o SISTEMA eScOLAR
visto por joraga e seus 1001 deNÓMIOS
"Eppur si muove" Galileu (1564-1642) aos Juízes...
No Sistema SOLAR a "Terra" não é o Centro do Universo...
No Sistema ESCOLAR estamos com mais de 400 anos de atraso...

por JORAGA - JOsé RAbaça GAspar e outros mais de 1001 deNÓMIOS...

contacto © joraga ® apoio e server omeusitio de MMCRuz

camponês que se cultiva...

camponês que se cultiva...

 

20 de Setembro de 1976
quando, em plena ALFABETIZAÇÃO,
ouvia "O OPERÁRIO EM CONSTRUÇÃO"
de Vinicius de Morais
e tinha pela frente os problemas dos camponeses
e trabalhadores das cooperativas agrícolas
do Ribatejo, Azambuja

 

era camponês

e filho de camponeses

assim o dizem todas as respostas aos inquéritos

e todos os formulários preenchidos

pela junta pelo notariado pela polícia pela revolução e pela contra-revolução...

já os avós nasceram e morreram no campo

e os nossos filhos

pelos vistos

terão o mesmo destino.

 

a vida deles era sempre igual.

amanhar o bocado para a panela de cada dia

cavar a vinha

esperar a colheita

esperar que o tempo e a má sorte não dêem cabo de tudo

e esperar ali na praça

o trabalho de escravo de trabalhar por conta doutros...

levantar cedo

ir para a praça

expor-se como mercadoria

para ser comprado

ou rejeitado

e depois ser deitado para a valeta

e voltar ao outro dia

como se nada fosse

depois de ter afogado a rejeição

em meio dúzia de copos de três ou de bagaço

a pagar por conta do trabalho que não tinha

sem nunca saber a sorte que o esperava

dependente dum favor

dependente dum truque

...talvez consiga ir no meio dum grupo quando o moiral arrebanha tudo porque precisa de braços

um a mais no meio de um rancho para a monda ou para a vindima ou para a ceifa...

e estar sempre inseguro

incerto

isso sobretudo é que é preciso para aceitar tudo ou para os outros aceitarem

sem saber se lá em casa...

em casa?

no buraco cada vez mais velho!

os filhos podedrão comer

a mulher terá com que o fazer!!!

 

os outros iguais

partiram.

foram para a frança e aragança

fartos de ser vendidos

venderam-se por francos e por marcos...

fartos de ser rejeitados

fartos de ser pobres

fartos de amanhar a terra dos outros

fartos de ver as terras dos outros por cultivar

e ele

sem passar da cepa torta

e ele

sem saber uma letra do tamanho dum comboio

a receber o que lhe dão

sem poder pôr o dedo na conta e dizer:

isto 'stá mal

a pagar o que lhe pedem

sempre a dever

e a ver que nunca chega

o que lhe dão para o que lhe pedem

(é sempre mais o que lhe pedem pelo pão do que o que lhe pagam por cultivar semear mondar regar ceifar debulhar ensacar carregar moer e cozer... o PÃO!

PORRA!!!

sempre mais!

 

até que um dia

mas esse dia nunca vinha

ao entrar na casa do patrão

que lhe pagava os míseros tostões

pelo trabalho da jorna

e se no queres larga que há muito quem queira

e nem o justado lhe davam

- um cortel descontado que o capataz o vira lá no campo a desfazer nas ordes dele e do patrão e a desaustinar o rancho -

ele olhou a casa do senhor

a mesa farta

os pratos cheios

para cada um dos da família um prato e um talher

vários pratos

para que seria aquilo?

um copo

vários copos...

um pano...

e a comida farta e vinho sem medida e sem preço como ele nunca vira nem em casa nem na tasca...

 

e viu

viu que era o vinho que ele mesmo pisara

e que o pão era o paõ que ele ceifara

e viu as couves que ele mesmo plantara

e os grelos que ele mesmo regara

e as batatas que ele mesmo arrancara

e viu tudo o que ele amanhara

na casa do patrão que não mexera uma palha

e olhou

de repente

num clarão

a sua casa

casa?

o seu buraco

e olhou os seus braços negros secos

as suas mãos

mãos com calos tortas

e viu que era tudo o que tinha

e um corpo branco comido quase raquítico

negro só nos pulsos e na cara

pobre

desprezível...

 

mas viu mais

viu que aquilo que os seus braços cavavam

as suas mãos arrancavam

o seu corpo carregava

ia tudopara casa do patrão

daquele que lhe pagava mal

e descontava

e ele

pobre

sem nada

sem ter pão

e sem ter casa

sem dinheiro que chegasse

para ele

e para comprar o que os filhos precisavam...

 

desde aí

o camponês

cada vez que se vergava

e empunhava a enxada

e cultivava

A TERRA

via

que era ele que cultivava

era a ele que cultivava

 

e cada vez que curvado

o campo amanhava

ao peso da enxada

de novo se erguia

de novo a enterrava

e de pé gritava

seu grito de guerra

BAAAAAAASTA!!!

 

assim

quando antes

por ali ficava

envergonhado

vergado

de boina na mão

a trocer retorcer

sem saber que fazer

em frente do duque ou do patrão

em frente do rico e do senhor...

agora

diferente

olhava nos olhos

o pobre e o rico

e calava ou dizia

o que dentro pensava...

 

se estes braços podem

dar riqueza aos outros

dar vinho

e dar pão

dar sopa

feijão

batatas

e grão

e uma casa farta

p'ró rico senhor...?

qual é a razão

por que não podem dar

p'ra mim e p'rós meus

e p'ró meus iguais

os homens do campo...?

 

camponês como eu

se juntos unirmos

os braços e mãos

e o nosso suor

jamais vamos dar

de borla aos patrões

aquilo que é nosso

o que a terra nos dá

com o nosso trabalho

com o nosso suor

para sermos homens

e vivermos de pé

em paz!

 

Azambuja

20 de Setembro de 1976

Alfabetizador que se alfabetiza

 

 

E-Mail: joraga@netcabo.pt e joraga@netc.pt
pelo telefone 212 553 223 ou pelo Telmv. 917 632 524
e pelo CORREIO: Rua Almada Negreiros, 48 - 2855-405 CORROIOS.
visite ainda a minha TEIA na REDE além de joraga.net - joraga/alice/osrabaca/serradaesrela/gilvicente/cart2326/

Compatível com IE/Netscape na resolução 800x600
Joraga 2000 em viagem