a incomodar.
muito bem-haja e com esta me vou...
a senhora saíu. a minha avó sentou-se cansada da conversa
e de ter subido e descido aquelas escadas que era o meu calvário
como ela dizia que em vez de me levarem para o céu ainda
me levam para o inferno e, meio a rir, meio a sério, vira-se
para os meus seis ou sete anos... olha, não me sinto com
forças de tornar a subir aquelas escadas. leva essa faca
com muito cuidado, sobes a um banquinho e traz aquela e aquela pendura
e se não souberes qual é pergunta lá de cima
que eu te explico. a tua mãe está por aí a
chegar e aquelas morcelas eram para o nosso almoço e como
viste tive de as dar àquela santa que veio aqui para me ajudar
a ganhar o céu! claro que eu não tinha percebido nada,
nem sei como me desempenhei daquela tremenda responsabilidade com
os gritos e ordens e os toma cuidado da minha avó mais vale
esperar que a tua mãe chegue que deve estar mesmo aí
a vir... e só depois de muitos anos quando a minha mãe
contou esta anedota é que eu me fartei de rir daquela da
oferta dos enchidos...
mas
as noites das histórias eram sobretudo aquelas noites de
borralho manso para que o calor morno e o fumo acabassem de curar
os enchidos e os presuntos e as castanhas fossem secando secando
lentamente... dava para de vez em quando pilhar uma ou outra a ver
se estavam boas... pilá-la e ficar ali remoendo remoendo...
depois de bem secas davam para guardar para serões e serões
até que já fartavam e então quando o pessoal
andava assim com cara de enfezado e era preciso um alimento de sustância
a minha mãe, de vez em quando, muito de vez em quando, lá
se decidia ir ao saco das castanhas piladas e saía aquele
abominável caldudo recurso mágico que os charopes
e remédios eram caros e quem gasta o que tem não deve
a quem... e uma pratada daquele precioso elixir dava para matar
a fome durante o dia todo e para sentir no estômago durante
a semana inteira e até mais enquanto durasse na pituitária
e na barriga a recordação de tão pestilenta
beberagem cujos efeitos se difundiam em misteriosos perfumes por
toda a casa... foste tu... foste tu... bem podias ter mais respeito
e ir fazer essas coisas lá para o quintal ou para longe dos
outros... mas era difícil porque aquilo não era doença
e todos tinham tomado o mesmo remédio que era para prevenir
as doenças que um corpinho bem alimentado está mais
livre de outros males... era tal e qual como o das apetitosas sempre
detestadas feijoadas domingueiras que era para se livrarem de trabalhos
pesados as donas de casa pois guardar domingos e dias santificados
também devia ser na medida do possível para as donas
de casa que tinham de trabalhar para dar de comer à família
inteira e então como a feijoada era mandada para o forno
no sábado à tardinha para cozerem durante a noite
toda e só se iam buscar domingo de manhã sempre era
uma maneira de não passarem todo o dia na cozinha porque
aos domingos estavam todos em casa e sempre vinha uma ou mais visitas...
mas aih! quando os efeitos se começavam a produzir e aqueles
perfumes se volatilizavam como incenso e logo em dia tremendamente
delicado por ser dia de obrigações tanto religiosas
como sociais... como até de ir ao cinema ao menos uma vez
por ano como quando o rei faz anos e a modos como a desobriga em
que os cristãos se têm de confessar e comungar... e
até depois das missas se tinha que ir aprender as difíceis
e inefáveis doutrinas sobre a santíssima trindade
em que um era igual a três ao contrário do que se aprendia
na escola e os outros mistérios da santa religião
como a doutrina do deus omnipotente que podia com tudo até
com uma pedra muito grande com que não se pode e omniciente
que já sabia tudo e assim estava dispensado da grande maçada
de ir à escola... enfim, imensas coisas que ajudavam a desenvolver
à maravilha as nossas capacidades para perceber as contradições
e os azares da vida que por fatalidade e embora esse nosso senhor
fosse o pai de todos nós íamos vendo que por fatalidade
ou destino a maior parte das vezes os males maiores lá calhavam
sempre aos mais pobres que não conseguiam nunca sair da cepa
torta mesmo quando faziam por isso...
o
inverno caminhava para o fim. já não apetecia ir tão
cedo para a cama... então depois do terço e das avé
marias e santa marias por alma de todos e por toda a família
que andava por longe... lá nasciam as histórias...
não havia até a história do ti manel da benvinda?!..
