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RELATÓRIO
DE UMA VIAGEM
A
UM PASSADO/PRESENTE DEGRADANTE...
08H30
- Partida de um grupo de professores de
Beja, para fazerem, em Lisboa, um exame de Literatura e Língua
Portuguesa que ensinam há dezenas de anos...
11H00
- Chegada a Lisboa. Procura de um estacionamento
para aproveitar o tmpo e rentabilizar uma viagem ao
reino da estupidez, neste desconcerto...
12H30
- Regresso ao carro. BRUTAL! Em pleno dia.
Em plena rua, junto à fonte luminosa, sem água e sem luz a
condizer, um vidro do carro estilhaçado, rádio roubado, vidros
e lixo por todo o lado...
13H15
- Depois de várias voltas para encontrar
o local do exame, anunciado, a antiga escola do magistério
primário, agora escola superior de educação, em inauguração
de renovação!... chuva, lama, acesso impraticável... polícia,
carros de exteriores da RTP... que é isto? Os exames com polícia?...
com cobertura televisiva?!... era o ministro da educação que
saía da cerimónia da inauguração das novas obras que reformavam
a escola construída há setenta e cinco anos por Bernardim
Machado... No meio desta balbúrdia, as informações sobre os
exames eram dadas por tímidos funcionários que empurravam
rapidamente a vergonha dos que iam fazer exame para os corredores
escusos onde as listas determinavam as salas onde se realizavam...
Centenas de professores formados, ali, formandos, distribuídos
por salas em três pisos do edifício renovado...
13H45
- Procura nas imediações de um lugar para
almoçar barato, depressa e bem...
15H15
- Um formigueiro de gente em todas as entradas,
corredores e escadas. Corredores do terceiro piso cheio de
gente com livros, pastas, papéis, cábulas, esquemas, fumando,
conversando, procurando casas de banho, tentando orientar-se,
tentando entender como caberiam centenas de pessoas, gente,
professores, formandos, examinandos, num salão acabado de
ser renovado e com carteiras em fileiras cerradas... Seria
que seríamos lixo para contentores...
15h30
- Éramos mesmo. - Isto é uma vergonha estar
aqui! - Quem? Nós os examinados... Ou nós os vigilantes? ...Façam
favor de entrar e de se sentar. Não há cahamada. Impossível.
Levaria o tempo todo que seria preciso para a prova. Alunos
de Língua e Literatura … esquerda, alunos só de Língua … direita,
lado a lado nas carteiras mesas cadeiras. Distribuição dos
testes de exame. Verificação de identidades. Cotovelos com
cotovelos. Só o espaço para escrever na prova. Prova. Perguntas
a exigir os conhecimentos das sebentas fabricadas e vendidas
e enviadas … pressa. Duas horas e meia de concentração num
ambiente pavoroso de cortar … faca. Prodígios de acrobacia
para tentar sair e fumar um cigarro a meio da prova. Provar
o domínio do ensino da Língua e da Literatura num ambiente
humilhante e degradante... Juízes longe incolumemente distantes,
ausentes... que julgam os falantes, escritores, geradores
de falantes e escritores de Língua Materna!!! O absurdo da
arrogância. O oxímoro da dignidade espezinhada. Em nome da
defesa da pureza da Língua, da Fala para intervir e comunicar
em liberdade solidariedade...
18h00
Enfim livres do pesadelo. Chovia lá fora
e estava frio. A marizé ria e dizia disparates para encobrir
o nervosismo e a tensão de que tinha saído!. Passada a lama
e tentando proteger a janela estilhaçada com um plástico...
o trânsito para sete-rios, àquela hora, era um inferno!...
Mais de uma hora para alcançar a ponte e outra para a atravessar.
Uma paragem a meio do caminho. Éram mais de dez horas da noite
quando enfim pudemos chegar a casa!
Degradante!
Humilante!
Ofensivo!
Reles!
Asqueroso!
Arbitrário
Nojento!
Nauseabundo!
Sujo
Aviltante
Vergonoso
Cobarde
Inadmissível
Intolerável
Obsceno
...
tudo
o que de ordinário lhe quiserem chamar
e,
contudo, verdade...
e
eu estive lá
Como
é possível?
?????
Lisboa,
10 de Dezembro de 1991.
o
poeta humilhado.
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