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"Eppur si muove" Galileu (1564-1642) aos Juízes...
No Sistema SOLAR a "Terra" não é o Centro do Universo...
No Sistema ESCOLAR estamos com mais de 400 anos de atraso...

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DIVAGAÇOES INTERTEMÁTICAS
Augusto de Oliveira e Sousa*

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

In Revista - ESCOLA DEMOCRÁTICA - ANO VI - Nº 2 - OUTUBRO 1983
Ministério da Educação - Direcção-Geral do Ensino Básico

CIÊNCIAS DA NATUREZA
DIVAGAÇOES INTERTEMÁTICAS
Augusto de Oliveira e Sousa*

Ministrar aos alunos do Ensino Preparatório, crianças dos 9 aos 14 anos, conhecimentos científicos constitutivos dos conteúdos programáticos do 1º ano daquele nível didáctico (5.º ano de escolaridade), apoiados em doutrinas psicopedagógicas acreditadas, não é o mesmo que misturar alhos com bugalhos. É mais complexo.

Nas divagações intertemáticas que hoje me proponho, o tema de Ciências da Natureza nelas abordado é dos primeiros, cronologicamente, a serem fornecidos aos discentes. Antes de se enveredar pelo estudo da Terra, pretende-se situar o nosso planeta no conjunto vasto, delimitado, todavia finito na visão dum Einstein, que é o Universo, "rnare magnum" plasmático que ora se dilata ora se contrai, nele englobando o material cósmico que, a partir das protogaláxias, dos proto-sóis e dos protoplanetas, teria dado origem à formação das estrelas, dos planetas, dos cometas e duma imensidade de astros e asteróides, arrumados nas suas galáxias.

É a tal propósito que surgem, muito pela rama dada a idade dos pequenos, os conceitos antigo e actual da estrutura do nosso relativamente modesto Sistema Solar, com planetas, como a Terra, gerados em partos distócicos, catastróficos, ou talvez não, quiçá normais, uniformitários. Como conteúdo enriquecedor, poderão vir à balha os nomes de Ptolomeu, Copérnico e Galileu, bem como as teorias geocêntrica e heliocêntrica, ultrapassada a primeira, vigente e sucessivamente confirmada pela exploração do espaço a segunda.

Qualquer enciclopédia ou súmula biográfica nos recordará que Cláudio Ptolomeu, astrónomo negro nascido no Alto Egipto no século II da nossa era, colocava a Terra no centro do Universo e a considerava como fixa, imóvel. As suas teses geográficas subsistiram ao longo de toda a Idade Média. No entanto, Nicolau Copérnico, astrónomo polaco dos finais do século XV e princípios do XVI, fez a demonstração teórica de que os planetas descrevem dois tipos de movimentos: um sobre si mesmos (rotação), o outro em volta do Sol (translação). Mas foi Galileu Galilei, matemático, físico e astrónomo italiano que viveu nos séculos XVI-XVII, natural de Pisa, com cuja célebre torre inclinada alguns dos seus estudos estão relacionados, quem construiu a primeira luneta astronómica, instrumento auxiliar da visão que lhe permitiu comprovar experimentalmente as teorias copernicanas. Denunciado como herético, primeiro pelo "establishment" da época, representado pela corte romana, mais tarde pela Inquisição, esta em defesa dos conceitos bíblicos prevalecentes, teve de abjurar as suas ideias para conservar a vida. O ínclito desabafo "Eppure si muove!" não teria, talvez e infelizmente, passado da imaginação dos seus asseclas e admiradores, a título de desagravo e prémio de consolação.
As duas contraditórias teses - a geocêntrica e a heliocêntrica - podem, esquematicamente, ser representadas como segue:

Daí, então, a associação de ideias que me ocorreu. Relacionando a ciência geográfica com a ciência psicopedagógica, imaginei a representação esquemática de duas novas teses contrapostas, desta vez a magistercêntrica e a puerocêntrica:

Como facilmente se compreenderá, a escola magistercêntrica é a tradicional. Consciente ou inconscientemente ignorante da psicologia infantil, a criança era nela encarada, não em função da sua mentalidade e dos seus interesses, mas da dos adultos. Não era o ensino que se adaptava aos alunos, mas sim estes àquele. O ensino era magistral, "ex-cathedra", os métodos expositivos ou dogmáticos. Os discentes funcionavam como receptores apenas, isto é, passivamente. Não havia qualquer estímulo antes pelo contrário para a curiosidade e para a livre iniciativa. Desprezava-se o valor formativo do esforço pessoal, do que resultava o desinteresse das crianças. Os objectivos eram estabelecidos em termos de professor e de ensino e não de aluno e de aprendizagem. A finalidade da escola era essencialmente selectiva e tinha em mira a imitação do adulto, tomado como modelo.

A escola puerocêntrica é a escola nova, a escola activa. Fundamenta-se no conhecimento da psicologia da criança, atende à sua personalidade, fornece um ensino quanto possível individualizado e diferenciado, apela para as capacidades de criação e de iniciativa dos pequenos, considera a sua necessidade de movimento e de expressão pessoal. Nela o professor apaga-se, para que brilhe o aluno. A tarefa do docente é a de guia e orientador dos trabalhos, de moderador dos debates, de criador de situações problemáticas e de fornecedor de dados para processamento. Ao método analítico-sintético contrapõe o sincrético-analítico.
Expostas em traços muito breves as características daquelas duas escolas didáctico-pedagógicas, os leitores estarão agora habilitados a compreender o relacionamento acima estabelecido e a razão de ser da epígrafe do trabalho ora findo: divagações intertemáticas.

Os desenhos são da educadora de infância
Ana Mateus.
*O Autor - Professor profissionalizado do 4.° grupo do Ensino Preparatório. (1983)

 

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