fumava que nem um desalmado o demoncre do homem aquela alma de um
cântaro benzó deus nosso senhor... e vai daí,
quando se meteram a fazer a casa lá se convenceu a deixar
de fumar!... sempre dava para mais uns materiais que o mais do trabalho
era dele depois da lida a tratar das terras dele e dos outros onde
ia dar dias por troca para o ajudarem a ele nas terras e ali na
casa ou para arranjar algum a doze ou a quinze mil réis por
dia... quando, depois da guerra, a jorna passou para vinte mil réis!
oh! diabo! aquilo ia sendo uma revolução. isto nem
dá para a onça do tabaco e para as mortalhas, diziam
os da enxada, quanto mais para comer mai-la família... isto
assim com o preço das sementes mai-lo trabalho e a rega,
ficam as batatas num dinheirão que nem paga a pena! mais
vale comprá-las no mercado se as houvesse!, diziam os que
traziam jornaleiros por conta... e foi assim que o Menel da Benvinda
passou o tempo todo das obras sem fumar a não ser uma que
outra pirisca ou uma beata encontrada na rua e fumada muito às
escondidas só para matar a sapeira que isto um homem não
é de pau e não pode contrariar a natureza!, que não
havia de ser por causa do vício que a casa não se
houvera de fazer pois concerteza! e passado uns tempo, aquilo as
obras já estavam mesmo prontas até da arte de carpintaria
e já só faltava os últimos retoques que sempre
faltam, quando, foram todos uns dias para a serra a malhar e acarear
o centeio, aconteceu mesmo no dia em que vinham já com os
sacos aviados... encontraram a vila toda com baldes e cântaros
a acudir ao fogo... e como no havia lá ninguém foi
o cabo dos trabalhos para deitar as portas abaixo e poder acudir!...
só ficaram as paredes. ...ê nu dzjia cu dinheirinho
do tabuaco era pr'arder! dizia o ti Manel da Benvinda inconsolável
a quem no queria ouvir. ...tantos anos de sofrimento e de martírios
a ver os outros fumar e ê ali a poupuá-lo cum o vuício
cá puor duentro a remuoer a remuer que nem um danado p'ró
ver arder assim tuodo numa nuoite a defazuer-se em fumo! antes o
tivera fumuado!... mas era assim a vida dos pobres. o que tem de
ser tem muita força e o que nasce torto, tarde ou nunca se
endireita. nosso senhor lá sabe. é o destino. há
os que nascem logo para ser ricos e os outros para pobres. no há
nada a fazer!
e
assim continuava a vida sem nada de novo nem de diferente com as
estações atrás das estações.
sempre tudo na mesma, tão diferente.
só quando na rua soava o pregão:
quem tem castanhas piladas p'ra vender...
peles de coelho... peles de cabra...
ou cornicão ou cornacho... lenticão!
ferro velho p'ra vendeeeeer?! ...
ou
soava só um som quase ininteligível:
cooooompra farrapos ferro velho peeeeeles...
ou
então já de um modo mais refinado a acompanhar a evolução
dos plásticos e espelhos e dos jogos miniaturas de paciência
chinesa e esperteza desastrosa para os cobres escondidos na cantareira
onde a miudagem sabia que estavam... quando soava o pregão
provocante:
comprem meninas coooomprem...
pentes para pentear os cabelos daaaaa...
comprem meninas comprem...
logo
ali se juntava um poviléu imenso e a canalha que andava na
retouça parava a comentar e a dar traduções
obcenas para desvendar as insinuantes reticências do pregoeiro
que muito sério e compenetrado abria o saco das suas maravilhas...
era um acontecimento novo a que todos acorriam com um misto de desconfiança
e esperança mas que, até pela provocação
inatacável mesmo pelo senhor vigário que se defendia:
não são contas do meu rosário ou pelas outras
autoridades que não encontravam nada de mal nas palavras
apregoadas..., mexia com as pessoas todas daquele terra. era como
a fenda da muralha que os mercadores abriam na montanha naquela
terra isolada rodeada de altos montes por todos os lados que a fechavam
até ao céu... a não ser aquela saída
por onde corria o rio e aquela, aquela além do lado oposto
de onde nascia o rio, ao lado do cântaro magro e assinalava
a rua dos mercadores!!! era a esperança de uns tostões
extra! era o gozo secreto de ficarem aliviados de uns trastes que
já não tinham préstimo para nada e estavam
ali a ocupar espaço na loja ou no sobrado... era a ocasião
de venderem umas tantas sacas de castanhas piladas e trocarem umas
pratadas de caldudo por uns lombinhos enfartados num barranhão
de batatas fritas e comida de rico ao menos uma vez na vida... e
até por aqueles bocados de pau negro que apareciam na escolha
do centeio, o cornacho, aqueles farrapeiros davam dinheiro!... para
o que seria? a gente até os deitava fora! diziam que era
para coisas secretas lá das armas dos militares... bom!?,
desde que desse dinheiro! ao diabo o que eles faziam com aquilo.
