Serra da Estrela - Manteigas

in joraga.net aminhaTEIAinterminávelnaREDEilimitada

um ANDARILHO em viagem pelas
7 partidas... 7 jornadas... 7 mundos... 7 mares... 7 temas... 7 espaços... 7 tempos...

por JORAGA o acrónimo de JOsé RAbaça GAspar e outros mais de 1001 deNÓMIOS...

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AS FALAS DO VELHO ContaOuvidor de ISTÓRIAS...


O VELHO JOVEM CONTAOUVIDOR DE HISTÓRIAS era um jovem muito velho andarilho das sete partidas viajante caminhante que se tinha farto de correr mundo e o muito que tinha ouvido ou visto, ouvisto como ele dizia, e onde‚ que eu já ouvi ou já vi isto? ia jurar que tinha dito o mesmo já no capítulo anterior..., sentia-se no direito de contar as histórias dele e dos outros como se fossem dele e às tantas, acontecia que já não era ele a contar porque as pessoas que o ouviam não ouviam o jovem-velho contar nada porque eram eles jovens e velhos que se punham a contar ouvindo ou vindo-viajando as histórias deles que não eram deles, eram doutros, e assim não se sabia quem contava ou quem ouvia porque cada um contava as histórias dos outros como se fossem deles e as histórias deles como se fossem dos outros de tal maneira que nunca se sabia quem contava e quem ouvia daí ter de se inventar uma palavra nova - CONTAOUVIDOR - que ninguém conhecia mas toda a gente sabia que era para explicar aquilo que acontece a toda a gente que quando está a ouvir e não está a ouvir nada mas está a contar a sua própria história e quando está a contar não está a contar nada mas está a ouvir aquilo que aconteceu aos outros. ...

e era assim. o velho jovem menino mulher pessoa já madura emigrante de férias em regresso condicionado se... lá estava em ameno baloiçar na varanda alevantada aberta sobre o vale conversando de ouvir os velhos sábios magos da montanha desde há milhares de anos esculpidos nos contornos dos cimos que rodeiam aquela terra na serra contando as suas histórias de encantar...

então o sonho imaginado que era a realidade que eu vivia vestiu-se de nuvens e o velho jovem contaouvidor de histórias começou a falar a falar calado sem mexer os lábios, sem nexo, misturando tudo, os tempos e os espaços e as histórias e as personagens, confundindo as palavras que não dizia porque só as imaginava com as letras escritas que ficavam a cintilar como as estrelas que como é evidente ali estão à disposição de serem lidas por todos mas que poucos lêem porque não sabem ou porque não querem ou nem sequer têm tempo de erguer o olhar para as estrelas ou porque a luz da civilização é demasiado forte para permitir que se vejam as estrelas ou pelo simples facto de não se poderem ver porque o céu está coberto de nuvens exactamente naquela noite em que tinham tempo e disposição para as olhar... ou então havia ainda outro fenómeno estranho quando o velho-jovem-figura-de-mulher contaouvidor de istórias começava a falar sem falar e sem ser ouvido: as palavras expiradas ao ritmo da respiração já um tanto arfante não se ouviam mas ficavam desenhadas como balões de um código mágico no ar frio que transformava em vapor o ar quente expirado pelo contador e ficávamos a assistir como se estivéssemos num cinema mudo... tal e qual como nos acontece na Serra quando vemos ao longe dois personagens a conversar... um pastor a dar e um caçador a pedir infrmações... o pastor a agradecer o inesperado cigarro oferecido já todo enrolado e com uma ponta para entalar nos beiços... e o caçador a agradecer as informações por ode terim passado as perdizes e as lebres... "olhe qu'ainda o ano passado por'í andavam"...

...se aqui a gente sabe ler? aH! ah! ah! ria-se o velho. sabe sim senhor. sobretudo os mais velhos que não sabem ler essas coisas da escola e dos padres e dos doutores esses sabem ler nas nuvens e na cor do céu e na forma e movimento das estrelas o rumo do tempo e dos tempos... mas são coisas muito complicadas e simples em que ninguém agora acredita porque dizem que já vem tudo nos livros e toda a gente já mandou estudar os filhos por mor disso e os jornais e o rádio já dizem as coisas todas que as pessoas querem saber e não lhes interessa para nada aquilo que nós sabemos e lemos nas cores e nas formas do céu...

atão o menino zé nuo suabe? nu uouviu faluar? um dos puoucos que acredituou nuessas cuousas foi o ruei o sunhuor duom Cuarlos e a rainha senhuora duona Amélia que nuos primueiros anos do século estava este século a amanhecer vieram aqui para ver o aurora boreal aquela luz fortíssima vermelha e cor de rosa de muitas cores que ali esteve dias e dias e ele e a rainha vieram até cá e eu e muitos como a sua avó e o seu avô pudémos ver os reis ainda uma vez na vida e vieram cá para ver o que anunciava aquela luz especial que só acontece uma vez em cada cem anos e o rei dizem que era um homem com estudos e muito sabedor destas coisas e cá vieram para ver mais de perto aquela luz e o que podia anunciar e veja o que lhes aconteceu... mataram-nos a ele e ao filho para ficarem a mandar aí os da república e andarmos por aí mandados pior de que se fosse o rei a mandar que isto nunca se sabe mas é o que parece... se os que nasceram para mandar no dão avego, os outros que vão aprender à nossa custa vão-nos fazer penar muito até acertarem... é o que eu lhe digo e eu não sei nada disso que é a política... a política para mim é mourejar aí por esses carreiros da serra com a ajuda das alimárias que têm de ser muito bem tratados para aguentarem tanta lida e tão pesada...

mas enquanto o velho jovem contava as suas histórias que eu já não ouvia, ouvia subitamente outra história que não percebia quem a contava ou para quem.

olha, zé da serra! olha-me bem o que digo zé da serra do vale do zêzere que eu não tenho tempo para estar aqui a falar para o ar e não vou repetir aquilo que te digo!... isto, descobri depois mas nunca tive a certeza porque não tinha nada a ver comigo! isto era a maga da estrela a falar com o velho menino jovem com cara de mulher sedutora que estava sentado na cadeira de baloiço que não estava lá na varanda mas estava lá no espaço do tempo muito alto e muito longe dali a falar com os magos da montanha... olha-me bem, ó zé ninguém, olha bem para mim que eu vou contar-te a minha história, a HISTÓRIA VERDADEIRA DA SERRA DA ESTRELA!

