A TRAVESSIA DA SERRA – Manteigas – Aldeia do Carvalho,
já de noite, com neve e tempestade…
(LÃ E A NEVE – Ferreira de Castro, 12ª ed. 48º milhar - cap. V pp. 228 – 245)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

  

 

 

 

 

  

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

  

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

   

 

 

  

 

  

 

 

 

 

 

 

 

 

 

  

 

   

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Serafim Caçador aguardava-o, impaciente.

− É tarde − censurou, quando o viu chegar a sua casa.− Tinha ficado de vir das seis para as seis e meia e já deram sete...

− Não pude vir mais cedo... − desculpou-se Horácio.

Serafim olhou em seu redor, como se receasse esquecer-se de alguma coisa. Em seguida, pôs ao ombro um saco meio cheio, pegou no cajado e volveu-se para a mulher:

−Bom. Eu devo voltar amanhã à noite. Mas se, de todo em todo, não puder ser, venho depois de amanhã.

Os dois saíram. Descendo as escaditas exteriores, Serafim queixava-se:

− A tarde estava feia, viste? É pena não haver camioneta todos os dias para a Covilhã. E, para um homem ir tomar o comboio a Belmonte, tem de perder um dia inteiro. Parece que moramos no fim do Mundo! Eu, antigamente, não me importava. Atravessava a serra num pulo, sempre que era, preciso; mas, agora, já não estou para grandes caminhadas.

Horácio deixava-o falar e não lhe respondia. Passado o Fundo de Vila e vencido o rio, meteram, de lanterna acesa, à encosta em frente. Subindo o pinhal, Serafim continuava a parolar sem descanso, como era de seu feitio. Já as luzes do povoado haviam desaparecido, quando eles ouviram, longinquamente, o relógio de Manteigas soltar oito horas, que reboaram, com vagar, pelo vale, imerso na escuridade, lá em baixo, atrás deles.

− Temos de dar-lhe! -disse Serafim, num parêntesis; e logo voltou a falar sobre aquele mau vizinho que o filho tinha na Borralheira. Horácio continuava a não fixar o que ele dizia. Idalina instilara-se no seu espírito e ocupava-o todo. «Ele tornaria a tentar no próximo domingo. Ele tinha de resolver aquilo quanto antes e de qualquer maneira, pois o canalha do outro até à mãe dela escrevia.» Demorava-se em hipóteses, amassava pormenores e caía sempre em amargura. «Logo que o fizessem operário, casava-se e pronto! Acabava-se a ralação! Não era assim que ele queria, mas paciência…» Tornava a sentir-se infeliz, com a ideia. Naquela casita em que tanto pensara e que ele conhecia por dentro e por fora, em todos os seus aspectos como se já a houvesse construído, como se já a tivesse habitado. Mas a casa aparecia-lhe, agora, distante, mais distante do que essas que ele tinha visto à beira do Tejo, na linha de Cascais, quando andava na tropa; -cada vez mais distante» e mais pequena e a apagar-se como se fosse uma *casa de bonecas pintada num muro, que alguém cobrisse com uma pincelada de tinta negra.

Uma aragem forte começara a correr na vertente, quando eles se aproximavam do Vale do Buraco. E, pouco depois, Serafim sentiu pousar na sua mão, que segurava o saco, algo mais frio do que o frio que havia -na serra.

− Eu bem tinha visto! − exclamou, ao atentar na neve que principiara a cair. -A tarde não estava boa... Para S. Lourenço, o céu andava de carranca.

Os dois homens continuaram a subir. Serafim calara-se, finalmente, por mor daquele vento que passava, num zumbido, e lhe entrava pela boca. Era um vento gelado, que fazia rumorejar vagamente a floresta de pinheiros que eles atravessavam. Moderado embora, trazia, agora, até abaixo, flocos de neve que, antes, ficavam presos -na caruma. Os homens iam andando e a lanterna iluminando troncos após troncos, que brotavam da noite para logo se sumir de novo, dando lugar a outros, sempre a outros, a uma colunada que partia em todas as direcções e parecia sem fim. Obedecendo aos movimentos da luz, os pinheiros dançavam, inclinavam-se, engrossavam ou adelgaçavam, sombras que o eram um momento num bailado estranho sobre a neve que cobria o chão. E a lanterna continuava a andar, como um grande pirilampo voando na floresta.

