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MANTEIGAS - Notícias da Homenagem dos alunos da 1ª Classe de 1945, em 7 e 22 de Outubro de 2005

Placa comemorativa que foi mandada colocar, na parede exterior da "nossa" Sala de Aula, por iniciativa da Comissão Organizadora, liderada pelo António da Cunha Direito:

«OS ALUNOS, QUE NESTA ESCOLA, EM 1945, INICIARAM O SEU CURSO DE INSTRUÇÃO PRIMÁRIA, MANIFESTAM O ALTO APREÇO E ESTIMA, PELA MEMÓRIA DO SENHOR PROFESSOR
MAXIMO DE ALMEIDA BARBAS MARQUES,
SEU MESTRE E AMIGO.

A SUA ELEVADA COMPETÊNCIA E ARTE DE BEM ENSINAR PERDURAM VIVAS NAS SUAS LEMBRANÇAS, HOJE, DIA EM QUE SE COMPLETAM 60 ANOS.

Manteigas,
7 de Outubro de 2005
Manteigas

MANTEIGAS

I
Quando a neve cai em volta
Nos montes em de-redor
Manteigas, então, parece
Pela beleza que oferece,
Capricho do Criador.

II
Coroa de beleza rara,
D'alvura nos altos montes
É o coração da Serra
Pela beleza que encerra,
Mas de curtos horizontes.

III
Aqui, assim escondida
Por montes quais sentinelas
Que a guardam com carinho,
Qual mãe vela ao filhinho
Com ternura que é só dela.

IV
As águas das suas Caldas
São milagrosas de-veras
Sai delá sempre curado
Quem as tiver procurado
Desde as mais remotas eras.

V
Do Inferno tem o Poço
Do Mondego a nascente
Dos Cântaros possui a aspereza
O Zêzere lhe dá a riqueza
De que vive muita gente.

Janeiro de 1945

MBarbasMarques

Aqui fica a cópia de um Poema a Manteigas, de Janeiro de 1945,
que a sua esposa D. Maria de Lurdes e a sua filha D. Rosa, tiveram a gentileza
de oferecer atodos os presentes e ausentes...
O "nosso" agradecimento, em Homenagem ao nosso Professor...

Fotos da Sessão de 22 de Outubro de 2005, a comemorar os 60 anos do 7 de Outubro de 1945...

 


 

MEMÓRIAS DA ESCOLA PRIMÁRIA... por JRG

 

Os miúdos da 1ª Classe em 1945 -
60 anos depois, em 2005
Memórias e reflexões de JRG

Não tenho recordações especiais propriamente do primeiro dia de Escola. Talvez uma certa apreensão a respeito da "fama" que corria sobre o professor que nos tinha calhado em sorte. Aliás, pelas leis da rotação, tinha sido professor do meu irmão mais velho, da primeira à 4ª classe, que tinha terminado no ano anterior e com fama de ser muito bom na tabuada e nas contas, o que era um bom presságio!
Por outro lado, desde os cinco anos que acompanhava a minha tia Judite, professo-ra agregada, nas suas andanças pelo Torroselo e, no ano anterior, tinha acompa-nhado os alunos de todas as classes que ela leccionava nas Caldas de Manteigas. Passava mesmo lá a maior parte do tempo, com a nossa "Avó Pequenina", a avó Maria do Carmo, numa casita pequena junto ao edifício das termas, como que submergidos pelo grande edifício do antigo Hotel das Termas.

Passados muitos anos, a minha tia ainda guardava os meus cadernos e toda a gen-te dizia que estavam muito limpinhos e tinha uma letra muito bonita. Talvez tenha sido por isso que, em meados deste ano de 2005, foi ali no novo Hotel das Caldas, que me lembrei de deixar uma "mostra" dos livros que estava a conseguir publicar desde 2003, através da e-libro!

Além disso, vim a saber mais tarde, na sala da nossa casa, na "sala da mesa redonda" que, logo a seguir à cozinha com a sua grande lareira, que se acendia numa grande laje encravada na parede do primeiro andar, e era considerado um milagre na técnica da construção antiga, tinha funcionado, desde os anos 10 do século XX, a Escola Paga, dirigida por um "falado" Professor Moura. Até a minha mãe, já nesse tempo, tinha feito a 3ª Classe, coisa rara para as mulheres do seu tempo e só acessível a quem podia mandar internar as filhas num colégio, o que só havia nas grandes cidades.

Então, talvez por isso, e por ter à minha frente os três irmãos mais velhos, não tenho uma impressão especial do tal "marcante" primeiro dia da primeira classe!

Talvez até nem tenha entrado logo no primeiro dia, pois havia uma espécie de transferência da escola da minha tia, embora nesse tempo não houvesse a pré-primária, eu devo ter sido dos privilegiados que a frequentou, mesmo sem ser ofi-cial.