já tantos contaram a história e a lenda que tu te pões para aí a rir porque todos pensam que aquilo que contaram é a minha história e a lenda do meu nome que se escreve com as letras da estrela e antes até lhe chamavam hermínios ou montes ermos porque pensavam que isto aqui era tudo uma ermidade, uma solidão onde não havia nada nem ninguém e depois de lhe chamarem da estrela, e não é que acertaram porque ela é mesmo minha, ficaram tão vaidosos de o terem inventado e de terem inventado as lendas e as histórias e até as descobertas científicas que nunca se lembraram de me vir perguntar se era verdade e se por acaso eu sabia a minha história verdadeira!? ... São assim as pessoas quando sabem tudo. Até arranjaram para aí uns guardas da verdade da serra para a guardarem e não a deixarem estragar! deixa-os...

a ti, hoje, eu decedi contar-ta.

como te vi aí sisudo pensativo meditabundo calado de olhar atento perscrutando a serra da varanda da tua terra aberta sobre o vale glaciar do zêzere rodeado de verdes azereiros daqueles que dão umas drupas muito amargas acres aceradas como o fel mas que dão umas flores muito bonitas na primavera e como te vi aí há longos anos sentado à procura das minas de oiro que eu criei como anunciou o mestre Gil Vicente não que ele o tivesse encontrado para fazer as suas obras de arte como a custódia de Belém que dizem que foi ele mas parece que foi um mestre Gil que também era Vicente mas porque já o propagandeava Estrabão que só nasceu quase um século depois de Viriato mas como bom geógrafo e historiador já dizia que estas terras da serra eram ricas em oiro e prata e outros metais como em frutos e gados animais que dão leite e outros produtos, até há aquela que chamam manteigas por assim guardarem o melhor dos vários leites! ...acendendo mais a cobiça dos romanos que aqui se instalaram uns anos do nascimento de Cristo depois de tanta luta e tanta guerra e tanta morte e de terem sido enxovalhados e envergonhados pelo Viriato que de pastor se fez chefe de pastores e tendo escapado à chacina da Galba que até o senado romano condenou como vergonhosa e indigna da civilização romana se tornou chefe dos heróis ou das ordas lusitanas e destroçava legiões com artes e estratégias dignas de um génio militar... parece que se impunha igualmente aos outros lusitanos e povos da Ibéria que não gostavam muito dele e o trairam e mataram e preferiram a paz e o progresso dos invasores até lhe assimilarem a língua e o modo de pensar... herói hermíneo intratável áspero rude selvagem que queria defender o direito à diferença e à liberdade de cada povo ser o que é?... ou bandido autoritário que só queria ser caudilho e impor a sua vontade a sua lei e os seus interesses?... é bom que as pessoas o vejam como herói. as pessoas precisam de heróis e vão-nos inventando quando e onde precisam deles. como os deuses. como a minha lenda!...

pois eu como te vi aí mudo e talamurdo, nessa varanda aberta sobre o vale, olhando observando divagando tentando adivinhar os mistérios da serra gritando calado o nome destes montes destes moios destes colossos destes povos destas gentes que tu tão bem tão pouco conheces também misturando tudo e trocando tudo misturando nomes antigos com os novos e chamando as pessoas pelos nomes que têm e pelos outros que lhe deram, bem, apesar disso tudo, olhei bem para ti e decidi-me contar-te. ...

contar-te só a ti que é segredo.

ai de ti se a divulgares! livra-te de a contar aos donos do poder e do saber. eles já podem tudo! já sabem tudo! se ficam a saber esta história vão conhecer os segredos desta serra desta terra e destas gentes e assim ficaria maior o seu poder e o seu saber! se fosse o saber saber dos sábios? não havia perigo! também os outros? não há grande perigo porque os que pensam que sabem tudo não vão entender patavina destas coisas que te vou contar. os sabelivros vão-te ridicularizar... olha o parvo! esta não vem nos livros, portanto não pode ser verdade. diga lá senhor autor deste livro onde é que vem isso nos livros. se já vem nos livros escusava de o ter escrito, se não vem não pode ser verdade e por isso escusava de ter perdido tempo a escrevê-lo. parvoíces! ora esta, que não vem nos livros, digo-to eu, não pode ser verdadeira. é verdade. bem, com os sabelivros estás feito. os poderricos vão tentar destruir-te. os ricardos não podem suportar que os outros tenham tanto como eles, como os mandapoder não podem suportar que haja outros que mandem como eles. que mandem executar o que eles mandam? está bem. mandar outra coisa? não. então onde é que íamos parar? era a anarquia! era a bagunça completa! porque é que te vão odiar? por ensinares aos pobres os segredos das cavernas e os mistérios da serra que só eles pensavam conhecer e guardavam muito bem guardados... às vezes deixavam escapar assim umas pistas e umas dicas para as pessoas se entreterem e arranjarem umas guerras uns com os outros e eles poderem mandar mais tranquilos. mas o certo é que, felizmente para ti e para mim, nem uns nem outros são de temer. a uns e aos outros e a todos eu hei-de engolir e depois, os que sabem ler, talvez não saibam ler ou nem acreditem naquilo que lêem ou se calhar nem se vão dar ao trabalho de ler. então não querias mais nada senão arranjar uns dinheiritos com a venda do livro e ficares aí rico como eles! e depois acontece também que a verdade como a luz do sol é demasiado brilhante e assim as pessoas não olham para o sol, cuidado que até pode cegar! e usam-se para evitar isso uns óculos escuros para proteger a vista e até há quem arrange assim uns panos ou umas peneiras como os guarda-sóis ou os guardas-chuvas para a luz e o sol não fazerem mal aos olhos das pessoas e com a verdade passa-se a mesma coisa. dá-se só aos bocadinhos quando se tem que é para não fazer mal à vista!...

bem, não percas tempo com eles que já estamos a perder muito tempo. mas atenção, só mais uma coisa. homem prevenido vale por dois e mais vale estar prevenido do que remediar! olha que os podenovos são mais ou menos como os podevelhos ou para lá caminham. mesmo os podeeleitos pelo povo duma coisa que chamaram democracia que é poder do povo e depois o povo como é povo dá o poder aos poderepresentantes que depois de estarem no poder e poderem, de repente, passam a saber tudo, a ter a experiência de saber o que o povo sabe e o que o povo pode e depois passam eles a dizer ao povo o que pode saber e pode poder e daí a trocarem a primeira letra do poder com um efe é um saltinho que nem chega a ser de gafanhoto!