Finalmente, os dois chegaram a terra desimpedida de árvores. Dali em diante encontravam apenas neve, e, de quando em quando, algum hirsuto rochedo, que a neve não conseguira revestir totalmente e negrejava na infinda brancura. O vento, entretanto, crescera. E pusera-se a entoar um lamento cada vez mais forte e prolongado. Depois, largam-se a uivar, não se sabia em que profundas cavernas, que lhe avolumavam o desespero errante, enchendo a noite e a montanha de um lúgubre tumulto. Horácio e Serafim marchavam contra ele, de cabeça baixa e boca cerrada. Os flocos de neve, já sem ramagens de pinheiros que os detivessem, batiam-lhes no rosto, acumulavam-se sobre os chapéus e infiltravam-se entre a roupa e o pescoço. Dentro das suas quatro faces de vidro, a chamazita da lanterna vacilava, ora se distendia, ora baixava até quase se a apagar, perseguida pelo vento que, enfiando-se nos interstícios dos ângulos, chegava até ela. Os homens continuavam a marchar de cabeça vergada. Serafim arrependia-se de ter vindo. E, a seu lado Horácio pensava que fora uma grande sorte ter, naquela noite, a companhia de Serafim, pois se fosse ali sozinho aquilo seria mais desagradável. A neve aumentava, rodopiava em volta deles, fustigando-os sem cessar. Era a que vinha do céu e era a que o vento levantava da terra, arrojando-a como uma saraivada.

Serafim deteve-se, ao abrigo de um penedo:

− É melhor voltarmos para trás – propôs. – A mim fazia-me jeito vir hoje, mas, assim, não se pode...

− Eu tenho de ir. Não posso faltar ao trabalho.

− Com uma noite assim, nunca mais chegamos Iá. Apanhamos uma carga de neve e ficamos por aí estendidos. Deixemos isto para amanhã. Voltamos agora para casa e vamos amanhã de manhã.

− Isso também eu queria! Mas não posso, já lhe disse! Não posso faltar à fábrica... De a mais, isto passa. Vai ver que passa!

A ideia de perder a companhia de Serafim, de ter de palmilhar sozinho a noite medonha, desprazia-lhe grandemente:

− Isto passa! E, se não passar, havemos de romper. Não é a primeira vez que isso me acontece. E você… quantas vezes você já, não apanhou neve no caminho?

Serafim lutava consigo próprio. De Manteigas à Borralheira ou à Aldeia do Carvalho, a pé, mesmo com bom tempo, era o que todos sabiam. Um homem chegava arrasado. Com um tempo assim, era de rebentar e nem em cinco horas se punham lá.

-- Fazia-me muito jeito ir hoje, lá isso fazia -- repetiu. − Mas o caminho não está para graças. Anda daí, vamo-nos embora! Iremos amanhã. Então tu não podes faltar ao trabalho um dia? Se estivesses doente, não faltavas?

Horácio pensou que Serafim tinha razão. Também ele receava essa noite que ocupara os trilhos da serra e se fora tornando, pouco a pouco, pavorosa, ora gemendo, ora rugindo por toda a parte. Um momento, ele admitiu a ideia de voltar, com Serafim, para Manteigas. A hipótese de se sentar, agora, ao lume da casa paterna parecia-lhe indizível felicidade. Mas logo a lembrança de Mateus o reteve. «Mateus não gostava que se faltasse ao trabalho e, mesmo quando se tratava da doença de um operário, punha uma cara de má vontade. Se soubesse que a razão de ele não se apresentar na fábrica, no dia, seguinte, era ter vindo a Manteigas ver a namorada, ficaria mais contrariado ainda. Ninguém tomava muito a sério o que um homem fazia por causa de uma namorada. E se Mateus começasse a embirrar com ele, poderia deixá-lo estar como aprendiz tempos sem conta. Ora ele precisava de passar a operário o mais depressa possível. E depois do que Marreta lhe dissera, só contava, a bem ver, com Mateus.»

