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EXAME
DE PROFISSIONALIZAÇÃO EM SERVIÇO
OU
PROCESSO
INQUISITORIAL
Deve
ter sido de propósito.
Depois
de uma agitada abertura, a Universidade Aberta completava
o seu primeiro ano lectivo, 89/90, já em Outubro de 1990,
em pleno ano lectivo 90/91.
Os
primeiros exames foram fixados para o dia 2 de Outubro e,
com a devida atecedência, cada candidato pode escolher o local
onde se realizariam esses exames...
Nem
de propósito. Por conveniência e distanciação, escolhi Évora.
Seria mais agradável e arejado e, com certeza, permitiria
uma maior descontracção...
Ao
procurarmos o local indicado para a realizaço das provas,
indicaram-nos um antigo palácio junto ao templo de Diana,
no largo da Catedral. Funcionavam ali diversos serviços e
departamentos da Universidade de Évora...
Tudo
estava prévia e convenientemente estabelecido.
Um
colega, encarregado de distribuir os pontos e vigiar os exames,
pediu imensas desculpas por aquela série de normas e prerrequisitos
que nem para alunos do quinto anos dos liceus antigos se fazia,
mas eram indicações superiores da Universidade Aberta um pilar
da renovação do ensino em Portugal...
Não
tinham acabado ainda as surpresas. Ao entrarmos na sala, o
ar pesado e escuro, a talha em alto relevo do tecto, indicava-nos
que estávamos na sala de audiências do antigo Palácio da Inquisição,
responsável por milhares e milhares de processos, roubos e
crimes em todo o Alentejo, destroçando famílias, espalhando
o terror, matando a liberdade...
que espectáculo degradante!
numa sala do Palácio
da Antiga Inquisição!
professores de crianças jovens e adultos
do ensino secundário
estavam ali a ser examinados
tratados como já não devem ser tratados os garotos!...
olhando o ridículo deste espectáculo deprimente
ia olhando os caminhos da renovação
do ensino em Portugal...
do ensino/aprendizagem
com que se tenta responder aos desafios do futuro!
com uma caneta,
em duas horas e meia,
tentando dar o melhor dos trinta anos de educador,
dificilmente conseguia libertar-me
da tristeza aviltante,
do ridículo degradante,
da frustração vergonhosa...
Quantos estavam ali,
com mais anos e experiência do que eu?
Quantos longos anos de estudo e experiência
ignorados
vilipendiados
ofendidos
violentados... ?
Era o regresso ao controlo,
à fiscalização de cábulas,
às vigilâncias pidescas para intimidar...
ao policiamento,
à náusea,
à repugnância pelo ensino
até às cólicas,
até aos vómitos...
Sair?
só por uns minutos para mijar ou cagar ou,
como se deve dizer: para ir à casa de banho,
tinha de ser, só, sob apertada e discreta vigilância
não fosse dar para trocar ideias ou
consultar notas e apontamentos...
Enfim!!!
era um REGRESSO AO PASSADO
em vez do sonhado desejado ambicionado
REGRESSO AO FUTURO !!!
Os erros do passado,
ali tão claramente expostos
e tão brutalmente sintetizados
da pedagogia do terror
podiam servir ao menos
para os exorcizar definitivamente
e abrir, decisivamente, caminhos
que afinal
nem a UNIVERSIDADE ABERTA
está em condições de ABRIR
ou não quer.
E cabe ora aqui recordar um episódio singular:
uns tempos antes, ao passar
na rua onde me disseram
ter aberto
a universidade aberta,
cheio de ilusões e duma certa esperança,
(desta vez é que vai ser o progresso a abertura
a oportunidade de valorização! que sempre esperámos!)
passei
tornei a passar
perguntei informações
mas por sorte ou por desdita
naquele dia, àquela hora,
a porta estava fechada
da universidade aberta!!!
Évora,
2 de Outubro de 1990
o
aluno mal comportado
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