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Revista - ESCOLA DEMOCRÁTICA - ANO VI - Nº 2 -
OUTUBRO 1983
Ministério da Educação - Direcção-Geral
do Ensino Básico
CIÊNCIAS
DA NATUREZA
DIVAGAÇOES INTERTEMÁTICAS
Augusto de Oliveira e Sousa*
Ministrar
aos alunos do Ensino Preparatório, crianças
dos 9 aos 14 anos, conhecimentos científicos constitutivos
dos conteúdos programáticos do 1º ano
daquele nível didáctico (5.º ano de escolaridade),
apoiados em doutrinas psicopedagógicas acreditadas,
não é o mesmo que misturar alhos com bugalhos.
É mais complexo.
Nas
divagações intertemáticas que hoje
me proponho, o tema de Ciências da Natureza nelas
abordado é dos primeiros, cronologicamente, a serem
fornecidos aos discentes. Antes de se enveredar pelo estudo
da Terra, pretende-se situar o nosso planeta no conjunto
vasto, delimitado, todavia finito na visão dum Einstein,
que é o Universo, "rnare magnum" plasmático
que ora se dilata ora se contrai, nele englobando o material
cósmico que, a partir das protogaláxias, dos
proto-sóis e dos protoplanetas, teria dado origem
à formação das estrelas, dos planetas,
dos cometas e duma imensidade de astros e asteróides,
arrumados nas suas galáxias.
É
a tal propósito que surgem, muito pela rama dada
a idade dos pequenos, os conceitos antigo e actual da estrutura
do nosso relativamente modesto Sistema Solar, com planetas,
como a Terra, gerados em partos distócicos, catastróficos,
ou talvez não, quiçá normais, uniformitários.
Como conteúdo enriquecedor, poderão vir à
balha os nomes de Ptolomeu, Copérnico e Galileu,
bem como as teorias geocêntrica e heliocêntrica,
ultrapassada a primeira, vigente e sucessivamente confirmada
pela exploração do espaço a segunda.
Qualquer
enciclopédia ou súmula biográfica nos
recordará que Cláudio Ptolomeu, astrónomo
negro nascido no Alto Egipto no século II da nossa
era, colocava a Terra no centro do Universo e a considerava
como fixa, imóvel. As suas teses geográficas
subsistiram ao longo de toda a Idade Média. No entanto,
Nicolau Copérnico, astrónomo polaco dos finais
do século XV e princípios do XVI, fez a demonstração
teórica de que os planetas descrevem dois tipos de
movimentos: um sobre si mesmos (rotação),
o outro em volta do Sol (translação). Mas
foi Galileu Galilei, matemático, físico e
astrónomo italiano que viveu nos séculos XVI-XVII,
natural de Pisa, com cuja célebre torre inclinada
alguns dos seus estudos estão relacionados, quem
construiu a primeira luneta astronómica, instrumento
auxiliar da visão que lhe permitiu comprovar experimentalmente
as teorias copernicanas. Denunciado como herético,
primeiro pelo "establishment" da época,
representado pela corte romana, mais tarde pela Inquisição,
esta em defesa dos conceitos bíblicos prevalecentes,
teve de abjurar as suas ideias para conservar a vida. O
ínclito desabafo "Eppure si muove!" não
teria, talvez e infelizmente, passado da imaginação
dos seus asseclas e admiradores, a título de desagravo
e prémio de consolação.
As duas contraditórias teses - a geocêntrica
e a heliocêntrica - podem, esquematicamente, ser representadas
como segue:
Daí,
então, a associação de ideias que me
ocorreu. Relacionando a ciência geográfica
com a ciência psicopedagógica, imaginei a representação
esquemática de duas novas teses contrapostas, desta
vez a magistercêntrica e a puerocêntrica:
Como
facilmente se compreenderá, a escola magistercêntrica
é a tradicional. Consciente ou inconscientemente
ignorante da psicologia infantil, a criança era nela
encarada, não em função da sua mentalidade
e dos seus interesses, mas da dos adultos. Não era
o ensino que se adaptava aos alunos, mas sim estes àquele.
O ensino era magistral, "ex-cathedra", os métodos
expositivos ou dogmáticos. Os discentes funcionavam
como receptores apenas, isto é, passivamente. Não
havia qualquer estímulo antes pelo contrário
para a curiosidade e para a livre iniciativa. Desprezava-se
o valor formativo do esforço pessoal, do que resultava
o desinteresse das crianças. Os objectivos eram estabelecidos
em termos de professor e de ensino e não de aluno
e de aprendizagem. A
finalidade da escola era essencialmente selectiva e tinha
em mira a imitação do adulto, tomado como
modelo.
A
escola puerocêntrica é a escola nova, a escola
activa. Fundamenta-se no conhecimento da psicologia da criança,
atende à sua personalidade, fornece um ensino quanto
possível individualizado e diferenciado, apela para
as capacidades de criação e de iniciativa
dos pequenos, considera a sua necessidade de movimento e
de expressão pessoal. Nela o professor apaga-se,
para que brilhe o aluno. A tarefa do docente é a
de guia e orientador dos trabalhos, de moderador dos debates,
de criador de situações problemáticas
e de fornecedor de dados para processamento. Ao método
analítico-sintético contrapõe o sincrético-analítico.
Expostas em traços muito breves as características
daquelas duas escolas didáctico-pedagógicas,
os leitores estarão agora habilitados a compreender
o relacionamento acima estabelecido e a razão de
ser da epígrafe do trabalho ora findo: divagações
intertemáticas.
Os
desenhos são da educadora de infância
Ana Mateus.
*O Autor - Professor profissionalizado do 4.° grupo
do Ensino Preparatório. (1983)
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