era
então aí nessa lareira que durante noites e noites
a fio, entre terços e ladaínha sem fim..., e agora
depois das intermináveis avé-marias santa-marias mais
um padre nosso pelas benditas almas do purgatório para que
mais depressa se libertem daquelas terríveis chamas infernais
que as purificam de todas as imperfeições e para que
se libertem daquelas terríveis cadeias mais negras que estas
aqui das caldeiras sobe e desce e as não deixam gozar da
eterna glória na corte celestial à direita de deus
pai todo poderoso que está em toda a parte, amén.
...era aí nessa lareira que a tua avó, a tua mãe
vos contava... avé maria cheia de graça... entre orações
e sermões... no estejas p'raí sempre a mexer com as
tenazas mafarrico que esborralhas o lume todo... santa maria mãe
de deus... ora pró nós... hoje que já cumprimos
os nossos deveres e já encomendámos a alma de todos
o que lá temos e todas as alminhas das nossas obrigações...
hoje podíamos contar uma história... qual há-de
ser hoije! qual! quem sabe uma história nova? hoje podia
ser a do pastor da serra da estrela. aquela...
stá
bem, hoje podemos contar essa outra vez, mas no fim eu gosto mais
daquela parte no fim como nos contou o catrâmbias, muito em
segredo, ali à porta da rua no canto da quelha, a uma roda
de garotos que tinham interrompido as brincadeiras e o retouço
para ali estarem muito juntinhos e calados... mas estavam sempre
a mexer e ás bicadas uns aos outros como na escola e como
havia sempre muita gente a passar e a dar a salvação
e a dar piadas ao catrâmbias que nunca os deixava sem resposta,
e como ele contava assim a modos com palavras que no se entendiam
muito bem... isto de histórias e lendas não são
coisas para se andarem a abocanhar ali na rua porque aquilo tem
muitas coisas que são segredos e mistérios... coisas
que no se entendem muito bem... mas no fim, quando acaba, a mãe
no na conta assim como a ele...
quem
conta um conto acrescenta-lhe um ponto. cada doido com a sua mania.
e de poeta e de louco todos temos um pouco... e assim cada um dá-lhe
as voltas que quer conforme o sítio e a ocasião e
aqueles que estão a ouvir e esse tal do catrâmbias
é fresco que nem uma alface e dizem que é doido e
ficou gazeado da guerra mas ele é esperto que nem um alho
e ele é que a leva direita... esse deve-as contar das boas
a julgar pelas que vai deitando da boca pra fora quando se pranta
ali no fim da tarde no poial da nossa casa a dar conta de quem passa
e a mater-se com toda a gente... e ali ainda se vai contendo que
sabe que aqui mora gente de respeito... mas olha as que ele vomita
quando já vem tocado com uns copitos e desata numa ladaínha
enquanto vem descendo além as escaleiras de S.Pedro agarrando-se
às paredes e correndo de atravessado... homem dum raio que
nem à igreja e aos santos tem respeito... e quando isso acontecer
que nem o senhor prior nem a guarda o mete na ordem, não
se ponham ali atrás da varanda a ouvir e a rir que nem uns
malcriados... fechem as portas das janelas e da varanda para não
ouvirem as asneiras que ele vai vomitando por aquelas escaleiras
abaixo e rezem umas jaculatórias para desagravo das asneiras
que ele diz... bem mas da história, atão como é
que ele conta? vamos lá ouvir essa do catrâmbias. as
istórias são istórias e mais ponto menos ponto
são todas iguais e têm de de ser mais ou menos para
serem as mesmas se não não são as mesmas...
a
mãe, depois de contar que o pastor ainda muito novo vem de
lá de muito longe e depois de passar muitos trabalhos quando
chega perto todos o chamam louco mas ele atreve-se a passar sozinho
a porta dos hermínios e conquista sozinho a serra... e depois
quando ele já é sozinho o dono daquela serra toda,
aparece um rei daquelas redondezas que ouviu falar do pastor que
vivia sozinho lá no alto da serra e falava todas as noites
com uma estrela que aparecia no céu por cima da serra que
era dele e assim aquele pastor podia ser um rei ainda mais poderoso
que o outro rei daquelas redondezas e... esse rei mandou então
uns emissários para que o levassem à sua presença...