-- Você faça o que quiser, mas eu sigo! Não me convém deixar de ir à fábrica. Depois... para que andar para trás? Daqui a Manteigas é mais de uma hora e o mau tempo tanto está para um lado como para o outro. Se seguirmos, chegamos, não tarda muito, a meio do caminho e de lá, até à Aldeia é tudo a descer... é um salto! Mas você faça o que quiser...

Serafim tornou a considerar os seus próprios interesses. Com uma noite daquelas, era uma estopada andar sozinho na serra, tanto mais que já estava muito longe de casa. E também a ele não convinha perder o dia seguinte no caminho. Se fosse agora, podia arranjar as coisas com o filho logo de manhã, dar, depois, um pulo à Covilhã, para comprar o que a senhora do doutor Couto lhe havia encomendado e voltar a meio da tarde. Porque, para a volta, não teria ele companheiro e não queria apanhar, outra vez, uma noite como a que estava.

− Vamos lá... − disse com voz resignada.

Tornaram a avançar. O vento prosseguia na sua fúria. De quando em quando, a neve formava redemoinhos e eles eram como o centro de um funil, açoitados por todas as bandas. Agora e logo tocavam, com as pontas dos cajados, as abas dos seus chapéus, para que caísse a neve que lá se acumulara. Pouco depois, porém, os chapéus volviam a ter peso de chumbo. De boca fechada e nariz escorrendo humores, Serafim principiava a sentir dificuldade em respirar, assim de encontro ao vento, que se lhe metia pelas orelhas, enchendo-lhe o próprio cérebro de estranhos ruídos. E cada novo passo se tornava sempre mais penoso, como se o vento quisesse vedar-lhe aqueles seus desolados domínios. À altura dos joelhos, o sobretudo de Horácio e a capa de Serafim, constantemente movidos por essa desvairada força, ora lhes azorragavam as pernas, ora se abriam e enfunavam, impelindo-os para trás. Dos joelhos para, baixo, as calças molhadas colavam-se à pele, como esponjas segregando humidade. E a serra continuava sob a neve em turbilhão e aqueles regougos sinistros do vento enfurecido. Os homens andaram, assim, algum tempo, vencendo a ingremidade. Subitamente, Serafim deteve-se outra vez, deixou cair o saco e deu costas ao vento. Horácio voltou-se também. Na sua mão, a lanterna tinha oscilações de pêndulo de relógio. Serafim estava ofegante, os olhos congestionados, os lábios roxos, o chapéu e os ombros todos brancos.

-- Eu bem te disse que vinha uma tempestade e que era melhor voltarmos para casa... – murmurou com dificuldade. − Mas tu não quiseste crer... E, agora, é isto...

-- Você não falou em tempestade, ora essa! O que você disse é que o tempo -estava ruim. E eu tenho visto o tempo assim e, depois, passar...

Serafim considerou que era demasiado tarde para retroceder, mas lamentava-se por não o ter feito anteriormente.

A lanterna lançava uns Iaivos vermelhos- ora sobre os rostos dos dois homens, ora, sobre as suas mãos. De quando em quando, iluminava-lhes também as pernas e aquela brancura imensa onde eles afundavam os pés.

-- Eu já tinha idade para ter juízo. Mas deixei-me levar pelas tuas cantigas...

Serafim continuava a falar com esforço. Horácio sentia-se igualmente fatigado e com os mesmos obstáculos na respiração, mas não o queria confessar.

− Ainda há poucos anos um de Gouveia morreu para os lados das Penhas Douradas, por causa disto − tornou Serafim. -- E os outros só escaparam porque deram a tempo com o Observatório... Se não fosse isso, tinham ficado lá todos... i

-- Não conheciam a serra como eu a conheço... − interrompeu Horácio. Logo, hesitante, ergueu a lanterna. A luz não ia além de cinco metros. Horácio consolou: -- Já passámos, com certeza, as Almas. Devemos estar perto da Portela...

Serafim teimou:

− Então aquele rapaz que, aqui há tempos, morreu, com o cavalo, mesmo ao pé do hotel das Penhas da Saúde, também não conhecia a serra? Anda, dize!

Horácio escolheu os ombros:

-- Se soubesse que você tinha tanto medo, não era eu que queria a sua companhia...

-- Medo, eu? − A voz de Serafim parecia sair de um subterrâneo, de um túmulo.

Os dois sentiam-se empurrados pelas costas.

