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camponês
que se cultiva...
20 de Setembro de 1976
quando,
em plena ALFABETIZAÇÃO,
ouvia
"O OPERÁRIO EM CONSTRUÇÃO"
de
Vinicius de Morais
e
tinha pela frente os problemas dos camponeses
e
trabalhadores das cooperativas agrícolas
do
Ribatejo, Azambuja
era
camponês
e
filho de camponeses
assim
o dizem todas as respostas aos inquéritos
e
todos os formulários preenchidos
pela
junta pelo notariado pela polícia pela revolução e pela contra-revolução...
já
os avós nasceram e morreram no campo
e
os nossos filhos
pelos
vistos
terão
o mesmo destino.
a
vida deles era sempre igual.
amanhar
o bocado para a panela de cada dia
cavar
a vinha
esperar
a colheita
esperar
que o tempo e a má sorte não dêem cabo de tudo
e
esperar ali na praça
o
trabalho de escravo de trabalhar por conta doutros...
levantar
cedo
ir
para a praça
expor-se
como mercadoria
para
ser comprado
ou
rejeitado
e
depois ser deitado para a valeta
e
voltar ao outro dia
como
se nada fosse
depois
de ter afogado a rejeição
em
meio dúzia de copos de três ou de bagaço
a
pagar por conta do trabalho que não tinha
sem
nunca saber a sorte que o esperava
dependente
dum favor
dependente
dum truque
...talvez
consiga ir no meio dum grupo quando o moiral arrebanha tudo
porque precisa de braços
um
a mais no meio de um rancho para a monda ou para a vindima
ou para a ceifa...
e
estar sempre inseguro
incerto
isso
sobretudo é que é preciso para aceitar tudo ou para os outros
aceitarem
sem
saber se lá em casa...
em
casa?
no
buraco cada vez mais velho!
os
filhos podedrão comer
a
mulher terá com que o fazer!!!
os
outros iguais
partiram.
foram
para a frança e aragança
fartos
de ser vendidos
venderam-se
por francos e por marcos...
fartos
de ser rejeitados
fartos
de ser pobres
fartos
de amanhar a terra dos outros
fartos
de ver as terras dos outros por cultivar
e
ele
sem
passar da cepa torta
e
ele
sem
saber uma letra do tamanho dum comboio
a
receber o que lhe dão
sem
poder pôr o dedo na conta e dizer:
isto
'stá mal
a
pagar o que lhe pedem
sempre
a dever
e
a ver que nunca chega
o
que lhe dão para o que lhe pedem
(é
sempre mais o que lhe pedem pelo pão do que o que lhe pagam
por cultivar semear mondar regar ceifar debulhar ensacar carregar
moer e cozer... o PÃO!
PORRA!!!
sempre
mais!
até
que um dia
mas
esse dia nunca vinha
ao
entrar na casa do patrão
que
lhe pagava os míseros tostões
pelo
trabalho da jorna
e
se no queres larga que há muito quem queira
e
nem o justado lhe davam
-
um cortel descontado que o capataz o vira lá no campo a desfazer
nas ordes dele e do patrão e a desaustinar o rancho -
ele
olhou a casa do senhor
a
mesa farta
os
pratos cheios
para
cada um dos da família um prato e um talher
vários
pratos
para
que seria aquilo?
um
copo
vários
copos...
um
pano...
e
a comida farta e vinho sem medida e sem preço como ele nunca
vira nem em casa nem na tasca...
e
viu
viu
que era o vinho que ele mesmo pisara
e
que o pão era o paõ que ele ceifara
e
viu as couves que ele mesmo plantara
e
os grelos que ele mesmo regara
e
as batatas que ele mesmo arrancara
e
viu tudo o que ele amanhara
na
casa do patrão que não mexera uma palha
e
olhou
de
repente
num
clarão
a
sua casa
casa?
o
seu buraco
e
olhou os seus braços negros secos
as
suas mãos
mãos
com calos tortas
e
viu que era tudo o que tinha
e
um corpo branco comido quase raquítico
negro
só nos pulsos e na cara
pobre
desprezível...
mas
viu mais
viu
que aquilo que os seus braços cavavam
as
suas mãos arrancavam
o
seu corpo carregava
ia
tudopara casa do patrão
daquele
que lhe pagava mal
e
descontava
e
ele
pobre
sem
nada
sem
ter pão
e
sem ter casa
sem
dinheiro que chegasse
para
ele
e
para comprar o que os filhos precisavam...
desde
aí
o
camponês
cada
vez que se vergava
e
empunhava a enxada
e
cultivava
A
TERRA
via
que
era ele que cultivava
era
a ele que cultivava
e
cada vez que curvado
o
campo amanhava
ao
peso da enxada
de
novo se erguia
de
novo a enterrava
e
de pé gritava
seu
grito de guerra
BAAAAAAASTA!!!
assim
quando
antes
por
ali ficava
envergonhado
vergado
de
boina na mão
a
trocer retorcer
sem
saber que fazer
em
frente do duque ou do patrão
em
frente do rico e do senhor...
agora
diferente
olhava
nos olhos
o
pobre e o rico
e
calava ou dizia
o
que dentro pensava...
se
estes braços podem
dar
riqueza aos outros
dar
vinho
e
dar pão
dar
sopa
feijão
batatas
e
grão
e
uma casa farta
p'ró
rico senhor...?
qual
é a razão
por
que não podem dar
p'ra
mim e p'rós meus
e
p'ró meus iguais
os
homens do campo...?
camponês
como eu
se
juntos unirmos
os
braços e mãos
e
o nosso suor
jamais
vamos dar
de
borla aos patrões
aquilo
que é nosso
o
que a terra nos dá
com
o nosso trabalho
com
o nosso suor
para
sermos homens
e
vivermos de pé
em
paz!
Azambuja
20 de Setembro de 1976
Alfabetizador que se alfabetiza



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