esta história, zé da serra do vale do zêzere ou lá como te chamas ou te chamam, compenetra-te bem do que eu te digo e vê lá se penetras bem nos segredos que te confio... conta-a só aos pobres. conta-a aos pastores. às crianças. aos poetas. esses sim vão gostar de ouvir-te. verdade seja que é uma perca de tempo. pobres já não há ou há muito poucos! pastores? estão a acabar! as crianças não sabem ler! poetas? ...! mas a esses também não precisam muito que tu lha contes porque esses sabem-na contada por mim directamente que sou a fonte e falo com eles e enquanto falo os vou fecundando embora muitos não acreditem muito nos frutos que vão nascendo nos seus ventres! pensam que são histórias fabulosas como os sonhos para se evadirem da sua grande miséria e solidão qoe os impede de serem aquilo que podiam porque os valores e as leis e os princípios dos mundos em que vivem são outros muito diferentes e não é muito fácil viver com outros... os verdadeiros.

dou-te mais uma pista. como esta história é de facto um segredo fabuloso, contai-a só assim em segredo uns aos outros de boca em boca de fala em fala, assim à maneira de quem mergulha nas águas sem fundo da lagoa escura! já lá mergulhaste? medricas! naquelas águas perdidas em cavernas de mistério que rasgam o ventre da serra da terra da sterra até ao mar... não pode ser? fugia toda que está muito alta?! isso é o que pensam os que pensam que sabem tudo das leis da natureza como se fossem eles que as fizeram! aqueles que lá mergulham sentem-se perdidos fascinados deslumbrados e depois não têm palavras para contar ao tentarem recordar os segredos comunicados pelas águas as minhas entranhas e pelo fogo a cada fímbria do seu ser...

cuidado com as fantasias! que é o que acontece com as pessoas a quem se revelam coisas inacreditáveis inacessíveis e depois as tentam contar com conceitos e ideias verdades que não têm palavras nem cabeça para as apreender e comunicar!... alguns até já leram muitos livros e ouviram muitas doutrinas e depois tentaram ser bem educados modestos e vão dizer que ouviram de mim aquilo que ouviram doutros doutos e sabidos e até lhes pagam bem e lhes dão confortáveis espaços e papéis e escaparates onde muita gente os pode ouvir e ver e ler e então me(n)tem muita erudição e informação e deformação nessas revelações que lhes são ditas para ver e sentir para cheirar saborear digerir recrear sonhar e recriar e aí estão a comunicá-las como algo que se não pode comunicar porque só usam um ou dois meios de comunicação e esquecem-se que temos pelo menos cinco ou sete para ser mais preciso e que afinal é só um as pessoas é que precisam de os separar e contar... e isto não são coisas só para ouvir com os olhos e ver com o nariz ou saborear com os ouvidos ou cheirar com as mãos ou palpar com a boca ou comunicar com signos símbolos ou enigmas... repara que as vossas palavras de falar de ler e de escrever, mesmo poderosas, são muito pobres para dizerem coisas destas!

até tu já ouviste tantas vezes esta lenda. lembras-te?

a tua avó contava-ta a ti e aos teus irmãos à volta daquela velha lareira, aquela da pedra grande a grande lajem da cozinha do primeiro andar que os construtores perante a teimosia do teu avô que ia lá ficando esmagado por ela elevaram através duma rampa em prodígios de inusitado engenho e com graves riscos e ali ficou, dizem, a segurar a casa toda donde nasceu a lenda temerária de que se um dia fosse partida seria o fim... tudo correu bem e não houve discussões mesmo quando a comida deixou de ser feita no lume do chão da lareira e passou a fazer-se no fogão de lenha que era outra limpeza e tinha forno e assadeira e depósito de água quente e foi um melhoramento e uma limpeza que nos permitia ombrear com as melhores famílias da terra. nos dias de matança, tirava-se a longa chaminé que ia até ao telhdo por dentro da outra e a lareira funcionava com aquela panfernália de caldeiras e correntes e panelas de ferro e durante uns tempos ali se regressava ao princípio com os varais carregados dos chouriços paios sempre poucos e em destaque e as morcelas e as farnheiras e os farnhotes até que já meias secas iam para o sobrado. o pior foi quando a lenha começou a escacear e a ser mais cara e a higiene e a competição exigiam outra limpeza e apareceram os fogões a gás e electricidade. a cozinha não podia continuar assim. a lareira iria para o quintal ou para o sótão. ganhou o sótão. subiu para o sobrado. e então a pedra da lareira? encravada na parede chegava a um terço da grande cozinha? deita-se abaixo! corta-se rente à parede! deixa-se só um pequeno degrau para os cântaros e o resto da cozinha fica em ladrilhos mas ao nível de todo o primeiro andar. pois sim! foi o carmo e a trindade. antes das obras começarem o meu pai e a minha avó deixaram de se falar. não adianta discutir com teimosos... tem lá algum geito nos tempos que se correm até a segunda guerra já tinha acabado acreditar em crendices e reviver os pesadelos daquela contrução com grandes blocos de granito mas aquela pedra escolhida a dedo e transportada com incríveis trabalhos até ali tinham tido o atrevimento de a erguer até ao nível do primeiro andar porque a lereira do rés-do-chão era para o mata-bicho e a janta dos jornaleiros e assalariados... a casa da família tem de ter a sua independência e privacidade!!! ...e a minha mãe aflita a fazer de bombo e para-raios entre os dois... durante o dia a ouvir a avó... porque não metes o teu homem na ordem... mas em casa quem manda é o homem... mas enquanto eu for viva quem manda aqui sou eu que o teu pai já morreu e eu quase o vi morto debaixo daquela maldita que ia sendo a nossa perdição ...os homens são uns casmurros e pronto naquela pedra não se mexe nem que eu me meta lá debaixo se a forem partir... e à noite depois do trabalho... lá ouvia mais... porque estamos noutros tempos... porque mais vale sair desta casa e termos a nossa casa sem estar a aturar isto... mas o dinheiro mal dá para as obras e tu queres que dê para uma casa... e os filhos... e os que já estão a estudar e os que estão para ir... e luta e as intrigas que foram para nós aqui ficarmos que era a irmã mais nova e as outras manas tinham mais direito que os irmãos foram todos para o brasil... aquilo ainda meteu compadres e comadres e o resto dos parentes e até a opinião respeitável das autoridades e do senhor vigário... e por fim lá teve que se resolver. enche-se o resto da cozinha de burgau brita e areão e faz-se um degrau... é preciso cortar a porta. mas agora o soalho velho e os caibros não vão aguentar o peso das pedras e mais o cimento. vamos refazer o soalho e ver em que estado estão os caibros. mais uma despesa extra por causa daquela teimosia... e lá ficou a cozinha cimentada com a porta cortada e um degrau respeitável em relação ao primeiro andar... nos primeiros tempos sucederam-se os tropeções e a louça partida... eu bem dizia que era um disparate! isto as mulheres a mandar!...