Horácio meteu os dedos entre o pescoço e a gola do sobretudo e tirou de lá a coleira de gelo que o oprimia. Tinha desejos de ser agradável a Serafim:

-- Dê cá o saco... Eu levo-o, agora, um bocado... Pegue lá a lanterna...

Voltaram a caminhar, sempre de cabeça baixa, cara voltada para a direita, na ânsia de melhor respiração. No cume da serra, o vento passava e ululava com mais violência ainda. Um momento, os flocos de neve pareceram diminuir, mas logo tornaram a adensar-se, fortes no choque com os corpos dos homens, como se fossem arremessados por uma funda.

De quando em quando, Horácio sentia enregelar a mão que segurava o saco. Passava, então, este para a mão direita e o cajado para a esquerda. Pouco depois, fazia o contrário. Sobre o cajado ele procurava movimentar os dedos, abrindo-os e fechando-os constantemente, para aquecê-los, mas cada vez se moviam com maior dificuldade.

Subitamente, a -lanterna apagou-se. Serafim berrou uma praga. Os dois pararam, mas não viam nada em seu redor. Só a neve continuava a bater-lhes nos rostos e nas mãos. Serafim tornou a praguejar A sua voz não teve, porém, eco: o vento incorporou-a imediatamente à sua fúnebre ária.

-- Abra a capa − pediu Horácio. Ele mal adivinhava na sua frente, o vulto de Serafim. Ajoelhou-se e tirou a caixa de fósforos: -- Chegue bem a lanterna para aqui. -- Abriu a portita de vidro e riscou o primeiro fósforo, que se apagou. Serafim estava de costas ao vento e com a lanterna entre as pernas, protegida pela capa, mas o segundo, o terceiro, o quarto fósforo apagaram-se também. A capa. Debatia-se com o vento e as pernas; ora se afastava destas-ora se insinuava por entre elas, fazendo uma dobra que ia até junto da lanterna. Horácio irritava-se contra os seus dedos, que, endurecidos, quase hirtos pelo frio, não lhe obedeciam, não protegiam eficazmente a ínfima chama que, num instante, feria a treva, para logo morrer. De pé, Serafim enervava-se também. Parecia-lhe que se fosse ele a acender a lanterna já o teria conseguido. «Deixa ver! Deixa ver!» − pedia de vez em quando. Horácio, porém, teimava. Por fim, sacudiu a caixita junto do ouvido. Logo, inquieto, a tacteou por dentro. Havia apenas quatro fósforos. Horácio ergueu os olhos para o companheiro:

-- Olhe lá: você tem fósforos?

Serafim adivinhou rapidamente tudo. E respondeu, sombriamente, repreensivo:

-- Não. Tu bem sabes que eu não fumo. Se me tens dado isso, eu já tinha acendido...

Horácio levantou-se:

− Não tinha! Nem você, nem o mais pintado! Pegue lá os fósforos... Mas sempre lhe digo que, sem uma fraga que abrigue a lanterna, não se consegue nada...

Habituados à escuridade, os olhos viam, agora, melhor em sua volta. Era tudo branco, uma terra branca sem fim. Horácio lembrou-se da Lua que ele tinha visto, noites antes, quando saía da casa de Marreta e encontrara João Ribeiro. «Havia então, nuvens sobre a Lua, mas, mesmo assim com nuvens, a. Lua dessa noite seria, agora, a salvação» -- pensou.

O céu estava opaco, de um claro-escuro que parecia tocar, pesadamente, a própria cabeça deles. «E o João Ribeiro e a Júlia a dizerem que o frio ia passar!» − lembrou-se de novo, com raiva.

