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Os
miúdos da 1ª Classe em 1945 -
60 anos depois, em 2005
Memórias e reflexões de JRG
Não
tenho recordações especiais propriamente do
primeiro dia de Escola. Talvez uma certa apreensão
a respeito da "fama" que corria sobre o professor
que nos tinha calhado em sorte. Aliás, pelas leis da
rotação, tinha sido professor do meu irmão
mais velho, da primeira à 4ª classe, que tinha
terminado no ano anterior e com fama de ser muito bom na tabuada
e nas contas, o que era um bom presságio!
Por outro lado, desde os cinco anos que acompanhava a minha
tia Judite, professo-ra agregada, nas suas andanças
pelo Torroselo e, no ano anterior, tinha acompa-nhado os alunos
de todas as classes que ela leccionava nas Caldas de Manteigas.
Passava mesmo lá a maior parte do tempo, com a nossa
"Avó Pequenina", a avó Maria do Carmo,
numa casita pequena junto ao edifício das termas, como
que submergidos pelo grande edifício do antigo Hotel
das Termas.
Passados
muitos anos, a minha tia ainda guardava os meus cadernos e
toda a gen-te dizia que estavam muito limpinhos e tinha uma
letra muito bonita. Talvez tenha sido por isso que, em meados
deste ano de 2005, foi ali no novo Hotel das Caldas, que me
lembrei de deixar uma "mostra" dos livros que estava
a conseguir publicar desde 2003, através da e-libro!
Além
disso, vim a saber mais tarde, na sala da nossa casa, na "sala
da mesa redonda" que, logo a seguir à cozinha
com a sua grande lareira, que se acendia numa grande laje
encravada na parede do primeiro andar, e era considerado um
milagre na técnica da construção antiga,
tinha funcionado, desde os anos 10 do século XX, a
Escola Paga, dirigida por um "falado" Professor
Moura. Até a minha mãe, já nesse tempo,
tinha feito a 3ª Classe, coisa rara para as mulheres
do seu tempo e só acessível a quem podia mandar
internar as filhas num colégio, o que só havia
nas grandes cidades.
Então,
talvez por isso, e por ter à minha frente os três
irmãos mais velhos, não tenho uma impressão
especial do tal "marcante" primeiro dia da primeira
classe!
Talvez
até nem tenha entrado logo no primeiro dia, pois havia
uma espécie de transferência da escola da minha
tia, embora nesse tempo não houvesse a pré-primária,
eu devo ter sido dos privilegiados que a frequentou, mesmo
sem ser ofi-cial.
Lembro-me
sim que a certa altura, terá sido já na segunda
ou terceira?, a escola fechou para obras e as aulas passaram
a ser numas salas do Sindicato ou da Casa do Povo! Depois,
na mudança, de novo para a Escola novinha em folha,
lembro-me de se ter falado na lenda da "famigerada"
régua do Senhor Professor Máximo" que os
operários teriam escondido no forro do telhado, como
um "sinal" de que, esse "instrumento altamente
pedagógico e convincente" iria desaparecer dos
métodos do ensino. Lembro-me de que foi LENDA, porque,
um dia "menos BOM", talvez meu e do professor, o
que deu uma conjuntura catastrófica dos astros, e já
na terceira ou já na quarta, eu, que até era
bom na tabuada e nas contas, mesmo que não tão
bom como a fama que tinha ficado do meu irmão mais
velho, sei que falhei as duas, três primeiras perguntas
do "quantos são
?" numa manhã,
em que o profes-sor decidiu que haveria uma, já não
sei como se chamava, "catilinada" ou chamada geral,
com perguntas disparadas em todos os sentidos e sem ordem
pré-estabelecida
Falhei as primeiras
e
a partir da terceira haveria reguadas em pro-gressão
aritmética
Eu não as contei. Creio que
alguns dos meus colegas as conta-ram e rejubilaram com aquele
massacre, que só seria concebível com outro
qual-quer que fosse menos bom aluno do que eu. Só sei
que foi uma manhã inteira a levar com a "famigerada
régua" que supostamente teria desaparecido com
as 0bras da Escola! E não era a nova, não, uma
régua mais fina e comprida que o professor tinha mandado
fazer, não como instrumento de tortura, mas "para
fazermos direi-tas as linhas no quadro, nos dias das "Chamadas
ao Quadro"! Só sei que as mãos ficaram
num bolo, vermelhas de raiva e de perplexidade, e que foi
preciso um tra-tamento especial, mas muito discreto e sem
hospital, porque "aquilo podia dar um processo, que,
naquela altura de Legião e Mocidade Portuguesa, não
passava pela cabeça de ninguém!
Mas já havia evolução. Lembro-me que
já não era obrigatório usar a farda com
o cinto com o "S", como tinha acontecido com o meu
irmão mais velho, apesar de muitos ainda a usarem.
Talvez por estarmos dois ou três na escola ao mesmo
tem-po e ser incomportável uma família de médios
recursos arcar com tanta farda!
Lembro-me das "merendas" trocadas à socapa
com alguns que não tinham nem podiam levar merenda
e sabiam da "tormenta" que as mães tinham
de passar, para obrigar os "meninos que tinham de comer"
a comer antes de ir para a escola e do cuidado que punham
nos embrulhos com um papo-seco e fruta ou até alguma
gulo-seima, para restaurar as forças nas horas do recreio.
Qual o quê?! Os poucos minu-tos de recreio era para
a "retouça" e para as "caboiadas"
e os embrulhos com aque-les amorosos "petiscos"
eram um "manjar do céu" para alguns que não
tinham sequer comido o suficiente nem era preciso ameaçar
com o 2homem do saco" para comer o pouco que as famílias
tinham para lhes dar. O "João Arjão"
e o "Simeão" ainda me recordaram várias
vezes essas "trocas clandestinas" que afinal se
vinham a saber em casa e eram mais uma vez motivo de mais
"ralhetes" e raspanetes
Lembro-me
depois das fugidas para o rio, para o Açude, ou para
o Poço do Zé da Avó, "lugares de
perdição" para onde só se podia
ir "as escondidas" para aprender a nadar e "ficar
em pelote" à vista de todos e aprender outras
coisas de que não se falava em casa, e seriam "coisas
feias" só de "garotos da rua"!!! Claro
que ali no Rossio ao Fundevila, podíamos jogar ao "Saltivão"
à "Piorra" à "Chetra" e
ao "Pião" e fazer corridas com os "Arcos
de Ferro com Guiador de Arame"
mesmo sem se saber
muito bem donde tinham vindo os piões ou as piorras
e o resto do material necessário para as renhidas disputas
Até jogámos aos "Malhões" e
ao "Espeta a Cavilha" e
de vez em quando,
lá acabava tudo numa cena de "porrada" que
só acabava com algum a deitar sangue pelo nariz e as
vizinhas todas a acudirem aos gritos, cada uma a defender
a inocência do seu "anjinho" que em casa nem
"partia um prato"!
E foi assim até ao almejado Exame da Quarta Classe,
com "Aprovados" e "Distin-tos", uma espécie
de doutoramento naqueles tempos já de Escola Obrigatória,
mas não para todos, muito menos até à
Quarta!
Depois, veio o Exame de Admissão que era preciso ir
fazer à Cidade
e depois, pouco a pouco, a minha
Terra, a minha Serra, e a minha Infância e os meus amigos
de infância começaram a ficar cada vez mais longe
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