casa de granito aparelhado do princípio do século das primeiras que se construiram com tal engenho e arte. iguais ou talvez uma ou outra melhor só as dos industriais que o tinham à custa dos operários! aquela não, era fruto de muita lida e de muito mourejar pelas tapadas uma em cada lado, os lameiros o souto as vinhas... enfim! muita gente por conta e a dar por conta a quem dispensava jornaleiros e carradas e bois e bestas... aquela lareira de pedra grande feita duma lage alevantada até ao primeiro andar foi, durante a vida do meu avõ e depois até à segunda grande guerra até passar para o fogão de lenha serrada a serrote enorme de meia lua com os pinheiros deitados no cavalete cortada a malho e machado e empilhada ao sol e no telheiro, aquela lareira foi durante duas gerações o lar o centro onde o fogo ardia praticamente todo o dia cheia de trempes e panelas de ferro e onde subiam e desciam as caldeiras guindadas pela cadeia de ferro que se travava a diversas alturas com ganchos que muitas vezes ficavam ao rubro por cima do lume trepidante de labaredas mágicas para depois os panelões com água ou com os restos que iam para a vianda ou para as galinhas a aproveitarem a aproveitarem o calor das brasas que se juntavam as tenazes e as pás e até o calor morno do borralho e da cinza quente que se mantinha durante todo o inverno até o enchido ficar curado..., oh! os tormentos daqueles primeiros dias em que o enchido ainda pingava... tu sai-me daí debaixo que um pingo desses na cabeça põe-te careca que nem um santo antónio com o menino ao colo! as mulheres podiam arriscar-se que não havia mulheres carecas e usavam lenços por mor dos lutos e dos cabelos na comida...e ali ficava até o enchido ficar curado e a casa e as pessoas precisarem de calor e as braseiras precisarem de cinza de moínha das castanhas e carvões e os tijolos aquecidos para se levarem para as camas embrulhados em panos ou papéis... e isto tudo visto nas noites geladas e intermináveis do inverno à luz fantasmagórica e fantástica das candeias de azeite e dos condeeiros e lanternas de petróleo... enfim, aquela lareira marcava toda a vida da casa ao ritmo e ao sabor da vida daquele tempo em que tudo nascia da terra e ia para a terra passando pelos animais e por nós!

depois, como já disse, quando a família precisou de uma cozinha ao ritmo dos tempos que evoluiam de acordo com a electricidade que chegou, o gás e a pressa dos tempos modernos, a lareira das correntes que vinham de lá pretas e tisnadas do meio do escuro da grande chaminé com as caldeiras e panelões de ferro ainda mudou para o sobrado já povoado de recordações e tradições que ainda se usavam como as balanças de pratos e as decimais e a romana com seus braços ganchos e pilões de pesar arráteis e arrobas as braseiras que competiram muito tempo com as eléctricas as caldeiras as masseiras as peneiras e cirandas bailarinas que punham tudo a cirandar desde a escolha dos grãos dos cereais até às farinhas mais diversas, o farelo para as viandas, a de centeio para o pão, a mais fina para os bolos e doces nas mãos ágeis e incansáveis das mulheres caiadas de branco que depois continuavam na masseira onde ficava a fintar e a tomar o ponto sobre um pano branco e depois das respectivas rezas até que era outra vez amassada e transformada pouco a pouco em bolas que se rebolavam outra vez em farinha para serem encarreiradas nos tabuleiros cobertos com um pano imaculadamente branco... para ir para a vez para o forno da quelha e vir transformado em pão.

mesmo assim, para ser despromovida com um pontapé pelas escadas acima, aquela lareira que passou do meio da casa para o canto do sótão em chão de tijolo burro e barro foi isolada do resto com uns taipais a prevenir faúlhas e fogo, e teve de obedecer a certas exigências para compensar os hábitos e os quereres da minha avó que afinal era o dona dos teres e haveres e a guardiã das tradições e da maneira de viver da minha terra na serra. quando as coisas assim evoluiram afinal ela era a dona da casa mas dos haveres...?! só quando a grande laje foi coberta é que talvez ela se tenha apercebido que afinal a vida e a economia familiar tinham mudado e o mundo do tempo em que a tinham construído ficava ali sepultado com o cimento e o ladrilho. então, para aliviar o choque desta morte, aquela lareira despromovida para cima foi aprimorada com mais alguns requintes extra. os varões para os enchidos tinham apoios de madeira recortados de forma caprichosa que a habilidade dos carpinteiros engendrou e teve de levar uma grande trave para lá se montaram as cadeias sobe e desce com os ganchos para os caldeirões, sim que a matança do porco sempre tinha sido e foi a base da economia familiar para todo o ano... com os enchidos e presuntos e a banha guardados na salgadeira havia pelo menos sempre qualquer coisa para comer com o pão mesmo que viesse outra guerra e viessem as carências e as carestias...

tinha ainda uma vantagem esta nova lareira que não se podia comparar nunca com a força o peso e o lugar que ocupava a outra. foi coberta por um caniço para secar as castanhas, ora aí estava mais uma vantagem que a outra não tinha. depois dos dias enregelados da apanha das castanhas e das picadas dos ouriços e de encher a barriga enquanto se procedia à escolha e lá vinham os piolhos que as castanhas cruas têm aquele biquinho na ponta que em um apanhando o piolho era um viveiro multiplicado por aquelas cabeças da miudagem toda... eram ensacadas as que davam para vender. guardavam-se uns punhados para ir roendo e levar no bolso... e as outras, antes que o bicho tomasse conta delas, eram espalhadas no caniço e o mesmo calor e o fumo que ia secando o enchido ia secando as castanhas e o fumo lá ia saindo pelas telhas quando não era uma fumarada por todo aquele sobrado... e lá iam ficando até secarem e a casca saltar... mais uns serões a pilar as castanhas e as festas quando aparecia uma daquelas que ficavam moles... e as cascas secas calcadas ou batidas com um pilão transformavam-se em buínha que depois servia para misturar com as brasas e a cinza das braseiras sim que depois da lareira subir eram precisas mais braseiras e o calor das braseiras não pode ser só o carvão com lume tinha de ser a cinza e o calor guardado e reavivado com as folhas de estanho que sobravam dos chocolates quando os havia para o carvão durar mais tempo e o calor se manter... sim porque era preciso poupar e no poupar é que está o ganho... e os tempos eram maus e as bocas muitas... e a fome era negra e a guerra com o seu cortejo de calamidades mesmo longe estendia até ali as suas garras em senhas de racionamento para tudo o que havia e era muito pouco... e só se conseguia à custa de longas bichas de espera e nós que éramos muitos lá nos íamos revesando para não passar tanto frio e suportar as dores nas pernas... ele era bichas para o pão e para tudo o que fosse de comer que o vestir e a roupa ia-se resolvendo com o deitado e o ditado que dizia que deus dava o frio conforme a roupa mas sempre era preciso uma roupa mais lavada e apresentável para a missa dos domingos e dias santos... também quando a fome apertava era melhor ir mais cedo para a cama que se poupava no lume e na luz e um bom sono é meia mantença e com o sono se enganava a fome... o pior era se vinham as doenças!... e sempre era uma verdade mais aceitável que quem não comia por ter comido não tem doença de perigo... e todo o cuidado era pouco.