Volveram a caminhar, lentamente, olhos à esquerda e à direita, em busca de recife que se levantasse naquele mar de leite cristalizado. Mas quando algum mamilo se apresentava em frente deles, logo viam que estava também coberto de neve e não oferecia anteparo capaz. E para além de seis, sete metros, eles não divisavam coisa alguma. Por fim, um vulto maior se destacou. Numa das suas faces havia uma mancha negra, que a neve não conseguira tapar. Os dois avançaram para lá, pela primeira vez contentes desde que tinham saído da floresta. Era uma pequena cavidade, onde mal caberia uma ovelha. À entrada, o gelo retorcia-se em pingentes. Serafim ajoelhou-se, abriu a lanterna e pegou nos fósforos. Acocorado do lado de fora, Horácio seguia, de respiração suspensa, os seus movimentos. O fósforo chegou a entrar, aceso, na lanterna. Mas, ao acercar-se do pavio, apagou-se. A mão de Serafim tremia ao abrir, outra vez, a caixa. Ele sentia também os dedos presos, desobedientes, inteiriçados pelo frio. Uma nova luzita brilhou, trémula pela aragem que penetrava na cavidade. Pouco depois, Serafim fechava, triunfante, a portazita da lanterna. À pálida luz, a sua cara mostrou-se comprida e de olhos amortecidos. Tinha neve até nas sobrancelhas.

Cajados à frente dos pés, os dois recomeçaram a marcha. As extremidades das calças já não pareciam húmidas; haviam endurecido e molestavam-lhes, agora, as pernas, como se fossem de vidro. Horácio não cessava de olhar a um lado e outro, ansioso de identificar a Fraga do Neto, que lhe daria o conforto de saber que tinha feito já a maior parte da caminhada. Mas a neve deformara tudo, covas e relevos, pedras e urzes, igualando, em longos trechos, o que, noutros dias e noutras noites, era diferente. A ele, agora, a imagem de Idalina aparecia-lhe, esbatida, sob a de Mateus. Era a figura do mestre que se antepunha entre os seus olhos e a neve, entre os seus olhos e a noite inteira. Nos momentos em que o cansaço se fazia sentir mais, Mateus surgia-lhe, de cara sombria, à hora de os operários entrarem na fábrica.

E, então, ele arrancava, a si, novas forças para continuar a andança, para vencer a neve, o vento e a noite. E sempre aquela ansiedade de chegar a casa, de pedir à Júlia que acendesse um grande lume para ele se aquecer, para aquecer, sobretudo, as mãos. E assim poder, no dia seguinte, às oito horas, estar na fábrica. Continuava a olhar e via a figura de Mateus e não a Fraga do Neto, que ele buscava. «Já deviam tê-la passado, pois andavam na serra há um ror de tempo» -- admitiu.

A lanterna voltou a apagar-se. Serafim, que a levava, estacou. Desta vez ele não disse uma só palavra. Horácio ficou calado também, ambos tolhidos por essa vontade adversa, inexorável, que dominava a serra e a noite.

Horácio foi o primeiro a arriscar alguns passos. Serafim, de começo, marchava atrás dele, mas, depois, colocou-se ao seu lado. Dez, quinze minutos -- e sempre o vento e sempre a neve e sempre aquelas dores nas mãos. Finalmente, Serafim murmurou, voltando a cabeça:

− Ali...

Era outro rochedo branco e negro, à direita. Por detrás, muitos outros penedos ainda. Ambos procuraram uma cavidade.

− Aqui está abrigado --preveniu Horácio.

-- Pega lá os fósforos...

− Não... Acenda você...

-- Acende tu...

Nenhum deles queria, agora, a responsabilidade.

Contrariado, Serafim transigiu me acocorou-se. Estendeu a mão aberta, sondando o ar, mas a sua mão estava insensível. Pediu:

-- Vê lá bem se não há vento aqui...

Horácio estendeu igualmente a mão. Também a ele a sensibilidade amortecera.

− Parece-me que não há. Mas deixe lá, eu abro o sobretudo...

Os dedos de Serafim., tiraram, com dificuldade, o 'fósforo da caixa. Duas três vezes, riscou a lixa. A chamazita surgiu, mas extinguiu-se antes mesmo de se aproximar da lanterna. O coração de Horácio começava a pulsar mais fortemente. Nos seus ouvidos andava uma zoeira enorme, que já não parecia do vento, mas sim criada no seu próprio cérebro. Serafim tardou a retirar da caixa o seu último fósforo. Silenciosos, os dois homens pareciam aguardar algo imprevisto, uma súbita inspiração, um socorro impossível. Serafim meteu, outra vez, o fósforo na caixa.

− Acende tu… − balbuciou…

− Para quê? -A voz de Horácio saiu-lhe rouca, pastosa.