e quando eles o levam e o rei lhe diz: ouve lá, ó
pobre velho pastor, conta-me lá essas coisas da tua serra
e da tua estrela com que dizem tu podes falar... conta-me esses
segredos e eu te darei tantas riquezas e até metade do meu
reino que ficarás o homem mais rico e poderoso como não
há nenhum além de mim... e isto já era contado
por mim e pela minha irmã em cima do mocho enegrecido pela
lareira e já em equilíbrio instável por causa
das travessas que já a despregar-se ameaçavam a cada
momento precipitar-nos naquelas chamas ardentes da lareira que por
sorte não eram da mesma natureza que as chamas do inferno
porque as do inferno não se consumiam nem precisavam de lenha
como dizia o catecismo o que não deixava de nos causar uma
certa inveja apesar do medo porque escusávamos de andar a
acarretar e a rachar lenha e andar com ela aos braçados por
aquelas escadas a cima que eram um inferno para as pernas já
muito pesadas da minha avó... mas aquela fala do rei e do
pastor, ali em cima do mocho, com as nossas cabeças já
no meio das chouriças e das morcelas quase a bater no caniço
e em equilíbrio instável ainda mais tétrico
e instável devido às sombras provocadas pela luz dançarina
da candeia e pelas chamas que ainda crepitavam não deixava
de dar uns ares de circunstância como se fosse um palco de
verdade nem que fosse um teatro de categoria ou um filme em que
fazem aquelas coisas tão a sério que parecem mesmo
verdade e põem as pessoas aos gritos e com o medo... ouve
lá, ó pobre homem, dizia o rei, dar-te-ei tudo o que
me pedires, em troca do segredo da tua estrela com quem podes falar...
e aí o pastor não respondia... e aí, eu que
estava empinado no mocho, atirava-me para o chão, de joelho
em terra, como aquelas figuras do livro de história que punham
os nobres de joelho em terra diante do seu rei... e com os olhos
e os braços revirados estendidos para os enchidos como nos
santinhos que mostram os pastores do presépio a olharem estarrecidos
e assombrados para os anjinhos que cantavam a glória a deus
nas alturas e paz na terra aos homens a quem ele quer bem... ide,
hoje nasceu para vós um salvador... e eles aí iam
para o presépio onde se tornavam a ajoelhar e ofereciam os
presentes... então, o pastor respondia: é impossível
magestade. a estrela não é minha mas do céu...
e o rei furioso: pois é precisamente por isso... e aqui era
preciso já estar outra vez em cima do mocho balouçante
porque não tínhamos combinado bem quem é que
fazia o quê e ela era mais para fazer de ponto e emendar o
que eu não me lembrava bem... com um manto de rei nos ombros
que podia ser o cobertor que ali estava para depois levar quentinho
para a cama... e com uma coroa na cabeça que podia ser o
tacho de alumínio ou o passador... as tenazes podiam ser
o ceptro ou se fosse um tição ainda meio aceso dava
muito mais ares e fazia mais impressão... pois é por
isso mesmo, dizia furioso o rei, mas eu sei que essa estrela te
faz tudo aquilo que ordenas e se tu quiseres ela será minha
que já não precisas dela para nada que és sozinho
e tens a serra toda e eu, olha pra mim, tenho de governar estes
reinos todos e fazer o melhor para todos os meus súbditos
que esperam de mim a justiça e a sabedoria e a paz que às
vezes não lhe posso dar... e o pastor respondia, e aí
o personagem já devia estar no chão de joelho em terra
que era o degrau de tijolos enfarruscados da lareira... prefiro
continuar pobre e ignorado do que receber tudo em troca da minha
estrela que me fala mas no fala com os que têm o coração
cheio de riquezas deste mundo... ora i aqui é que o catrâmbias
no na contava assim...
mas
quem é que vos dá autorização para i
andar a ouvir as histórias do catrâmbias que no tem
tino nenhum como já vos disse e no vai à igreja parece
que nem para a desobriga e diz mal dos ricos de deus da igreja e
dos santos todos que ele no tem juízo nenhum e é fraco
da cabeça à conta dos copos que bebe e depois dizem
que é dos gazes da guerra e ó mais ali na venda da
ti marizué dos trigos já nem lá vai que ninguém
lho dá fiado e vejam bem a filha a teresinha das ondas que
é uma estampa de mulher nem parece filha de tal home e já
lho pediu pelas alminhas que nem fiado nem pago que não lhe
servisse nem sequer um copo que ele já tem a sua conta e
com o que já bebeu e os gases da guerra, coitado, até
a i água já lhe sobe á cabeça!...