pois aí nessa lareira, como na outra a primeira, ainda o velho jovem contaouvidor de histórias contava e ouvia histórias que saíam misturadas com o fumo e povoadas de sombras das correntes e dos objectos pendurados nas paredes iluminadas com as cores e as formas das labaredas caprichosas e fantásticas ou, a maioria das vezes já só à luz do borralho que ia ficando cinza dominando então as sombras irrequietas e fantasmagóricas criadas pela luz mortiça e bruxoleante das candeias que toda se abanava à menor aragem... quem contava mais? além da avó e dos da casa, todos nos íamos deixando por ali ficar a dar uma ajuda para ouvir as mulheres de fora que lá iam por conta e tinham sempre histórias de bruxas, lobishomens e encontros com o diabo ou com ladrões ou com lobos que aconteciam por aqueles caminhos escalavrados da serra... creio que ainda me lembro da tiarosa pelada e de tázuefa pica enquanto migavam as carnes e as apimentavam em grandes alguidares de barro para toda a qualidade de enchidos... e depois enquanto iam enchendo as tripas com aqueles funis de cano curto boca da largura das tripas e se iam transformando em chouriços, chouriças, paios que era de ficar com a boca aguada tanta carninha ali a ser guardada e outros com tão pouco!, e em morcelas e farnheiras e farnhotes que depois eram pendurados e ali ficavam como sinal de abastança discreta como reserva para quando faltasse outro mantimento ou para mandar de presente àqueles que gostavam mas já não tinham casa nem vida para isso de matanças que era muita maçada e muita lida e muito lixo... ou para pagar um trabalho ou um favor... ou até dar quando se não contava como aquela que aconteceu à minha avó... iam-se chegando as horas de fazer o almoço que a minha mãe tinha saído e ia-se demorar um migalho e aquela vizinha que até era muito simples e simpática a senhora e era viúva e não tinha muito que fazer a ali aparecia umas vezes para dar uma mão mas daquela vez só para dar duas de conversa e lembrar os nossos que nosso senhor levou na sua infinita sabedoria e ele lá sabe mas que muita falta nos fazem cá mais valia ter ido com eles e os filhos por lá já a tratar das vidas, mas que sem a ajuda do homem muito trabalho e muita canseira teve de sair deste corpinho... e pronto... logo conversamos doutra vez... olhe que devem ser horas de ir pelo almoço... oh! para uma pessoa sozinha e quais sem nada ele qualquer coisa arremedeia... e a mulher nunca mais se ia embora. precisava de conversar a mulher e em vez de ir para a má língua com as comadres a dizer mal deste e daquele e daquelas que ainda cavava a sua perdição... bom a minha avó lá teve de se decidir e subir aquelas escadas que eram um inferno para ir lá em cima à lareira do sobrado e trazer um ou dois enchidos para meter na panela como estava destinado naquele dia e as panelas já estavam a ferver... enquanto subia e descia lá iam conversando... ou espere aí que aqui em cima não a ouço que o ouvido já não é como dantes! os anos não perdoam... e quando vinha a descer... Aí minha santa senhora os favores que eu já devo esta casa... e não queria que se estivesse a incomodar... eu até cá vim sem interesse nenhum que embora não tenha não ando aí a pedir esmola... mas que seja tudo pelas alminhas de quem lá têm... da próxima vez eu hei-de trazer um coelhinho branco de olhos vermelhos que lá tenho para o seu netinho e até umas couves e uns agriões que o mê genro arrebanhou lá na ribeira... que seja tudo por amor de deus e pelas alminhas... com esta me vou mas não era preciso estar-se a incomodar. muito bem-haja e com esta me vou...
a senhora saíu. a minha avó sentou-se cansada da conversa e de ter subido e descido aquelas escadas que era o meu calvário como ela dizia que em vez de me levarem para o céu ainda me levam para o inferno e, meio a rir, meio a sério, vira-se para os meus seis ou sete anos... olha, não me sinto com forças de tornar a subir aquelas escadas. leva essa faca com muito cuidado, sobes a um banquinho e traz aquela e aquela pendura e se não souberes qual é pergunta lá de cima que eu te explico. a tua mãe está por aí a chegar e aquelas morcelas eram para o nosso almoço e como viste tive de as dar àquela santa que veio aqui para me ajudar a ganhar o céu! claro que eu não tinha percebido nada, nem sei como me desempenhei daquela tremenda responsabilidade com os gritos e ordens e os toma cuidado da minha avó mais vale esperar que a tua mãe chegue que deve estar mesmo aí a vir... e só depois de muitos anos quando a minha mãe contou esta anedota é que eu me fartei de rir daquela da oferta dos enchidos...