Serafim juntou as mãos, ergueu os olhos para o céu revolto e pôs-se a murmurar uma reza. Depois, tornou a pegar no fósforo.

Horácio abriu, de novo, o sobretudo, encostando as suas extremidades ao rochedo, para dar melhor resguardo.

Serafim riscou. O fósforo luzia mesmo à portita da lanterna. E, trémulo, com a chama ora a, distender-se, ora a minguar, ainda avançou alguns centímetros. Os olhos de Horácio não o largavam... Aquilo não durou um segundo e parecia que durava toda uma vida. A lanterna tornou a ficar no escuro. Só na lixa da caixita que encerrava os fósforos brilhou, alguns momentos, uma vaga claridade, um risco vagamente luminoso, que, em breve, também se desvaneceu.

-- Vamo-nos embora... -- rouquejou Serafim. E erguendo se, começou a andar, sem esperar pelo companheiro, como se este lhe fosse indiferente. Ia vergado, cada vez mais vergado. Agora, a um rochedo sucedia outro, uma série de penhas fantasmais postadas no dorso da montanha. As mãos de Horácio, que seguravam o saco e o cajado, doíam-lhe mais. Dir-se-iam revestidas de cortiça e a doer, a doer nos ossos. «Se, ao menos, pudesse metê-las nos bolsos! Se ao menos, pudesse meter uma delas!» Os rochedos continuavam. Horácio prendeu horizontalmente o cajado sob o braço direito e abrigou a mão no bolso. Mas, tentados alguns passos, verificou que não marchava capazmente sem o auxílio do cajado. Volveu a tirar a mão da algibeira.

Olhe lá... Que leva você, aqui, no saco?

Serafim já mal podia falar. As palavras saíram-lhe entrecortadas e como num sopro:

− Umas coisas de que o meu rapaz precisa...

-- Se o deixássemos aqui? Amanhã você vinha buscá-lo… Ou apanhava-o quando voltasse...

As mãos de Serafim doíam-lhe também, há muito tempo já. Mas ele olhou em seu redor e convenceu-se de que nunca mais encontraria o saco, se o abandonasse ali.

− Não pode ser... São mais de quinhentos mil réis... Dá-mo cá. `

-- Não; eu levo-o.

− Dá-mo…

Pô-Io no ombro esquerdo e entregou a lanterna a Horácio. A serra continuava povoada de rochedos, que pareciam acampados sob vastos lençóis de formas cónicas. Horácio arremessou a lanterna inútil contra um deles e meteu a mão no bolso. O vento não deixou sobressair sequer o 'estilhaçar dos vidros; ele continuava a dominar tudo com os seus uivos, que mantinham' a alma ida noite num perpétuo estarrecimento.

Horácio voltava a fixar os penhascos: «Já há muito deviam estar -- pensou -- no Beijames e ver, ao longe, o clarão da Covilhã. Mas no Beijames os penedos não eram assim... E não dera também conta de que tivessem passado pela Portela e pela Fraga do Neto…»

Serafim arnastava-se cada vez mais penosamente. Quando Horácio o olhou, já ele havia 'abandonado o saco. Tinha o passo de urso cansado de dançar.

A Horácio parecia-lhe, agora, que conhecia aqueles penedos. Não eram, porém, os dos atalhos que levavam a Aldeia do Carvalho ou à Covilhã.

Serafim tropeçou, caiu e deixou-se ficar, estendido, na neve. Milhentos flocos tombavam sobre o seu corpo como se, por cima dele, uma macieira estivesse a esflorar-se. Horácio dobrou-se, para ajudá-lo a erguer-se, mas sentiu que, a si, as forças iam faltando. Os seus braços estavam hirtos,' como se não possuíssem articulações. Serafim manteve-se algum tempo quieto e, depois, conseguiu ajoelhar-se. O peito arquejava-lhe. Firmando-se no ombro que se lhe oferecia, pôs-se lentamente em pé.

− Parece-me que nos desviámos, que não vamos por bom caminho... − murmurou Horácio.− Parece-me que estas fragas são as da Malhada Velha...