ah!
mas a maneira como ele conta é tão diferente, mnha
mãe!
atão
conta lá, como ele na conta mê filho!
eu
na na sei contar bem como ele na conta que aquilo no se percebe
muito bem porque ele na conta assim a modos que em segredo e com
as palavras todas enroladas, mas quando o pastor no fim de muitos
muitos anos chegou ao cimo da serra já muito velho, contra
tudo e contra todos, viveu ali ainda muito tempo sempre jovem e
forte até conhecer todos os segredos da serra que eram os
da estrela... mas isto ninguém sabia porque desde que o viram
passar a porta dos hermínios toda a gente abanou a cabeça
e o deu como perdido e morto para sempre e nunca mais ninguém
teve notícias dele... até que se começou a
ouvir falar de coisas que para uns eram lendas e para outros eram
verdade e a verdade ninguém a sabia porque ninguém
se atrevia a ir àqueles montes ermos e selvagens inacessíveis...
e então quando o rei do mundo o mandou chamar a ele que tantos
anos levara para conquistar e conhecer a serra... ele não
foi... como é que os emissários se atreviam a entrar
por meio daquela serra à procura dele? qual o quê?
que caminhos e coragem tinham eles? mas se ele lá vive e
conseguiu, ou mo trazem à minha presença ou pagarão
com a vida... ameaçava o rei os seus emissários que
já diziam mal da sua vida. mas um dia uns pastores dali perto
disseram que o pastor algumas vezes cinha até cá mais
abaixo no tempo dos grandes nevões e gelos e um dia, por
sorte, chegaram á fala com o pastor... e foram eles os emissários
que lhe deram o recado do rei e lhe ofereciam mil riquezas em nome
do rei... ou mil presentes para ir com eles para falar com o rei
que era o rei do mundo e lhe daria o que ele quisesse em troca do
segredo da estrela... e ele, o pastor, olhando os emissários
do rei e olhando em volta as gargantas as ravinas os medonhos desfiladeiros
os penedos os altos as fragas e os fragões as rochas as fontes
e as lagoas os rios e os vales lá do cimo do lugar onde se
encontrarm que ningúem sabe onde foi mas podia ser a varanda
dos carqueijais ou o mirante de alfátema ou a varanda dos
pastores mas donde se via tudo muito longe e o pastor, olhando lá
do cimo da serra aquilo tudo e até o reino daquele rei que
lhe diziam que era o rei do mundo!... e olhando outra vez para os
criados daquele rei... levantado ali em cima de um penedo grande
como a serra... abanou lentamente a cabeça... nenhuma riqueza
o vosso rei me pode dar em troca da minha estrela que levei anos
e anos a conquistar... toda a vida... até que ela me conquistou
e eu é que tenho todo o mundo a meus pés porque todo
o mundo está abaixo das estrelas e ela é que é
a rainha... e eles, os emissários, tinham de se ir embora
cheios de pressa e de medo, cheios de medo do rei deles e do pastor
que ali em cima dum penedo, sozinho, lhes metia mais medo que um
exército... e quando ele estendeu o braço para que
se fossem embora, eles lá iam recuando e vociferando ameaças
e pragas... que viria o exército... que viriam milhares de
soldados e ele teria de se render... mas quando o pastor olhava
para o alto, para aqueles penhascos e ravinas e desfiladeiros que
podiam engolir exércitos inteiros, eles lá iam recuando
até que as ameaça se deixavam de ouvir... era mais
ou menos assim que a história se contava minha mãe
que a gente não conseguia ouvir muito bem como ele, o catrâmbias
a contava, e olhe que ele é um homem da serra, senhora mãe,
que conhece as veredas e os barrancos da serra mesmo naqueles sítios
onde já não há veredas nem sinais... pois é.
afinal as histórias são muito diferentes mnha mãe.
já não me lembro bem como é que a avó
a contava mas o certo é que as coisas mudam! e aqui era A
MUDANÇA DAS HISTÓRIAS... contadas pelo velho contador...
o velho jovem figura de mulher que era um contaouvidor de istórias...
e como ele nunca tinha havido nem tornará a haver...
Daqui,
AGORA, pode se quiser voltar então às LENDAS DA MINHA
STerra passando pelo Ceifeiro e as Mil e uma Noites
ou
para as LENDAS DO PASTOR DA SERRA DA ESTRELA

ou
para as LENDAS DA MOURA ALFÁTIMA
A
DE
MANTEIGAS
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