mas as noites das histórias eram sobretudo aquelas noites de borralho manso para que o calor morno e o fumo acabassem de curar os enchidos e os presuntos e as castanhas fossem secando secando lentamente... dava para de vez em quando pilhar uma ou outra a ver se estavam boas... pilá-la e ficar ali remoendo remoendo... depois de bem secas davam para guardar para serões e serões até que já fartavam e então quando o pessoal andava assim com cara de enfezado e era preciso um alimento de sustância a minha mãe, de vez em quando, muito de vez em quando, lá se decidia ir ao saco das castanhas piladas e saía aquele abominável caldudo recurso mágico que os charopes e remédios eram caros e quem gasta o que tem não deve a quem... e uma pratada daquele precioso elixir dava para matar a fome durante o dia todo e para sentir no estômago durante a semana inteira e até mais enquanto durasse na pituitária e na barriga a recordação de tão pestilenta beberagem cujos efeitos se difundiam em misteriosos perfumes por toda a casa... foste tu... foste tu... bem podias ter mais respeito e ir fazer essas coisas lá para o quintal ou para longe dos outros... mas era difícil porque aquilo não era doença e todos tinham tomado o mesmo remédio que era para prevenir as doenças que um corpinho bem alimentado está mais livre de outros males... era tal e qual como o das apetitosas sempre detestadas feijoadas domingueiras que era para se livrarem de trabalhos pesados as donas de casa pois guardar domingos e dias santificados também devia ser na medida do possível para as donas de casa que tinham de trabalhar para dar de comer à família inteira e então como a feijoada era mandada para o forno no sábado à tardinha para cozerem durante a noite toda e só se iam buscar domingo de manhã sempre era uma maneira de não passarem todo o dia na cozinha porque aos domingos estavam todos em casa e sempre vinha uma ou mais visitas... mas aih! quando os efeitos se começavam a produzir e aqueles perfumes se volatilizavam como incenso e logo em dia tremendamente delicado por ser dia de obrigações tanto religiosas como sociais... como até de ir ao cinema ao menos uma vez por ano como quando o rei faz anos e a modos como a desobriga em que os cristãos se têm de confessar e comungar... e até depois das missas se tinha que ir aprender as difíceis e inefáveis doutrinas sobre a santíssima trindade em que um era igual a três ao contrário do que se aprendia na escola e os outros mistérios da santa religião como a doutrina do deus omnipotente que podia com tudo até com uma pedra muito grande com que não se pode e omniciente que já sabia tudo e assim estava dispensado da grande maçada de ir à escola... enfim, imensas coisas que ajudavam a desenvolver à maravilha as nossas capacidades para perceber as contradições e os azares da vida que por fatalidade e embora esse nosso senhor fosse o pai de todos nós íamos vendo que por fatalidade ou destino a maior parte das vezes os males maiores lá calhavam sempre aos mais pobres que não conseguiam nunca sair da cepa torta mesmo quando faziam por isso...

o inverno caminhava para o fim. já não apetecia ir tão cedo para a cama... então depois do terço e das avé marias e santa marias por alma de todos e por toda a família que andava por longe... lá nasciam as histórias... não havia até a história do ti manel da benvinda?!.. fumava que nem um desalmado o demoncre do homem aquela alma de um cântaro benzó deus nosso senhor... e vai daí, quando se meteram a fazer a casa lá se convenceu a deixar de fumar!... sempre dava para mais uns materiais que o mais do trabalho era dele depois da lida a tratar das terras dele e dos outros onde ia dar dias por troca para o ajudarem a ele nas terras e ali na casa ou para arranjar algum a doze ou a quinze mil réis por dia... quando, depois da guerra, a jorna passou para vinte mil réis! oh! diabo! aquilo ia sendo uma revolução. isto nem dá para a onça do tabaco e para as mortalhas, diziam os da enxada, quanto mais para comer mai-la família... isto assim com o preço das sementes mai-lo trabalho e a rega, ficam as batatas num dinheirão que nem paga a pena! mais vale comprá-las no mercado se as houvesse!, diziam os que traziam jornaleiros por conta... e foi assim que o Menel da Benvinda passou o tempo todo das obras sem fumar a não ser uma que outra pirisca ou uma beata encontrada na rua e fumada muito às escondidas só para matar a sapeira que isto um homem não é de pau e não pode contrariar a natureza!, que não havia de ser por causa do vício que a casa não se houvera de fazer pois concerteza! e passado uns tempo, aquilo as obras já estavam mesmo prontas até da arte de carpintaria e já só faltava os últimos retoques que sempre faltam, quando, foram todos uns dias para a serra a malhar e acarear o centeio, aconteceu mesmo no dia em que vinham já com os sacos aviados... encontraram a vila toda com baldes e cântaros a acudir ao fogo... e como no havia lá ninguém foi o cabo dos trabalhos para deitar as portas abaixo e poder acudir!... só ficaram as paredes. ...ê nu dzjia cu dinheirinho do tabuaco era pr'arder! dizia o ti Manel da Benvinda inconsolável a quem no queria ouvir. ...tantos anos de sofrimento e de martírios a ver os outros fumar e ê ali a poupuá-lo cum o vuício cá puor duentro a remuoer a remuer que nem um danado p'ró ver arder assim tuodo numa nuoite a defazuer-se em fumo! antes o tivera fumuado!... mas era assim a vida dos pobres. o que tem de ser tem muita força e o que nasce torto, tarde ou nunca se endireita. nosso senhor lá sabe. é o destino. há os que nascem logo para ser ricos e os outros para pobres. no há nada a fazer!

e assim continuava a vida sem nada de novo nem de diferente com as estações atrás das estações. sempre tudo na mesma, tão diferente.
só quando na rua soava o pregão:

quem tem castanhas piladas p'ra vender...
peles de coelho... peles de cabra...
ou cornicão ou cornacho... lenticão!
ferro velho p'ra vendeeeeer?! ...

ou soava só um som quase ininteligível:

cooooompra farrapos ferro velho peeeeeles...

ou então já de um modo mais refinado a acompanhar a evolução dos plásticos e espelhos e dos jogos miniaturas de paciência chinesa e esperteza desastrosa para os cobres escondidos na cantareira onde a miudagem sabia que estavam... quando soava o pregão provocante:

comprem meninas coooomprem...
pentes para pentear os cabelos daaaaa...
comprem meninas comprem...

logo ali se juntava um poviléu imenso e a canalha que andava na retouça parava a comentar e a dar traduções obcenas para desvendar as insinuantes reticências do pregoeiro que muito sério e compenetrado abria o saco das suas maravilhas... era um acontecimento novo a que todos acorriam com um misto de desconfiança e esperança mas que, até pela provocação inatacável mesmo pelo senhor vigário que se defendia: não são contas do meu rosário ou pelas outras autoridades que não encontravam nada de mal nas palavras apregoadas..., mexia com as pessoas todas daquele terra. era como a fenda da muralha que os mercadores abriam na montanha naquela terra isolada rodeada de altos montes por todos os lados que a fechavam até ao céu... a não ser aquela saída por onde corria o rio e aquela, aquela além do lado oposto de onde nascia o rio, ao lado do cântaro magro e assinalava a rua dos mercadores!!! era a esperança de uns tostões extra! era o gozo secreto de ficarem aliviados de uns trastes que já não tinham préstimo para nada e estavam ali a ocupar espaço na loja ou no sobrado... era a ocasião de venderem umas tantas sacas de castanhas piladas e trocarem umas pratadas de caldudo por uns lombinhos enfartados num barranhão de batatas fritas e comida de rico ao menos uma vez na vida... e até por aqueles bocados de pau negro que apareciam na escolha do centeio, o cornacho, aqueles farrapeiros davam dinheiro!... para o que seria? a gente até os deitava fora! diziam que era para coisas secretas lá das armas dos militares... bom!?, desde que desse dinheiro! ao diabo o que eles faziam com aquilo.