Serafim olhou os penhascais cobertos de neve − e reconheceu-os: «Não havia dúvida, iam enganados. Já tinham feito um estirão escusadamente. E se continuassem por ali, em vez de botar à Aldeia, iriam sair entre a Nave e as Penhas da Saúde.» Serafim quis falar, mas não pôde. A garganta expelira apenas um rouquejo. Tomou a pensar: «Também o rapaz que morrera, com o cavalo, mesmo ao pé do hotel das Penhas, conhecia bem a serra. Ganhava a vida a fazer serviços entre a Covilhã e as Penhas. E nem por conhecer a serra se salvara, quando a tempestade o apanhou…»

-- É a Malhada Velha, -não é verde? – insistiu Horácio.

Serafim tentou, mais uma vez, falar. A voz desaparecera-lhe. Com a cabeça ele fez um vago sinal afirmativo.

-- O melhor, então, é cortarmos aqui à esquerda e sempre a direito. O Beijames deve estar por aí...

Horácio adivinhou que Serafim pensava em todo aquele caminho que haviam perdido e o culpava a ele de quanto acontecera. Desculpou-se:

− Foi o raio da lanterna... E você também não deu por nada! Mas, assim, já não nos enganamos outra vez...

Serafim não fez o menor esforço para responder. Os dois tornaram a marchar. Horácio sentia-se exausto. E aquelas imagens que surgiram no seu cérebro desde que eles se tinham detido a primeira vez, voltavam sempre, esfumadamente. Em a sereia a apitar, o Mateus junto do seu cacifo envidraçado e os operários a entrarem às oito da manhã em ponto. Era sempre a mesma coisa, sempre as mesmas cenas.

A montanha lançava, agora, a sua outra vertente. A descer, o passo tornava-se mais incerto, inseguro a cada instante. Ao procurar apoio nos cajados, as mãos, falecido lo seu vigor, deslizavam ao longo da vara, encortiçadas, inertes. A neve que escondia os magotes de urzes rompia-se, por vezes, sob os pés, e eles afundavam-se no mundo vegetal, que jazia por baixo, eriçado de puas. Cada vez, porém, a pele tinha menor susceptibilidade.

Serafim via, como no centro de uma névoa, a mulher e os filhos. Via, depois, o seu funeral. O padre, o sacristão, a cruz. Caia neve em flocos, como fragmentos de asas. Ele ia dentro do caixão, com saudade da mulher e dos filhos. Os amigos caminhavam atrás, vestidos de preto, mas com os ombros e os chapéus cobertos de neve. A cova já estava aberta, mas a neve embranquecera, num instante, a terra remexida que se acumulava nas bordas. A mulher continuava a chorar. Logo ele pensou, vagamente, que, se morresse ali, podiam passar-se muitos dias antes de ser encontrado o seu cadáver. Talvez só o descobrissem quando o Inverno acabasse, quando a neve se derretesse. E essa ideia aterrorizou-o mais.

Dir-se-ia que, na encosta, os penedos se haviam multiplicado. Não se venciam dez metros sem se topar um daqueles vultos em frente, branco nas suas absurdas formas arestosas. Mais abaixo, outro, outro, sempre outros, sempre outros. Serafim voltara a cair e arrastava-se, pesadamente, como um réptil, por entre esses quedos fantasmas.

Finalmente, eles adivinharam, à direita e ao longe, a Covilhã. Noutras noites, o clarão da cidade enchia o céu e via-se a grande distância. Mas, agora, o céu estava todo fechado e só uma vaga claridade, muito vaga, contrastava com a obscuridade geral. Ao distingui-la, porém, Serafim sentou-se ao pé de um dos rochedos e começou a chorar. Era, um- choro grotesco mesclando-se com aquela sua respiração que dir-se-ia um resfolegar de vapor. Horácio sentou-se também e quis encorajá-lo. Mas, como a de Serafim, a sua garganta já não conseguia articular uma só palavra. A única força que sentia era essa que não o deixava respirar livremente, era essa que oprimia o seu peito, como se ele fosse estoirar. Quedaram, assim, alguns minutos. Depois, Horácio levantou-se e olhou, de novo, para as bandas da Covilhã., em seguida para o vale, perscrutando a noite. «Iam, agora, por bom caminho, com certeza. A Aldeia devia estar lá em baixo.»