Lembro-me sim que a certa altura, terá sido já na segunda ou terceira?, a escola fechou para obras e as aulas passaram a ser numas salas do Sindicato ou da Casa do Povo! Depois, na mudança, de novo para a Escola novinha em folha, lembro-me de se ter falado na lenda da "famigerada" régua do Senhor Professor Máximo" que os operários teriam escondido no forro do telhado, como um "sinal" de que, esse "instrumento altamente pedagógico e convincente" iria desaparecer dos métodos do ensino. Lembro-me de que foi LENDA, porque, um dia "menos BOM", talvez meu e do professor, o que deu uma conjuntura catastrófica dos astros, e já na terceira ou já na quarta, eu, que até era bom na tabuada e nas contas, mesmo que não tão bom como a fama que tinha ficado do meu irmão mais velho, sei que falhei as duas, três primeiras perguntas do "quantos são…?" numa manhã, em que o profes-sor decidiu que haveria uma, já não sei como se chamava, "catilinada" ou chamada geral, com perguntas disparadas em todos os sentidos e sem ordem pré-estabelecida… Falhei as primeiras… e a partir da terceira haveria reguadas em pro-gressão aritmética… Eu não as contei. Creio que alguns dos meus colegas as conta-ram e rejubilaram com aquele massacre, que só seria concebível com outro qual-quer que fosse menos bom aluno do que eu. Só sei que foi uma manhã inteira a levar com a "famigerada régua" que supostamente teria desaparecido com as 0bras da Escola! E não era a nova, não, uma régua mais fina e comprida que o professor tinha mandado fazer, não como instrumento de tortura, mas "para fazermos direi-tas as linhas no quadro, nos dias das "Chamadas ao Quadro"! Só sei que as mãos ficaram num bolo, vermelhas de raiva e de perplexidade, e que foi preciso um tra-tamento especial, mas muito discreto e sem hospital, porque "aquilo podia dar um processo, que, naquela altura de Legião e Mocidade Portuguesa, não passava pela cabeça de ninguém!
Mas já havia evolução. Lembro-me que já não era obrigatório usar a farda com o cinto com o "S", como tinha acontecido com o meu irmão mais velho, apesar de muitos ainda a usarem. Talvez por estarmos dois ou três na escola ao mesmo tem-po e ser incomportável uma família de médios recursos arcar com tanta farda!
Lembro-me das "merendas" trocadas à socapa com alguns que não tinham nem podiam levar merenda e sabiam da "tormenta" que as mães tinham de passar, para obrigar os "meninos que tinham de comer" a comer antes de ir para a escola e do cuidado que punham nos embrulhos com um papo-seco e fruta ou até alguma gulo-seima, para restaurar as forças nas horas do recreio. Qual o quê?! Os poucos minu-tos de recreio era para a "retouça" e para as "caboiadas" e os embrulhos com aque-les amorosos "petiscos" eram um "manjar do céu" para alguns que não tinham sequer comido o suficiente nem era preciso ameaçar com o 2homem do saco" para comer o pouco que as famílias tinham para lhes dar. O "João Arjão" e o "Simeão" ainda me recordaram várias vezes essas "trocas clandestinas" que afinal se vinham a saber em casa e eram mais uma vez motivo de mais "ralhetes" e raspanetes…

Lembro-me depois das fugidas para o rio, para o Açude, ou para o Poço do Zé da Avó, "lugares de perdição" para onde só se podia ir "as escondidas" para aprender a nadar e "ficar em pelote" à vista de todos e aprender outras coisas de que não se falava em casa, e seriam "coisas feias" só de "garotos da rua"!!! Claro que ali no Rossio ao Fundevila, podíamos jogar ao "Saltivão" à "Piorra" à "Chetra" e ao "Pião" e fazer corridas com os "Arcos de Ferro com Guiador de Arame"… mesmo sem se saber muito bem donde tinham vindo os piões ou as piorras e o resto do material necessário para as renhidas disputas… Até jogámos aos "Malhões" e ao "Espeta a Cavilha" e… de vez em quando, lá acabava tudo numa cena de "porrada" que só acabava com algum a deitar sangue pelo nariz e as vizinhas todas a acudirem aos gritos, cada uma a defender a inocência do seu "anjinho" que em casa nem "partia um prato"!
E foi assim até ao almejado Exame da Quarta Classe, com "Aprovados" e "Distin-tos", uma espécie de doutoramento naqueles tempos já de Escola Obrigatória, mas não para todos, muito menos até à Quarta!
Depois, veio o Exame de Admissão que era preciso ir fazer à Cidade… e depois, pouco a pouco, a minha Terra, a minha Serra, e a minha Infância e os meus amigos de infância começaram a ficar cada vez mais longe…...

 

 

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