era então aí nessa lareira que durante noites e noites a fio, entre terços e ladaínha sem fim..., e agora depois das intermináveis avé-marias santa-marias mais um padre nosso pelas benditas almas do purgatório para que mais depressa se libertem daquelas terríveis chamas infernais que as purificam de todas as imperfeições e para que se libertem daquelas terríveis cadeias mais negras que estas aqui das caldeiras sobe e desce e as não deixam gozar da eterna glória na corte celestial à direita de deus pai todo poderoso que está em toda a parte, amén. ...era aí nessa lareira que a tua avó, a tua mãe vos contava... avé maria cheia de graça... entre orações e sermões... no estejas p'raí sempre a mexer com as tenazas mafarrico que esborralhas o lume todo... santa maria mãe de deus... ora pró nós... hoje que já cumprimos os nossos deveres e já encomendámos a alma de todos o que lá temos e todas as alminhas das nossas obrigações... hoje podíamos contar uma história... qual há-de ser hoije! qual! quem sabe uma história nova? hoje podia ser a do pastor da serra da estrela. aquela...

stá bem, hoje podemos contar essa outra vez, mas no fim eu gosto mais daquela parte no fim como nos contou o catrâmbias, muito em segredo, ali à porta da rua no canto da quelha, a uma roda de garotos que tinham interrompido as brincadeiras e o retouço para ali estarem muito juntinhos e calados... mas estavam sempre a mexer e ás bicadas uns aos outros como na escola e como havia sempre muita gente a passar e a dar a salvação e a dar piadas ao catrâmbias que nunca os deixava sem resposta, e como ele contava assim a modos com palavras que no se entendiam muito bem... isto de histórias e lendas não são coisas para se andarem a abocanhar ali na rua porque aquilo tem muitas coisas que são segredos e mistérios... coisas que no se entendem muito bem... mas no fim, quando acaba, a mãe no na conta assim como a ele...

quem conta um conto acrescenta-lhe um ponto. cada doido com a sua mania. e de poeta e de louco todos temos um pouco... e assim cada um dá-lhe as voltas que quer conforme o sítio e a ocasião e aqueles que estão a ouvir e esse tal do catrâmbias é fresco que nem uma alface e dizem que é doido e ficou gazeado da guerra mas ele é esperto que nem um alho e ele é que a leva direita... esse deve-as contar das boas a julgar pelas que vai deitando da boca pra fora quando se pranta ali no fim da tarde no poial da nossa casa a dar conta de quem passa e a mater-se com toda a gente... e ali ainda se vai contendo que sabe que aqui mora gente de respeito... mas olha as que ele vomita quando já vem tocado com uns copitos e desata numa ladaínha enquanto vem descendo além as escaleiras de S.Pedro agarrando-se às paredes e correndo de atravessado... homem dum raio que nem à igreja e aos santos tem respeito... e quando isso acontecer que nem o senhor prior nem a guarda o mete na ordem, não se ponham ali atrás da varanda a ouvir e a rir que nem uns malcriados... fechem as portas das janelas e da varanda para não ouvirem as asneiras que ele vai vomitando por aquelas escaleiras abaixo e rezem umas jaculatórias para desagravo das asneiras que ele diz... bem mas da história, atão como é que ele conta? vamos lá ouvir essa do catrâmbias. as istórias são istórias e mais ponto menos ponto são todas iguais e têm de de ser mais ou menos para serem as mesmas se não não são as mesmas...

a mãe, depois de contar que o pastor ainda muito novo vem de lá de muito longe e depois de passar muitos trabalhos quando chega perto todos o chamam louco mas ele atreve-se a passar sozinho a porta dos hermínios e conquista sozinho a serra... e depois quando ele já é sozinho o dono daquela serra toda, aparece um rei daquelas redondezas que ouviu falar do pastor que vivia sozinho lá no alto da serra e falava todas as noites com uma estrela que aparecia no céu por cima da serra que era dele e assim aquele pastor podia ser um rei ainda mais poderoso que o outro rei daquelas redondezas e... esse rei mandou então uns emissários para que o levassem à sua presença... e quando eles o levam e o rei lhe diz: ouve lá, ó pobre velho pastor, conta-me lá essas coisas da tua serra e da tua estrela com que dizem tu podes falar... conta-me esses segredos e eu te darei tantas riquezas e até metade do meu reino que ficarás o homem mais rico e poderoso como não há nenhum além de mim... e isto já era contado por mim e pela minha irmã em cima do mocho enegrecido pela lareira e já em equilíbrio instável por causa das travessas que já a despregar-se ameaçavam a cada momento precipitar-nos naquelas chamas ardentes da lareira que por sorte não eram da mesma natureza que as chamas do inferno porque as do inferno não se consumiam nem precisavam de lenha como dizia o catecismo o que não deixava de nos causar uma certa inveja apesar do medo porque escusávamos de andar a acarretar e a rachar lenha e andar com ela aos braçados por aquelas escadas a cima que eram um inferno para as pernas já muito pesadas da minha avó... mas aquela fala do rei e do pastor, ali em cima do mocho, com as nossas cabeças já no meio das chouriças e das morcelas quase a bater no caniço e em equilíbrio instável ainda mais tétrico e instável devido às sombras provocadas pela luz dançarina da candeia e pelas chamas que ainda crepitavam não deixava de dar uns ares de circunstância como se fosse um palco de verdade nem que fosse um teatro de categoria ou um filme em que fazem aquelas coisas tão a sério que parecem mesmo verdade e põem as pessoas aos gritos e com o medo... ouve lá, ó pobre homem, dizia o rei, dar-te-ei tudo o que me pedires, em troca do segredo da tua estrela com quem podes falar... e aí o pastor não respondia... e aí, eu que estava empinado no mocho, atirava-me para o chão, de joelho em terra, como aquelas figuras do livro de história que punham os nobres de joelho em terra diante do seu rei... e com os olhos e os braços revirados estendidos para os enchidos como nos santinhos que mostram os pastores do presépio a olharem estarrecidos e assombrados para os anjinhos que cantavam a glória a deus nas alturas e paz na terra aos homens a quem ele quer bem... ide, hoje nasceu para vós um salvador... e eles aí iam para o presépio onde se tornavam a ajoelhar e ofereciam os presentes... então, o pastor respondia: é impossível magestade. a estrela não é minha mas do céu... e o rei furioso: pois é precisamente por isso... e aqui era preciso já estar outra vez em cima do mocho balouçante porque não tínhamos combinado bem quem é que fazia o quê e ela era mais para fazer de ponto e emendar o que eu não me lembrava bem... com um manto de rei nos ombros que podia ser o cobertor que ali estava para depois levar quentinho para a cama... e com uma coroa na cabeça que podia ser o tacho de alumínio ou o passador... as tenazes podiam ser o ceptro ou se fosse um tição ainda meio aceso dava muito mais ares e fazia mais impressão... pois é por isso mesmo, dizia furioso o rei, mas eu sei que essa estrela te faz tudo aquilo que ordenas e se tu quiseres ela será minha que já não precisas dela para nada que és sozinho e tens a serra toda e eu, olha pra mim, tenho de governar estes reinos todos e fazer o melhor para todos os meus súbditos que esperam de mim a justiça e a sabedoria e a paz que às vezes não lhe posso dar... e o pastor respondia, e aí o personagem já devia estar no chão de joelho em terra que era o degrau de tijolos enfarruscados da lareira... prefiro continuar pobre e ignorado do que receber tudo em troca da minha estrela que me fala mas no fala com os que têm o coração cheio de riquezas deste mundo... ora i aqui é que o catrâmbias no na contava assim...