Serafim ergueu-se, lenta e dificilmente, e os dois continuaram a descida da encosta. Os pés já haviam perdido o jeito de tactear, na declividade, as pedras que se deslocavam e as urzes que formavam ocos sob a neve. Serafim deixara o cajado entre os penedos; a mão de Horácio também já não sustinha o seu e abandonara-o igualmente. Agora, eles avançavam entregando-se às circunstâncias, resvala aqui, tomba ali, gatinhando além -- e prosseguindo cada vez mais vagarosamente. O vento teimava nos seus rugidos e dir-se-ia a única presença na serra, à qual o vale, a imensa Cova da Beira, respondia com ecos de terror.

Horácio tinha a sensação de que os seus pés haviam crescido e que ele caminhava sobre duas coisas mortas, às quais a neve se agarrava; duas coisas que não eram pés e que não eram dele. O corpo parecia existir apenas do sexo para cima e somente lá muito dentro, como o cerne de uma árvore.

De quando em quando, Serafim ficava para trás. Horácio quedava-se a esperá-lo. Pela sua própria carência de forças, ele admitia que Serafim não pudesse dar, de um momento para o outro, um só passo mais. O chapéu, de tão carregado de gelo, pesava-lhe, agora, como se ele levasse uma pedra à cabeça. E, em volta do pescoço, entre o sobretudo e a pele, a neve formara uma gargalheira, que o ia apertando que nem um garrote. Horácio teimava em levar lá as mãos, mas os seus braços estavam rígidos e não lhe obedeciam. Serafim deixou-se novamente cair e, mais do que das outras vezes, tardou a levantar-se.

 

 

 

Já passava da meia-noite quando ou velho quinteiro, Sargo acordou com o rumor que faziam na sua porta. Ainda estremunhado, soergueu-se e apurou o ouvido. A mulher despertou também e ficou, igualmente, à escuta. O ruído volvia, de quando em quando. Eram umas pancadas surdas, como se alguém batesse na porta com a cabeça. Sargo considerou as horas que seriam e pensou em ladrões. O seu casebre erguia-se, solitário, no meio de uma quintazita sobranceira à Aldeia do Carvalho a mais alta que fora arroteada na serra. Dali às primeiras casas que, dispersas, o povoado lançava encosta arriba, havia ainda grande distância.

O velho Sargo acendeu, tremulamente, o candeeiro. Pensou que ele nada possuía que valesse a pena roubar, mas os ladrões podiam julgar o contrário, tinha-se visto isso muitas vezes e, às vezes, até matavam as pessoas que estavam em casa. Com a luz na mão, foi acordar o- filho, o Leopoldo, que dormia no sobrado. E só quando o viu de pé, a bocejar e a contempla-lo, intrigado, é que gritou para fora:

-- Quem está aí?

Ninguém respondeu. Mas ouviu-se, de novo, um ruido surdo na porta, como se um burro ou cavalo nela roçasse a garupa. A ideia de que seria animal perdido, tranquilizou um pouco mais o velho Sargo.

− Quem está aí? − repetiu.

À mesma ausência de voz que respondesse, sucedeu o mesmo rumor. Sargo olhou para o postigo que havia no sobrado. O filho, adivinhando-lhe o intento, correu para lá, meteu cautelosamente -a cabeça e volveu:

− São dois homens− sussurrou. -- Um está no chão, como morto.

Sargo teve novamente receio. Quem se encontrava do lado de fora insistia, porém, nas pancadas, cada vez mais leves, mais surdas cada vez.

-- Estão cobertos de neve... − tornou Leopoldo.

O velho hesitou e colou o ouvido à porta.

-- Quem é? Quem é?

Captou, então, uns sons guturais, de quem queria falar e não podia. Sargo decidiu-se. Passou o candeeiro à mulher e armou-se do seu ‹cajado. O filho pusera-se do outro lado, também de cacete no ar. Mas logo que o velho abriu a porta, Leopoldo baixou o varapau. Dentro de casa caíra, exânime um vulto humano. O outro continuava estendido lá fora.

A mulher de Sargo pusera-se a soltar exclamações de surpresa e de piedade. E enquanto ela acendia o lume e o velho quinteiro ia buscar a garrafa de aguardente, Horácio pensava, difusamente, como num sonho, que, no dia seguinte, às oito horas, podia entrar na fábrica, como sempre.