mas quem é que vos dá autorização para i andar a ouvir as histórias do catrâmbias que no tem tino nenhum como já vos disse e no vai à igreja parece que nem para a desobriga e diz mal dos ricos de deus da igreja e dos santos todos que ele no tem juízo nenhum e é fraco da cabeça à conta dos copos que bebe e depois dizem que é dos gazes da guerra e ó mais ali na venda da ti marizué dos trigos já nem lá vai que ninguém lho dá fiado e vejam bem a filha a teresinha das ondas que é uma estampa de mulher nem parece filha de tal home e já lho pediu pelas alminhas que nem fiado nem pago que não lhe servisse nem sequer um copo que ele já tem a sua conta e com o que já bebeu e os gases da guerra, coitado, até a i água já lhe sobe á cabeça!...

ah! mas a maneira como ele conta é tão diferente, mnha mãe!

atão conta lá, como ele na conta mê filho!

eu na na sei contar bem como ele na conta que aquilo no se percebe muito bem porque ele na conta assim a modos que em segredo e com as palavras todas enroladas, mas quando o pastor no fim de muitos muitos anos chegou ao cimo da serra já muito velho, contra tudo e contra todos, viveu ali ainda muito tempo sempre jovem e forte até conhecer todos os segredos da serra que eram os da estrela... mas isto ninguém sabia porque desde que o viram passar a porta dos hermínios toda a gente abanou a cabeça e o deu como perdido e morto para sempre e nunca mais ninguém teve notícias dele... até que se começou a ouvir falar de coisas que para uns eram lendas e para outros eram verdade e a verdade ninguém a sabia porque ninguém se atrevia a ir àqueles montes ermos e selvagens inacessíveis... e então quando o rei do mundo o mandou chamar a ele que tantos anos levara para conquistar e conhecer a serra... ele não foi... como é que os emissários se atreviam a entrar por meio daquela serra à procura dele? qual o quê? que caminhos e coragem tinham eles? mas se ele lá vive e conseguiu, ou mo trazem à minha presença ou pagarão com a vida... ameaçava o rei os seus emissários que já diziam mal da sua vida. mas um dia uns pastores dali perto disseram que o pastor algumas vezes cinha até cá mais abaixo no tempo dos grandes nevões e gelos e um dia, por sorte, chegaram á fala com o pastor... e foram eles os emissários que lhe deram o recado do rei e lhe ofereciam mil riquezas em nome do rei... ou mil presentes para ir com eles para falar com o rei que era o rei do mundo e lhe daria o que ele quisesse em troca do segredo da estrela... e ele, o pastor, olhando os emissários do rei e olhando em volta as gargantas as ravinas os medonhos desfiladeiros os penedos os altos as fragas e os fragões as rochas as fontes e as lagoas os rios e os vales lá do cimo do lugar onde se encontrarm que ningúem sabe onde foi mas podia ser a varanda dos carqueijais ou o mirante de alfátema ou a varanda dos pastores mas donde se via tudo muito longe e o pastor, olhando lá do cimo da serra aquilo tudo e até o reino daquele rei que lhe diziam que era o rei do mundo!... e olhando outra vez para os criados daquele rei... levantado ali em cima de um penedo grande como a serra... abanou lentamente a cabeça... nenhuma riqueza o vosso rei me pode dar em troca da minha estrela que levei anos e anos a conquistar... toda a vida... até que ela me conquistou e eu é que tenho todo o mundo a meus pés porque todo o mundo está abaixo das estrelas e ela é que é a rainha... e eles, os emissários, tinham de se ir embora cheios de pressa e de medo, cheios de medo do rei deles e do pastor que ali em cima dum penedo, sozinho, lhes metia mais medo que um exército... e quando ele estendeu o braço para que se fossem embora, eles lá iam recuando e vociferando ameaças e pragas... que viria o exército... que viriam milhares de soldados e ele teria de se render... mas quando o pastor olhava para o alto, para aqueles penhascos e ravinas e desfiladeiros que podiam engolir exércitos inteiros, eles lá iam recuando até que as ameaça se deixavam de ouvir... era mais ou menos assim que a história se contava minha mãe que a gente não conseguia ouvir muito bem como ele, o catrâmbias a contava, e olhe que ele é um homem da serra, senhora mãe, que conhece as veredas e os barrancos da serra mesmo naqueles sítios onde já não há veredas nem sinais... pois é. afinal as histórias são muito diferentes mnha mãe. já não me lembro bem como é que a avó a contava mas o certo é que as coisas mudam! e aqui era A MUDANÇA DAS HISTÓRIAS... contadas pelo velho contador... o velho jovem figura de mulher que era um contaouvidor de istórias... e como ele nunca tinha havido nem tornará a haver...

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